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sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Efemérides americanas


No passado dia 17 de Janeiro assinalou-se o centenário do National Prohibition Act, mais conhecido por Volstead Act: legislação americana que teve como intenção desbloquear a Décima Oitava Emenda à Constituição dos Estados Unidos, que promulgava a proibição de venda e consumo de bebidas alcoólicas.
 
O enquadramento desta iniciativa de engenharia social foi o chamado Movimento Progressista: espécie de sincrética arena ideológica em que participavam diversos actores, mas onde pontificava gente oriunda do puritanismo protestante, do credo científico eugenista e socialistas de diferentes sensibilidades — todos apostados em aposentar o Homem Velho para indigitar o Homem Novo. Com efeito, acreditava-se que extirpando as bebidas alcoólicas do horizonte dos trabalhadores americanos se iria, entre outros objectivos, fortalecer a consciência de classe desse proletariado e acelerar um devir Socialista. Curiosamente, nesses anos, e em sinal oposto à actualidade, a Esquerda americana era, na maioria, fortemente anti-imigração, pois considerava-a nociva aos interesses dos trabalhadores americanos.
 
Assim, sob essa orientação utópica, entrou-se numa era bizarra de destruição de adegas, detenções em massa de indivíduos apanhados a beber álcool, bares clandestinos, contrabando de zurrapas de qualidade muitas vezes fatal e de recrudescimento do gangsterismo.
 
Sobretudo, não deixa de ser revelador das contradições dessa época paradoxal o facto de o presidente Woodrow Wilson ter mantido para consumo pessoal uma estupenda adega de vinhos, espumantes e licores na Casa Branca — que levou consigo para casa depois de acabado o mandato. Vale a pena reflectir nas consequências sociais de toda a propaganda e iniciativas utópicas desenvolvidas nesse período, pois é provável que algumas das lições a tomar ainda se mantenham no prazo de validade.

A 19 de Janeiro de 1809 nasceu o escritor americano Edgar Allan Poe, que dispensa apresentações. Não obstante, vale a pena iluminar um aspecto de Poe que é pouco conhecido: o facto de no longo poema em prosa Eureka, publicado no turbulento ano de 1848, ele ter descrito de modo literário — e pela primeira vez — algumas realidades cosmológicas somente descobertas no século XX — e algumas apenas há poucos anos.
 
É o caso, por exemplo, do Big Bang, dos buracos negros e até uma solução engenhosa para o problema do Paradoxo de Olbers. Sem formação científica, Poe foi capaz de antecipar muitos aspectos da actual astrofísica, somente pela observação empírica e usando a sua fulgurante imaginação — muito antes da escrita de especulação científica ter sido popularizada por autores como Jules Verne ou Herbert George Wells. A lição a reter desta efeméride é a de que nenhuma tecnologia substitui a analógica imaginação humana, capaz de perscrutar a alma do universo através de ferramentas tão simples quanto lápis, tinta e papel.
 

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Na vacuidade do oceano cósmico

Atrevamo-nos a dar esta resposta à premente pergunta sobre se seremos náufragos na vacuidade do oceano cósmico: estamos sozinhos. Será assim tão desesperante compreender que Atlas poderá carregar um universo vazio?

A vida terrena é um hápax — é, além disso, prisioneira daquela excrescência arquitectónica que nenhum mestre conseguiu ainda erradicar: as enjuntas, triângulos formados pela inscrição de um círculo dentro de um quadrado. Na cosmogonia desenhada pelo artista quinhentista português Francisco d'Ollanda o triângulo é a forma fundamental; telúrio que se derrama sobre o globo para constituir os elementos e os seres, a unidade primeva da vida. Em simetria, para o novecentista inventor americano Buckminster Fuller também o triângulo era o primeiro objecto, a forma primordial por ele serializada em massa na esférica estrutura das suas cúpulas geodésicas.

A vida é uma enjunta formada pela sublime construção do universo; suprema superfluidade que prospera naturalmente, somente pelo harmonioso encaixe de cegas estruturas que em nada se lhe relacionam: termirácula, prodigeomaturga, unarrepetível. Na subitânea dimensão que lhe foi proporcionada, a vida é proteica, multifária, polimorfa; alfabeto adaptável a todos os idiomas e geografias.

No conto O Estudante, Chekhov descreve a comoção sentida por uma aldeã viúva e sua filha ao escutarem, enquanto se aquecem diante de uma fogueira, o relato da paixão de Cristo que lhes é narrado pelo titular estudante, que se lembrou de como Pedro negou Jesus enquanto se aquecia diante de uma fogueira no pátio do Sumo Sacerdote. As mulheres choram sob uma dor profunda, como se fossem elas próprias mãe e irmã do Messias — e o estudante afasta-se, perplexo, por presenciar essa plangência com dezanove séculos de atraso. Ao voltar de barco a casa, o jovem encontra a sua aldeia na linha do olhar e sente-se preenchido por um poderoso sentimento de «juventude, saúde e força» e por uma «felicidade misteriosa». Escreve o autor que «a vida parecia encantadora, miraculosa, imbuída de exaltante significância».

Existe exaltante significância na vacuidade do oceano cósmico. Existe exaltante significância neste esconso formado pelo arco de titânicas forças físicas. Está imbuído de um ininterrupto sinal que é emitido por este ínfimo lodaçal do tempo em que, por excepção, nascemos e que continuamente nos serve de guia no nevoeiro cruel da existência. Esse cordão invisível estendido entre o início e o fim nunca se recolhe ao toque: esse cordão repercute a linguagem da história e do mito. Diz-nos que não estamos abandonados. Acompanham-nos todas as vidas extintas que se intersectaram para chegarmos mais longe — admirável panteão que nos albergará um dia. No interior da inesgotável enjunta que nos deu o ser não somos derelictos.

Essa transparente iminência fez chorar as personagens de Chekhov. Essa proximidade emociona-nos quando lembramos os nossos mortos: onde estarão os pais e as mães desaparecidos senão aqui, na diáfana e improvável excepção que é a única realidade que conhecemos. A única verdade que conhecemos. Mortos e vivos, estamos todos aqui; numa perdida enjunta que mal se distingue na imensidade. Numa crudelíssima e friíssima fímbria do cosmos.