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sábado, 23 de abril de 2016

Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor


Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor ou dia do nascimento do dramaturgo inglês William Shakespeare - que, pese as teorias das conspirações pugnadas por indivíduos que, na maioria, não têm a mais ténue noção sobre o que é escrever, realmente existiu e foi o autor das famosas peças teatrais que lhe são justamente atribuídas.
Mas sobre a formulação da efeméride supracitada inicialmente, há um interessante erro de percepção; pois se a primeira parte do enunciado consiste em «Dia Mundial do Livro», porque não se redigiu deste modo a segunda?: «e dos Direitos do Escritor». É que autores há de vários tipos, mas só uma determinada estirpe desse conjunto escreve livros: os escritores. Infelizmente, não falta e não faltará quem seja tão escritor quanto uma cadeira se possa denominar ainda de árvore, mas isso são outros quinhentos.
Gostava de esclarecer que na minha relação com os livros não me considero um bibliófilo, porque, no meu livro de estilo, um bibliófilo é, sobretudo, um coleccionador que procura e adquire livros segundo exigências muito específicas: primeiras edições; encadernações de um ou outro feitio ou oficina exclusivos; somente edições diferentes do mesmo título ou apenas edições dos trabalhos de um único autor ou temática. Seja em que caso for, o labor do coleccionismo comporta-se como um percolador, que distingue particularismos restritos. A minha relação com os livros faz-se pela via do conteúdo: eu procuro o conhecimento; o que me interessa num livro não é o livro como objecto, mas a erudição. Assim, gostava de evocar aqui a ideia de que o Dia Mundial do Livro deverá ser de todos os livros, sem quaisquer tipos de cegueira ditados por decíduas modas, cartilhas de fátuos fazedores-de-opiniões ou constrangimentos mercantilistas - desde o livro de bolso ao incunábulo. E escolham com sabedoria, porque não há tempo para ler-se tudo.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Filmes de papel

Escrever é uma arte feita de liberdade absoluta, na qual, de facto, a imaginação é o limite; mesmo assim, não falta quem se sinta confortável em adstringir-se com os rudes espartilhos veiculados nos conselhos dos cesaropapistas da "escrita criativa" (haverá outra?). Um desses ensinamentos mais tóxicos - sobretudo para principiantes - é o de que se deve "mostrar em vez de contar". Ora, "mostrar em vez de contar" é um critério pescado à escrita de ficção para cinema e televisão e não deveria ser aplicado em literatura, porque escrever um texto literário é muito diferente de escrever um argumento cinematográfico ou televisivo. E, assim, por culpa deste desastrado ensinamento, as livrarias enchem-se de falsos livros, cuja única desculpa para existirem parece ser a de que consistem em meros esboços das futuras adaptações cinematográficas e televisivas que farão deles.

O espírito neo-romano que embebe a actualidade, sobrevalorizante do mais elementar carácter utilitarista das pessoas e das artes, influencia a criação de obras literárias cada vez mais homeopáticas; ou seja, obras em que o princípio activo literário está muitíssimo diluído em água - tanto que, na maioria das vezes, é inexistente. Desapareceu, pois, o discurso indirecto; desapareceu, também, a adjectivação - desapareceu, enfim, tudo aquilo que impede a personagem X de ir ter com a personagem Y no menor número possível de páginas. Os poucos romances que ainda se apresentam como herdeiros de uma tradição verdadeiramente literária, em todas as acepções dessa designação, são desconsiderados pela crítica como sendo bizantinos, no sentido pejorativo. Mas quem sabe a sério de história não esquece que foi em Bizâncio que, a partir de finais do século III, se conservaram os modos e a cultura clássicos, em oposição ao barbarismo que medrou na metade ocidental do império romano. É uma alegoria simples de entender, até por quem não sabe ler.

E, na verdade, há muitos leitores que não sabem ler: sabem ver filmes de papel. Se lhes dessem um livro autêntico para as mãos não saberiam o que fazer com ele.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A insolvência das palavras

Se, a título identificativo, ainda se pode observar diferenças entre as chamadas culturas erudita e popular, por vezes diferenças irreconciliáveis, talvez já não se possa dizer com igual certeza que a primeira se compõe sempre de obras de excelentes qualidades e valores estéticos, enquanto a segunda serve de válvula de escape a ambições e desejos inferiores. Com efeito, a dita cultura popular (no sentido de cultura de carácter provisório [ou descartável] para as massas e não no da aplicação descontextualizada de blocos de construção cultural) é cada vez mais mimética da cultura erudita (não no sentido de veículo de conhecimentos profundos, mas no de uma cultura cumulativa que se dirige a uma minoria sofisticada), em principal na colagem que faz à prática de referenciar os seus clássicos; e sob a nomenclatura de "popular", que vale o que vale, apresenta ao seu público, e não só, obras de qualidade inegável, feitas com sentido artístico e crítico. Existem exemplos em todas as áreas de criação - às vezes nos mais insuspeitos - e a hibridação entre "popular" e "erudito" não é novidade. Com as devidas distâncias, já os dadaístas se muniam do popular, do boçal, do refugo e do lixo para criar arte.

Na maioria das vezes, a literatura popular é considerada como sendo a dos géneros, mas essa visão é redutora, pois, por mais que os detractores da "literatura de género" advoguem que ela é lixo (como aquele que os dadaístas buscavam), determinadas obras conseguem prolongar o impacto da sua recepção e mostrar a sua pertinência, sendo até, aliquid latens, adoptadas (ou absorvidas) pelo cânone da "literatura erudita". É verdade que grande parte da literatura fantástica (de género, lá está) publicada no nosso tempo é lixo, mas a mesma conclusão tem uma medida que serve à maioria da literatura tout court: em suma, a qualidade de uma obra literária, seja ela qual for, encontra-se cada vez mais apartada da dicotomia de códigos, referências ou moldes que existe entre cultura erudita e popular e, felizmente, mais próxima - anexa - do talento dos autores.

Para o bem ou para o mal, hoje todos os modelos narrativos estão mais ou menos extenuados (alguns até já se extinguiram, o que não deixa de ser natural, pelas mais variadas razões - algumas de ordem social, outras comerciais): as epopeias, o fresco de época, as sagas de família, os manifestos, o rebelde registo intimista e até o automatismo autobiográfico feito com o registo do quotidiano mais elementar. Na literatura fantástica, por exemplo, assiste-se a uma desorientação que, por enquanto, ainda não é preocupante, mas que devia ser motivo de meditação de quem a trabalha.

O Fantástico (designação que não é consensual, mas que utilizo para englobar um conjunto de géneros ou modos heterogéneos de narrar, na falta de melhor nomenclatura) é, por excelência, um campo muito permeável e, por culpa disso, deixa-se contaminar por agentes que nada têm de fantástico. Quantas vezes não serve somente para dar uma pátina de exótico ou de insólito a algo que, escamoteada essa película, demonstra ser completamente banal? Quantas vezes não existe apenas a similitude de Fantástico, já translúcida por culpa da filtragem operada por inúmeros outros mimetismos? São, entre outras coisas, reflexos do imediatismo em que a literatura foi imergida. Mas, de maneira geral, será o imediatismo uma tendência ou uma moldura de referência?

Nessa óptica, não compreendo o fascínio provocado pelas chamadas micro-ficções, por exemplo. Não tenho nada contra elas, com toda a sinceridade, mas custa-me a ver a vantagem que "histórias" contadas em duas ou três frases possam trazer para a literatura. Dir-se-ia que sempre é melhor escrever duas ou três frases que não escrever nada, mas... Será o suficiente?

Acho que precisamos é de mais macro-ficções.
À semelhança dos grandes livros de Cervantes, Sterne, Joyce, Pynchon, Barth ou Gaddis.
Posso estar a ser injusto, mas, à excepção de Les Bienveillantes de Jonathan Littell, publicado em 2006, onde estão os grandes romances - em ideias e em tamanho - deste início de século? O mercado concorre para que sejam raros, porque vivemos num período hostil à reflexão e à leitura e, sendo assim, hesita-se em publicar e em escrever livros de grande envergadura que possam assustar os leitores; infelizmente cada vez mais habituados ao formato elíptico das narrativas sintéticas.

Nesse sentido, e para concluir esta breve reflexão que prometo enriquecer num texto de maiores dimensões, e com um pensamento mais estruturado, avanço com a ideia principal de que só as palavras podem "salvar" a literatura, erudita ou popular, da mediocridade.
Inversamente às ideias, as palavras, em abundância e em qualidade, em riqueza de sonoridades e formas, (ainda) não entraram em insolvência.