No próximo sábado, dia 26, às 17H00, estarei no fórum da loja FNAC Chiado a convite da revista LOUD!
como entrevistado na rubrica Lista de Compras: consiste numa iniciativa
em que os convidados conversam com o público sobre livros, discos ou
filmes que escolheram previamente na loja e que tenham particular
importância para si. Apareçam.
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terça-feira, 22 de janeiro de 2019
Lista de Compras no próximo sábado na FNAC Chiado
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terça-feira, 7 de agosto de 2018
A Liberdade Assimptótica das Mãos: excepcionalidade, santidade e fìsica das mãos na construção da humanidade
No entrecho do terceiro canto de Os Lusíadas, o poeta português Luís Vaz
de Camões escreveu que «não sei se é
errado, que em tanta antiguidade não há certeza». Uma elegante advertência,
porque o desbravar desse “país da névoa” que é o passado longínquo exige
determinação órfica: é vantajoso ter-se alma de poeta para decifrar o críptico cartório
que são as camadas estratigráficas da Terra – falamos de gente esboroada pela
fricção de milénios, cujo bilhete de identidade é o próprio planeta. Um desses
signos, datado de 300 000 a.C. a 100 000 a.C., encontra-se no núcleo do Palácio
Pimenta do Museu de Lisboa e consiste num lanceolado enigma de sílex,
descoberto numa chaminé vulcânica situada a norte do bairro de Campolide: um pequeno
e paleolítico biface de feitio acheulense.
Do tamanho de um palmo, é uma
progressão directa das mais básicas ferramentas de tipo olduvense que se
caracterizam como sendo seixos talhados sem sofisticação. Apesar disso, algo
que poderá passar despercebido a quem olhar com sobranceria para esses utensílios
é o facto de serem muitíssimo difíceis de reproduzir: não se faz um biface, nem
sequer uma ainda mais simples ferramenta olduvense de corte, somente batendo
aleatoriamente e repetidas vezes com uma pedra em outra. Há razão nesses objectos
– há um plano. Isso é reconfortante, porque revela que alguém, num esvaecido
momento, olhou para uma pedra de quinze centímetros de tamanho e viu uma
ferramenta nela escondida – tal como o polímate florentino Miguel Ângelo viu a
estátua de David escondida dentro de um bloco de mármore de seis metros de
altura. Num remoto dealbar alguém agarrou uma pedra e esculpiu
tridimensionalmente a imagem que concebera mentalmente. É uma tarefa tremenda.
Mas para quê esculpir um biface? Porquê perder tempo e energia com algo tão
exótico?
Esse género de ferramentas foi originalmente
pensado para extirpar com eficiência o tutano de dentro dos ossos de presas
caçadas por predadores de maior porte. Os nossos antecessores hominídeos não
começaram a comer a carne proveniente das suas próprias caçadas, mas adquiriram
o apetite por proteínas carcomendo os ossos e sugando o tutano de animais já abatidos;
assim, logo que os grandes predadores se afastavam, saciados, das carcaças, os
pequenos bandos da nossa progénie aproximavam-se e, graças à mais avançada
litotecnologia, abriam os ossos e raspavam-lhes o tutano em poucos instantes.
Era mais eficaz que usar apenas os dentes e as mãos desarmadas – mais
importante, era mais rápido e isso garantia uma refeição satisfatória antes que
animais perigosos sentissem o cheiro das ossamentas despedaçadas. O tutano e a
gordura animais são muitíssimo nutritivos e essa dieta, complementada com a
produção das ferramentas de pedra necessárias para obtê-la, espoletou a expansão
encefálica. O pensamento abstracto é fundamental para a criação de excêntricas ferramentas
de pedra e, ao mesmo tempo, elas incrementam a capacidade de raciocinar de modo
abstracto e despertam a aptidão de ordenar criativamente essas abstracções: o
cérebro assimetrizou-se em diferentes zonas que controlam tarefas distintas.
Uma das diferenças entre o cérebro humano e o dos símios é que este não é
assimétrico: os dois hemisférios cerebrais desses animais são muitíssimo mais
homogéneos do que os de um cérebro humano. À luz dessa assimetrização, é
revelador o facto que as zonas cerebrais que se encontram em fervilhante actividade
quando se esculpe um biface de pedra são exactamente as mesmas que controlam a
linguagem – o que significa que talhar ferramentas nos ajudou, decisivamente, a
desenvolver o discurso e a transmitir cultura. Enquanto esse antigo “lisboeta” esculpia
o biface – batendo metodicamente com uma pedra em outra – também esculpia o
cérebro, desdobrando-o para ser um órgão que, em pouco tempo, seria capaz de
conceber uma catedral. A circunstância evoca-me os versos do poeta português
António Gedeão no Poema da Pedra Lioz:
«como um cinzel que batuca / numa insistência satânica: / truca, truca, truca,
truca»; e, umas linhas à frente, «fixando a pedra, mirando-a, / quanto mais o
olhar se educa, / mais se entende o truca… truca… / que enche a nave,
transbordando-a». Esse onomatopaico e regrado ritmo, quase cricrilado por uma fantástica
cigarra de pedra, evola-se metaforicamente da lascada superfície do biface e diz-nos
algo importantíssimo: que o canteiro pré-histórico era humano como nós.
Fenótipos por extensão, as ferramentas que fazemos contêm partes indissolúveis
da nossa humanidade. Mais do que isso, passaram a fazer parte daquilo que é
ser-se humano, pois todas as ferramentas são, sempre, extensões das nossas
mãos.
A correlação entre dexteridade e
encefalização não escapou aos pensadores do passado: num clássico dilema de ovo
ou galinha, o filósofo grego Anaxágoras considerou as mãos a nascente da nossa
inteligência, enquanto o filósofo grego Aristóteles as entendeu como um efeito
da inteligência. Fosse como fosse, ambos concordavam em omitir dessa questão os
animais. Na verdade, existem muitas espécies não-humanas que constroem e usam
com eficácia uma interessante variedade de ferramentas auxiliares – por vezes,
surpreendentemente complexas –, mas a exclusividade da mão humana, da sua
sofisticação, perdura, sobretudo, como corolário de um peculiar tipo de
inteligência abstracta, circunscrito à nossa espécie: a escrita. Somente
através de titânica determinação o excepcional protagonista Sirius, um cão
pastor galês que nasceu com inteligência humana, foi capaz de diminuir a longa
distância que o apartava dessa desenvoltura manual, representativa dos seres
humanos, no romance de ficção científica Sirius:
a Fantasy of Love and Discord, do escritor inglês Olaf Stapledon: «Of
course his handlessness made it
impossible for him ever to write save with some special apparatus. (…) It was he
himself that invented a way out of his disability. He persuaded
Elizabeth to make him a tight leather mitten for his right paw. On the back of
the mitten was a socket into which a pen or pencil could be inserted. (…) The
neural organization of his leg and the motor-centres of his brain were probably
not at all well adapted to this activity; but once more his doggedness
triumphed. Long practice brought him after some years the skill to write a
letter in large, irregular but legible characters. In later life, as I shall
tell, he even ventured on the task of writing books [sublinhado meu].»
Destreza manual. Escrita.
Humanidade.
O circunscrito vínculo entre mão
humana e essência humana evoca-me aquilo que o teólogo germânico Nicolau de
Cusa escreveu no décimo quarto capítulo de A
Visao de Deus: «Assim, igualmente, ó Deus, se comporta o teu ser, que é a
infinidade, de modo absoluto, em relação a todas as coisas que são. Mas digo de
modo absoluto, entendendo-o como forma absoluta
de ser de todas as formas contraídas. Daí que a mão de Sócrates, quando
se separa de Sócrates, embora depois da amputação já não seja a mão de
Sócrates, permanece todavia ainda num certo ser do cadáver. Isto deve-se ao
facto de que a forma de Sócrates, que dá o ser, não dá simplesmente o ser, mas
o ser contraído, isto é, socrático, do qual o ser da mão é separável, e que,
não obstante, pode permanecer sob outra forma. Mas se a mão fosse alguma vez
separada do ser totalmente não contraído, que é infinito e absoluto, cessaria
totalmente de ser, porque seria separada de todo o ser.» Para Cusa, este
Sócrates é um constructo, alegoria de
cada homem e cada mulher: nesse sentido, a mão amputada de Sócrates – isto é, a
mão amputada de um ser humano – continua a comunicar dessa humanidade, dessa
individualidade corporal, que é o ser contraído. Porém, no conto The Body Politic, do escritor inglês Clive
Barker, integrado no quarto volume de The
Books of Blood, as mãos humanas procuram a amputação, porque recusam
participar da «individualidade corporal» cusaniana – em suma, planeiam
separar-se definitivamente dos seus corpos, pois não lhes reconhecem licitude;
e, numa imagem espectacular, próxima do desfecho da narrativa, o protagonista
Charlie, a primeira vítima da vaga de, literalmente, emancipações, encontra perto do hospital onde, a dada altura, ficou
internado, uma árvore recheada de mãos decepadas, pousadas nos ramos: « Charlie
looked up into the branches. (…) Above his head the tree swarmed with that other
fruit, more unnatural still. The hands were everywhere, it seemed: hundreds of
them, chattering away like a manual parliament as they debated their tactics.
All shades and shapes, scampering about up and down the swaying branches.
Seeing them gathered like this the metaphors collpased. They were what they
were: human hands. That
was the horror.» O cidadão comum Charlie sabe que a sua mão direita, ainda
intacta, é a cabeça das emancipações; numa desesperada tentativa de extinguir a
sedição de todas as mãos, o homem atira-se do telhado do hospital, obrigando as
mãos amputadas, independentes, a seguir o líder nessa precipitação para o
asfalto: «He pitched himself into empty space, falling over and over until
there was a sudden end (…) They came in a rain after him, breaking on the concrete
around his body, wave upon wave of them, throwing themselves to their deaths in
pursuit of their Messiah.» A imagem de pernadas pejadas de mãos e o seu subsequente derribamento na
via pública evoca-me uma cena descrita por Raul Brandão no terceiro volume das suas
Memórias, datada de Fevereiro de
1930: «É um lindo espectáculo ir, às tardes, ao largo do Camões, ver os pardais
recolherem-se às grandes árvores do cantinho. (…) na última luz, descem, às
centenas, sobre as duas ou três árvores escolhidas, onde passam a noite,
chiando e bulhando antes de adormecerem. (…) Pois ontem, de repente, às 11
horas da noite, o vento e a chuva glacial, num minuto, alastraram o chão das
aves que tinham pousado naquelas árvores. Matou-as aos milhares. De manhã,
apanhavam-se às pazadas.»
Com efeito, aves e mãos estão
ligadas no imaginário ocidental por via da religiosidade; são símbolos da alma
e da espiritualidade. Observe-se, sob esse enunciado, a mão de Deus, pintada no
início do século XII no tecto da abside da igreja românica de Sant Climent de
Taull, que, hoje, se encontra no Museu Nacional de Arte da Catalunha, em
Barcelona: amputada, vogando no vazio, a sua configuração em V é fortemente
ornitomórfica; espécie de andorinha banhada em dourado, com asas feitas de
dedos e manga. Essa ligação entre ave, mão e espiritualidade está, no meu
entendimento, representada de modo ainda mais dinâmico num desenho de 1588 autorado
pelo artista alemão Hendrick Goltzius e traçado a giz preto e vermelho: os Quatro Estudos de uma Mão Direita
mostram uma sequência vertical de uma mão que se apresenta alternadamente
aberta e fechada, parecendo mimar os movimentos de um pássaro que ascende em
voo, estendendo e recolhendo as asas. Distante daquela estilizada mão criadora,
pintada por um anónimo mestre do século XII, as maneiristas mãos desenhadas por
Goltzius são, indiscutivelmente, humanas: sanguíneas, musculadas e palpitantes
de carnalidade; atravessadas por cordões venosos, são mãos sem idade e de ambígua
sexualidade, partilhando em simultâneo da inocência infantil, da aspereza da
senescência, da força física de um homem no ápice da robustez e da fragilidade
feminina – em prinicpal nos dedos, que na anatomia de uma mão não têm quaisquer
músculos, somente ossatura e dendrites. No seu livro Les rois thaumaturges. Étude sur le caractère
surnaturel attribué à la puissance royale particulièrement en France et en
Angleterre, o
historiador francês March Bloch escalpeliza a fundo essa relação entre mão
humana e poder divino, encerrada na insólita prática europeia do salvífico
toque real, que, segundo este estudo pioneiro, remonta ao medievo rei capeto
Robert II, o Pio. Unção, realeza e imitação de santidade consubstanciam-se na
mão real num gesto tão alegórico quanto polítco: «C'est en traçant ainsi
l'image sacrée que les saints, en maintes circonstances, avaient, disait-on,
triomphé des maladies; les rois suivirent leur exemple, en France dès Robert II,
en Angleterre également, semble-t-il, depuis l'origine. Au surplus, pour les
dévots le signe divin accompagnait toutes les actions importantes de la vie;
comment ne fût-il pas venu sanctifier le rite de guérison?». Através da mão enlaça-se
uma imagem mental: a mão constrói, a mão escreve, mas a mão também cura, também
se afirma como objecto simbólico. Na colecção do Museu de Anatomia da Faculdade
de Medicina da Universidade de Lisboa conserva-se uma excepcional mão esquerda
diafanizada: tratada segundo o método de diafanização desenvolvido no primeiro
decénio do século XX pelo anatomista alemão Werner Spalteholz, consiste numa translúcida
mão decepada, com a qual se pode examinar minuciosamente os seus vasos
sanguíneos e sistema nervoso. Tóteme permanentemente paralisado entre o
prosaísmo visceral e a imaterial invisibilidade, esta mão mergulhada em
venefícua solução preservativa transmite um poderoso sentimento sortilegial, à
guisa das mágicas “mãos de glória”, cuja manufactura e emprego o folclore
europeu atribui às bruxas: o frade ambrosiano milanês Francesco Maria Guazzo,
por exemplo, é dos primeiros a descrevê-las sem essa designação num texto sobre
feitiços soporíferos, publicado no seu tratado seiscentista Compendium Maleficarum; embora nesse
relato ainda não se consolidem os tropos característicos do mito, como o facto
de a mão utilizada ter necessariamente de ser cortada do braço de um enforcado.
À partida, a mão de um enforcado encasularia em potência a astúcia e a malícia
convenientes aos objectivos anti-sociais das feiticeiras, mas para a hipócrita
personagem Snowball do romance Animal
Farm: a Fairy Story, do escritor britânico George Orwell, todos os homens,
enforcados ou não, são maus – e as suas mãos são os preferenciais instrumentos
do mal: «’A bird’s wing, comrades’, he said, ‘is an organ of propulsion and not
of manipulation. It should therefore be regarded as a leg. The
distinguishing mark of Man is the hand,
the instrument with which he does all his mischief.’» Uma emblemática penitência
ministrada contra malfeitores de muitos matizes é, precisamente, a da amputação
das mãos, retorno forçado à infame bestialidade – um castigo que, muitas vezes,
é prerrogativa real: ora, o facto de só ser permitido o talhe de membros à
justiça real revigora a noção de interdependência que existe entre os aspectos
mundanos e divinos da própria mão. Dir-se-ia que sob essa lógica só a mão que
governa ungida, sacralizada, pode, de modo legítimo, amputar outra mão, que é
sempre, por mais torpe que seja, uma poderosa exteriorização de Deus no ser
humano. Uma imagem que evoca arguciosamente essa concepção hierárquica – até no
sentido etimológico de “governo do sagrado” – é O Milagre da Virgem, pintada pelo artista setecentista italiano
Gaetano Zompini, que se encontra na igreja medieval de San Giacomo dell’Orio,
situada no sestiere de Santa Croche,
em Veneza.
Quando há quatro anos
visitei esse veneziano ponto de partida de peregrinos do caminho de Sant’Iago
de Compostela (aliás, o santo figura no interior da igreja numa tela do pintor
quinhentista italiano Antonio Palma, ilustrando um milagre que lhe foi outorgado
e que na tradição popular portuguesa é conhecido como a história do galo de
Barcelos) fiquei fascinado com o quadro de Zompini: uma das raras representações
na arte religiosa ocidental de um episódio apócrifo associado à Assunção da
Vigem Maria e contado, entre outros, pelo arcebispo italiano Jacobus de Voragine
no hagiológio ducentista Legenda aurea.
Alimentando-se da tradição apócrifa, na qual se incorpora o dito Evangelho de
João, o Teólogo, sobre a Dormição de Nossa Senhora – texto que se conjectura
ser do século V, também atribuído a Sant’Iago –, Voragine desvenda como a alma
da Virgem Maria ascendeu num certo dia ao Céu, à companhia de Cristo, ficando o
corpo inerte no resguardo dos apóstolos; estes dispuseram-no num esquife, de
molde a transportá-lo até ao local de sepultamento. Porém, quando saíram para a
rua, logo se congregou em seu redor uma violenta turba de descontentes
dispostos a imolar o corpo; de entre eles, um tal Jephonias aproximou-se, ágil,
do esquife, agarrando-o com força para derrubá-lo, mas, para seu horror, as
mãos separaram-se dos braços enquanto ele caía ao chão. No relato do Evangelho
de João, o Teólogo, quem decepa as mãos do judeu é um invisível anjo do Senhor,
armado com uma espada flamejante, mas na versão de Voragine é o contacto com o esquife
que murcha as mãos. Todavia, em ambas as leituras o desventurado judeu
converte-se ao cristianismo e readquire nesse momento as mãos.
O tacto está, naturalmente
mais que os outros sentidos, subordinado a pesadas regras comportamentais,
consoante as tradições e as leis de específicos grupos sociais e comunidades étnico-culturais,
sendo possível elencar extensos repertórios de tabus que, mormente, raiam
interdições religiosas e até políticas, como no caso das proibições que padronizam
as conexões entre diferentes castas indianas – aos brâmanes, por exemplo, nem
sequer é permitido receber objectos das mãos de um indivíduo considerado
intocável, porque nesse sistema são essas mãos as executantes das tarefas mais
sujas, como a manipulação de cadáveres humanos e carcaças de animais ou até a
limpeza, com o auxílio de ostracos ou pedaços de lata, de excrementos humanos evacuados
ao ar livre nas chamadas latrinas secas. Nesse sentido, o quadro de Zompini é
todo desenhado em torno de uma peculiar ideia de Noli me tangere: a gramática gestual dos apóstolos que transmovem o
esquife evidencia a repulsa que sentem diante da perspectiva de Jephonias
chegar a tocar na jazente ou adormecida Virgem Maria (de acordo com as explanações
romana e bizantina), mas também o asco de serem, eles próprios, contaminados,
de alguma maneira, pelo seu toque – mãos e pés vacilam, distanciam-se; um braço
ergue-se à laia de escudo entre o desgraçado e decepado descrente e a careta
censurável de um alopécico apóstolo. Um pormenor que, de imediato, instiga a
imaginação é o da ausência de sangue: os tecidos que protegem o esquife são,
calcula-se, hematófugos – resistem à poluição do sangue. Ou resistiriam, caso
este vertesse das veias serradas, mas, à guisa de golpes ministrados por sabres
de luz, os cotos não sangram: não há sangue, não há lágrimas, somente a nímbica
electricidade exsudada pela Virgem, mais iluminante que as petrificadas chamas
dos círios carregados pelos garotos. No antigo mundo judaico no qual foi cultivado
este episódio, os homens costumavam jurar pela honra levantando uma mão e colocando
a outra debaixo da sua coxa ou sob a coxa de um indivíduo venerável; segundo outra
interpretação, lida à luz da relevância próximo-oriental dada nos textos
veterotestamentários à progenitura e à sucessão, o juramento seria feito, de
facto, com uma mão levantada e outra sobre os testículos – hábito que estaria,
conforme a etimologia popular, na origem da palavra e do acto de testificar. À guisa de diapasão
para todo o manancial místico que se seguirá, essa suspeita surge nas primeiras
páginas do hermético romance The
Recognitions, do escritor americano William Gaddis: «They could hardly know
that the Reverend’s powers of resistance were being taxed more heavily than
their own, where he withstood the temptation to tell them details of the Last
Supper at the Eleusinian Mysteries, the snake in the Garden of Eden, what early
translators of the Bible chose to let the word ‘thigh’ stand for (where ancient
Hebrews placed their hands when under oath) (…)». Contudo, a mão sobre a
qual alguém se senta, por mais venerável que seja, ou a mão que toca nos
testículos é indigna, sequer, de pousar os dedos no esquife que transporta a incorrupta
mãe do Messias: por intervenção de um anjo armado de flâmea lâmina ou pelo efeito
estiolante do contacto com o esquife, o judeu Jephonias não poderia ter outra predestinação
que não fosse a acrotomia, a expiação pela excisão. Também na tradição
veterotestamentária, as mãos carregam a infâmia da idolatria, como no episódio
da constituição de um bezerro de ouro, e são justiçadas por essa e outras
transgressões sendo desligadas do corpo. O filósofo judaico-romano Fílon de Alexandria,
note-se, reflecte apuradamente sobre o tema, nas suas filosóficas exegeses do
Antigo Testamento e do corpus
consuetudinário do direito judaico: «And let the punishment be the cutting off
of the hand which has touched what it ought not to have touched.» Sobretudo, para
Fílon, o tacto é o mais perverso dos sentidos: «Well, then, of those things of
which we are to abstain from the sight, are not the hands much more to be
blamed for the touch? For the eyes, being wholly at freedom, are nevertheless
often constrained so as to see things which they do not wish to see; but the
hands are ranked among those parts which are completely under subjection, and
obey our commands, and are subservient to us.»
No entanto, a imagem de um
descrente correndo na direcção do grupo de apóstolos para derrubar o esquife em
que está disposta a Virgem Maria sugere-me um certo tipo de conduta das
partículas elementares – quarks e gluões – estudado pelo físico americano Frank
Wilczek, vencedor do prémio Nobel da Física, em 2004, pela descoberta conjunta da
Liberdade Assimptótica: uma condição segundo a qual a Força Forte – a mais
forte das forças físicas (as outras são a Força Fraca, o Electromagnetismo e a
Gravidade) e a responsável pela ligação nuclear de toda a matéria em partículas
subatómicas compostas (protões e neutrões) – é fraca em intervalos energéticos curtos
e forte em intervalos energéticos maiores. De facto, em sentido figurado, assimptotas
são quaisquer objectos que continuamente se aproximem sem se confinarem – como
duas linhas rectas paralelas. Simplificando, aquilo que a liberdade
assimptótica nos diz é que, a curtíssimas distâncias, os quarks comportam-se
como se fossem partículas livres, porque a Força Forte é fraca em intervalos
energéticos exíguos – existe liberdade nessa limitada e magnânima tangente, mas
ela nunca conduz à emancipação, razão pela qual é assimptótica. Em suma: não
existem quarks independentes. No livro The
Lightness of Being: Big Questions, Real Answers, Wilczek teoriza sobre
atracções de carga positiva e negativa entre quarks, gluões, nuvens de partículas
virtuais (que estão para as partículas elementares, como os vírus estão para as
células – escrevi sobre estas partículas no conto A Sombra sem Ninguém no meu livro A Luz Miserável) e a origem da massa de protões e neutrões, mas
aquilo que considero mais atraente é ver Jephonias como uma partícula elementar
de carga negativa que é atraída velozmente à distância pela Força Forte na
direcção de uma nuvem de partículas de carga positiva – os apóstolos: ao
aproximar-se desse grupo, a Força Forte perde impetuosidade e
Jephonias/Partícula também perde massa (as mãos); no entanto, ao integrar-se na
nuvem (converter-se ao cristianismo), a sua carga negativa muda para positiva
(recupera as mãos). Nessa acepção restaurativa, de regeneração das mãos, não
posso deixar de observar o corpo jazente ou adormecido da Virgem como sendo análogo
aos corpos santos, incorruptos e salvíficos, estudados pelo historiador italiano
Piero Camporesi no seu livro The
Incorruptible Flesh: Bodily Mutation and Mortification in Religion and Folklore;
com efeito, o autor resgata do livro trecentista Fioretti de San Francesco a cura miraculosa de um frade franciscano
do ermo florentino de Soffiano. Nessa narrativa, que compõe o quadragésimo
sétimo capítulo do livro, a Virgem Maria mostra-se compassiva ao frade
moribundo, acompanhada por três virgens celestiais, cada uma com uma caixa nas
mãos; estas contêm, respectivamente, três poderosos e recendentes electuários.
Porém, depois de saciar a saúde com o primeiro, o frade implora para ser desobrigado
dos remanescentes; a Virgem convence-o a tomar uma pequena porção do segundo
remédio, mas isso basta-lhe – o objectivo do frade é amenizar a angústia da
moribundez, não é afastar a morte, para a qual ele, efectivamente, caminha em
odor de santidade passados uns dias.
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quinta-feira, 5 de julho de 2018
O Terrível Fantasma do Optimismo: ou, Sobre pulgas, linguagem e um vampiro maçon em Alfama
No poema God Made the Country, o poeta
setecentista inglês William Cowper escreveu: «At eve / The moonbean, sliding
softly in between / The sleeping leaves, is all the light they wish, / Birds
warbling all the music. We can spare / The splendour of your lamps; they but
eclipse / Our softer satelite.» Esta flamância estelar, que afaga o agrimundo
num manto de suave selenitude, contrasta com a abrasiva luzência da cidade, o
reino da falsa luz; domínio de elucubristas que transformaram a noite num intervalo
de intenso trabalho intelectual. Com efeito, é um paradoxo que o período das
Luzes, creditado como uma tenebrosa madrugada que dirimiu o muro das
superstições, retenha uma dívida avultada para com a factícia noite das cidades:
de facto, convocar um cenário composto por pensadores oclusivos na penumbra de
pensões, casas e cafés, redigindo à luz de velas incendiários tratados contra a
política e a religião do Antigo Regime não é, somente, uma imagem idealizada.
Este foi o tempo que o geólogo holandês François Matthes denominou no século
passado por Pequena Idade do Gelo: ápice de uma lenta refrigeração do
hemisfério norte, posta em marcha desde o século XIII, e que alcançou as
temperaturas mais baixas em meados dos séculos XVII e XVIII. Os ritmos morosos
do planeta não são os nossos: o seu tempo é vagaroso como resina sangrante num
tronco de árvore – e igualmente pegajoso para nós, à sua mercê. Sem defesa
contra noites glaciais, arautas de rios congelados e colheitas deterioradas,
restou-nos passar a dormir sob novos padrões de sono, perturbados por
temperaturas descendentes: insónias que, sem a luciferina alumiação pública,
estariam condenadas a ser tão infrutíferas quanto os campos de Cowper,
submissos à frialdade das constelações. O advento das Luzes foi, sobretudo, um prodígio
da nocturnalização da sociedade: colonizou-se a noite, como se estava a
colonizar o Novo Mundo – quando escreveu que «no início, todo o mundo era
América», referindo-se a uma primeva condição global de liberdade, o filósofo
seiscentista inglês John Locke também contemplaria a autonomização da
humanidade em relação à noite, da qual era um dos obreiros?
Arremetidos pelo frio
nocturno, os indivíduos optimizavam o calor dos corpos dormindo juntos numa
mesma cama; por vezes, por culpa da carestia, sem hipótese de escolherem outra
solução. Nessas condições prosperavam parasitas corporais, como piolhos e pulgas.
Pintado em 1621, o quadro A Caça à Pulga,
do caravagista pintor neerlandês Gerrit van Honthorst, introduziu no campo
artístico o tema da apanha à luz de velas desses insectos, em caliginosos
interiores, por mulheres semidesnudadas. Tão alabastrina e amena é a cútis da contente
rapariga que caça a pulga, que, de imediato, somos lembrados de Artemísia, a bela
bailarina exótica empregada pelo protagonista Eurípides na comédia teatral As Tesmoforiantes, de Aristófanes, para
persuadir a personagem do arqueiro cita a libertar Mnesíloco: segundo este, arrebatado,
a cada-vez-mais-nua Artemísia dança tão levemente quanto uma pulga se passeia
no velo de uma ovelha. Inspirados por Honthorst, outros artistas imaginaram
cenas análogas, como o francês Georges de La Tour, o bolonhês Giuseppe Crespi e
o veneziano Giovanni Piazzetta, mas em todas essas obras, das quais se expele
uma quasi-realista empatia para com a penúria, está ausente a ambiência alegre
da tela pintada pelo primeiro. Na verdade, basta observar o quadro O Filósofo Irredutível, concluído dois
anos depois, para testemunhar a mestria de Honthorst em registar a graça
feminina: nessa composição, uma mulher seminua alicia o filósofo, tentando
puxá-lo dos seus escritos para aquilo que facilmente se conjectura como sendo
um inopurtuno momento de namoro, mas este, resoluto, limita-se a olhar para o
lado oposto, afastando-a com uma mão; no entanto, examine-se o rosto corado do homem
e descubra-se que parece sorrir a contra-gosto, como se a recusa em demover-se
do estudo fosse postiça – prelúdio do consórcio desejado. É a envolvência jocosa
que atravessará a opera buffa
celeumática La Serva Padrona, do
compositor italiano Giovanni Battista Pergolesi – de riso matreiro, a mulher
parece provocá-lo, usando as palavras de Serpina: «stizzoso, mio stizzoso, voi
fate il borioso, ma non vi può giovare». O corpo dessa mulher, que arranca o
filósofo da torre de marfim, e da jovem que caça a pulga nas suas vestes de
noite resplandecem em tonalidades criselefantinas que evocam uma lua anafada
pelo sol: ebúrnea, mas nimbada por uma santificante aliança dourada. Porém, não
existe sol no quadro A Caça à Pulga: o
elemento masculino está representado por duas divertidas, mas obscuras
presenças que, dissimuladas na penumbra e pelo espaldar do leito, espiam a
rapariga e a idosa serviçal a caçarem a pulga – proveniente do estúdio de
Honthorst, outro quadro com a mesma cena, mas sob um enquadramento mais
aproximado, dá-nos a ver o ponto de vista dessas personagens que, pela
linguagem corporal exibida, aguardam ser incluídas num desfecho prazeroso.
De igual modo, a representação
da pulga como vector de epidemias está distante deste quadro: a imagem conduz-nos
a tropos orientalizantes, mas na imaginação do observador nunca germinarão
recordações de como a Arca da Aliança poderá ter contido panos pejados de
pulgas, eliminando de peste os filisteus que a roubaram na batalha de Eben-ezer;
ou da intangível praga de Atenas, que, segundo Tucídides no segundo livro da História da Guerra do Peloponeso, era
tão virulenta que abatia os necrófagos que se nutriam com os cadáveres dos
pestíferos de membros e apêndices apodrecidos em bravia necrose. No seu Viri clarissimi, conhecido pelo
hipocorístico Emblemata, o jurista
italiano Andrea Alciato ordenou os parasitas no capítulo referente ao pecado da
gula, descrevendo-os nas maneiras e nos hábitos como sendo iguais a
caranguejos, coriáceos e de mordacidade veloz: «Vós também tendes ferrões nos
pés e uma barriga grande. E perambulando de mesa em mesa a encheis, criticando acintosamente».
Por outro lado, o arcebispo hispânico Isidoro de Sevilha classificou as pulgas no
quinto capítulo das suas Etimologias como
vermes sarcofamintos, taxonomia familiar às descrições que o jesuíta baiano
Frei Vicente do Salvador, o Heródoto
brasileiro, fez do Tunga penetrans, o bicho-de-pé, «tão pequenos como
piolhos de galinha». Ainda nessas latitudes, o jesuíta alentejano Jerónimo
Rodrigues eliminou sentado no leito mais de trezentas e cinquenta pulgas numa
única noite. Pertencentes à ordem Siphonaptera,
estes – legitimamente chamados – sifões
sem asas, aglomeram no tubo digestivo um obstaculizante bolo de bactérias
que precisam de vomitar, infectando assim os hospedeiros: característica dos
hematófagos é a necessidade de defecarem o plasma enquanto se alimentam –
peculariedade já descrita em 1720 pelo padre teatino Rafael Bluteau no sexto
volume do seu Vocabulário Português e
Latino: «Pica a carne, & chupando o sangue, o lança logo de si por
detrás, & daqui nascem as nódoas vermelhas, que ficam na carne das
mordeduras das pulgas». Sobre o plasma, Locke conjecturou o seguinte: «O
sangue, observado a olho nu, surge vermelho, mas através de um bom microscópio
onde se vejam as suas partículas mais pequenas mostra apenas alguns glóbulos
vermelhos nadando num líquido transparente, e é uma incerteza como é que estes
glóbulos vermelhos poderiam surgir se houvesse lentes que pudessem ampliá-los
mil ou dez mil vezes mais». Lembro-me de ter visto em criança pela primeira vez
num livro sobre o século XVII a inaugural gravura de uma pulga feita com
recurso a «um bom microscópio» pelo polímate inglês Robert Hooke para o seu
livro Micrographia e como isso me
impressionou: achava que o desenho era ligeiramente antropomórfico,
assemelhando-se a um irascível e corcunda velho de barbas venerandas, e esse
hibridismo, às vezes, assustava-me (mas nem sempre); hoje, os seus tergitos e
esternitos evocam-me a morfologia do pioneiro submarino do engenheiro
neerlandês Cornelis Drebbel – que navegou no Tamisa, à profundidade de cinco
metros, no segundo quartel de Seiscentos –, enquanto que o ocelo na leptocéfala
cabeça espelha na perfeição as inconfundíveis ilhós dos ténis americanos Converse
All Star. Respigando trechos de Fausto,
do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, o compositor oitocentista russo
Modest Mussorgsky compôs A Canção da
Pulga, celebrizada pelo baixo russo Feodor Challapin, que preconiza, nessa
interpretação, o estilo exibicionista do cantor americano Screamin’ Jay
Hawkins. Um dos filhos de Challapin ficou conhecido por ter desempenhado a
personagem Jorge de Burgos no filme O
Nome da Rosa, do cineasta francês Jean-Jacques Anaud; de facto, na Idade
Média, mais demonizadas que ratos e moscas, as pulgas eram especificamente
execradas, porque o prurido das picadas impunha aos indivíduos o alarde de uma
série de momices – do mesmo modo que o riso, diabolizado por Burgos no filme mencionado.
No seu eminente ensaio, Uma Apologia para
Raymond Sebond, o escitor francês Michel de Montaigne escarnece daqueles
que ponderam que Deus procede de feitio diferente ao ocasionar o desfecho de
uma importante batalha e o efémero salto de uma pulga; em outro ensaio, Sobre a Semelhança dos Filhos com os Pais,
ele afirma que a mesma providência que protege a toupeira e a pulga, também socorre
o ser humano. Todavia, no segundo capítulo dos Solilóquios, a Razão pergunta a Santo Agostinho se ele também ama
as pulgas e os percevejos, ao que ele responde «amo a alma e não os animais»;
em seguimento, a Razão diz-lhe que os homens são animais, objectando Agostinho
que ama os homens, porque estes têm almas racionais – inferindo que as pulgas
não têm.
Contudo, de acordo com o depoimento
de uma pulga, esta espécie é portadora de um tipo especial de almas humanas: de
obscena língua serpentina, a hedionda pulga que posou para o visionário inglês
William Blake deixa transparecer esse género de alma sob o indeterminado
craquelê da sua pele, vacilante entre o couro reptiliano e a ruína marmórea.
Segundo as suas palavras, somente ouvidas por Blake durante a nocturna sessão espírita
de desenho, todas as pulgas são veículos para as almas de homens malévolos,
cuja sanguissedência fê-los ultrapassar os limites da barbárie. Esse esboço
espiritual serviu de inspiração para a inquietante pintura Fantasma de uma Pulga, que representa, precisamente, um desses
sanguinários espectros: de tamanho aproximado ao de um comic book americano, essa obra de Blake ilude, de início, com a
sua aparente fantasia circense, mas um exame demorado desvenda sinistras
perspectivas: tudo nesse musculoso e possante écorché, de pele cucurbitínica, excita repugnância; em principal, a
impudicícia da expressão, com que cobiça um vaso cheio de sangue, e a duvidosa
postura corporal, ameaçando circinar-se a qualquer momento, que nem um tufão –
ou uma ténia. O detalhe que mais me perturba é aquele que, no meu entender,
retém ainda algo do homem que cedeu a alma à pulga: os pés exsicados, de unhas
compridas – são pés ressequidos num caixão, no qual as unhas continuaram fantasmagoricamente
a crescer. A ectoplasmática pulga confidenciara a Blake que Deus planeara a sua
espécie exoparasitária para ter o tamanho dos touros, mas, quando se apercebeu
da malícia do seu temperamento e da voracidade destrutiva que prometia, o
Criador reduziu-a à quase invisibilidade. Crítico da crença metempsicosiana,
Locke desedenhava dos «filósofos que crêem na transmigração e que são de
opinião que as almas dos homens podem, devido aos seus erros, ser devolvidas
aos corpos dos animais, como depósitos adqueados, com órgãos adaptados à
satisfação das suas tendências animalescas» (como uma homicida alma humana inoculada
numa abjecta pulga bebedora de sangue). Ainda assim, dando de barato que tal
portento fosse possível, Locke afirmaria que «ninguém, mesmo que tivesse a
certeza de que a alma de Heliogábalo estivesse num dos seus porcos, diria que
esse porco era um homem, ou o próprio Heliogábalo». Sempre enciclopédico,
Bluteau recomenda que se queime poejo para fumigar as pulgas, como faziam os
antigos romanos. Por sua vez, na entrada alusiva a 16 de Junho de 1678, no
diário das suas viagens a França, Locke lauda as virtudes das folhas de feijão
encarnado, enfiadas debaixo da almofada ou espalhadas ao redor da cama; inesperadamente,
não ofereceu esse conselho apotropaico na resposta que deu à segunda carta que
o bispo inglês Edward Stillingfleet lhe enviara para criticar o Ensaio Sobre o Entendimento Humano: é
que (de acordo com a leitura de Locke) os argumentos empregues pelo bispo de
Worcester incutem erroneamente nos leitores a ideia que ratos e pulgas têm almas!...
O poejo e o feijão encarnado poderiam facilmente alienar essa insensatez; porém,
o problema – do ponto de vista de Locke –, é um dilema de linguagem: as pulgas
– e os restantes animais – não utilizam palavras ou sinais gerais para exprimir
ideias universais (ou para comunicarem preternaturalmente as suas biografias a artistas
excêntricos, por mais sensitivos que estes fossem); somente concebem ideias
particulares, tal como as recebem dos sentidos, sem capacidade de ampliá-las
com o recurso à abstracção. Nesse sentido, recuperando o axioma agostiniano
expressado acima, o ser humano não se distinguia dos animais, porque, em
idêntico feitio, recebia as ideias directamente dos sentidos: a sua mente seria
uma tabula rasa, esvaziada de
cartesianas imagens inatas, mas, através da alma racional, esse material
sensorial era ordenado, interpretado e disposto numa míriade de maneiras. Todo
o conhecimento seria, então, tripartido nestes modos: físico, ético e lógico (e
é pela terceira via que o académico italiano Umberto Eco considera Locke o pai
da semiótica). Todavia, existe um lado pouco simpático em Locke – e, no geral, na
filosofia das Luzes: um cisma em domesticar a linguagem, subordinando-a a um
utilitarismo que se designaria por científico – ou a tirania do senso comum
filosófico –, em oposição à literária glossofilia barroca. Aliás, já o padre
jesuíta António Vieira havia criticado no Sermão
da Sexagésima o «xadrez de palavras», em relação à forma clara e natural
com que Deus criara o universo, sem recorrer a nenhum «xadrez de estrelas». Na
sua História da Royal Society de Londres,
o bispo inglês Thomas Sprat avizinhou-se da visão vieirina, declarando a
obrigação dos escritores em adoptar «a close, naked, natural way of speaking;
positive expressions; clear senses; a native easiness; bringing all things as
near the Mathematicall plainess as they can». Perpassava por aqui um esforço
fabricado de ir ao encontro da concisão de linguagem veiculada pelo latim
clássico, falado na Roma antiga, sem se compreender, de facto, que essa
economia de expressão devia mais à vera pobreza vocabular dessa língua que a
qualquer mapa mental constituído de aceitável contenção científica; compreendendo
os defeitos do latim, Cícero procurou enriquecê-lo – e, naquilo que lhe foi
possível, conseguiu-o –, mas foi preciso esperar pela chegada da escolástica
medieval para que se visse, finalmente, florescer o latim. Concomitante à ideia
iluminista que um texto que se queria científico sê-lo-ia ainda mais se fosse
redigido ao jeito de uma tabela contabilística, como uma fria folha de
balancete, obssessivamente purgado de vícios literários, foi a busca por um
idioma inicial – que, durante algum tempo, se pensou ser o hebraico. Nesse
aspecto, o contributo de Locke foi a desacralização da linguagem; se o seu
nominalismo provava o erro do cartesianismo – e do platonismo –, se a linguagem
era, somente, uma construção humana, uma utilitária ferramenta de interacção, e
não um secreto código inato, aboriginal, que poderia ser reconquistado pelo
estudo das múliplas línguas que dele tinham brotado pós-Babel, então poder-se-ia
subordinar toda a linguagem ao higiénico espírito das Luzes: torná-la mais
lógica, mais científica (no sentido da simplicidade matemática) e, sobretudo,
universal – nesse sentido, o pedante princípio de economia defendido pelos
filósofos das Luzes tornar-se-ia, em pouco tempo, uma mecânica questão de
optimização (como no caso do Esperanto).
O esteta William Blake
desgostava desses espartilhos: na sua casa em Hercules Road, no depauperado lado
esquerdo do Tamisa, de janelas viradas para o coruscante palácio de
Westminster, antropomorfizou a razão das Luzes na forma do titânico Urizen, um
dos quatro Zoas da sua complexa mitologia autoral. Na célebre pintura O Ancião dos Dias, Blake apresentou o satânico
Urizen inclinado sobre a negrura abissal (a já abordada treva em processo de
nocturnalização), projectando da sua mão esquerda dois reluzentes raios que se
assemelham a um compasso aberto num ângulo de noventa graus; representação que,
hoje, evocará com rapidez uma associação alegórica à maçonaria, mas o símbolo
do compasso usado por Deus para medir o mundo é muito mais antigo e pode
encontrar-se, por exemplo, no livro bíblico dos Provérbios (8:27). Na obra de Blake, o compasso assoma como símbolo
do espírito materialista das Luzes, um utensílio que restringe uma fracção da
realidade, excluindo tudo o que fica fora dessa austera circunferência: não é à
toa que o matemático e astrónomo inglês Isaac Newton – uma das três cabeças da
tríade infernal blakiana, juntamente com Locke e o filósofo inglês Francis Bacon
– é por ele pintado como sendo uma espécie de Urizen inferior, desenhando, de
espinha dobrada pela tirânica força da gravidade, formas geométricas com um
compasso. Mas a maçonaria, mutabilizada e reestruturada ao longo de todo o
período das Luzes, reserva resquícios da busca intelectual por uma linguagem
incial – ou iniciática – no mito da hirâmica Palavra Perdida: vocábulo
simbólico, cuja busca abrange o desígnio ulterior da maçonaria, como está
patente nos rituais de diversos graus. A ideia que as sociedades secretas
desempenharam um papel fundamental na consolidação das Luzes tem primado pela
hipérbole, mas um dos críticos setecentistas que mais responsabilidade teve
nessa concepção foi o diplomata saboiano Joseph de Maistre; cognominado de
proto-fascista pelo filósofo anglo-russo Isaiah Berlin. Educado pelos jesuítas,
Maistre foi membro de duas obediências maçónicas; uma delas liderada pelo
místico francês Jean-Baptiste Willermoz, que fora iniciado na Ordem dos
Caveleiros Maçons Elus Coëns do Universo pelo próprio fundador Jacques Martines
de Pasqually. Tal como Pasqually, Maistre era um católico rigoroso, mas, ao
mesmo tempo, despontou como voz crítica da mitologia templária para as origens
da maçonaria, arrogando que esta deveria abandonar românticas reivindicações
cavaleirescas e consolidar-se, afirmativamente, como uma grande ordem católica,
obediente ao Papa e intermediária entre o Estado e a Igreja. Em 1816, com a
publicação de Les Soirées de
Saint-Petersbourg, Maistre expôs nos décimo e décimo-primeiro diálogos a
sua doutrina ultramontana e anti-iluminista; todavia, mais interessante para estas
linhas, é a atitude adoptada nesse livro na defesa do génio das linguagens,
numa abordagem primígena, rejeitando as hipóteses poligenéticas propostas pelos
filósofos das Luzes. Como Blake, ele recusa a ruptura trazida pela
desacralização lockiana da linguagem por culpa do desrespeito demonstrado
diante da intrinseca rede de ligações que, na sua óptica, compõe todo o
edifício do conhecimento, desde o seu tempo até às origens da Criação: o
conhecimento perfeito é, em suma, o da linguagem perfeita; mas esta perdeu-se,
tal como o verbo hirâmico. Porém, se para Maistre a maçonaria deveria ser um
poder parapapal, intermediário entre o trono e o altar, para a personagem do
conde Kotor ela deveria ser um poder inteiramente ateu.
Escrito pelo crítico
cinematográfico francês Pierre Kast, o intrigante romance Les Vampires d’Alfama, de 1975, tem como cenário uma imaginária
Lisboa setecentista, sem qualquer similitude com a autenticidade histórica. O
protagonista é o aristocrata vampiro Kotor, com quase trezentos anos de idade, antigo
protector (o misterioso tio-avô, na verdade) do siciliano conde Alessandro di
Cagliostro, e que, no momento presente da narrativa, se encontra incógnito no
bairro lisboeta de Alfama, onde tem fama de santo em virtude de transformar
doentes e moribundos em vampiros. Evadindo-se da morte pelo ardil de chupar o
sangue dos vivos, como as pulgas, o vampiro distingue-se enquanto monstro por três
características especiais que têm escapado à sua representação espúria nas
ficções mais recentes: a sede sobre-humana. o modo como a sacia e a sua predemonionância
no folclore europeu – o vampiro, na verdade, está longe de ser universal. Na
tradição tanatológica europeia, os mortos sempre se caracterizaram pela secura,
pela desidratação: os antigos gregos, por exemplo, concebiam os vivos como sendo
húmidos e os mortos como estando secos – a perda de vida era, pois, um processo
gradual de sequidão, atestada nas empíricas observações dos cadáveres desprezados
aos elementos. Ressecados também são os pés do fantasma da pulga pintado por
Blake. Assim, a tremenda sede do vampiro relaciona-se com o retardar dessa
prossecução natural, por métodos sobrenaturais; o sangue, enquanto nutrimento,
consiste num fluido de evidentes conotações mágico-religiosas poderosas. Com
efeito, em muitas narrativas, o vampiro também bebe leite – e o modo como bebe
sangue e leite, chupando como um recém-nascido, reforça a ideia de um nascimento a
cada saída de debaixo da terra – a terra como útero ctónico e o vampiro como
seu filho terrível. Dois sinais importantes para enquadrar o vampiro com maior
rigor são a cronologia e a geografia: é surpreendente que visões deste monstro se tenham
popularizado por toda a Europa no período das Luzes? No mesmo período em que a escuridão estava a
ser colonizada, como referi inicialmente? O ciclo de vida em morte do vampiro
reflecte, perversamente, um doentio regresso do passado: o futuro, para esses
contemporâneos das Luzes, sobreviventes da Guerra dos Trinta Anos, actores da
reorganização pós-westfaliana, habitantes de um mundo cada mais gelado e à
mercê da fome, seria ameaçador, mas o retorno do passado seria ainda mais
aterrador. Seria o regresso das mais venéficas morte e doença – a língua inglesa
conserva um lembrete dessa concepção na palavra para doente: sick, cognata de siccus, a palavra em latim para seco. Mais pragmático que perturbante
(apesar de ter começado a vida como facínora sanguinário – da estirpe de homens
violentos que, depois de mortos, vão habitar nas pulgas, na cosmologia de
Blake), Kotor tem um único objectivo: tornar-se um novo Prometeu e conceder à
humanidade (e a si próprio) o segredo de vencer definitivamente a morte. O que
leio em Les Vampires d’Alfama é a
paulatina popularização (já à data da publicação) da mundividência
trans-humanista – em particular, da corrente designada de imortalista – que,
actualmente, encontra eco nas melífluas vozes de futuristas como o engenheiro
informático americano Ray Kurzweil, CEO da empresa Calico do grupo Google –
cujo caderno de encargos tem à cabeça, explicitamente, «resolver o problema da
morte». Parafraseando o que o poeta russo Vladimir Mayakovsky disse sobre o
corpo embalsamado de Lenin ser, empalhado – seco
–, mais vivo que todos os vivos, pode dizer-se que a falsa vida transferida por
Kotor aos seus seguidores (que podem ser vencidos pela luz do sol, entre outros
meios) torna-os mais vivos que os restantes vivos: de facto, mais do que corporizar
o ideal contemporâneo do vampiro como anti-herói (aqui, um anti-herói contra o
trono e o altar), Kotor prefigura os actuais futuristas e gerontologistas que
se vendem como campões contra o envelhecimento e a morte. A dada altura, em diálogo
com a personagem maçónica Gianvittorio, o conde Kotor apresenta-se com o sinal gestual
de mestre maçon para, em seguida, deixar na dúvida a sua filiação; poucas
linhas à frente, o vampiro revela que tem ligações profundas à maçonaria, mas
que mantém a imparcialidade, porque não considera o Ofício suficientemente
radical para derrubar o sistema de Antigo Regime: só uma resistência de
inexorável ateismo terá êxito nesse empreendimento. Assim, meio-alquimista, meio-revolucionário,
Kotor releva-se destas páginas como sendo uma espécie de Joseph de Maistre ao
contrário – um Joseph de Maistre da irreligião: as Luzes e as sociedades
secretas não são descrentes o suficiente para partejar a sua nova ordem de
imortais submetidos ao papado do ateísmo, ensaiada na vampírica comuna de
Alfama.
No fundo, há um filamento
que conecta este grupo heterogéneo formado por filósofos das Luzes,
ultramontanos fundamentalistas e futuristas que perseguem a imortalidade: a
recusa em aceitar o caos – em conviver com a repentina espontaneidade da
realidade: seja ela a noite impenetrável, a babélica glossolalia barroca ou a
inevitabilidade do fenecimento. O antídoto contra essas manifestações caóticas da
realidade tem sido sempre o fracasso das mais desconchavadas e perigosas utopias;
cuja mais recente materialização parece ser o paraíso virtual de uma
inteligência artificial erguida como panaceia contra todas as limitações
humanas – sobretudo a da durabilidade. Hoje, a morte não é vista nem como uma
passagem, nem como uma meta que dá valor à própria existência, mas como um aviltante
parasita da vida que é preciso caçar com coragem e optimismo – tal como se caça
a pulga na prazenteira pintura de Honthorst. No entanto, como Blake nos
ensinou, num quadro muito mais realista, apesar de fantástico, existe sempre um terrível fantasma por trás do optimismo.
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