Ontem,
na abertura oficinal (não se trata de erro: quis, de facto, usar esta
palavra, que melhor expressa o aspecto de receituário técnico exudado
por esse protocolo), do Web Summit, o presidente da câmara municipal de
Lisboa Fernado Medina comparou Paddy Cosgrave, criador do evento, a
Fernão de Magalhães, assinalando-o com a oferta em palco de um retrato
desse navegador português. Segundo as palavras de Medina, agora Lisboa
abre fronteiras por mérito de Cosgrave.
A partir daqui,
interessa-me uma observação mais rigorosa sobre o generalizado fenómeno
da importância desmesurada que é atribuída às tecnologias digitais —
sobretudo quando o seu poder é comparado a uma ruptura epistemológica
que, na verdade, não precisou de Internet para coisa alguma: a da
navegação astronómica dos seculos XV e XVI, desenvolvida, em principal,
por navegantes portugueses, com o auxílio de ferramentas bastante
simples. Com efeito, as técnicas e instrumentos que permitiram o
descobrimento de novas rotas marítimas durante esse período da expansão
portuguesa — e que serviram, de facto, para desencravar o mundo — estão
em oposição às tecnologias digitais, que, por mais complexas que sejam
as suas cabalísticas linguagens, somente compreendidas na totalidade
por engenheiros informáticos e programadores especializados, se cifram
em atalhos comunicacionais que, quase sempre, se tornam a si próprios
obsoletos. Como se se operasse em smartphones e tablets uma senescência
programada da mesma ordem que aquela que delimita a vida útil de outros
electrodomésticos menos vistosos, como torradeiras e máquinas de lavar
louça.
Em suma, a vantagem do uso das tecnologias digitais está
em alcançar de modo mais veloz, imediato e, em alguns casos
excepcionais, exacto, tarefas que, no fundo, poderiam perfeitamente
continuar a ser realizadas de maneiras analógicas. Inversamente à
ruptura epistemológica estreada com o advento da navegação astronómica
(ao nivel do impacto que tiveram os desenvolvimentos das concomitantes
artilharia móvel e imprensa de caracteres móveis), essa madrinha da
Modernidade, o surgimento da Internet ainda não trouxe nenhum mundo novo
ao Mundo. E se a estética digital se arroga, por vezes de modo
precipitado, de tropos pertencentes a alguma cinemática ficção
científica para se apresentar num jaez mais profético (Steve Jobs
desempenhava muito bem esse papel de pajé, revelando no ecrã gigante as
visões com que a Deusa Tecnologia o havia honrado), esse desiderato
desaba no instante em que recordamos que para ir várias vezes à Lua a
humanidade não precisou de Internet para nada: bastou-lhe utilizar com
arte e coragem ferramentas relativamente simples, tal como bastou aos
navegadores quinhentistas. Não há, bem vistas as coisas, um antes e um
depois da Internet, do mesmo modo que houve um antes e um depois da
roda, um antes e um depois da passagem do cabo Bojador ou um antes e
depois de Gutenberg. Tudo o que há é a ágil reprodução de mecanismos
que, até há pouco tempo, eram analógicos.
Assim, comparar
Cosgrave a Magalhães, navegador que encetou a grande viagem de
circum-navegação do planeta (descoberta que faz parte da supramencionada
ruptura epistemológica) — e que morreu violentamente no decurso desse
empreendimento (uma atitude que se caracteriza por aquilo a que o autor
Nicholas Nassim Taleb chamou no seu livro mais recente de
skin in the
game) — pode consistir numa manobra de marketing que dá nas vistas (o
que é completamente legítimo, note-se...), mas falha em estabelecer um
verdadeiro vínculo entre uma actividade e outra.
Não é de
espantar que assim seja: Magalhães e outros seus próximos orientaram-se
por estrelas; estes epígonos hodiernos são orientados pelo estrelato —
que até soa parecido, mas é algo muitíssimo diferente.