domingo, 4 de outubro de 2009

Crítica a "Memórias de Um Vampiro"

Qualquer obra artística que se inscreva num determinado género considerado a priori menor, ou de nicho, é, em maior ou menor grau, problemática de ser avaliada com clareza por todos aqueles que ainda não foram "iniciados" nesse território, simplesmente porque, na maioria das vezes, lhes faltam conhecimentos, relacionados com o modelo em questão, que lhes permitam colocar o objecto de análise em perspectiva.

Quando essa obra é literária convém que o exegeta possua bons conhecimentos do cânone na qual o autor a quer arrolar, de modo a que o exame paute pela clareza de raciocínio e, já agora, pela justiça. É, com efeito, injusto que uma avaliação crítica (um tipo de apreciação que, mesmo quando não é especializado, possui um peso que influencia quem lê) vilipendie ou glorifique uma obra, baseando-se em informações esquemáticas ou até incorrectas sobre aquilo que se acha ser o estilo e a estética na qual ela aparentemente se implanta.

Esta é uma das razões pela qual a designação "Série B" é hoje mal utilizada na maioria dos média para caracterizar quaisquer filmes que se assumam como de género ou satíricos ou mal-comportados, quando, na verdade, Série B é uma denominação relacional a fitas de baixo oraçamento. O que significa que um filme de terror de grande orçamento não é nenhum filme de Série B, assim como um drama de costumes produzido por tuta e meia não é nenhum filme de "Série A". Em suma: apesar do preconceito voltado contra os ditos géneros menores (o Horror, a Ficção Científica, a Fantasia, o Policial), não é a catalogação de uma obra numa certa classe que a atira para o lado errado da criação artística. A qualidade de uma obra não tem nada a ver com o tom dominante que ela apresenta e que, por convenção, se encontra definido pelos géneros reconhecíveis.

Nessa óptica, é essencial que o discurso crítico seja redigido com mais sofisticação, mas esperar que isso aconteça, nestes tempos em que os textos jornalísticos encolhem até ao tamanho de simples sinopses, é, talvez, ingrato. No entanto, independentemente do tamanho das críticas (e dos conhecimentos que os críticos tenham ou não tenham), convém que as palavras e as designações sejam usadas com conhecimento de causa e prudência, não se vá enganar os potenciais leitores da resenha e levá-los a olhar de lado algo que é bom ou a aceitarem de braços abertos algo que é mau. É que a crítica especializada, além dos critérios distintivo e informativo, também deve conter um aspecto de esclarecimento, de contextualização da obra analisada, senão para que é que serve, afinal de contas? Se serve, apenas, para dizer bem ou mal, que se gostou ou que se não gostou, então a crítica de rigor - literária ou outra qualquer - não serve para nada, porque esse exercício dualista (e simplista) de triagem já é feito pelos próprios receptores, que seleccionam aquilo que lhes interessa com base em questões subjectivas de gosto pessoal.

É, pois, com prudência (no sentido de justiça para com a obra, ou seja criticá-la como merece) e conhecimento de causa que avanço na crítica do livro Memórias de Um Vampiro, de Rafael Loureiro (Editorial Presença, 2009), que, como o título indica, se trata de uma obra que, à partida, desperta nos leitores um leque de conceitos e referências familiares, satélites da literatura de Horror, neste caso as diversas histórias sobre vampiros.

(Essa reserva também se corresponde com o facto de que não sou crítico, mas autor de literatura fantástica, e posso correr o risco de meter a foice em seara alheia ao adoptar o discurso crítico. Mas, por outro lado, o meu trabalho enquanto escritor também envereda diversas vezes pelo registo do ensaio, no qual o discurso crítico é um instrumento imprescíndivel; sendo assim, acho que não me fica mal tecer estas considerações que a leitura de Memórias de Um Vampiro me trouxe ao espírito e qualquer leitor compreenderá que o meu julgamento se dirige à obra e não ao autor - repudiando com veemência, aqui e agora, todos os fantasmas de agressões declaradas ad hominem que o texto poderá invocar.)

A primeira impressão que tive ao ver um exemplar deste título numa livraria de Lisboa foi a de que se tratava de uma co-publicação da Editorial Presença com a rádio Antena 3, ideia fortalecida pelo destaque, de tamanho e localização, que o autocolante de fundo negro com o logotipo dessa estação ocupa na capa de Memórias de Um Vampiro: colado acima do logotipo da editora, quase que consegue ser maior que este; não fosse a inclusão da frase "Com o apoio", escrita com letras miudinhas, e ficaria convencido da ideia inicial da co-publicação. Na minha opinião é uma escolha de marketing um bocado foleira, mas entendo que ela se relaciona com o facto de consistir numa excelente maneira de chamar a atenção dos leitores jovens, familiarizados com a referida rádio, numa associação que lhes desperta uma série de emoções positivas (felizes, até) e os leva a aceitar com facilidade um livro escrito por um autor ainda desconhecido. É bem-feito? É mal-feito? A pergunta é de retórica, porque do ponto de vista da psicologia do consumidor deve funcionar tão bem quanto a proverbial flauta de Hamelin. É a mercadologia em marcha: toda a gente sabe que é uma maneira de proceder que se tem tornado cada vez mais agressiva no mercado livreiro e, felizmente, ainda não se chegou ao ponto da intrusão de anúnicos dentro dos próprios livros, à maneira das revistas e dos comics norte-americanos. Mas não desesperem, porque os ebooks que aí vêm já os irão ter, provavelmente.

O título do livro não engana. São memórias escritas pela personagem principal, o vampiro Daimon DelMoona. Este protagonista começa por ser humano e é transformado em vampiro por uma senhora encantadora chamada La Luna. Não se tratam dos nomes de baptismo destas personagens, porque no universo ficcional imaginado por Rafael Loureiro os vampiros respondem pelo nome da alma deles, um nome que sempre tiveram, desde sempre: «A pessoa que éreis morreu hoje e jamais será lembrada. A partir desta noite sereis chamado: Daimon DelMoona. Este é o nome da vossa alma. O nome que a vossa alma usa há já muitas eras. E assim continuará a ser (...)» (pg. 34). Eu assumo que Loureiro não nos queira convencer que estes nomes são, mesmo, aqueles que as almas dos vampiros acabados de fazer têm desde os tempos imemoriais. Tratar-se-á de uma liberdade poética que expressa que cada novo vampiro escolhe (sem grande reflexão, ao que parece) um nome que tenha a ver com as suas qualidades intrínsecas. O que se passa é que tanto por um lado como pelo outro o artifício não funciona. A acreditar na literalidade da explicação que La Luna oferece a DelMoona, então os idiomas humanos, neste caso o spanglish (Del Moona?...) já andava a vogar pelo cosmos ainda antes do magma arrefecer à superfície da crosta terrestre, esperando paciente que os mexicanos e os vampiros evoluíssem para lhes cair em cima. Se é, de facto, um efeito poético, qual é a razão pela qual os vampiros, independentemente das diversas nacionalidades que possam ter, escolhem todos nomes colados à língua inglesa? Há um Daimon DelMoona e uma La Luna, mas também um Janus Moonhunter, uma Lília Whitemoon, uma Pandora Darkmoon, um Philippe Moonshadow, um Ascelli Nightstar. São escolhas autorais imaturas. Não funcionam enquanto referências à importância que a Lua tem no fenómeno do vampirismo, no universo ficcional de Nocturnus (o nome pela qual é conhecida a sociedade composta pelos vampiros dos diversos clãs que descendem dos diferentes vampiros criados pelo anjo Tiriel, o pai de todas as espécies de sugadores de sangue), nem como verdadeiros nomes de guerra das personagens.

Mas se a antroponímia não é o forte de Loureiro, o resultado é muito mais sofrível quando ele se aventura na geografia e na cronologia.

No mundo de Nocturnus, os vampiros foram criados pelo anjo Tiriel que, à semelhança de Lúcifer, foi expulso do Paraíso por Deus. «O Criador, ouvindo nos murmúrios dos anjos que os seus corações se começavam de novo a dividir, cortou as asas brancas a Tiriel e enviou-o para a Terra (...) Conta-se que o Anjo acordou numa praia, sozinho, em terras da Ásia» (pg. 15).
Considere-se esta transcrição com a leitura deste excerto decalcado de uma crítica feita a Memórias de Um Vampiro (assinada por Joana Cardoso) no weblog Bela Lugosi is Dead: «Apesar de ser mais uma história de vampiros, não me senti aborrecida nem a achei semelhante a qualquer outra que tenha lido.»
Infelizmente, já não posso dizer o mesmo, porque acho que a premissa de Loureiro é muitíssimo semelhante à mitologia que se pode ler em The Book of Nod, de Sam Chupp e Andrew Greenberg (White Wolf Publishing Inc. 1997), obra na qual é Caim que, depois de ser banido por Deus para a Terra de Nod, dá origem a diversos clãs de raças diferentes de vampiros: «And He exiled me to wander in Darkness, the land of Nod. I flew into the Darkness, I saw no source of light and I was afraid and alone» (pg. 25). Mas as semelhanças do livro de Loureiro com a mitologia de The Book of Nod não se resumem à concepção do universo vampírico.

Em The Book of Nod existe uma sociedade de vampiros moderados, formada por sete clãs, que responde colectivamente pelo nome "The Camarilla" e "The Masquerade" é a designação que dão à política de se imiscuir subtilmente entre os humanos, ocultando-se deles: «Masquerade: the effort to hide Kindred from the world of mortals» (pg. 134), sendo que "Kindred" são os próprios vampiros. Agora comparem com esta transcrição de Memórias de Um Vampiro: «La Luna falou-me sobre Nocturnus, que é o nome dado à sociedade vampírica. Os vampiros existem desde os esgotos até à alta sociedade, caminhando em silêncio através dos séculos desde o Anjo Tiriel que, banido do céu, foi condenado a deambular imortalmente pela Terra por ciúme da humanidade...» (pg. 40).
Basta consultar o léxico de The Book of Nod para perceber, de imediato, que o índice lexical de Memórias de Um Vampiro é uma tradução quase literal: onde no primeiro há um "The Beast" («The hateful drive that push a vampire to become a monster. The push to Frenzy») no segundo encontra-se um "Ser Impuro" («Estado em que o Vampiro não controla o seu instinto e o seu lado bestial o comanda»); onde no primeiro há um "Sire" («Parent or creator of a vampire. Used for both men and women») no segundo pode encontrar-se um "Senhor/Senhora" («Vampiro que cria outro Vampiro»); onde no primeiro há um "Prince" («The Vampiric ruler of a city») no segundo existe um "Regente" («Vampiro que rege Nocturnus numa Terra»); onde no primeiro há um "Embrace" («The bite. The process of making a human into a vampire») no segundo encontra-se um "Novo Nascimento" («Transformação de humano em Vampiro»). E a lista de semelhanças continua por ordem alfabética...

É legítimo perguntar porque é que a autora da crítica supracitada não achou Memórias de Um Vampiro semelhante a qualquer outra história de vampiros que tivesse lido. A resposta é que não leu The Book of Nod, nem nunca ouviu falar no jogo de RolePlay Vampire: The Masquerade, que está na origem de The Book of Nod: compêndio que reune os elementos dispersos desse jogo na forma de uma mitologia coerente - um cânone, portanto.
A analogia entre as concepções de Memórias de Um Vampiro e The Book of Nod é tão grande que mais parece que o livro de Loureiro é uma peça de fan fiction.
Vale a pena recordar aquilo que escrevi no início sobre os críticos com falta de conhecimentos: Memórias de Um Vampiro até pode surgir como inovador e surpreendente aos olhos de quem não está familiarizado com o género Fantástico, e com a ficção que tem sido escrita nas últimas décadas sobre vampiros, mas não passa na inspecção de um leitor especializado que já leu mundos e fundos, muito antes das editoras, dos candidatos a autores e dos média terem "descoberto" agora o fenómeno da literatura sobre vampiros. Só quem nunca leu nada sobre eles é que será capaz de achar originalidade e inovação em Memórias de Um Vampiro.

Acima mencionei as tíbias tentativas de Loureiro em se aventurar nos campos pantanosos da geografia e da cronologia.

Já se percebeu que Memórias de Um Vampiro narra a vida de Daimon DelMoona (numa colagem descarada ao universo vampírico de Vampire: The Masquerade), mas onde e em que época?
Também já vimos que Tiriel caiu «nas Terras da Ásia» quando foi expulso. Com efeito, causa alguma estupefacção vermos que naquela altura (no princípio dos tempos?) já existia o continente asiático e que, ainda por cima, ele era conhecido por esse nome. Mas as coisas complicam-se porque «A nossa história perde-se aqui durante várias décadas. Deduz-se que Tiriel tivesse caído de novo no seu sofrimento e partido para outras terras, a actual Europa» (pg. 17). Depois desta viagem, «Tiriel partiu de novo para terras distantes para de novo se isolar. Partiu para o seio da actual África» (pg. 18). Mas afinal Tiriel também viaja no tempo?! Transita da Ásia (primordial) para as actuais Europa e África? Só pode ser isso, porque, em seguida, «ao vaguear por uma necrópole da Grécia antiga, deparou com um homem adormecido» (pg. 18). Como bom viajante no tempo, Tiriel «de novo partiu para a sua terra natal, no Norte de África, actual Egipto» (pg. 19).

Mas Daimon DelMoona, em cujas veias corre a herança de Tiriel, também faz umas digressões temporais inesperadas: «Continuei a minha jornada como um fugitivo e parei apenas em 1792, depois de uma viagem de barco, num país a Oriente que é o actual Japão» (pg. 74). Ou seja, de acordo com Loureiro, o Japão não existia no ano de 1792. Porquê? Porque ele não escreveu "Japão actual" (o que tornaria a viagem no tempo ainda mais extraordinária, diga-se), mas sim que a personagem chegou a um país que é o "actual Japão". Então, se esse país não era o Japão, ou não se chamava assim, como é que se chamava? Diz Loureiro na página 76 que «O Japão já não é o que era». É a resposta possível.

Contudo, o salto no tempo mais incrível que se pode encontrar em Memórias de Um Vampiro é este que vou descrever em seguida.

Diz a personagem principal que «Decorria o ano de 1680» (pg. 23). Este é o início das memórias e Daimon DelMoona ainda é humano... Prossegue-se na leitura e na página 56 pode ler-se isto «Vinte anos se passaram (...) Estávamos a virar para o século XVII».
O quê?!... Então?... Então voltaram todos no tempo, para o início do século? Não... É que mais à frente, na página 73, pode ler-se que estamos no «Ano de 1700. Deveria ter quarenta anos e aparentava ainda vinte e dois.»

Se bem compreendi, a história de DelMoona começa no século XVII (1680). Depois há uma inversão temporal total e todas as personagens regressam ao início desse século («Estávamos a virar para o século XVII»). Em seguida, saltam cem anos directamente para o século XVIII (1700). E mais: as viagens no tempo têm um efeito anti-oxidante porque DelMoona, que deveria ter quarenta anos de idade (em cada perna, a acreditar na contagem dos anos que avançou), apenas aparentava ter vinte e dois.
Como é que isto se explica?
Explica-se desta forma: Loureiro não sabe que a data de 1680 corresponde ao século XVII.
Pensa que por ela começar com um "16" se refere ao século XVI e é por isso que diz na página 56 que se estava a «virar para o século XVII». Depois acha que 1700 é que é o século XVII quando é o XVIII. Alguém que lhe diga, por favor, que já estamos no século XXI, porque ele é bem capaz de achar que ainda estamos no XX, porque a data de 2009 começa com um "20".

O mais estupendo disto tudo é que ninguém que leu o livro deu por isto!...
Se tivessem dado, já o tinha lido na crítica citada (e em outras disponíveis na internet) ou o próprio autor já o teria corrigido no seu texto. Ou seja, ninguém percebeu que 1680 não é uma data do século XVI. O que leva a formular a seguinte pergunta: será que alguém leu, de facto, o livro?

É porque 1) se não leram e dizem que sim estão a mentir e 2) se leram e não perceberam este erro monumental é porque são burros. Desculpem lá, mas isto não é culpa de distração, porque a própria narrativa deveria fazer com que os leitores achassem que algo de errado se estava a passar com a cronologia: não perceber que seria impossível virar para o século XVII quando a narrativa tem início em 1680 é ser-se burro com todas as letras que a palavra tem.

Ainda bem que Loureiro é professor de Educação Física: eu não queria que ele ensinasse geografia e história aos meus filhos.
Depois disto, nem sequer precisava de continuar a minha análise a Memórias de Um Vampiro porque neste ponto desvaneceu-se qualquer ínfima porção de credibilidade que ainda restasse ao livro.
Mas há mais...

Uma capacidade admirável que os vampiros de Memórias de Um Vampiro têm é a de conseguirem sorrir e olhar de muitas maneiras: há sorrisos cúmplices, saudosos, orgulhosos, escondidos, tristes, forçados, sarcásticos, devolvidos; há olhares obedientes, pregados, sorridentes, catapultados, beijoqueiros... Enfim, há muitos sorrisos e olhares à la carte, cada qual o mais requintado. Também há algumas imagens muitíssimo originais como: «estendendo a sua mão numa gargalhada», «ambos se estudam como tigres», «A sua postura de tutora desfez-se», «Descemos dos cavalos e amarrámo-los a uma árvore», «bebem em elegantes tragos» e «desfere um poderoso pontapé rotativo sobre a face do nosso companheiro que é projectado no chão.» Esta talvez seja auto-biográfica, considerando que o autor é praticante de artes marciais.
Realmente, Memórias de Um Vampiro tem de tudo um pouco: viagens não-intencionais no tempo, um samurai vampiro, um lendário caçador de vampiros chamado Claudius Van Helsing e, até prova em contrário, um cameo role de Mussolini, sob o disfarce de um vampiro chamado Duce (I kid you not). Mas antes que possam acusar o autor de fascista, Memórias de Um Vampiro contém a mais bela ode ao Comunismo que eu já li, seja onde for: «Alimentei-me como antes, mas desta vez foi mais fácil. O conflito em mim era menor. Penso que me habituei rapidamente a ver aquele ritual como uma necessidade inócua, pois não havia mortes, não havia lembranças, não havia marcas. Era como roubar uma moeda a um rico, não lhe faria falta» (pg. 44). "Economia Robin Hood" no seu melhor. Como escreveu Engels no prefácio da edição alemã do Manifesto Comunista: «Quem me dera que Marx pudesse estar a meu lado para ver isto com os seus próprios olhos» (Oxford University Press, 1998. pg. 56).

A esta altura vale a pena perguntar onde é que o autor de Memórias de Um Vampiro quer chegar com isto tudo. A pergunta é tão pertinente, tão pertinente que até lhe foi feita numa entrevista que ele deu há uns dias à rádio Antena 3 (a do autocolante na capa). Pergunta a entrevistadora: «-Portanto, um futuro auspicioso para ti enquanto escritor?» Loureiro responde: «-Ah... Vamos ver... Eu creio que sim, eu acredito, eh, eh.» A fé move montanhas.

Mas será que Loureiro sabe alguma coisa sobre literatura fantástica (ou de horror, na generalidade)? Ou sobre vampiros, apenas?
Pergunta a entrevistadora: «-Todo este universo "vampiresco" foi algo que apareceu naturalmente em ti ou tem a ver com o facto de teres lido determinado livro na tua adolescência que te despertou?...» O autor responde: «-Também, também!... (...) mais tarde acabei por descobrir o lado romântico deste terror e aí claro que tive influências da Anne Rice, do Dracula do Bram Stoker, do próprio Nosferatu de 1940, se não me engano, e acabei por desenvolver este personagem que acaba por ser quase de terror, mas, ao mesmo tempo, é um personagem romântico. Ou ultra-romântico.» A entrevistadora enfatiza: «-Ultra-romântico?!...»

Com efeito, ele enganou-se. Nosferatu, de Friedrich Wilhelm Murnau, filme a preto e branco e mudo, foi realizado em 1922 (altura em que os filmes eram todos a preto e branco e mudos). Em 1940 havia cinema a cores e falado, mas já se percebeu pela leitura de Memórias de Um Vampiro que datas e localizações temporais não são o forte deste autor.

Porém, pese o pouco jeito para números, ele tenta bastantes coisas com este livro. Tenta ser a Anne Rice, por exemplo, plagiando sem grande engenho as regras do código deontológico vampírico que essa autora foi desenvolvendo nas Vampire Chronicles. Em Memórias de Um Vampiro pode ler-se: «-O Silêncio? - perguntei. -É uma das principais leis de Nocturnus. 1º Lei: A Opção: Nunca oferecerás o Novo Nascimento contra a vontade do escolhido. 2º Lei: O Silêncio: Nunca revelarás a tua verdadeira natureza ao Homem. 3º Lei: A Cortesia: Nunca desafiarás a palavra do Regente da Terra onde estiveres. 4º Lei: A Linhagem: Nunca criarás um Filho sem a permissão do Regente. 5º Lei: A Segunda Morte: Se as leis forem violadas aplicar-se-á a Segunda Morte ao Vampiro que as quebrou» (pg. 50).

As regras supracitadas provém de diversos títulos escritos por Anne Rice, assim como de The Book of Nod (que também as usa, mas de um modo original que Memórias de Um Vampiro é incapaz de mimetizar). Introduzir essas transcrições é um exercício exaustivo e este texto já é longo o suficiente sem incluir, ainda, essas informações. Mesmo assim, porque é mais breve e também mais acertado, transcrevo alguns diálogos da adaptação cinematográfica de Interview With the Vampire, realizada por Neil Jordan, que se encontram reproduzidas de modo muito semelhante no texto de Loureiro. Aliás, deste modo fica em evidência que quando Loureiro admitiu ter sido influenciado por Anne Rice, não se referia aos romances, mas às adaptações cinematográficas desses trabalhos. É, portanto, com referências a filmes e a jogos de RolePlay, que se faz esta proposta de literatura fantástica portuguesa...

Louis em Interview With the Vampire: «Then out of curiosity, boredom, who knows what, I left the old world and came back to my America. And there, a mechanical wonder allowed me to see the sun rise for the first time in two hundred years. And what sunrises, seen as the human eye could never see them: silver at first, then, as the years progressed, in tones of purple, red, and my long lost blue.»

Em Memórias de Um Vampiro: «A tecnologia trouxe a cor às telas de cinema, e o dia, o nascer do Sol, entrou em casa de cada vampiro através da televisão» (pg. 145. Mencionar o cinema, tal como no trecho anterior, era demasiado flagrante, por isso fala-se em televisão.)

Em The Book of Nod: «Raphael cursed me, saying: "Then, for as long as you walk this earth, you and your children will fear the dawn and the sun's rays will seek to burn you like fire where ever you hide always. Hide now for the Sun rises to take its wrath on you"» (pg. 32).

Em Memórias de Um Vampiro: «Pela maldição de Deus a Tiriel, não conseguimos suportar a luz do Sol. Esse é o nosso maior inimigo, pois nos tornaria em cinzas em segundos» (pg. 40).

Daniel Molloy e Louis em Interview With the Vampire: «- What about crucifixes? - Crucifixes? - Yes, can you look at them? - Actually I am quite fond of looking at crucifixes. - What about the old stake through the heart? - Nonsense.»

Em Memórias de Um Vampiro: «De maneira nenhuma temos medo de cruzes, há até alguns de nós que as usam como adorno. Não são as cruzes que nos afectam, mas sim a Fé - somente a verdadeira Fé de quem as segura nos pode afectar! As estacas de madeira no nosso coração apenas nos paralisam, não nos matam. A única forma de nos tirarem a vida é decapitando-nos» (pg. 40).

Enfim, que Loureiro tente ser a Anne Rice é compreensível, mas é inaudito que tente ser o Paulo Coelho. Não acreditam? Então leiam os excertos seguintes:

O Alquimista, de Paulo Coelho: «E quando você quer uma coisa, todo o Universo conspira para que se realize o seu desejo» (pg. 47).

Lília Whitemoon e Daimon DelMoona em Memórias de Um Vampiro: «-Sabes que o Destino conspira a nosso favor. Ele coloca ao nosso lado as pessoas mais importantes para a nossa jornada, almas que foram forjadas ao mesmo tempo que a nossa» (pg. 177).

O Alquimista, de Paulo Coelho: «Como sabes que não voltarás a vender ovelhas. -Quem lhe disse isso? - perguntou o rapaz, assustado. - Maktub - disse simplesmente o velho Mercador de Cristais. E abençoou-o» (pg. 96).

Lília Whitemoon e Daimon DelMoona em Memórias de Um Vampiro, de Rafael Loureiro: «-Tu enfeitiçaste-me? Parece que te conheço desde sempre. - Misteriosos são os desígnios de Deus.» (pg. 177).

O Alquimista, de Paulo Coelho: «Escuta o teu coração. Ele conhece todas as coisas, porque veio da Alma do Mundo, e um dia retornará para ela» (pg. 196).

Memórias de Um Vampiro, de Rafael Loureiro: «Os vampiros podem continuar a ter Fé» (pg. 131).

Excerto da entrevista de Rafael Loureiro à Antena 3: «-Que conselhos darias a quem nos ouve que tenha o sonho de ser escritor? -Olha, eu já tenho algumas pessoas que me vão enviando mails com algumas... com alguns parágrafos ou alguns capítulos de... de... livros também deles e o meu conselho é sempre esse: não desistam. Não desistam porque toda a energia que... que vocês estão a emanar... ela há-de... há-de dar fruto, tal como eu. Foi um processo longo... de quase cinco anos ou seis anos, mas... teve os seus frutos. -É não deixar a esperança ir embora.»

O Alquimista, de Paulo Coelho: «Maktub - disse. -Se eu for parte da tua Lenda Pessoal, voltarás um dia» (pg. 159).

Neste trecho de uma resenha crítica que retirei do weblog As Leituras do Corvo pode ler-se: «(...) esta relação que se cria entre o leitor e as personagens que torna Memórias de um Vampiro num livro tão tocante e tão belo. A todos os apreciadores do fantástico e principalmente aos fãs de histórias de vampiros, não posso deixar de recomendar esta história em que o único defeito que encontro é o de terminar demasiado depressa. Resta-me, pois, esperar pelo próximo tomo desta excelente aposta (...)»

Citei este excerto para dar a entender que, aparentemente, a minha opinião vai no sentido contra-corrente daquilo que vai sendo escrito sobre Memórias de Um Vampiro. Contudo, apesar de isolada, acho que demonstra aquilo de que é feito este livro e porque é que ele, apesar de já ter sido um produto de Série B (edição de autor), continua a ser mau agora que é um produto de Série A (publicado por uma editora com um grande orçamento). Não é culpa do género em que se insere. O livro é mau porque, como se viu acima, está mal pensado, está mal escrito, contém erros imperdoáveis e, sobretudo, pelo modo como tem sido apresentado ao público, só prejudica o género Fantástico.

Se eu não fosse um conhecedor de literatura fantástica e até tivesse preconceitos voltados contra ela, graças a isso, não seria com Memórias de Um Vampiro que eu iria convencer-me de que este género de ficções são tão boas quanto as aprovadas pelo cânone da dita literatura erudita.
O facto é que há quem diga que ser reconhecido pelos literati não interessa nada e que, isso sim, é que é prejudicial ao género Fantástico. Eu também concordo que nós não precisamos do imprimatur da academia para nada, para que fique clara a posição em que me situo sobre esse tema, mas o que é fatal é que livros como Memórias de Um Vampiro e quejandos não dignificam em nada o género no qual se inserem e talvez fosse mais proveitoso, já que o objectivo era cavalgar a onda da moda vampírica na literatura que o mercado atravessa neste momento e facturar umas massas, gastar-se mais uns trocos e mandar traduzir obras de referência como Some of Your Blood, de Theodore Sturgeon, The Vampire Tapestry, de Suzy McKee Charnas, Hotel Transylvania, de Chelsea Quinn Yarbro, Lost Souls, de Poppy Z. Brite, Anno Dracula, de Kim Newman, The Dracula Tapes, de Fred Saberhagen, The Travelling Vampire Show, de Richard Laymon, Sunglasses After Dark, de Nancy Collins, e muitos outros. Até mesmo os livros do vampiro Varney, de James Malcolm Rymer.
É que, dessa maneira, vampirizavam à mesma os vampiros, mas ao menos punham cá fora obras de qualidade.

sábado, 3 de outubro de 2009

Desinformação

Apesar de ainda não o ter visto, soube que foi editado há pouco tempo o romance Passageiros da Neblina, da autora espanhola Monserrat Rico Góngora, que, tal como o meu A Conspiração dos Antepassados, fala sobre o encontro de Fernando Pessoa e Aleister Crowley na Lisboa de 1930. Hoje de manhã encontrei na net uma entrevista que essa escritora deu ao Diário de Notícias e fiquei muitíssimo surpreendido: pela negativa.

O problema é meu, porque como levo o ofício da escrita a sério, assumo que a maioria dos escritores também o fazem. Por conseguinte quando Góngora diz na entrevista que «Crowley era uma pessoa depravada, tinha praticado em Itália rituais de canibalismo que resultaram numa ordem de expulsão do próprio Mussolini. Sabe-se que vampirizou pessoas na Índia e esteve ligado a cultos satânicos (...)» e, ao mesmo tempo, afirma numa entrevista ao site Portal de Livros que «técnica e credibilidade obtém-se com anos de esforço e investigação» eu interrogo-me sobre quanto «esforço» e «investigação» é que ela terá dedicado à vida de Aleister Crowley, personagem sobre a qual decidiu escrever.

Não vou calçar luvas de pelica: afirmações deste género só têm o objectivo de titilar os potenciais leitores e não servem em nada para esclarecer as vidas das personagens (reais) que, supostamente, servem de motor à narrativa. Eu li todo o material biográfico relevante disponível sobre Aleister Crowley (assim como o disponível sobre Fernando Pessoa) e não encontrei uma única linha que pudesse corroborar as supracitadas afirmações da escritora espanhola.

Na verdade, Crowley tentou criar uma seita (mais de inspiração literária que verdadeiramente religiosa) em Cefalù, na Sicília, mas não foi expulso por culpa de «rituais de canibalismo» nenhuns, nem sequer foi expulso por culpa da (esta, sim, verdadeira) morte acidental de um discípulo. Crowley foi expulso da Itália por Mussolini porque os fascistas acharam que Crowley estava a criar uma célula comunista à porta da casa deles. Aliás, quando Crowley publicou O Livro da Lei, este foi recebido pela maioria dos leitores como sendo um livro comunista e a aura de simpatizante do regime soviético não o abandonou durante esses anos. Terá até sido essa uma das razões pela qual ele se lembrou de enviar uma cópia d'O Livro da Lei a Hitler, quando este "ganhou" as eleições na Alemanha: para mostrar que não era comunista nenhum.

Mas é claro que dizer isto numa entrevista não é tão titilante como dizer-se que Crowley era satanista (no sentido mais vulgar da palavra) ou canibal. A verdade histórica raras vezes pode ser reduzida a soundbytes desse género.

Não li o livro Passageiros da Neblina, mas se este tipo de «esforço» e «investigação» é aquele que pautou a escrita dele, então dispenso, muito obrigado.
É que levo demasiado a sério o ofício da escrita - e a investigação séria e rigorosa que está por trás desse labor - para, sequer, achar piada a este tipo de "intervenções".

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O "cinema" está de volta

«O 'direito do primeiro ocupante', embora não seja mais real que o 'direito do mais forte', não se torna um verdadeiro direito até que se institua a propriedade. Cada homem tem um direito natural a possuir aquilo que precisa (...) Como pode um homem ou um povo usurpar um vasto território e manter afastados todos os outros, senão pela usurpação criminosa - já que o acto privaria o resto da humanidade do abrigo e da comida que a Natureza tem para dar, a todos em comum?»
Jean-Jacques Rousseau, Du Contrat Social: Ou Principes du Droit Politique.


Iniciar um comentário ao filme District 9, de Neil Blomkamp, com um excerto de O Contrato Social, de Jean-Jacques Rousseau, é correctíssimo e depois de verem o filme irão perceber porquê, já que ele pode ser entendido como uma alegoria sobre os terrores do regime sul-africano segregacionista do Apartheid (Blomkamp, que é branco, nasceu na África do Sul e não é inocente a escolha do enredo de District 9 se desenrolar nesse território). Porém, o filme é vasto o suficiente para permitir outras leituras.

Há mais de vinte anos, desde a estreia de Aliens, de James Cameron, que eu não via um filme assim.
District 9
não faz concessões, a não ser a de querer manter as emoções e o intelecto do espectador ao rubro. Não se vislumbram nenhuns momentos de comic relief, nem sidekicks adolescentes, muito menos a montagem frenética - devedora dos videojogos - que, infelizmente, se tornou mandatória naquilo que é suposto ser um blockbuster de acção. Na verdade, a estreia de Blomkamp (29 anos de idade) como realizador parece ter andado a vogar no limbo (como a nave extraterrestre de District 9) durante a segunda metade dos anos oitenta e a década de noventa do século passado para, neste momento, nos cair em cima. E que falta nos fazia!

Há pertinência, poesia e rebeldia em District 9. Das verdadeiras.
Há referências explícitas (sem caírem na foleirice do pastiche, note-se, o que é notável) a cineastas como Cameron, Cronenberg, Verhoeven, Carpenter e ficamos a pensar que este era o tipo de filmes que eles deviam andar a fazer.

Várias vezes se usa o adjectivo "clássico" para cifrar a suposta qualidade de obras nossas contemporâneas, mas este será um dos raríssimos casos em que essa palavra é a única que serve de classificação: District 9 é um clássico. Em parelha com The Descent, de Neil Marshal, (este título no género do Horror), consiste num filme moderno que é capaz de se transcender e encontrar um lugar perene na memória cinematográfica (como Aliens, The Fly ou Robocop fizeram). É claro que os detractores dos ditos géneros menores continuarão a dizer cobras e lagartos deste género de filmes, mas são eles, mais que os outros, considerados "eruditos", que nos mostram soluções para os nossos problemas e os comentam com uma força e pertinência que não se encontra em mais lado nenhum.

Vão ver District 9, já! Não hesitem nem por um segundo.
É o cinema "a sério" (adulto, violento, inteligente) que está de volta.

domingo, 27 de setembro de 2009

O processo

O realizador de cinema Roman Polanski foi detido na Suíça e aguarda a extradição para os EU, por culpa de um mandato de captura emitido, em 1978, no decurso de um processo em que foi acusado de violação de uma menor. A história deste processo não consiste em nenhuma novidade para quem se interessa por cinema, e pelo cinema de Polanski, em particular, mas talvez nenhum cinéfilo esperasse que ele fosse, finalmente, capturado, passados todos estes anos.
Aparentemente, a partir de agora, vai passar o resto da vida dele na prisão.

Não vou discorrer sobre se Polanski merece (ainda) ser castigado ou não por esse suposto crime que cometeu, há mais de trinta anos, e cujas circunstâncias se encontram documentadas em diversas fontes disponíveis - de modo que qualquer interessado na matéria pode informar-se e formular a sua própria opinião. Talvez ele mereça ser preso, talvez não: avaliar isso compete a quem de direito, claro está. Mas se não tenho opinião sobre isso, tenho uma opinião sobre outra coisa.

Polanski é um artista. Deixou-nos obras belíssimas que, de certeza absoluta, serviram de inspiração a centenas de pessoas e a outros artistas. Mais que isso, sempre foi um realizador que desbravou caminho com os seus filmes, mostrando que fazer cinema podia e deveria ser um exercício pertinente de imagem e linguagem. Estamos a falar do homem que realizou The Fearless Vampire Killers, Repulsion, Rosemary's Baby, Tess, The Pianist, The Ninth Gate, Pirates, entre tantos outros. Portanto, a minha primeira pergunta é a seguinte: o nosso mundo não seria um pouco mais pobre sem estes filmes? E sem aqueles que Polanski ainda poderia realizar, daqui em diante? Teria valido a pena deter Polanski, em 1978, sabendo que, dessa forma, ele nunca nos poderia ter dado The Pianist, por exemplo, um filme que, provavelmente, contribuiu mais para criar um mundo justo e com melhor memória que qualquer pena de morte ou de prisão perpétua já sentenciadas?

Eu não sei se Polanski merece ser preso (ainda) ou não.
Só sei é que o mundo é um lugar melhor com ele cá fora. Disso, tenho a certeza.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

MUCHA - Lançamento

Mucha, o meu novo álbum de banda desenhada, ilustrado por Osvaldo Medina e Mário Freitas, está quase a chegar: o lançamento será no sábado 24 de Outubro, às 16H00, no Fórum Luís de Camões, espaço onde irá realizar a 20ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. O álbum também será alvo de uma exposição temática, com as pranchas originais e outras surpresas.
Uma edição da Kingpin Books.


terça-feira, 22 de setembro de 2009

Eles comem tudo, eles comem tudo...

(Da esquerda para a direita: João Seixas, Ricardo Duarte (o moderador da tertúlia), Rui Pedro Baptista
que, infelizmente, nesta imagem não aparece, e eu.)


... eles comem tudo e não deixam nada.
Nada?!
Nada como uma vampirada em pleno período de campanha eleitoral, desta feita na Praça Luís de Camões, promovido a nova zona erógena de Lisboa desde que castraram o Bairro Alto. Depois de uma dose de cultura alucinante, oferecida de bandeja por mim, por João Seixas e Rui Baptista, por cortesia da Editora Objectiva que se lembrou de organizar este excelente espaço de convívio em volta dos livros, o público ficou exangue. A conversa sobre vampiros na literatura fez-se com o livro A Estirpe, de Guillermo Del Toro e Chuck Hogan, como eixo. Eu já li e recomendo: é uma história intensa, com substrato referencial e, felizmente, sem o sentido de humor adolescente de "coisas" que por aí andam a sair ao Sol e que - essas sim! - metem medo pelos motivos errados. Ora quem trata os vampiros por tu não irá ter medo nenhum d'A Estirpe; pelo contrário, vai divertir-se e ficar à espera do próximo volume.

(Da esquerda para a direita: João Seixas, Ricardo Duarte, Rui Pedro Baptista e eu.)

domingo, 20 de setembro de 2009

A Conspiração dos Antepassados

Neste mês comemora-se o septuagésimo nono aniversário da visita que o mago inglês Aleister Crowley fez ao poeta português Fernando Pessoa, em Lisboa. Esta ocasião lembrou-me de avisar que a edição especial do meu romance A Conspiração dos Antepassados (Saída de Emergência, 2007), sobre esse encontro (e não só) que já teve duas edições, vai sair no primeiro semestre do próximo ano, mesmo na peugada do meu novo romance que será editado para meados de Fevereiro.

Para quem já leu A Conspiração dos Antepassados, deixo a menção que a edição especial terá algumas surpresas... Para quem ainda não leu, e deseja descobrir que motivos terão levado Aleister Crowley a encontrar-se com Fernando Pessoa, e o que é que o mito sebástico e a obra do artista renascentista português Francisco D'Ollanda têm a ver com isso, deixo um convite para que o leiam e o levem com vocês para casa (façam, pois, o download do primeiro capítulo).

Aproveito, também, para divulgar a entrevista que dei ao site O Major Reformado, de Nuno Hipólito, aquando da publicação da primeira edição do romance.

Para terminar, e para quem se interessa sobre a vida e a figura de Aleister Crowley, ficam dois excertos de uma palestra que eu dei no Fórum Fantástico (evento organizado pela Associação Épica) e que se dedica a divulgar o género Fantástico nas artes. A palestra teve como tema as ligações entre as personagens principais do romance, assim como exposições sobre temas do esoterismo português e europeu que se relacionam com a narrativa (os excertos foram filmados por Miguel Garcia).



quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Animais novos (e velhos)

Duas criaturas novas que eu adquiri. O novo livro de Richard Dawkins, The Greatest Show on Earth: The Evidence for Evolution e...

... o romance 2666 de Roberto Bolaño.

Estou ansioso em relação aos dois, claro, mas como Bolaño é, ainda, animal criptozoológico no meu biblestiário (e Dawkins é velho conhecido, lido e relido e trirelido) é sobre ele que a curiosidade se debruça de modo mais inquisitivo: será tão bom como andam por aí a dizer?... É capaz, é capaz, mas de autores geniais estão as minhas estantes cheias, dos mais obscuros aos mais afamados, por isso a concorrência vai ser forte. É a tal lei da selecção natural de que falava Darwin. Hum!... Dawkins e Bolaño... Faz todo o sentido, pelos vistos. Ou fará. Depois de ler, logo vos direi.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Afiem os dentes!


No próximo fim de semana (dias 19 e 20), a editora Objectiva promove um evento ambicioso: dois dias, ininterruptos, dedicados aos livros e às conversas que os orbitam, pelas vozes de autores, editores e leitores. Trata-se, pois, de um encontro que os bibliófilos e os curiosos de ocasião não devem perder, na Praça Luís de Camões.

No âmbito deste evento, e na noite de sábado para domingo, a partir das 23H30, irei participar numa tertúlia literária, cujo tema são os vampiros: A Literatura Fantástica e o Universo Vampírico.
Em conjunto com João Seixas, Maria do Rosário Monteiro, Rui Baptista e Pedro Sena Lino, a conversa terá como mote a edição portuguesa do livro A Estirpe (The Strain) do realizador de cinema Guillermo del Toro e do escritor Chuck Hogan, primeira parte de uma trilogia sobre uma epidemia de vampirismo.
Recebi o livro hoje e pelo que já li parece-me bem feito, com todas as coisas nos sítios certos. Tem, também, um certo ambiente construído "à maneira antiga", que deverá casar muitíssimo bem com o dinamismo que a narrativa principal promete.

Amantes de literatura de horror, fãs de histórias com vampiros ou, simplesmente, insones que andem a velar pelo centro da cidade, são bem-vindos. Haverá, certamente, lugares para todos.

De quinta-categoria

Já alguém ouviu falar no escritor canadiano Robertson Davies (1913-1995), autor de inúmeros romances, contos, ensaios e libretti?
Até há poucos dias, este autor era, para mim, um desconhecido, até que um email que me foi enviado por um site onde, normalmente, costumo comprar livros antigos mostrou-me uma lista de recomendações, nas quais figurava a Trilogia de Depford de Davies. A descrição intrigou-me, de imediato, e mandei-a vir. Acabei de ler o primeiro livro da trilogia, intitulado Fifth Business, e fico feliz por revelar que se trata de um livro absolutamente extraordinário.

Já há algum tempo que não lia um livro tão bom.
Mágico, irónico, inteligente, surpreendente, são palavras que, na ressaca da leitura, me parecem todas ineficazes para evocar os sentimentos que esta obra incitou.
A história tem início na aldeia canadiana de Depford, cadinho em que são formadas as personagens que iremos seguir ao longo de três volumes, cada um concentrado em demonstrar a vida de uma das três personagens que esteve envolvida num bizarro acidente: um miúdo atirou uma bola de neve a outro, mas este esquivou-se e o projéctil atingiu uma mulher grávida, provocando um parto prematuro. O bebé, nascido quatro meses antes do tempo, sobreviveu e, passados uns anos, tornou-se um famoso ilusionista. O miúdo que atirou a bola escamoteou a culpa da memória e transformou-se num riquíssimo homem de negócios. O labéu caiu, pois, no colo daquele que se esquivou. Roído pelas dúvidas e pelos remorsos, a personagem principal de Fifth Business, o professor universitário e hagiógrafo extraordinário Dunstan Ramsay, vai tornar-se o protector da mulher lesada, ao mesmo tempo que vê nela uma espécie de santa. Será que é mesmo?

O título Fifth Business alude à designação dramatúrgica pela qual são chamadas as personagens que estão ao serviço da fluidez narrativa de uma peça teatral: não são as principais, nem as secundárias, quanto muito podem chamar-se as de "quinta categoria". Ou seja, no pequeno drama que consiste o incidente da bola de neve, Ramsay vê-se como uma personagem de quinta categoria: alguém essencial ao desenvolvimento dos acontecimentos, sem dúvida, mas que se encontra à margem dessas minuciosidades. Será que é assim? Será que a leitura que a personagem faz de si própria corresponde à realidade? E, se não corresponde, porque é que ela pensa dessa forma?

Fifth Business contém passagens excepcionais, assim como monólogos inesquecíveis, vindos das bocas das mais excêntricas criaturas, como, por exemplo, o padre jesuíta que se torna amigo de Ramsay. Descobri numa pesquisa que fiz no Google que existe uma edição - algo obscura? - deste romance em português do Brasil (O Quinto Personagem), mas, mesmo assim, penso que não será errado dizer que ele é um tesouro (infelizmente) ainda por descobrir. Quem souber ler em inglês, descubra-o na versão original, já! Neste preciso momento. Vão à Amazon ou a outro site qualquer do mesmo género e comprem Fifth Business sem hesitar.

Não se trata de um romance de literatura fantástica, mas o tom e os acontecimentos aproximam-no com elegância desse género, deixando magia nas pontas dos dedos, mais ou menos parecida com o pó das asas de uma borboleta. É um livro bom que se farta. É um livro como já não se fazem. É, de certeza, "aquele" livro que vocês querem ler.
M-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o-!

(Assim que tiver lido os volumes seguintes da trilogia irei escrever sobre eles.)

sábado, 12 de setembro de 2009

Madeira!

Hoje à tarde fui dar um passeio a pé e entrei numa livraria da minha vizinhança, a qual não visitava há uns meses, e, de modo descontraído, agarrei num dos livros de literatura fantástica, escrita por novos autores portugueses, que foi publicado há pouco tempo. Li a contracapa, a primeira página e não precisei de ler mais nada para perceber que aquilo era mau. Desculpem lá a arrogância, mas já leio há anos suficientes para perceber quando um livro é bom ou mau.

Não vou revelar o nome do livro, do autor nem sequer o da editora, porque, para ser sincero, não sou crítico e não me fica bem estar a ir mais longe do que estou a ir, mas, para ser sincero outra vez, não posso deixar de expressar a minha opinião sobre o que está a suceder no campo da literatura fantástica escrita e editada em português. Vou ser o mais sintético possível, porque aquilo que tenho para dizer resume-se em poucas palavras.

Em primeiro lugar, tenho a ideia de que um género, enquanto identidade (à falta de melhor nomenclatura) de uma obra artística, deve ser avaliado pelos melhores trabalhos que os autores que nele encontram um modo de expressão têm para oferecer e não pelos piores trabalhos que, de uma forma ou de outra, acabam por vir à superfície. Penso que isto é importante, porque de outra forma será impossível mostrar ("convencer" é uma palavra com um lastro demasiado pesado) aos detractores do género Fantástico que ele serve de parteira a obras inteligentes, pertinentes e capazes de rivalizar com os melhores trabalhos acolhidos pela literatura dita erudita. Ou seja, não será, com certeza, com o tal livro que eu encontrei hoje à tarde que os académicos, os críticos ou até os leitores comuns, adversos ao género Fantástico, irão persuadir-se que ele serve de arauto a obras literárias capazes de prolongar o impacto da recepção após a leitura. Talvez nunca irão persuadir-se disso, até, mas, ao menos, dêem-lhes hipótese de mudarem de ideias.

Estou cansado de viver nestes tempos politicamente correctos em que tudo tem o mesmo peso e a mesma importância: não é verdade. As coisas não têm todas o mesmo peso. As coisas não têm todas a mesma importância.
Escolhas editoriais desta natureza, baseadas somente na percepção de que o género Fantástico atravessa um período de popularidade junto do público, sem quaisquer critérios que as orientem, ainda poderão vir a ter consequências aborrecidas daqui a uns tempos. Pelo que me diz respeito, ainda bem que a literatura fantástica atravessa uma fase de grande popularidade (acho que devia ser ainda mais popular), mas é preciso ter em mente que nem tudo aquilo que, à partida, se pode inscrever como literatura fantástica vale a pena ser publicado. Ou melhor: escrito.

Às vezes acho que ainda ninguém deu conta que estamos a falar de livros.
Não é suposto um livro ser uma coisa séria?
Mesmo um livro humorístico é uma coisa séria - eu acho que The Third Policeman, de Flann O'Brien, por exemplo, é um livro sério que se farta, apesar de ser humorístico. Eu acho que Jerusalem Poker, de Edward Whittemore é um livro sério que se farta, apesar de ser humorístico. Porque é que há outros livros que, mesmo não sendo humorísticos, como aquele que eu encontrei hoje, não são sérios?
Acho que a resposta é óbvia: porque os autores não se levam a serio.
Ora, se eles próprios não se levam a sério, porque carga de água é que os leitores devem levá-los a sério?
Porque é que os leitores devem pagar mais de vinte euros por um livro mau? Porque é que os leitores devem pagar mais de vinte euros por um livro mau que, flagrantemente, foi escrito por um autor que não conhece o género em que quer ingressar? Aliás, porque é que ele quer ingressar neste género, em primeiro lugar?
Eu acho que estas perguntas são importantes, porque acho que a literatura é uma coisa importante - não deve ser tratada com leviandade. Criar não deve ser tratado com leviandade.

Não tenho respeito por um escritor que queira escrever literatura fantástica e não conheça o género Fantástico. Vocês acham que um aspirante a escritor de literatura dita erudita é olhado com complacência pelos académicos quando demonstra ignorância sobre determinados autores que fazem parte do cânone? Então porque é que isso acontece no campo da literatura fantástica? Porque é que não insistimos que um escritor, um crítico, um editor - um leitor - de literatura fantástica deva conhecer os melhores representantes do género? Aliás, como é que alguém quer escrever literatura fantástica sem ter lido aquilo que outros escritores já fizeram?

Estou a olhar para as minhas estantes e vejo montes de livros que, de certeza absoluta, só meia-dúzia de gente deste país é que já os leu. Seria interessante perguntar ao autor do livro que eu encontrei hoje se já leu alguma coisa escrita por Gene Wolfe, Mervyn Peake, Michael Swanwick, Sinclair Lewis, Thomas Disch, John Wyndham, Alfred Bester, Clive Barker, William Hope Hodgson, Edward Carey, E. R. Eddison, Poppy Z. Brite, Thomas Ligotti, Shirley Jackson, Walter M. Miller e outros que eu poderia estar aqui horas a fio a transcrever. É que o género Fantástico não se resume à Juliette Marillier, ao Neil Gaiman e à Stephenie Meyer. Acho que está na altura de começarmos a levar as coisas a sério, se queremos que o género Fantástico seja olhado com outros olhos pelos leitores que o desdenham porque têm preconceitos, ideias feitas ou medo - porque não dizê-lo? - desse tipo de literatura.

Isto faz-me lembrar a velhíssima interrogação metafísica sobre se uma árvore que cai na floresta sem que ninguém esteja lá para ouvir faz ruído quando bate no chão...
Será que quando um livro mau é publicado, e não existam leitores capazes de perceber se ele é bom ou mau, ele é, de facto, mau?

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Três Mestres do Horror no MOTELx

Neste link podem ver alguns excertos da Masterclass de Stuart Gordon, moderada por mim. É bom ver que o cinema de horror e, neste caso, as reflexões que a ele vêm associadas e que as suas imagens suscitam são capaz de encher uma sala com ouvintes interessados.

Outro mestre do cinema de horror que o público teve o privilégio de ouvir foi António de Macedo, presente no festival para apresentar o seu filme A Maldição de Marialva: história passada no Portugal medievo e que se baseia numa versão beirã da lenda da Dama de Pé de Cabra. Um belíssimo filme, com uma fascinante fotografia, servido por uma reconstituição histórica tão arrojada quanto apurada. A cenografia engenhosa faz-nos acreditar que estamos, de facto, diante de um castelo e de uma aldeia do século X, quando, na verdade, a maioria das cenas foram filmadas em estúdio - um feito que, sem nenhum pudor, coloco em equivalência com a extraordinária recriação de Tânger feita em estúdio por David Cronenberg em Naked Lunch.

John Landis veio ao MOTELx para apresentar a versão remasterizada de An American Werewolf in London e para falar ao público numa Masterclass moderada por Filipe Homem Fonseca. Podem ver excertos dessa Masterclass aqui.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Horror à janela


O meu álbum de banda desenhada, Mucha, está quase pronto. É desenhado por Osvaldo Medina, arte-finalizado por Mário Freitas e será apresentado no próximo Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. Uma edição da Kingpin Books, com introdução de Pedro Moura.

Mucha é um álbum que aguardo com entusiasmo. É uma história de horror maduro (adulto), sem concessões e momentos humorísticos para aliviar a tensão, desenhada ao estilo neo-gótico dos comics Tales From the Crypt e House of Mistery. Em suma: é feio, puro e duro. O que não desvirtua a mensagem que lhe está contida, mas essa descodificação é trabalho dos leitores.

O meu novo romance está acabado, como sabem, e será editado no início de 2010, provavelmente em meados de Fevereiro. Posso garantir-vos, meus leitores, que têm aqui muito que ferrar o dente: personagens complexas, um ambiente de cortar à faca e, claro, o rigor consorciado com o horror. Mas, até lá, Mucha faz-vos companhia.

Ontem fui à abertura do MOTELx e gostei do filme: Rogue, sobre um crocodilo gigante que come turistas atrás de turistas enquanto o Diabo esfrega um olho. O filme está bem feito, com sobriedade, e carrega em todos os botões certos. Depurado e esgrouviado, ao mesmo tempo - não é feito menor. Consultem a programação do festival, porque há muitas mais coisas imperdíveis que vocês, de certeza, vão querer ver.

Destaco as Masterclass dos realizadores Stuart Gordon e John Landis (sábado e domingo, às 19H15), porque acho que vale sempre (muito) a pena ouvir aquilo que os criadores têm para contar.
Uma nota para quem segue e gosta do meu trabalho (e, claro, do género do horror, na generalidade, e dos filmes de Stuart Gordon, como é óbvio): irei moderar a primeira Masterclass.

domingo, 30 de agosto de 2009

A ferro quente

Acabei de ver Inglorious Basterds, o novo filme de Quentin Tarantino, e esperava melhor. Sim, os diálogos tarantinescos estão lá (talvez demasiado conscientes de que são diálogos tarantinescos), as referências ao material inspirador são correctíssimas e, no geral, o filme está muitíssimo bem feito. Mas ser um filme muitíssimo bem feito não chega: é preciso que o filme se leve a sério; coisa que Pulp Fiction, ainda mais over-the-top que Inglorious Basterds, fazia melhor.

Aquilo que o aparta da minha sensibilidade é o sentimento que ele me transmitiu de se tratar de uma espécie de filme de propaganda pró-aliada, realizado durante a Segunda Grande Guerra, num momento qualquer em que seria impossível adivinhar o desfecho do conflito. E sê-lo, sem assumir sê-lo, adoptando uma postura afectada, clownesca, que me deixou um gosto amargo na boca.
Observado por essa óptica, o final da história, com a morte da elite do partido nacional-socialista alemão dentro de um cinema fazia todo o sentido e ganhava, inclusive, um sopro de rebeldia que, diga-se de passagem, faz muita falta a Inglorious Basterds: é que para filme Série B (ou, no mínimo, para filme que quer homenagear alguma Série B), este título é demasiado bem-comportado. Quando, perto do final, a carripana conduzida por Hans Landa atravessa a mata, na direcção do espectador, fiquei à espera que aparecesse uma claquete em grande plano e se ouvisse uma voz-off a gritar "Corta!", seguida de um zoom-out em torção no qual se visse a equipa técnica que estaria a filmar Inglorious Basterds enquanto filme de propaganda pró-aliada... É óbvio que isso não aconteceu, mas que seria uma solução metafísica bem mais interessante que a conclusão que nos é oferecida, lá isso seria. E honesta.

(O espírito do novo filme de Tarantino vai ao encontro dos comics de propaganda pró-aliada que se publicaram nos anos da Segunda Grande Guerra, mas esses tinham mais pertinência porque o desfecho da guerra era uma incógnita. Se esta história do Capitão América fosse publicada hoje como é que seria recebida?)

E quão mais interessante, ainda, seria se Tarantino tivesse realizado um filme deste género, mas passado na actualidade e com uma tropa de choque norte-americana a caçar talibãs no Afeganistão!... Não só seria um argumento com maior ressonância, como mais arrojado. Assim, matar o Hitler, o Goebbels e outros cabecilhas nazis no cinema é, literalmente, bater a mortos e a piada (que a tem), infelizmente, esgota-se à superfície. Colocar Brad Pitt a caçar terroristas era outra louça.

(Entre a caricatura Brad Pittiana e o Pato Donald, eu prefiro o Pato Donald.)

Mas se o filme, apesar de não ser apresentado como história alternativa, e não tentar sê-lo, apontar nesse sentido, tem outro problema; e um que se relaciona com o estado actual do cinema de entretenimento.
Acho que Inglorious Basterds não foi feito para a minha geração.
Já Kill Bill não fora, apesar de se basear nos filmes de artes marciais. As referências pertencem à minha geração, certamente, mas a linguagem na qual as referências são instrumentalizadas já não. Isso não é motivo suficiente para classificar um filme como sendo bom ou mau, evidentemente, mas eu sinto-me mais próximo de um filme como Public Enemies, que estreou há poucas semanas e é, assumidamente, um filme para adultos, que com Inglorious Basterds. Sinto-me mais próximo de Jackie Brown, também de Tarantino, e que é, sem sombra de dúvida, um filme para adultos, que com Inglorious Basterds. Até para se fazer um pastiche é preciso levar o trabalho a sério. Ora eu acho que Inglorious Basterds ambiciona ser bem feito, mas não ambiciona levar-se a sério. E não o ambiciona de um modo que o prejudica bastante. Serve para lembrar que o tom de uma obra, mais que o estilo, é muito importante.

Parece que hoje em dia existe mais arrojo na maioria das séries de televisão que no cinema - o que é uma pena, porque, apesar do grande público ser composto por adolescentes, ainda existem adultos que gostam de ver filmes. Para quando uma longa-metragem ao nível da série televisiva The Wire, por exemplo, que não trata os espectadores como atrasados mentais? O dumbing-down da cultura de entretenimento é um fenómeno que me é estranho e se acreditasse em Deus dava-lhe graças por não ter crescido com os filmes e com os livros que se andam a fazer agora. Se isto é discurso à Velho do Restelo, que o seja. Garanto-vos que, pelo menos, é sincero.

Mas vão ver Inglorious Basterds. É giro e está bem feito. Só não fiquem é a espera que seja a obra-prima que andam por aí a dizer. Se quiserem ver um filme mainstream maduro e com pêlo na venta vão ver Public Enemies. Ainda deve estar em cartaz.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Quando algo chamado Horror

A terceira edição do Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa (MOTELx) está quase a chegar: tem início no próximo dia 2 e termina no dia 6, oferecendo uma programação riquíssima, como é seu apanágio.

Em breve, divulgarei mais pormenores sobre o evento. Para já revelo que o convidado de honra deste ano é o norte-americano Stuart Gordon, autor de filmes como Re-Animator, From Beyond, Dagon e Stuck, entre muitos outros. Este realizador tornou-se famoso com as suas adaptações cinematográficas de contos escritos por H. P. Lovecraft, mas, nos últimos anos, tem desenvolvido um trabalho diversificado, que explora outros abismos, mais urbanos, sem deixar de mostrar imagens perturbantes e colocar interrogações muito pertinentes. Fica o convite para que assistam aos filmes de Stuart Gordon, durante o MOTELx.

Convido-vos, de igual modo, a participarem na Masterclass de Stuart Gordon, a decorrer no dia 5 de Setembro. A Masterclass será conduzida por mim.

Fiquem com o trailer de Stuck (2007) e com uma cena de From Beyond (1986).



domingo, 16 de agosto de 2009

Mau jornalismo

Ontem foi publicado no suplemento Notícias Magazine, do jornal Diário de Noticias, um artigo intitulado A Invasão do Mundo Fantástico, escrito pela jornalista Mariana Correia de Barros, no qual a literatura de expressão fantástica, portuguesa e estrangeira, sai muitíssimo mal vista. Não porque se faça, nessa peça, uma crítica ao pior que o género tem para oferecer (ou sequer ao melhor), mas porque o bosquejo de perspectiva histórica em que o texto se suporta é errado e precipita uma argumentação que não se sustenta quando lida em paralelo com os factos.

Esta opinião sobre o artigo vai ao encontro do meu raciocínio, por isso escuso de escrever, em pormenor, sobre ele, aqui nos Cadernos de Daath. Aconselho, pois, a sua leitura, assim como a consulta da caixa de comentários, onde se está a gerar uma troca de ideias que vale a pena seguir.