Na data que se convencionou ser a da morte do poeta Luís de Camões
(cujo dia e ano ainda não foram apurados com rigor) - e que, também por
convenção, começando em 1910, modificando-se em 1933 e, em principal, em
1978, se celebra o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades
Portuguesas -, não resisto a recordar uma trova satírica que Camões
compôs para escarnecer de D. António de Castro, senhor da vila de
Cascais, depois de este lhe ter faltado ao prometido.
Esclarece Hernâni Cidade,
nas notas que escreveu para o primeiro volume das obras completas de
Camões (Livraria Sá da Costa, 1972), que, certo dia, Castro pediu a
Camões que lhe redigisse uns versos e prometeu que os pagaria com
meia-dúzia de galinhas recheadas. Vivendo sempre em condições precárias,
o poeta aceitou a combinação, mas, no final, o senhor de Cascais
pagou-lhe apenas com meio-frango. Sem perder o sentido de humor, Camões
satirizou-o nestes versos que ficaram célebres: «cinco galinhas e meia /
deve o senhor de Cascais, / e a meia vinha cheia / de apetite para
mais».
A pobreza de Camões é
um assunto "polémico", com diversos pontos de vista antagónicos a
discorrer sobre ele, mas, tudo somado, pode avançar-se com a hipótese
segura de que estaria, evidentemente, mais perto da penúria do que do
pecúlio; logo, oferecendo uma severa dimensão trágica ao picaresco
apontamento que aqui publico para convidar à reflexão neste Dia de
Camões.
Imagem: cópia de Luís de Resende de um retrato de Camões
feito por Fernão Gomes (algures entre 1573 e 1575), considerado o único
retrato fidedigno, pois pintado em vida do poeta.
Coda: quanto
ao apelido Camões, ele entra no nosso léxico, no século XIV, com Vasco
Pires de Camões, um nobre galego que se refugiou em Portugal. Foi,
provavelmente, o bisavô de Luís Vaz de Camões.
A etimologia do
apelido talvez se relacione com uma freguesia galega chamada Santa
Eulália de Camós, pronunciada camones pelos populares, o que reproduz a
sua grafia medieval ducentista. Também não se pode ignorar-se o nome
hispânico calamón, do qual deriva o catalão galmon e o nosso camão: todos nomes para o galeirão comum, ave aquática, aparentada com
a abetarda, que habita junto aos rios. Ainda no século XVIII se dizia camão em vez de galeirão; não obstante a palavra galeirão existir
desde o século XIII, sem dúvida com outro significado.
Resta
esclarecer que camões ainda ganhou o significado de zarolho, por
culpa do acidente que feriu um dos olhos do poeta: acidente que
consistiu no disparo aziago de um estilhaço de uma peça de artilharia -
quase de certeza, um pequeno canhão, embora se especule quanto às
circunstâncias do acidente: se no Norte de África ou em Lisboa.
O dia 10 de Junho ainda foi durante muito tempo chamado de Dia de São Camões.