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sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Razões pelas quais o Holocausto é singular


Desde inícios do século XIX que as emancipações europeias dos judeus provocaram, em variáveis graus de intensidade, movimentos motivados pelo anti-semitismo, reconstruindo sob um perfil cada vez mais politizado um sentimento social anti-judaico que, em principal na Europa central e de Leste, possuía origens antigas. Nos territórios germânicos, um estilo particular de anti-judaísmo pugnava desde o dealbar da tipografia em folhetos e folhas volantes; alguns de jaez protestante, incluindo os de Lutero, e outros de cariz popular sem assinaláveis vínculos religiosos, mas ambos similares na sua retórica e propostas — inclusive a do extermínio da “raça” judaica.

A ideia de uma maciça matança de todos os judeus fazia, desde essas alturas, parte da cultura das populações desses territórios e já no século XX, a partir de 1905, o ex-cisterciense austríaco Lanz von Liebenfels publicava na sua revista Ostara artigos de campanha para o extermínio dos judeus. Fundador da sociedade cavaleiresca Ordo Novi Templi, von Liebenfels antecipou em décadas o uso nacional-socialista de uma bandeira com uma suástica.

Esta síntese mostra como o anti-judaísmo moderno dos séculos XVI a XVIII se “politizou” ao longo do século XIX após o movimento generalizado das emancipações dos judeus — aliás, nos territórios germânicos esse sentimento anti-semita tornou-se desde logo bastante expressivo, com o caso modelar de Karl Lueger, presidente da câmara de Viena e pioneiro no anti-semitismo de massas, politizado, com a criação do Partido Social Cristão, espécie de mimetismo da coeva Liga Anti-Semita Francesa. Assim, o anti-semitismo nacional-socialista enquadra-se nesta moldura referencial mais alargada de profundo sentimento anti-judaizante grassante há décadas — senão séculos — nos territórios germânicos e de Leste: a legislação anti-semita do regime nazi é em muitos aspectos uma adaptação de velhas proibições anti-judaicas promulgadas por séries de bulas papais e alvarás régios um pouco por toda a Europa. A novidade introduzida pelos nacionais-socialistas no campo do anti-semitismo europeu, como já sinalizou Raul Hilberg em A Destruição dos Judeus Europeus, foi o passo final em direcção ao extermínio — extermínio que, recorde-se, já vinha sendo proposto e teorizado em variadas formas há muito tempo sob a designação “questão judaica”, mas que a máquina de morte nazi implementava de modo industrial.

Não obstante, a singularidade do Holocausto não reside, em exclusivo, na imensidade industrial de horror em que consistiu o extermínio em massa de milhões de indivíduos e a profanação dos seus corpos para retirar-se “matéria-prima”, como cabelos, dentes ou gordura, mas na própria ideologia que orientou esse crime contra a humanidade: o facto de segundo o nazismo o Judeu ser o “inimigo global”. Isto, em suma, significa o seguinte: alguns países europeus cúmplices do nacional-socialismo que, contaminados pelo anti-semitismo, incorreram e participaram no Holocausto, eliminando em massa os seus judeus ou deportando-os dos seus territórios para a Alemanha, tinham como objectivo final a extirpação de judeus dentro das suas fronteiras, numa perspectiva puramente regional; já os nacionais-socialistas, em oposição, queriam, segundo o princípio de o Judeu como “inimigo global”, eliminar os judeus em todo o mundo.

O projecto de engenharia social nacional-socialista foi, pois, genocidário desde o início, evoluindo das para-militares Einsatzgruppen para os campos de concentração e extermínio. O genocídio global de todos os judeus foi um elemento basilar e intrínseco do nacional-socialismo. Mas o futuro do nazismo não ficaria por aqui: em Mein Kampf e, sobretudo, na segunda parte desse livro, publicada postumamente, delineia-se o extermínio dos judeus eslavos, americanos e, ainda, o extermínio no Ocidente de categorias ambíguas de indivíduos designados de inferiores, mestiços ou degenerados. A partir daqui compreende-se que depois de exterminados todos os judeus a identidade genocidária do III Reich pretendia estender o seu venefícuo manto sobre novos elencos de indesejáveis, criados em perpétua sucessão para preencher o lugar vazio deixado pelo “inimigo global” e alimentar a máquina de morte já montada — o Reich de Mil Anos, parúsia hitleriana de pendor milenarista (como milenaristas foram outros totalitarismos novecentistas) construir-se-ia sobre um perpétuo crematório em actividade. A singularidade do Holocausto reside na sua filosofia mortífera de um assassínio humano global e perpétuo. Com efeito, na sua ambição internacional e ininterrupta, não se encontra nada parecido na história: o Holocausto é, de facto, único. Singular.

(Imagem: assassínio de judeus por uma Einsatzgruppe.)

sábado, 15 de junho de 2019

Desmistificando a teleologia neo-milenarista de Steven Pinker em duas partes

I.

Finalmente tive tempo para ver a gravação que fiz da recente palestra que Steven Pinker deu em Lisboa e constatei com desânimo os erros históricos e as espantosas simplificações com que este autor — que eu muito gostava de ler e de recomendar com entusiasmo quando ele se dedicava à teoria da linguagem e à psicologia cognitiva — defende a sua teoria teleológica de um Milénio liberal, baseado nos "valores do Iluminismo".

Uma das desmontagens mais lúcidas dessa teoria foi publicada por Nicholas Nassim Taleb e Pasquale Cirillo sob a forma de um artigo académico intitulado The Decline of Violent Conflicts: What the Data Really Say? Convido os meus leitores a prestarem-lhe atenção e, também, a lerem o paper On the Statistical Properties and Tail Risk of Violent Conflicts — este apesar de estar voltado para leitores mais especializados em matemática é, ainda assim, compreensível. Deste, aliás, transcrevo esta passagem do seu intróito, que encapsula na perfeição toda a falibilidade das premissas pinkerianas:
«Similar mistakes have been made in the past. In 1860, one H.T. Buckle used the same unstatistical reasoning as Pinker and Spagat.

"That this barbarous pursuit is, in the progress of society, steadily declining, must be evident, even to the most hasty reader of European history. If we compare one country with another, we shall find that for a very long period wars have been becoming less frequent; and now so clearly is the movement marked, that, until the late commencement of hostilities, we had remained at peace for nearly forty years: a circumstance unparalleled (...) The question arises, as to what share our moral feelings have had in bringing about this great improvement."

Moral feelings or not, the century following Mr. Buckle’s prose turned out to be the most murderous in human history.»

II.

Em relação a esta publicação anterior, um dos erros históricos de Steven Pinker é a constante ilustração dos tempos antigos como particularmente obcecados com a tortura e métodos perversos de execução — nisso é coerente com a sua patente (mas à la carte) iluminismofilia e já explicarei porquê. 

 
Este autor é sempre pródigo em apresentar slides com exemplos de torturas medievais e modernas para contrapor essas imagens com a candura iluminista que ele tanto gosta, de molde a dizer "vejam como já deixámos a barbárie para trás". O que ele não sabe — ou se sabe, não revela — é que a maioria dessas imagens, pelo menos as mais exóticas e violentas, retratam cenas que nunca existiram: são ilustrações decalcadas directamente de narrativas hagiológicas ou episódios mitológicos. A sempre conspícua imagem de um homem dependurado pelos pés a ser serrado ao meio, por exemplo, tem origem no lendário martírio do profeta Isaías que, segundo o hagiológio, assim foi executado — nesta ilustração que aqui apresento, da chamada Biblia de Roda (c. XI-XII), ainda pode observar-se Isaías coroado por um nimbo de santidade, atributo que, ao longo dos séculos, perdeu visibilidade em posteriores representações inspiradas neste episódio e que já mostram cenários seculares.

Foi, precisamente, no século XVIII, o vulgarmente chamado das Luzes (do ponto de vista histórico é mais correcto designá-lo desta forma que pelo adjectivo Iluminista), que se construiu uma ideia grotesca da medievalidade e da modernidade, com a profusão de falsos instrumentos de tortura inventados por antiquários. Nesta ligação podem ler um artigo que escrevi sobre isso há uns tempos.

Nesse sentido, não há duvida nenhuma que Pinker perdura a tradição iluminista de pintar o passado mais negro que o presente.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Steven Pinker e o lado negro das Luzes



Desde a publicação de The Sense of Style: The Thinking Person's Guide to Writing in the 21st Century (2014) que o psicólogo cognitivo Steven Pinker se tornou um dos mais exasperantes gurus contemporâneos do cientismo, propondo nesse prospecto uma abordagem positivista à escrita daquilo que ele considera “o bom texto”. O título do trabalho é, especialmente, programático: o guia de escrita para o pensador do século XXI – escrita, sublinha-se, com estilo. Mas qual estilo? Em inglês, sense, denota sentido, evidentemente, mas no enquadramento positivista pinkeriano a acepção é aquela que no século XVIII se baptizava de “a boa razão”: a razão ortogonal, ortodoxa, pragmática e extirpada de metafisicismos.

Os tiques positivistas, esclareça-se, transmeiam toda a obra de Pinker, mas mesmo os leitores mais atentos (como eu, que a li quase toda) não poderiam ter adivinhado que este autor publicaria em 2011 um volume bizarro, intitulado The Better Angels of Our Nature: The Decline of Violence in History and its Causes (Os Anjos Bons da Nossa Natureza: Porque tem Declinado a Violência). Este extravagante livro, cujo corpo mastodôntico singulariza em demasia a debilidade da sua tese – a de que a humanidade caminha, teleologicamente, para um devir não-violento; romagem neo-milenarista que o autor tenta provar com uma profusão estonteante de estatísticas, gráficos e tabelas –, além de estar polvilhado de sérios erros históricos, consistiu no casulo em que Pinker se metamorfoseou em definitivo de psicólogo cognitivo em guru cientificista; ersatz de Rousseau para o século XXI, coligando a inquebrantável fé smithiana no mercado livre com os pergaminhos racionais dos filósofos das Luzes.

O conceito em que assenta The Better Angels […] não é inédito: já em 2005 o escritor americano Harold Schechter publicara Savage Pastimes: a Cultural History of Violent Entertainment (Passatempos Selvagens: uma História Cultural do Entretenimento Violento), opúsculo interessante (escrevi «interessante», porque li quando foi editado e gostei) que Pinker aplaude e reiteradamente referencia no seu cartapácio quatro vezes maior. O ponderado Schechter pressiona suavemente o botão hegeliano que Pinker carrega com toda a força do seu braço, credibilizando com esse volume e com o perfeitamente panfletário Enlightenment Now: The Case for Reason, Science, Humanism, and Progress (O Iluminismo Agora: Em Defesa da Razão, Ciência, Humanismo e Progresso, 2018) uma fantasmagoria da história, na qual a filosofia da “boa razão” das Luzes (o titular Iluminismo, Agora) é servida à guisa de receita para todos os erros hodiernos. Pinker quer ser o Rousseau de um novo Contrato Social para o século XXI: na sua visão utopista, a história caminha a passos rápidos para uma parúsia pacifista e as mortandades em massa que, entretanto, vão ocorrendo (uma chatice) são unicamente resquícios de barbarismo ou acidentes de inferior manifestação na voraz linha ascendente de paz patenteada pelo gráfico.

O seu perfil de académico e, sobretudo, a persona de opinion maker predilecto de luminárias tecnogeek e de vacuidades do mundo da política e do entretenimento oferece um radiante efeito de auréola ao seu discurso, legitimando uma sucessão de disparates. Com efeito, ao propor a filosofia das Luzes como panaceia, Pinker ignora (se de propósito ou não, não interessa, porque o resultado é idêntico) o lado negro e extremista de diversos filósofos seiscentistas e setecentistas: na generalização partilhada entre eles de que o ser humano seria capaz de construir sociedades inéditas com base em leis universais de “boa razão”, científicas, práticas (estava-se no tempo em que se descobria nos laboratórios e nos cafés leis universais para tudo e mais alguma coisa), o espírito das Luzes nunca ocultou uma incómoda propensão para o utopismo autoritário; já presente precisamente em Rousseau, que, entre outras coisas, como a criação de uma religião civil, defendia ser necessário usar a força bruta para obrigar as massas a reconhecer aquilo a que ele chamava de “vontade universal” – tropo que fez escola nos movimentos revolucionários de Direita e de Esquerda coalescidos no século XX, não sendo extraordinário que tanto Giovanni Gentile como Lenine, entre tantos outros, se arrogassem de seus fidedignos exegetas.

Por trás das lentes cor-de-rosa dos seus óculos, Pinker também parece ignorar toda a prosa anti-semita e racista publicada por alguns dos mais célebres e representativos filósofos das Luzes, como Voltaire, Hume e Kant, que escreveram linhas bem desagradáveis sobre judeus e negros. É à sombra desse tipo desultório de ignorância (os ingleses chamam-lhe, expressivamente, cherry picking) dos escritos mais polémicos dos filósofos das Luzes e do delineamento setecentista do que viria a ser o novíssimo racismo científico de Oitocentos – com o seu positivista pendor eugénico –, que Pinker constrói uma iteração do Iluminismo que se assemelha mais à democrática ideologia liberal explanada por Fukuyama no clássico da futurologia falhada The End of History and the Last Man (O Fim da História e o Último Homem, 1992) do que ao Iluminismo histórico.

Em 1750, Voltaire escreveu em Essai sur les moeurs et l’esprit des nations (Ensaio sobre os costumes e o espírito das nações): «Eles [os judeus] mantém intactos todos os seus costumes, que são o contrário daquilo que devem ser os correctos costumes sociais; assim, foram justamente tratados como um povo adverso a todos os outros, que eles apenas servem por ganância e ódio nascidos do seu fanatismo; transformaram a usura num dever sagrado.» E ainda: «Aquilo que mais a chocou [Émilie du Châtelet] foi ver que essas três ou quatro nações poderosas [Egipto, Grécia, Roma] eram sacrificadas nesse livro [Discours sur l'histoire universelle, de Bossuet] em benefício do pequeno povo judeu, que ocupa três quartos da obra. À margem, no final do discurso sobre os judeus, vemos esta nota escrita pelo seu próprio punho: pode-se falar muito sobre esse povo em teologia, mas ele quase nem merece lugar na história» [traduções minhas, itálico original]. A polímate Émilie du Châtelet, amante de Voltaire, foi uma das figuras femininas mais brilhantes do século das Luzes, mas, tal como o seu amado, achava que os judeus não mereciam um lugar na história. Hume, por exemplo, no ensaio XXIV do póstumo primeiro volume de Essays and Treatises on Several Subjects (Ensaios e Tratados sobre Vários Assuntos), publicado em 1758, escreveu o seguinte na quinta nota de rodapé: «Sou levado a suspeitar que os negros e, no geral, todas as outras espécies [sic] humanas (pois existem quatro ou cinco tipos diferentes) são naturalmente inferiores aos brancos. (…) Na Jamaica, é verdade, dizem que há um negro que é um homem versado e de saber, mas o mais provável é que ele seja afamado por aptidões muito inferiores, que nem um papagaio que é capaz de dizer com clareza algumas palavras» [tradução minha]. Seguindo directamente na esteira de Hume, Kant anotou em 1764 no seu Beobachtungen über das Gefühl des Schönen und Erhabenen (Observações sobre o Belo e o Sublime): «Fundamentais são as diferenças entre estas duas raças humanas [negros e brancos] e parece que são tão grandes no que diz respeito à capacidade mental, quanto no que concerne à cor» [tradução minha].

Transcrevo estes exemplos para mostrar que a “república das letras”, fervente cadinho de ideias inovadoras sobre os papéis dos homens e dos estados, foi, em suma, composta por homens e mulheres reais, de carne e osso, com as suas preferências, com os seus preconceitos e, em muitos casos, com crenças que hoje consideramos inadmissíveis, mas que à época eram aceites como científicas - eram consensuais. Na verdade, podemos trajectoriar o sentimento milenarista positivista que se decalca dos mais recentes livros de Pinker retrocedendo às crenças positivistas do período da Revolução Francesa e dos anos imediatos que se lhe seguiram, marcados por profunda hostilidade entre os pugnadores da positivista “vontade universal” e aqueles que por estes eram qualificados de “inimigos da raça humana”, ambígua classificação de época que não só categorizava padres refractários e monarquistas, como também camponeses (como os da Vendeia) e intelectuais discordantes. Da leitura do primeiro volume das Mémoires d’Outre-Tombe. 1768-1800 (Memórias de Além-Túmulo. 1768-1800) de Chateaubriand compreende-se pelo seu testemunho directo como a primeira fase da Revolução Francesa já estava animada pelo ferino espírito autoritário que caracterizou a fase assassina do Terror. Novas religiões civis criadas de raiz nessa altura, como o famoso Culto do Ser Supremo e, um pouco mais tarde, a comteana Religião da Humanidade, tinham como predicado a transformação da sociedade através do cientismo: a crença que a “boa razão”, materialista, lógica, científica, inauguraria no planeta uma nova era de paz e prosperidade. O nome de Auguste Comte é, neste âmbito, paradigmático: inventor da sociologia (palavra que o próprio inventou) e da positivista Religião da Humanidade, envisionou um mundo utópico em que o governo global seria científico e o conhecimento científico o padrão universal de todas as leis. Nos seus livros, inclusive naquele que ensina a escrever “cientificamente”, Pinker não propõe coisa diferente.

Aliás, em The Better Angels […] pode ler-se: «Parece que a [boa] Razão caiu em tempos difíceis. A cultura popular desabou para novos abismos de estupidez e o discurso político americano tornou-se uma corrida para o fundo do poço. Vivemos numa era de criacionismo científico, disparate New Age, conspirações sobre o 11 de Setembro, leituras psíquicas por telefone e ressurgente fundamentalismo religioso. (…) Apesar de toda a estupidez, as sociedades contemporâneas têm vindo a ficar mais espertas e, tudo somado, um mundo mais esperto é um mundo menos violento.» Este pequeno excerto revela o paradoxo de Pinker: por um lado, avança com a ideia que «a Razão caiu em tempos difíceis», para, em seguida, tirar da cartola o argumento que «um mundo mais esperto é um mundo menos violento», equacionando, à boa tradição positivista, o conhecimento científico à paz milenarista, como se conhecimento e aversão à violência fossem cognatos. As mudanças e os avanços tecnológicos sempre foram observados pelos utopistas como ferramentas salvíficas de uma humanidade na puerícia – desde os caminhos-de-ferro ao foguetão e até à Internet –, mas o advento da parúsia pacifista permanece ainda para além do horizonte.

O profeta Pinker bem pode pregar em milhares de páginas que aquilo que precisamos para corrigir os nossos erros é “Iluminismo, agora!”, mas, como vimos, as filosofias das Luzes não foram mais esclarecidas que as nossas próprias razões actuais, maculadas pelas nossas reprovações e exclusão daquilo que vai sendo considerado desviante da contemporânea ortodoxia científica – desviante do consenso. Somos igualzinhos aos nossos antepassados setecentistas: é que um Milénio, seja qual for a sua cartilha, não tolera a presença de discordantes.

(Imagem: algumas das obras de Pinker e uma tabela de The Better Angels [...] em que esse autor reordena relativamente catásftrofes globais por mortandade para defender a sua tese que a história está a ficar mais pacífica.)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Crowley, Pessoa e a Criança Eterna*

 
Escreveu o autor português João Gaspar Simões, primeiro biógrafo do poeta português Fernando Pessoa, que «charlatanismo e magia sempre andaram a par»[1], referindo-se ao imprevisível encontro deste com o mago inglês Aleister Crowley. Depois de ter ficado retido um dia suplementar no porto espanhol de Vigo, por culpa de um espesso nevoeiro, o paquete Alcântara finalmente atracou em Lisboa, no cais da Rocha do Conde de Óbidos, no dia 2 de Setembro de 1930 [2]. Ao encontrar-se com Pessoa, Crowley perguntou-lhe: «-Então que ideia foi essa de me mandar um nevoeiro lá para cima?»[3] Esta frase, mais ou menos apócrifa, mais ou menos real, tem-se esgueirado incólume entre as lâminas dos escalpelos empregues pelos exegetas; pois que outra coisa poderá significar, senão o facto de Crowley já ter compreendido, através do ritmo e entrelinhas da sua prévia correspondência com Pessoa [4], que este, de facto, não tinha muita vontade em encontrar-se com ele? Aquele encontro “mágico”, que se desenrolaria a partir daquele desembarque, fora, em larga medida, projectado à pressa por Crowley nos meses anteriores. Não é, pois, surpreendente que, em Setembro do ano seguinte, Crowley se queixaria por escrito a Pessoa por não receber notícias suas há bastante tempo [5]. Assim, por qual razão terá Crowley insistido em encontrar-se com Pessoa em Lisboa? Robert Bréchon, biógrafo francês de Pessoa, oferece uma contextualização lúcida a esse respeito: «É portanto um homem desesperado que, em Agosto de 1930, decide ir a Lisboa encontrar-se com Pessoa.»[6]
 
Crowley, claro, disfarçava esse desespero com atitudes provocatórias e comportamentos excêntricos [7], mas deve ter sentido, muito à flor da pele, que o seu território de caça se cerceava rapidamente: já tinha sido expulso de Itália, em Abril de 1923, por actividades subversivas e suspeita de simpatias comunistas [8]; fora expulso de França, em Abril de 1929, por suspeita de ser um espião a soldo dos alemães [9] (embora Crowley declarasse que o motivo tinha sido o facto de a polícia considerar que a sua máquina de café era, na realidade, um aparelho para destilar cocaína [10]). Em relação à animosidade que o próprio Reino Unido cevava contra ele, o jornal inglês John Bull congratulou-se com uma súmula de todas as proscrições: «Soon Hell will be the only place which will have you. You were driven out of England, America deported you and so did Sicily. Now France has given you marching orders.»[11] Nesta perspectiva aclara-se o motivo pelo qual Crowley decidiu encontrar-se com Pessoa: terá pensado que o poeta poderia ser um bom homem de mão – fluente em inglês – para ajudá-lo a criar em Lisboa (urbe voltada para o Atlântico, placa giratória entre as Américas e a Europa) uma dependência da ordem Argenteum Astrum (ou AA, como costuma ser grafada, de molde a permitir diversas interpretações [12]), que criara a 15 de Novembro de 1907 (conjuntamente com George Cecil Jones e J. F. C. Fuller)[13], e cujo texto basilar foi, precisamente, O Livro da Lei (Liber AL), escrito em 1904.

Investigações contemporâneas sobre o espólio documental de Crowley, referente ao seu encontro com Pessoa, revelam que o poeta português Raul Leal (que assinava com o pseudónimo Henoch e foi autor de Sodoma Divinizada, em 1923, entre outros trabalhos) recebeu Crowley no seu apartamento da Rua das Salgadeiras, no Bairro Alto, em Lisboa, no dia 9 de Setembro de 1930, para se submeter a algum tipo de iniciação de carácter esotérico [14]. Desde o início do ano, pelo menos, que Leal se correspondia com Crowley, visando, em específico, ser iniciado por este num caminho mágico [15]. Mais tarde, em Julho de 1950, o próprio Leal escreveu sobre esse secreto encontro a João Gaspar Simões, referindo-lhe a presença de Pessoa, mas não mencionou qualquer iniciação de pendor esotérico; somente escreveu que Crowley lhes tinha provocado, por via de um «maléfico» sortilégio, uma enigmática doença que, no caso de Pessoa, lhe provocara a morte cinco anos depois [16]. Segundo outra interpretação, o silêncio de Leal sobre a suposta iniciação poderá relacionar-se com o facto de esta ter consistido numa partida que lhe foi pregada por Crowley e Pessoa [17]. No que concerne à iniciação de Pessoa por Crowley numa das suas ordens, o argumento mais conspícuo cifra-se numa circular destinada em exclusivo a membros da AA e enviada por Crowley a Pessoa, datada de 21 de Março de 1932 [18]. Quer isto dizer que Pessoa seria um iniciado – um discípulo formal? Ou seria uma estratégia elegante de Crowley lhe chamar a atenção, sem se comprometer, posto que, como vimos, o poeta lhe deixara de enviar correspondência? Seja como for, o que é verdadeiro é que Pessoa e Crowley não se terão visto mais do que três vezes – no cômputo, um encontro fugidio.

Pese o facto de o encontro entre ambos não ter feito medrar frutos mais férteis, Fernando Pessoa e Aleister Crowley tinham bastantes realidades em comum: ambos foram criaturas moldadas por um rígido sistema educacional britânico, sob o qual era mal visto os rapazes demonstrarem as suas emoções (um sistema que fez Crowley explodir e Pessoa implodir) [19]; e ambos partilharam o mesmo sentido de humor truculento (a comprová-lo, o episódio da suposta iniciação de Leal?), o interesse pelas letras e pelo oculto. Para Pessoa, a iniciação era «uma admissão à conversação com os anjos» e a poesia o canal que conduzia a essa iniciação [20]; tal como para Crowley o canal para a conversação com o Sagrado Anjo da Guarda era a magia [21]. Mas a maior afinidade entre eles foi, certamente, a paixão pela pseudonímia.

 
Pessoa criou dezenas de heterónimos, personagens literárias com biografias, personalidades e estilos autorais distintos, com as quais assinava a maioria dos seus escritos; e Aleister Crowley criou dezenas de pseudónimos para assinar os artigos e ensaios que publicou em The Equinox e diversas personagens com as quais escrevia sobre si próprio nos seus livros. Já em criança, Fernando Pessoa criava personalidades fictícias para assinar pequenos versos, composições ou, simplesmente, para vestir essas peles em brincadeiras com os irmãos: Chevalier de Pas, Alexander Search, Capitão Thibeaut, Quebranto Oessus ou Adolph Moscow são algumas das primeiras personagens da infância pessoana, passada em Durban, na África do Sul [22]. Já em adulto, em Lisboa, Fernando Pessoa iria assumir uma espécie de metempsicose zoomórfica através da figura do Íbis: ave pernalta que na mitologia egípcia é avatar do deus Toth, o criador da escrita e da magia. Durante algum tempo, quando saía com a família, costumava parar de repente na rua para assumir a postura de um íbis, recolhendo uma perna e encostando o dedo ao nariz, para enorme embaraço de quem o acompanhava – era uma pantomima quasi-ritualística, à guisa de santo-e-senha de sociedade secreta [23]. Aleister Crowley tinha, também, uma brincadeira de rua com a qual espantava os amigos e os estranhos a quem procurava convencer da autenticidade dos seus poderes mágicos: consistia em seguir um transeunte, escolhido aleatoriamente, e imitar-lhe na perfeição os movimentos; quando atingia essa sincronia, simulava de repente uma queda e divertia-se imenso a ver o indivíduo desequilibrar-se sem perceber que força indesvendável o fizera tropeçar [24].

Contudo, superiorizando-se a todas estas afinidades de formação e de partilha de senso de humor e gosto pelo universo do oculto assomava uma enorme diferença: Crowley era um homem do mundo, um intrépido viajante, um extrovertido sem limites; Pessoa era um cidadão do imaginário e só viajava por algumas ruas da Baixa Pombalina – o máximo que se afastava de Lisboa era a distância que a apartava da cidade alentejana de Évora. Nem Pessoa seria capaz de acompanhar Crowley, nem Crowley seria capaz de manter-se quedo para fazer companhia a Pessoa. Uma única diferença pode escavar um fosso entre duas almas tão parecidas.

O encontro de Crowley e Pessoa tornou-se conhecido em virtude da brincadeira engendrada em volta do falso suicídio de Crowley no sítio baptizado de modo dramático de Boca do Inferno, em Cascais [25]. O local, acidente geológico em que uma gruta esgaivada pelo oceano Atlântico colapsou deixando aberta uma confragosa concavidade, decorada por um arco natural, impressiona pela força com que as águas chocam com as rochas; em principal, nos meses de Inverno. Hoje, uma placa memorialista recorda aos visitantes o ludíbrio imaginado por Crowley (para divertir-se à custa da sua desavinda namorada alemã Hanni Jaeger [26]) e coadjuvado por Pessoa. No entanto, na nossa opinião, o remanescente mais relevante desse encontro não consiste nesse golpe “publicitário”.

De facto, estudando as biografias destes protagonistas, pode constatar-se que 1930 cifra uma data de charneira nas vidas de Crowley e Pessoa, manifestando-se neles duas mudanças de admirável pendor análogo: ambos perderam rapidamente o interesse que mantinham no comentário político e enveredaram com maior serenidade no caminho esotérico. Em Crowley, essa serenidade é flagrante: o papel de verrinoso profeta do Éon de Hórus, a Idade da Criança Coroada e Conquistadora preconizada n’O Livro da Lei, deu lugar ao de um instrutor, de um mestre de magia – compare-se o estilo intenso e até revolucionário do livro sobredito [27] com a abordagem empática e paciente do livro Magick Without Tears, escrito ao longo da década de 1940 e publicado postumamente em 1954 (Crowley faleceu em 1947). São textos escritos por mentalidades totalmente diferentes. Pessoa, por outro lado, dedicou os seus últimos anos de vida (faleceu em 1935) a desenvolver o seu próprio sistema mágico: segundo alguns autores, denominou esse sistema por Caminho da Serpente [28]. É tentador projectar nestes percursos de vida uma transmigração de um para o outro de, pelo menos, parte das suas atitudes.

Pese a circunstância de a relação epistolar de ambos não ter ido além de 1931, apesar da insistência de Crowley, os dois comparsas provisórios conservaram gestos simpáticos de um para com o outro. Pessoa, por exemplo, ao abrigo da identidade de um detective inglês que inventou para escrever sobre o falso suicídio na Boca do Inferno, numa novela deixada incompleta, deixou um lúcido testemunho sobre Crowley – uma opinião que, sob o resguardo de uma perspectiva ficcional, se assume, parece-nos, com a maior das sinceridades:
«Um homem como Crowley põe um problema insolúvel às pessoas para quem todos os problemas devem ser insolúveis, por direito próprio. Ele apresenta-se ao mundo, simultaneamente, como um profundo ocultista e mago, e como uma espécie de charlatão. Não confirmo nem nego nenhuma das hipóteses. Mas a sua coexistência é perfeitamente possível. Ficaria muito surpreendido se ele fosse uma celebridade em termos práticos, um indivíduo conhecido, como Wells ou Shaw, que são, na verdade e na raiz das coisas, bem menos profundos e mais superficiais do que Crowley.»[29]
Crowley, que compôs uma leitura muito positiva de Pessoa, aquando da passagem por Lisboa, reteve o impacto que lhe provocara a poesia deste, não se coibindo de recomendá-la com entusiasmo a amigos e associados, em mais do que uma ocasião [30].

Em relação à poesia de Pessoa, em múltiplos aspectos ela harmoniza-se, se não com as intenções, no mínimo com a temática crowleyana – com um especial e específico múnus espiritual. Atente-se, em jeito de ilustração, a dois poemas: um do heterónimo Alexander Search e outro do heterónimo Alberto Caeiro, ambos sobre a temática do Puer Aeternus, a Criança Eterna. Em Regret, de Search, pode ler-se o seguinte: «I would that I were again a child / And a child you sweet and pure, / That we might be free and wild / In our consciousness obscure / (...)»[31]. Mais tarde, sob a identidade de Caeiro, Pessoa escreveu: «Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro. / Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava. / Ele é o humano que é natural, / Ele é o divino que sorri e que brinca.»[32] N’O Livro da Lei, o Senhor do Silêncio e da Força com cabeça de falcão não possui a ludicidade da Eterna Criança pessoana [33], embora seja, também, uma criança eterna – uma versão pós-industrial do arquétipo da Divina Criança, num recorte neojoaquimita [34].



*Texto de minha autoria, publicado originalmente em CROWLEY, Aleister, Liber Al vel Legis, O Livro da Lei, São Paulo, Chave, 2017, pp. 195-203.

 


[1] SIMÕES, João Gaspar, Vida e Obra de Fernando Pessoa. História de uma Geração, Lisboa, Livraria Bertrand, 1980, 4ª edição, p. 593.

[2] IDEM, ibidem, p. 601.

[3] Loc. cit.

[4] Iniciada por Pessoa, com uma carta enviada a The Mandrake Press, a 18 de Novembro de 1929. Cf. ROZA, Miguel (ed.), Encontro Magick de Fernando Pessoa e Aleister Crowley, Lisboa, Hugin Editores, Lda., 2001, p. 60.

[5] Numa carta datada de 18 de Setembro de 1931. In IDEM, ibidem, pp. 378-380.

[6] BRÉCHON, Robert, Estranho Estrangeiro. Uma Biografia de Fernando Pessoa, Lisboa, Quetzal Editores, 1996, p. 485.

[7] Como transformar em galeria de arte o quarto de hotel que ocupava em Londres no Verão de 1930 – foi expulso. In KACZYNSKI, Richard, Perdurabo. The Life of Aleister Crowley, Berkeley, North Atlantic Books, 2010, p. 448.

[8] CHURTON, Tobias, Aleister Crowley, the Biography. Spiritual Revolutionary, Romantic Explorer, Occult Master – and Spy, Londres, Watkins Publishing, 2012, p. 263-267.

[9] SUTTIN, Lawrence, Do What Thou Wilt. A Life of Aleister Crowley, Nova Iorque, St. Martin’s Press, 2000, p. 341.

[10] SYMONDS, John, The King of the Shadow Realm. Aleister Crowley: His Life and Magic, Londres, Duckworth, 1989, p. 437.

[11] Edição de 27 de Abril de 1929. Cf. KACZYNSKI, op. cit., pp. 439-440.

[12] Representações acronímicas pontuadas por triângulos formados por três pontos comportam, em determinados círculos esotéricos, a noção de que a ordem ou sociedade assim grafada se encontra, de um modo directo, na continuidade de Mistérios Antigos, de matriz clássica ou até pré-clássica.

[13] KACZYNSKI, op. cit., p. 173. A sede e o templo-matriz da AA situavam-se num apartamento alugado em Victoria Street, nº 124, na vizinhança dos jardins do palácio de Buckingham, cf. BOOTH, Martin, A Magick Life. A Biography of Aleister Crowley, Londres, Coronet Books, 2001, p. 264.

[14] PASI, Marco, “September 1930, Lisbon: Aleister Crowley’s lost diary of his Portuguese trip” (pp. 255-283), in Pessoa Plural, nº1, Providence, Brown University, 2012, p. 260. 

[15] Loc. cit.

[16] LEAL, Raul, “Carta de Raul Leal a João Gaspar Simões a propósito de “Vida e Obra de Fernando Pessoa” e de Aleister Crowley”, (pp. 54-57), in Persona, nº7, Porto, Centro de Estudos Pessoanos/Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1982.  

[17] DIX, Steffen, “An implausible encounter and a theatrical suicide – its prologue and aftermath: Fernando Pessoa e Aleister Crowley”, (pp. 169-180), in CASTRO, Mariana Gray de (ed.), Fernando Pessoa’s Modernity without Frontiers: Influences, Dialogues, Responses, Woodbridge, Tamesis Books, 2013, p. 180.

[18] ROZA, op. cit., pp. 390-392.

[19] Para Pessoa, ler, por exemplo, BRÉCHON, op. cit., pp. 61-67; e, também, QUADROS, António, Fernando Pessoa. Vida, Personalidade e Génio. Uma biografia «autobiográfica», Lisboa, Publicações Dom Quixote, 5ª edição, 2000, pp. 25-27. Para Crowley, observar o acontecimento fulcral narrado em CROWLEY, Aleister, The Confessions of Aleister Crowley. An Autohagiography, SYMONDS, John; GRANT, Kenneth (eds.), Londres, Arkana Books/Penguin Books, 1989, pp. 52-53. De igual maneira, o argumento expresso em HUTIN, Serge, Aleister Crowley. Le plus grand des mages modernes, Verviers, Editions Gérard & Cº, 1973, p. 74. Sem ser a última palavra sobre este período da vida do protagonista, não se ignore o relato mais “sensacionalista” publicado em KING, Francis, Mega Therion. The Magickal World of Aleister Crowley, s.l., Creation Books, 2004, pp. 9-10.  

[20] BINET, Ana Maria, “Pessoa, Fernando, 13.6.1888 Lisbon-30.11.1935 Lisbon”, (pp. 942-944), in HANEGRAAFF, Wouter J. (ed.); FAIVRE, Antoine; BROEK, Roelof van der; BRACH, Jean-Pierre (col.), Dictionary of Gnosis & Western Esotericism, Leiden, Brill, 2006, p. 943.

[21] Cf. CROWLEY, Aleister; DESTI, Mary; WADDELL, Leila, Magick. Liber ABA. Book Four, Parts I-IV, BETA, Hymenaeus (ed.), York Beach, Samuel Weiser, Inc., 2ª edição, 2000, p.112. Também PASI, Marco, “Crowley, Aleister (born Edward Alexander), 12.10.1875 Leamington, 1.12.1947 Hastings”, (pp.281-287), in HANEGRAAFF, op. cit., p. 285-286.

[22] NOGUEIRA, Manuela, Fernando Pessoa. Imagens de uma Vida, GALHOZ, Maria Aliete (apr.); ZENITH, Richard (pref.), Lisboa, Assírio & Alvim, 2005, p. 22.

[23] BRÉCHON, op. cit., p. 96; FERREIRA, António Mega, Fazer Pela Vida. Um Retrato de Fernando Pessoa, o empreendedor, Lisboa, Assírio & Alvim, p. 66.

[24] SUTIN, op. cit., p. 272.

[25] Também conhecido por Mata-Cães.

[26] Na verdade, Crowley já planeava forjar o seu suicídio há bastante tempo, cf. PASI, op. cit., p. 259, n. 17.

[27] No início do século XIII, já a reforma de Císter ia a meio-gás, o movimento milenarista medieval reforça-se inesperadamente com o desenvolvimento do Joaquimismo: corrente criada em volta das ideias do frade cisterciense calabrês Joaquim de Fiore, falecido em 1202 (a Calábria é a biqueira da "bota" italiana e nessa altura fazia parte do reino da Sicília). Em essência, o modelo milenarista joaquimita consiste numa visão macro-histórica das origens e destino da humanidade, formada por Três Idades, à semelhança da Santíssima Trindade: a pretérita Idade do Pai (os eventos narrados no Antigo Testamento), a presente Idade do Filho (os eventos narrados no Novo Testamento e a Era da Igreja) e a vindoura Idade do Espírito Santo (um período emergente de profunda contemplação espiritual, perfeição e paz). Joaquim de Fiore criou esta doutrina através do estudo do livro Apocalipse e calculou que a Idade do Espírito Santo despontaria em 1260. Três anos depois dessa data, no Sínodo de Arles, o Papa Alexandre IV condenou o Joaquimismo como sendo uma perigosa heresia. Por que é que uma Idade do Espírito Santo, plena de profunda contemplação, perfeição e paz, consistia numa perigosa heresia? Embora a profunda contemplação, a perfeição e a paz joaquimitas fossem conceitos com os quais, em princípio, a Igreja não teria grandes dificuldades em lidar, Joaquim de Fiore também profetizou que a Idade do Espírito Santo traria o desmantelamento definitivo de todas as estruturas eclesiásticas - e isso é que a Igreja não podia tolerar; daí a condenação tout court do Joaquimismo (na verdade, o Papa Inocêncio III já o tinha condenado, mas apenas em parte, em 1215, no IV Concílio de Latrão). Independentemente disso, o Joaquimismo fez furor entre os franciscanos, que sempre foram, de certa forma, bastante anti-institucionais e, ao longo dos séculos vindouros, o milenarismo joaquimita provou ser um poderoso algoritmo, capaz de adaptar-se e dar sentido a um florilégio estonteante de ideias milenaristas de várias proveniências. Entre elas, o milenarismo crowleyano.

Não reste dúvidas que a narrativa apocalíptica de The Book of the Law (até este título é o mesmo nome que os judeus dão ao Pentateuco) é, em essência, uma nova versão do velho ideal milenarista, apocalíptico – em maior espessura, do milenarismo de recorte joaquimita. Na visão milenarista de Aleister Crowley, desenvolvida em The Book of the Law, pedra basilar do edifício de Thelema, as Três Idades são as seguintes: a Idade da Mãe (uma idade que simboliza uma hipotética madrugada histórica matriarcal, cujo narradora é Nuit, a deusa egípcia da Noite), a Idade do Pai (a idade das religiões patriarcais e monoteístas, cujo narrador é Hadit, noivo de Nuit) e a Idade do Filho (o Novo Éon, o início de uma nova idade cósmica, narrada por Ra-Hoor-Khuit, jovem deus rebelde e vingativo, identificado com Harpócrates: o deus grego do silêncio, baseado nas representações infantes do deus egípcio Hórus, o Sol recém-nascido). Assim, pode também dizer-se que Nuit é identificada com Ísis e Hadit com Osíris. Neste modelo milenarista contemporâneo, sincrético, a energia iconoclasta e indomável da juventude, representada pela Idade do Filho, combate com violência o poder institucional e autoritário, mas decadente, moribundo, da Idade do Pai. É, de facto, uma narrativa "revolucionária" que instiga uma mudança violenta contra o estado das coisas – daí, na altura, ter sido entendida como propaganda radical de Esquerda. Para Crowley, o advento do Novo Éon, do qual ele se apresentou como profeta, na mesma linha dos profetas veterotestamentários e de Cristo, seria uma ruptura violenta acompanhada de terramotos e guerras. Quando os efeitos catastróficos se dissipassem, instalar-se-ia, como esperado e costumeiro nas ideias milenaristas, a iluminação (thelemita) num período solar de progressão espiritual.

[28] Vid., entre outros, ANES, José Manuel, Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos, Lisboa, Ésquilo, pp. 144-152; CENTENO, Yvette K., Fernando Pessoa, Magia e Fantasia, Porto, Edições ASA, 2003, pp. 62-75, 81-88; FREITAS, Lima de, “O esoterismo na arte portuguesa” (pp. 176-213), in AA.VV, Portugal Misterioso, Lisboa, Selecções do Reader’s Digest, 1998, pp.206-213; FREITAS, Lima de, Porto do Graal. A Riqueza Ocultada da Tradição Mítico-Espiritual Portuguesa, FREITAS, José Hartvig de (pref.), Lisboa, Ésquilo, 2006, pp. 255-282. Sobretudo, ler PESSOA, Fernando, “XI – Para a obra intitulada «O Caminho da Serpente»”, in QUADROS, António (pref., org., not.), Obra em Prosa de Fernando Pessoa. A Procura da Verdade Oculta. Textos Filosóficos e Esotéricos, Mem-Martins, Publicações Europa-América, s.d., pp. 212-219.    

[29] PESSOA, Fernando, “A Boca do Inferno. Novela policiária” (pp. 399-529), in ROZA, op. cit., p. 501. (Sublinhado nosso. A partir daqui todos os sublinhados em citações são nossos.)

[30] PASI, Marco; FERRARI, Patricio, “Fernando Pessoa and Aleister Crowley: new discoveries and a new analysis of the documents in the Gerald Yorke collection” (pp. 284-313), in Pessoa Plural, nº1, Providence, Brown University, 2012, pp. 289-290.

[31] PESSOA, Fernando, Alexander Search. Poesia, FREIRE, Luísa (ed., trad.), Lisboa, Assírio & Alvim, 1999, p. 108. 

[32] Alberto Caeiro, apud BRÉCHON, op. cit., p. 235.

[33] Cf. CROWLEY, Aleister, The Book of the Law, York Beach, Weiser Books, s.d., p. 49.

[34] Vid. supra, n. 26.