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terça-feira, 4 de agosto de 2020

Pequenas Histórias, ep. 4: "A Peste e o Tempo (freg. da Penha de França)"


Quarto episódio de Pequenas Histórias: em A Peste e o Tempo (freguesia da Penha de França) continua a discorrer-se sobre a história das ideias com uma freguesia de Lisboa como pano de fundo, elegendo como temas o Tempo e a Peste: o fluxo e a descontinuidade.

Da Praga de Atenas de Tucídides à teoria da direcção do tempo de Hans Reichenbach, da vacina de D. João II à morfogénese de René Thom, do Lagarto da Penha de França à ciência imunológica de Élie Metchnikoff, examinar-se-ão os fenómenos da passagem do tempo e dos efeitos de pandemias e epidemias em mudanças irreversíveis do decurso da história.

Uma viagem pela história das mentalidades e das ideias com uma freguesia de Lisboa como pano de fundo.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Mapa do sofrimento


A Itália é a mãe material e espiritual da Europa.

Foi a partir da Itália que a Europa se desembrulhou, de blástula helenizante para infante império sob égide romana, capilarizando toda uma cultura e uma civilização — cuja matriz ainda nos marca, tal a sua força telúrica e moral. Foi, também, da Itália que a partir do século XIV se operou vitoriante um rejuvenescimento civilizacional que imprimiu novos rumos a uma Europa aleijada pela Peste Negra e por outras calamidades: no dealbar do Renascimento, nenhum outro reino ou entidade política europeia se podia sequer comparar à enorme sofisticação da cultura, da arte e do pensamento italianos — um caveat para alguns políticos setentrionais contemporâneos que têm o péssimo vício de falar com displicência dos países do sul.

Da Itália proveio toda uma linhagem de pensamento sem a qual a sociedade hodierna viveria no bisonho casebre da rudeza mental. Reconhecendo a dívida que temos para com a nossa mãe europeia, publico aqui a cabeça de um velho feita em terracota nos últimos anos do século XV pelo artista renascentista Guido Mazzoni: na sua sulcada expressão cada ruga produzida por diferentes anos de vida podia fazer parte de um mapa do sofrimento que sentiram os milhares de mortos italianos, vítimas da covid-19 — a maioria (ainda) idosos e doentes.

Assim, mais do que arengas de pseudo-solidariedade oriundas das várias cores do espectro político, prefiro olhar para o rosto deste velho e ler nele pistas históricas e transcendentes: políticas e ideologias vêm e vão, tão fátuas e fúteis como o estrume com que se tenta adubar um sáfaro solo — aquilo que de facto importa é inatingível, invisível e interior. Está dentro de nós, nunca desaparecerá e não duvido que nesse incerto futuro que nos aguarda o contributo italiano continuará a ser enriquecedor, incisivo e belo.