sábado, 3 de outubro de 2009

Desinformação

Apesar de ainda não o ter visto, soube que foi editado há pouco tempo o romance Passageiros da Neblina, da autora espanhola Monserrat Rico Góngora, que, tal como o meu A Conspiração dos Antepassados, fala sobre o encontro de Fernando Pessoa e Aleister Crowley na Lisboa de 1930. Hoje de manhã encontrei na net uma entrevista que essa escritora deu ao Diário de Notícias e fiquei muitíssimo surpreendido: pela negativa.

O problema é meu, porque como levo o ofício da escrita a sério, assumo que a maioria dos escritores também o fazem. Por conseguinte quando Góngora diz na entrevista que «Crowley era uma pessoa depravada, tinha praticado em Itália rituais de canibalismo que resultaram numa ordem de expulsão do próprio Mussolini. Sabe-se que vampirizou pessoas na Índia e esteve ligado a cultos satânicos (...)» e, ao mesmo tempo, afirma numa entrevista ao site Portal de Livros que «técnica e credibilidade obtém-se com anos de esforço e investigação» eu interrogo-me sobre quanto «esforço» e «investigação» é que ela terá dedicado à vida de Aleister Crowley, personagem sobre a qual decidiu escrever.

Não vou calçar luvas de pelica: afirmações deste género só têm o objectivo de titilar os potenciais leitores e não servem em nada para esclarecer as vidas das personagens (reais) que, supostamente, servem de motor à narrativa. Eu li todo o material biográfico relevante disponível sobre Aleister Crowley (assim como o disponível sobre Fernando Pessoa) e não encontrei uma única linha que pudesse corroborar as supracitadas afirmações da escritora espanhola.

Na verdade, Crowley tentou criar uma seita (mais de inspiração literária que verdadeiramente religiosa) em Cefalù, na Sicília, mas não foi expulso por culpa de «rituais de canibalismo» nenhuns, nem sequer foi expulso por culpa da (esta, sim, verdadeira) morte acidental de um discípulo. Crowley foi expulso da Itália por Mussolini porque os fascistas acharam que Crowley estava a criar uma célula comunista à porta da casa deles. Aliás, quando Crowley publicou O Livro da Lei, este foi recebido pela maioria dos leitores como sendo um livro comunista e a aura de simpatizante do regime soviético não o abandonou durante esses anos. Terá até sido essa uma das razões pela qual ele se lembrou de enviar uma cópia d'O Livro da Lei a Hitler, quando este "ganhou" as eleições na Alemanha: para mostrar que não era comunista nenhum.

Mas é claro que dizer isto numa entrevista não é tão titilante como dizer-se que Crowley era satanista (no sentido mais vulgar da palavra) ou canibal. A verdade histórica raras vezes pode ser reduzida a soundbytes desse género.

Não li o livro Passageiros da Neblina, mas se este tipo de «esforço» e «investigação» é aquele que pautou a escrita dele, então dispenso, muito obrigado.
É que levo demasiado a sério o ofício da escrita - e a investigação séria e rigorosa que está por trás desse labor - para, sequer, achar piada a este tipo de "intervenções".

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O "cinema" está de volta

«O 'direito do primeiro ocupante', embora não seja mais real que o 'direito do mais forte', não se torna um verdadeiro direito até que se institua a propriedade. Cada homem tem um direito natural a possuir aquilo que precisa (...) Como pode um homem ou um povo usurpar um vasto território e manter afastados todos os outros, senão pela usurpação criminosa - já que o acto privaria o resto da humanidade do abrigo e da comida que a Natureza tem para dar, a todos em comum?»
Jean-Jacques Rousseau, Du Contrat Social: Ou Principes du Droit Politique.


Iniciar um comentário ao filme District 9, de Neil Blomkamp, com um excerto de O Contrato Social, de Jean-Jacques Rousseau, é correctíssimo e depois de verem o filme irão perceber porquê, já que ele pode ser entendido como uma alegoria sobre os terrores do regime sul-africano segregacionista do Apartheid (Blomkamp, que é branco, nasceu na África do Sul e não é inocente a escolha do enredo de District 9 se desenrolar nesse território). Porém, o filme é vasto o suficiente para permitir outras leituras.

Há mais de vinte anos, desde a estreia de Aliens, de James Cameron, que eu não via um filme assim.
District 9
não faz concessões, a não ser a de querer manter as emoções e o intelecto do espectador ao rubro. Não se vislumbram nenhuns momentos de comic relief, nem sidekicks adolescentes, muito menos a montagem frenética - devedora dos videojogos - que, infelizmente, se tornou mandatória naquilo que é suposto ser um blockbuster de acção. Na verdade, a estreia de Blomkamp (29 anos de idade) como realizador parece ter andado a vogar no limbo (como a nave extraterrestre de District 9) durante a segunda metade dos anos oitenta e a década de noventa do século passado para, neste momento, nos cair em cima. E que falta nos fazia!

Há pertinência, poesia e rebeldia em District 9. Das verdadeiras.
Há referências explícitas (sem caírem na foleirice do pastiche, note-se, o que é notável) a cineastas como Cameron, Cronenberg, Verhoeven, Carpenter e ficamos a pensar que este era o tipo de filmes que eles deviam andar a fazer.

Várias vezes se usa o adjectivo "clássico" para cifrar a suposta qualidade de obras nossas contemporâneas, mas este será um dos raríssimos casos em que essa palavra é a única que serve de classificação: District 9 é um clássico. Em parelha com The Descent, de Neil Marshal, (este título no género do Horror), consiste num filme moderno que é capaz de se transcender e encontrar um lugar perene na memória cinematográfica (como Aliens, The Fly ou Robocop fizeram). É claro que os detractores dos ditos géneros menores continuarão a dizer cobras e lagartos deste género de filmes, mas são eles, mais que os outros, considerados "eruditos", que nos mostram soluções para os nossos problemas e os comentam com uma força e pertinência que não se encontra em mais lado nenhum.

Vão ver District 9, já! Não hesitem nem por um segundo.
É o cinema "a sério" (adulto, violento, inteligente) que está de volta.

domingo, 27 de setembro de 2009

O processo

O realizador de cinema Roman Polanski foi detido na Suíça e aguarda a extradição para os EU, por culpa de um mandato de captura emitido, em 1978, no decurso de um processo em que foi acusado de violação de uma menor. A história deste processo não consiste em nenhuma novidade para quem se interessa por cinema, e pelo cinema de Polanski, em particular, mas talvez nenhum cinéfilo esperasse que ele fosse, finalmente, capturado, passados todos estes anos.
Aparentemente, a partir de agora, vai passar o resto da vida dele na prisão.

Não vou discorrer sobre se Polanski merece (ainda) ser castigado ou não por esse suposto crime que cometeu, há mais de trinta anos, e cujas circunstâncias se encontram documentadas em diversas fontes disponíveis - de modo que qualquer interessado na matéria pode informar-se e formular a sua própria opinião. Talvez ele mereça ser preso, talvez não: avaliar isso compete a quem de direito, claro está. Mas se não tenho opinião sobre isso, tenho uma opinião sobre outra coisa.

Polanski é um artista. Deixou-nos obras belíssimas que, de certeza absoluta, serviram de inspiração a centenas de pessoas e a outros artistas. Mais que isso, sempre foi um realizador que desbravou caminho com os seus filmes, mostrando que fazer cinema podia e deveria ser um exercício pertinente de imagem e linguagem. Estamos a falar do homem que realizou The Fearless Vampire Killers, Repulsion, Rosemary's Baby, Tess, The Pianist, The Ninth Gate, Pirates, entre tantos outros. Portanto, a minha primeira pergunta é a seguinte: o nosso mundo não seria um pouco mais pobre sem estes filmes? E sem aqueles que Polanski ainda poderia realizar, daqui em diante? Teria valido a pena deter Polanski, em 1978, sabendo que, dessa forma, ele nunca nos poderia ter dado The Pianist, por exemplo, um filme que, provavelmente, contribuiu mais para criar um mundo justo e com melhor memória que qualquer pena de morte ou de prisão perpétua já sentenciadas?

Eu não sei se Polanski merece ser preso (ainda) ou não.
Só sei é que o mundo é um lugar melhor com ele cá fora. Disso, tenho a certeza.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

MUCHA - Lançamento

Mucha, o meu novo álbum de banda desenhada, ilustrado por Osvaldo Medina e Mário Freitas, está quase a chegar: o lançamento será no sábado 24 de Outubro, às 16H00, no Fórum Luís de Camões, espaço onde irá realizar a 20ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. O álbum também será alvo de uma exposição temática, com as pranchas originais e outras surpresas.
Uma edição da Kingpin Books.


terça-feira, 22 de setembro de 2009

Eles comem tudo, eles comem tudo...

(Da esquerda para a direita: João Seixas, Ricardo Duarte (o moderador da tertúlia), Rui Pedro Baptista
que, infelizmente, nesta imagem não aparece, e eu.)


... eles comem tudo e não deixam nada.
Nada?!
Nada como uma vampirada em pleno período de campanha eleitoral, desta feita na Praça Luís de Camões, promovido a nova zona erógena de Lisboa desde que castraram o Bairro Alto. Depois de uma dose de cultura alucinante, oferecida de bandeja por mim, por João Seixas e Rui Baptista, por cortesia da Editora Objectiva que se lembrou de organizar este excelente espaço de convívio em volta dos livros, o público ficou exangue. A conversa sobre vampiros na literatura fez-se com o livro A Estirpe, de Guillermo Del Toro e Chuck Hogan, como eixo. Eu já li e recomendo: é uma história intensa, com substrato referencial e, felizmente, sem o sentido de humor adolescente de "coisas" que por aí andam a sair ao Sol e que - essas sim! - metem medo pelos motivos errados. Ora quem trata os vampiros por tu não irá ter medo nenhum d'A Estirpe; pelo contrário, vai divertir-se e ficar à espera do próximo volume.

(Da esquerda para a direita: João Seixas, Ricardo Duarte, Rui Pedro Baptista e eu.)

domingo, 20 de setembro de 2009

A Conspiração dos Antepassados

Neste mês comemora-se o septuagésimo nono aniversário da visita que o mago inglês Aleister Crowley fez ao poeta português Fernando Pessoa, em Lisboa. Esta ocasião lembrou-me de avisar que a edição especial do meu romance A Conspiração dos Antepassados (Saída de Emergência, 2007), sobre esse encontro (e não só) que já teve duas edições, vai sair no primeiro semestre do próximo ano, mesmo na peugada do meu novo romance que será editado para meados de Fevereiro.

Para quem já leu A Conspiração dos Antepassados, deixo a menção que a edição especial terá algumas surpresas... Para quem ainda não leu, e deseja descobrir que motivos terão levado Aleister Crowley a encontrar-se com Fernando Pessoa, e o que é que o mito sebástico e a obra do artista renascentista português Francisco D'Ollanda têm a ver com isso, deixo um convite para que o leiam e o levem com vocês para casa (façam, pois, o download do primeiro capítulo).

Aproveito, também, para divulgar a entrevista que dei ao site O Major Reformado, de Nuno Hipólito, aquando da publicação da primeira edição do romance.

Para terminar, e para quem se interessa sobre a vida e a figura de Aleister Crowley, ficam dois excertos de uma palestra que eu dei no Fórum Fantástico (evento organizado pela Associação Épica) e que se dedica a divulgar o género Fantástico nas artes. A palestra teve como tema as ligações entre as personagens principais do romance, assim como exposições sobre temas do esoterismo português e europeu que se relacionam com a narrativa (os excertos foram filmados por Miguel Garcia).



quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Animais novos (e velhos)

Duas criaturas novas que eu adquiri. O novo livro de Richard Dawkins, The Greatest Show on Earth: The Evidence for Evolution e...

... o romance 2666 de Roberto Bolaño.

Estou ansioso em relação aos dois, claro, mas como Bolaño é, ainda, animal criptozoológico no meu biblestiário (e Dawkins é velho conhecido, lido e relido e trirelido) é sobre ele que a curiosidade se debruça de modo mais inquisitivo: será tão bom como andam por aí a dizer?... É capaz, é capaz, mas de autores geniais estão as minhas estantes cheias, dos mais obscuros aos mais afamados, por isso a concorrência vai ser forte. É a tal lei da selecção natural de que falava Darwin. Hum!... Dawkins e Bolaño... Faz todo o sentido, pelos vistos. Ou fará. Depois de ler, logo vos direi.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Afiem os dentes!


No próximo fim de semana (dias 19 e 20), a editora Objectiva promove um evento ambicioso: dois dias, ininterruptos, dedicados aos livros e às conversas que os orbitam, pelas vozes de autores, editores e leitores. Trata-se, pois, de um encontro que os bibliófilos e os curiosos de ocasião não devem perder, na Praça Luís de Camões.

No âmbito deste evento, e na noite de sábado para domingo, a partir das 23H30, irei participar numa tertúlia literária, cujo tema são os vampiros: A Literatura Fantástica e o Universo Vampírico.
Em conjunto com João Seixas, Maria do Rosário Monteiro, Rui Baptista e Pedro Sena Lino, a conversa terá como mote a edição portuguesa do livro A Estirpe (The Strain) do realizador de cinema Guillermo del Toro e do escritor Chuck Hogan, primeira parte de uma trilogia sobre uma epidemia de vampirismo.
Recebi o livro hoje e pelo que já li parece-me bem feito, com todas as coisas nos sítios certos. Tem, também, um certo ambiente construído "à maneira antiga", que deverá casar muitíssimo bem com o dinamismo que a narrativa principal promete.

Amantes de literatura de horror, fãs de histórias com vampiros ou, simplesmente, insones que andem a velar pelo centro da cidade, são bem-vindos. Haverá, certamente, lugares para todos.

De quinta-categoria

Já alguém ouviu falar no escritor canadiano Robertson Davies (1913-1995), autor de inúmeros romances, contos, ensaios e libretti?
Até há poucos dias, este autor era, para mim, um desconhecido, até que um email que me foi enviado por um site onde, normalmente, costumo comprar livros antigos mostrou-me uma lista de recomendações, nas quais figurava a Trilogia de Depford de Davies. A descrição intrigou-me, de imediato, e mandei-a vir. Acabei de ler o primeiro livro da trilogia, intitulado Fifth Business, e fico feliz por revelar que se trata de um livro absolutamente extraordinário.

Já há algum tempo que não lia um livro tão bom.
Mágico, irónico, inteligente, surpreendente, são palavras que, na ressaca da leitura, me parecem todas ineficazes para evocar os sentimentos que esta obra incitou.
A história tem início na aldeia canadiana de Depford, cadinho em que são formadas as personagens que iremos seguir ao longo de três volumes, cada um concentrado em demonstrar a vida de uma das três personagens que esteve envolvida num bizarro acidente: um miúdo atirou uma bola de neve a outro, mas este esquivou-se e o projéctil atingiu uma mulher grávida, provocando um parto prematuro. O bebé, nascido quatro meses antes do tempo, sobreviveu e, passados uns anos, tornou-se um famoso ilusionista. O miúdo que atirou a bola escamoteou a culpa da memória e transformou-se num riquíssimo homem de negócios. O labéu caiu, pois, no colo daquele que se esquivou. Roído pelas dúvidas e pelos remorsos, a personagem principal de Fifth Business, o professor universitário e hagiógrafo extraordinário Dunstan Ramsay, vai tornar-se o protector da mulher lesada, ao mesmo tempo que vê nela uma espécie de santa. Será que é mesmo?

O título Fifth Business alude à designação dramatúrgica pela qual são chamadas as personagens que estão ao serviço da fluidez narrativa de uma peça teatral: não são as principais, nem as secundárias, quanto muito podem chamar-se as de "quinta categoria". Ou seja, no pequeno drama que consiste o incidente da bola de neve, Ramsay vê-se como uma personagem de quinta categoria: alguém essencial ao desenvolvimento dos acontecimentos, sem dúvida, mas que se encontra à margem dessas minuciosidades. Será que é assim? Será que a leitura que a personagem faz de si própria corresponde à realidade? E, se não corresponde, porque é que ela pensa dessa forma?

Fifth Business contém passagens excepcionais, assim como monólogos inesquecíveis, vindos das bocas das mais excêntricas criaturas, como, por exemplo, o padre jesuíta que se torna amigo de Ramsay. Descobri numa pesquisa que fiz no Google que existe uma edição - algo obscura? - deste romance em português do Brasil (O Quinto Personagem), mas, mesmo assim, penso que não será errado dizer que ele é um tesouro (infelizmente) ainda por descobrir. Quem souber ler em inglês, descubra-o na versão original, já! Neste preciso momento. Vão à Amazon ou a outro site qualquer do mesmo género e comprem Fifth Business sem hesitar.

Não se trata de um romance de literatura fantástica, mas o tom e os acontecimentos aproximam-no com elegância desse género, deixando magia nas pontas dos dedos, mais ou menos parecida com o pó das asas de uma borboleta. É um livro bom que se farta. É um livro como já não se fazem. É, de certeza, "aquele" livro que vocês querem ler.
M-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o-!

(Assim que tiver lido os volumes seguintes da trilogia irei escrever sobre eles.)

sábado, 12 de setembro de 2009

Madeira!

Hoje à tarde fui dar um passeio a pé e entrei numa livraria da minha vizinhança, a qual não visitava há uns meses, e, de modo descontraído, agarrei num dos livros de literatura fantástica, escrita por novos autores portugueses, que foi publicado há pouco tempo. Li a contracapa, a primeira página e não precisei de ler mais nada para perceber que aquilo era mau. Desculpem lá a arrogância, mas já leio há anos suficientes para perceber quando um livro é bom ou mau.

Não vou revelar o nome do livro, do autor nem sequer o da editora, porque, para ser sincero, não sou crítico e não me fica bem estar a ir mais longe do que estou a ir, mas, para ser sincero outra vez, não posso deixar de expressar a minha opinião sobre o que está a suceder no campo da literatura fantástica escrita e editada em português. Vou ser o mais sintético possível, porque aquilo que tenho para dizer resume-se em poucas palavras.

Em primeiro lugar, tenho a ideia de que um género, enquanto identidade (à falta de melhor nomenclatura) de uma obra artística, deve ser avaliado pelos melhores trabalhos que os autores que nele encontram um modo de expressão têm para oferecer e não pelos piores trabalhos que, de uma forma ou de outra, acabam por vir à superfície. Penso que isto é importante, porque de outra forma será impossível mostrar ("convencer" é uma palavra com um lastro demasiado pesado) aos detractores do género Fantástico que ele serve de parteira a obras inteligentes, pertinentes e capazes de rivalizar com os melhores trabalhos acolhidos pela literatura dita erudita. Ou seja, não será, com certeza, com o tal livro que eu encontrei hoje à tarde que os académicos, os críticos ou até os leitores comuns, adversos ao género Fantástico, irão persuadir-se que ele serve de arauto a obras literárias capazes de prolongar o impacto da recepção após a leitura. Talvez nunca irão persuadir-se disso, até, mas, ao menos, dêem-lhes hipótese de mudarem de ideias.

Estou cansado de viver nestes tempos politicamente correctos em que tudo tem o mesmo peso e a mesma importância: não é verdade. As coisas não têm todas o mesmo peso. As coisas não têm todas a mesma importância.
Escolhas editoriais desta natureza, baseadas somente na percepção de que o género Fantástico atravessa um período de popularidade junto do público, sem quaisquer critérios que as orientem, ainda poderão vir a ter consequências aborrecidas daqui a uns tempos. Pelo que me diz respeito, ainda bem que a literatura fantástica atravessa uma fase de grande popularidade (acho que devia ser ainda mais popular), mas é preciso ter em mente que nem tudo aquilo que, à partida, se pode inscrever como literatura fantástica vale a pena ser publicado. Ou melhor: escrito.

Às vezes acho que ainda ninguém deu conta que estamos a falar de livros.
Não é suposto um livro ser uma coisa séria?
Mesmo um livro humorístico é uma coisa séria - eu acho que The Third Policeman, de Flann O'Brien, por exemplo, é um livro sério que se farta, apesar de ser humorístico. Eu acho que Jerusalem Poker, de Edward Whittemore é um livro sério que se farta, apesar de ser humorístico. Porque é que há outros livros que, mesmo não sendo humorísticos, como aquele que eu encontrei hoje, não são sérios?
Acho que a resposta é óbvia: porque os autores não se levam a serio.
Ora, se eles próprios não se levam a sério, porque carga de água é que os leitores devem levá-los a sério?
Porque é que os leitores devem pagar mais de vinte euros por um livro mau? Porque é que os leitores devem pagar mais de vinte euros por um livro mau que, flagrantemente, foi escrito por um autor que não conhece o género em que quer ingressar? Aliás, porque é que ele quer ingressar neste género, em primeiro lugar?
Eu acho que estas perguntas são importantes, porque acho que a literatura é uma coisa importante - não deve ser tratada com leviandade. Criar não deve ser tratado com leviandade.

Não tenho respeito por um escritor que queira escrever literatura fantástica e não conheça o género Fantástico. Vocês acham que um aspirante a escritor de literatura dita erudita é olhado com complacência pelos académicos quando demonstra ignorância sobre determinados autores que fazem parte do cânone? Então porque é que isso acontece no campo da literatura fantástica? Porque é que não insistimos que um escritor, um crítico, um editor - um leitor - de literatura fantástica deva conhecer os melhores representantes do género? Aliás, como é que alguém quer escrever literatura fantástica sem ter lido aquilo que outros escritores já fizeram?

Estou a olhar para as minhas estantes e vejo montes de livros que, de certeza absoluta, só meia-dúzia de gente deste país é que já os leu. Seria interessante perguntar ao autor do livro que eu encontrei hoje se já leu alguma coisa escrita por Gene Wolfe, Mervyn Peake, Michael Swanwick, Sinclair Lewis, Thomas Disch, John Wyndham, Alfred Bester, Clive Barker, William Hope Hodgson, Edward Carey, E. R. Eddison, Poppy Z. Brite, Thomas Ligotti, Shirley Jackson, Walter M. Miller e outros que eu poderia estar aqui horas a fio a transcrever. É que o género Fantástico não se resume à Juliette Marillier, ao Neil Gaiman e à Stephenie Meyer. Acho que está na altura de começarmos a levar as coisas a sério, se queremos que o género Fantástico seja olhado com outros olhos pelos leitores que o desdenham porque têm preconceitos, ideias feitas ou medo - porque não dizê-lo? - desse tipo de literatura.

Isto faz-me lembrar a velhíssima interrogação metafísica sobre se uma árvore que cai na floresta sem que ninguém esteja lá para ouvir faz ruído quando bate no chão...
Será que quando um livro mau é publicado, e não existam leitores capazes de perceber se ele é bom ou mau, ele é, de facto, mau?

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Três Mestres do Horror no MOTELx

Neste link podem ver alguns excertos da Masterclass de Stuart Gordon, moderada por mim. É bom ver que o cinema de horror e, neste caso, as reflexões que a ele vêm associadas e que as suas imagens suscitam são capaz de encher uma sala com ouvintes interessados.

Outro mestre do cinema de horror que o público teve o privilégio de ouvir foi António de Macedo, presente no festival para apresentar o seu filme A Maldição de Marialva: história passada no Portugal medievo e que se baseia numa versão beirã da lenda da Dama de Pé de Cabra. Um belíssimo filme, com uma fascinante fotografia, servido por uma reconstituição histórica tão arrojada quanto apurada. A cenografia engenhosa faz-nos acreditar que estamos, de facto, diante de um castelo e de uma aldeia do século X, quando, na verdade, a maioria das cenas foram filmadas em estúdio - um feito que, sem nenhum pudor, coloco em equivalência com a extraordinária recriação de Tânger feita em estúdio por David Cronenberg em Naked Lunch.

John Landis veio ao MOTELx para apresentar a versão remasterizada de An American Werewolf in London e para falar ao público numa Masterclass moderada por Filipe Homem Fonseca. Podem ver excertos dessa Masterclass aqui.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Horror à janela


O meu álbum de banda desenhada, Mucha, está quase pronto. É desenhado por Osvaldo Medina, arte-finalizado por Mário Freitas e será apresentado no próximo Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. Uma edição da Kingpin Books, com introdução de Pedro Moura.

Mucha é um álbum que aguardo com entusiasmo. É uma história de horror maduro (adulto), sem concessões e momentos humorísticos para aliviar a tensão, desenhada ao estilo neo-gótico dos comics Tales From the Crypt e House of Mistery. Em suma: é feio, puro e duro. O que não desvirtua a mensagem que lhe está contida, mas essa descodificação é trabalho dos leitores.

O meu novo romance está acabado, como sabem, e será editado no início de 2010, provavelmente em meados de Fevereiro. Posso garantir-vos, meus leitores, que têm aqui muito que ferrar o dente: personagens complexas, um ambiente de cortar à faca e, claro, o rigor consorciado com o horror. Mas, até lá, Mucha faz-vos companhia.

Ontem fui à abertura do MOTELx e gostei do filme: Rogue, sobre um crocodilo gigante que come turistas atrás de turistas enquanto o Diabo esfrega um olho. O filme está bem feito, com sobriedade, e carrega em todos os botões certos. Depurado e esgrouviado, ao mesmo tempo - não é feito menor. Consultem a programação do festival, porque há muitas mais coisas imperdíveis que vocês, de certeza, vão querer ver.

Destaco as Masterclass dos realizadores Stuart Gordon e John Landis (sábado e domingo, às 19H15), porque acho que vale sempre (muito) a pena ouvir aquilo que os criadores têm para contar.
Uma nota para quem segue e gosta do meu trabalho (e, claro, do género do horror, na generalidade, e dos filmes de Stuart Gordon, como é óbvio): irei moderar a primeira Masterclass.

domingo, 30 de agosto de 2009

A ferro quente

Acabei de ver Inglorious Basterds, o novo filme de Quentin Tarantino, e esperava melhor. Sim, os diálogos tarantinescos estão lá (talvez demasiado conscientes de que são diálogos tarantinescos), as referências ao material inspirador são correctíssimas e, no geral, o filme está muitíssimo bem feito. Mas ser um filme muitíssimo bem feito não chega: é preciso que o filme se leve a sério; coisa que Pulp Fiction, ainda mais over-the-top que Inglorious Basterds, fazia melhor.

Aquilo que o aparta da minha sensibilidade é o sentimento que ele me transmitiu de se tratar de uma espécie de filme de propaganda pró-aliada, realizado durante a Segunda Grande Guerra, num momento qualquer em que seria impossível adivinhar o desfecho do conflito. E sê-lo, sem assumir sê-lo, adoptando uma postura afectada, clownesca, que me deixou um gosto amargo na boca.
Observado por essa óptica, o final da história, com a morte da elite do partido nacional-socialista alemão dentro de um cinema fazia todo o sentido e ganhava, inclusive, um sopro de rebeldia que, diga-se de passagem, faz muita falta a Inglorious Basterds: é que para filme Série B (ou, no mínimo, para filme que quer homenagear alguma Série B), este título é demasiado bem-comportado. Quando, perto do final, a carripana conduzida por Hans Landa atravessa a mata, na direcção do espectador, fiquei à espera que aparecesse uma claquete em grande plano e se ouvisse uma voz-off a gritar "Corta!", seguida de um zoom-out em torção no qual se visse a equipa técnica que estaria a filmar Inglorious Basterds enquanto filme de propaganda pró-aliada... É óbvio que isso não aconteceu, mas que seria uma solução metafísica bem mais interessante que a conclusão que nos é oferecida, lá isso seria. E honesta.

(O espírito do novo filme de Tarantino vai ao encontro dos comics de propaganda pró-aliada que se publicaram nos anos da Segunda Grande Guerra, mas esses tinham mais pertinência porque o desfecho da guerra era uma incógnita. Se esta história do Capitão América fosse publicada hoje como é que seria recebida?)

E quão mais interessante, ainda, seria se Tarantino tivesse realizado um filme deste género, mas passado na actualidade e com uma tropa de choque norte-americana a caçar talibãs no Afeganistão!... Não só seria um argumento com maior ressonância, como mais arrojado. Assim, matar o Hitler, o Goebbels e outros cabecilhas nazis no cinema é, literalmente, bater a mortos e a piada (que a tem), infelizmente, esgota-se à superfície. Colocar Brad Pitt a caçar terroristas era outra louça.

(Entre a caricatura Brad Pittiana e o Pato Donald, eu prefiro o Pato Donald.)

Mas se o filme, apesar de não ser apresentado como história alternativa, e não tentar sê-lo, apontar nesse sentido, tem outro problema; e um que se relaciona com o estado actual do cinema de entretenimento.
Acho que Inglorious Basterds não foi feito para a minha geração.
Já Kill Bill não fora, apesar de se basear nos filmes de artes marciais. As referências pertencem à minha geração, certamente, mas a linguagem na qual as referências são instrumentalizadas já não. Isso não é motivo suficiente para classificar um filme como sendo bom ou mau, evidentemente, mas eu sinto-me mais próximo de um filme como Public Enemies, que estreou há poucas semanas e é, assumidamente, um filme para adultos, que com Inglorious Basterds. Sinto-me mais próximo de Jackie Brown, também de Tarantino, e que é, sem sombra de dúvida, um filme para adultos, que com Inglorious Basterds. Até para se fazer um pastiche é preciso levar o trabalho a sério. Ora eu acho que Inglorious Basterds ambiciona ser bem feito, mas não ambiciona levar-se a sério. E não o ambiciona de um modo que o prejudica bastante. Serve para lembrar que o tom de uma obra, mais que o estilo, é muito importante.

Parece que hoje em dia existe mais arrojo na maioria das séries de televisão que no cinema - o que é uma pena, porque, apesar do grande público ser composto por adolescentes, ainda existem adultos que gostam de ver filmes. Para quando uma longa-metragem ao nível da série televisiva The Wire, por exemplo, que não trata os espectadores como atrasados mentais? O dumbing-down da cultura de entretenimento é um fenómeno que me é estranho e se acreditasse em Deus dava-lhe graças por não ter crescido com os filmes e com os livros que se andam a fazer agora. Se isto é discurso à Velho do Restelo, que o seja. Garanto-vos que, pelo menos, é sincero.

Mas vão ver Inglorious Basterds. É giro e está bem feito. Só não fiquem é a espera que seja a obra-prima que andam por aí a dizer. Se quiserem ver um filme mainstream maduro e com pêlo na venta vão ver Public Enemies. Ainda deve estar em cartaz.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Quando algo chamado Horror

A terceira edição do Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa (MOTELx) está quase a chegar: tem início no próximo dia 2 e termina no dia 6, oferecendo uma programação riquíssima, como é seu apanágio.

Em breve, divulgarei mais pormenores sobre o evento. Para já revelo que o convidado de honra deste ano é o norte-americano Stuart Gordon, autor de filmes como Re-Animator, From Beyond, Dagon e Stuck, entre muitos outros. Este realizador tornou-se famoso com as suas adaptações cinematográficas de contos escritos por H. P. Lovecraft, mas, nos últimos anos, tem desenvolvido um trabalho diversificado, que explora outros abismos, mais urbanos, sem deixar de mostrar imagens perturbantes e colocar interrogações muito pertinentes. Fica o convite para que assistam aos filmes de Stuart Gordon, durante o MOTELx.

Convido-vos, de igual modo, a participarem na Masterclass de Stuart Gordon, a decorrer no dia 5 de Setembro. A Masterclass será conduzida por mim.

Fiquem com o trailer de Stuck (2007) e com uma cena de From Beyond (1986).



domingo, 16 de agosto de 2009

Mau jornalismo

Ontem foi publicado no suplemento Notícias Magazine, do jornal Diário de Noticias, um artigo intitulado A Invasão do Mundo Fantástico, escrito pela jornalista Mariana Correia de Barros, no qual a literatura de expressão fantástica, portuguesa e estrangeira, sai muitíssimo mal vista. Não porque se faça, nessa peça, uma crítica ao pior que o género tem para oferecer (ou sequer ao melhor), mas porque o bosquejo de perspectiva histórica em que o texto se suporta é errado e precipita uma argumentação que não se sustenta quando lida em paralelo com os factos.

Esta opinião sobre o artigo vai ao encontro do meu raciocínio, por isso escuso de escrever, em pormenor, sobre ele, aqui nos Cadernos de Daath. Aconselho, pois, a sua leitura, assim como a consulta da caixa de comentários, onde se está a gerar uma troca de ideias que vale a pena seguir.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Deus tem um discurso banal (e foi propositado)

Acabei de escrever o meu novo romance esta semana e aproveitei o tempo livre para ler, com mais atenção, alguns weblogs portugueses, relacionados com o Fantástico, enquanto género literário, que eu costumo acompanhar com regularidade (como este e este, que valem bem a pena). Porém, no seguimento disso, descobri, nos posts mais recentes, que se anda a gerar uma espécie de debate/discussão, neste círculo restrito da blogosfera, sobre certos textos escritos por, aparentemente, novíssimos aspirantes a autores portugueses de literatura fantástica; alguns deles publicados aqui, para leitura e análise crítica. A ideia que presidiu a essa apresentação fruiu de outro debate, no qual se discutiu a existência, ou a inexistência, de novíssimos escritores portugueses de literatura fantástica e o valor das suas obras, ainda desconhecidas.

Antes de comentar este assunto, quero deixar uma coisa bem clara: esta será a única vez que irei escrever sobre ele e só o farei porque não encontrei uma opinião parecida com a minha, nos diversos posts e caixas de comentários que consultei.
Acho que uma opinião como esta faz falta para colocar o tema em perspectiva, porque disseram-se coisas que não fazem sentido.

Para começar, existem variadíssimos problemas, relacionados com este “debate” bloguístico, que se levantou, mas a questão que se me afigura como mais urticante é esta: porque é que qualquer candidato a artista, seja ele candidato a escritor, pintor, músico ou realizador de cinema, precisa de andar a chatear os artistas já estabelecidos, da área em que quer vingar, para que leiam, vejam, comentem e critiquem o seu trabalho? Acham que essas pessoas têm que ter tempo livre ou vontade para fazê-lo?
Porquê?

Esta pedinchice pegada é uma consequência exclusiva de, nestes tempos do instantâneo, se ter encurtado a distância entre os autores e o público – coisa que eu, tenham paciência, acho que faz muita falta. Tanto aos primeiros, como aos segundos: é que o autor não é o público, nem o público é o autor; e quando uns começarem a confundir-se com os outros está o caldo entornado. Quando toda a gente é a mesma coisa, ninguém é nada.
Estas questões sobre apreciações críticas pedidas aos escritores pelos supostos aspirantes a escritores teria sido evitada se estes tivessem noção dos limites e soubessem qual é o lugar deles. Falo directamente para vocês: já vos passou pela cabeça ir chatear o George R. R. Martin e pedir-lhe que leia os vossos textos? Ou qualquer outro escritor estrangeiro de literatura fantástica?
Não?
Então porque carga de água é que querem chatear os escritores portugueses?... Transcrevo:

«São pessoas como o Rogério, o Luís, o LFS, o Candeias, o João Seixas, a Safaa e o Barreiros que nos poderão mais ajudar a progredir na nossa escrita. Por isso, as suas críticas são bem-vindas. Não relegando para segundo lugar, como é óbvio, as participações da malta nova! ;)»

«Porra, então façam alguma coisa para que a produção medíocre se possa tornar numa boa produção. Se, em 50 respostas, conseguirem realmente ajudar dois jovens a escrever um pouco melhor, então já terá valido a pena! Para que um futuro melhor se comece a desenhar no horizonte! Vou tentar postar um excerto por dia. Que me dizem desta ideia?»

Sobre citações como estas só tenho a dizer isto: os escritores portugueses de literatura fantástica não têm que fazer absolutamente nada para que «um futuro melhor se comece a desenhar no horizonte» a não ser fazer o trabalho deles: escrever.
Mais nada.

Eu sou escritor, não sou colaborador de uma linha telefónica de socorro aos aspirantes a autores, à espera dos pedidos de ajuda para resolver problemas nos textos, nas cabeças e nas vidas deles ou para «ajudar dois jovens a escrever um pouco melhor». Será que anda toda a gente a viver noutro planeta?
O que é que aconteceu à velha prática de escrever um manuscrito e enviá-lo a um editor para apreciação? Acham que a minha geração andou a pedinchar conselhos aos escritores mais velhos, quando começou a escrever? Quando eu acabava um manuscrito, tratava de enviá-lo às editoras que eu considerava adequadas. Se um exemplo "cá de casa" não serve, sempre podem ler as introduções que o George R. R. Martin escreveu para as obras compiladas no volume Dreamsongs, nas quais ele diz, várias vezes, que começou a escrever para ele, antes de submeter os pequenos contos a revistas. Não há uma única linha em que ele desvende que andou a pedir a autor X ou Y para lhe dar palmadinhas nas costas.

Porque, bem vistas as coisas, de que é que serve ao aspirante saber o que é que um escritor com obra feita pensa do trabalho dele?
O que é que isso pesa na decisão de um editor ir publicar ou não o trabalho que foi lido?
Nada.
A não ser algum enfatuamento serôdio que advirá do facto de se ter alguém que, se calhar, até se admira, a dizer “ai, está muito bem, está muito giro, és capaz, força, continua”. Das duas, uma: 1) ou os aspirantes, que querem que fulano de tal e sicrano leiam os seus trabalhos, andam à procura de uma forma barata de encher o ego ou 2) andam à procura de padrinhos… Se não é nada disto, seria boa ideia mudarem de estratégia, porque, já dizia o outro, “o que parece, é”.

Mas há mais. À medida que o “debate” foi crescendo, transformou-se num manancial riquíssimo de informações sobre o que se passa dentro da cabeça destes aspirantes a autores portugueses de literatura fantástica, entre as quais a incapacidade de aceitar críticas. (Aliás, isso está patente no título de um artigo que foi escrito como reacção às críticas que os escritores com obra feita deixaram nas caixas de comentários dos aspirantes a escritores, após lhes terem sido pedidas, como já vimos, as suas opiniões: “Sobre Críticas e Outros Rebaixamentos”.) Afinal de contas, não se viu que «as suas críticas são bem-vindas».
Nem é preciso dizer mais nada: o título citado acima deixa bem claro o que é que eles pensam das críticas e aquilo que pretendiam. Não desejavam «escrever um pouco melhor»: desejavam encher o ego, ponto. E, como isso não aconteceu, deu-lhes para escrever coisas deste género:

«Não aceito a crítica de me acusarem falta de leitura. Não aceito e pronto. Eu sou um bom falante da língua portuguesa. Do vernáculo ao científico. Posso dar erros, mas quem não os dá? Certamente com revisão minha muitos deles desapareceriam.»

«Penso que não seja por falta de vocabulário. Tenho um vocabulário que sempre excedeu a minha idade, a minha faixa etária, até mesmo as seguintes e tant no ensino como na escrita pessoal sempre primei por um vocabulário mais cuidado que os restantes (penso eu), mas ultimamente tenho tido este problema em manter sempre tudo num mesmo nível.»

«Basicamente considero-me um old school writer. Escrevo à mão e depois passo as 50 páginas de manuscrito para um documento word. Trabalheira enorme. Mas ninguém disse que seria fácil. Mas isso permite-me também cuidar toda a obra primeiro na generalidade e só depois, então, capítulo a capítulo.»

«Como é óbvio, tendo sido escrito por um rapaz de 15 anos, não se pode esperar uma obra-prima.
No entanto eu, pelo menos, acho que mostra um (se não grande, perto disso) potencial.»

«Quanto às personagens, aí permito-me a discordar completamente de vocês. Não a fiz realistas, não tentei sequer, todo o texto tem um contexto algo... etéreo, para falta de melhor palavra. O Nostranus, ou lá como o gajo se chama, é uma besta só porque sim.»

«Deus tem um discurso banal, e sinceramente foi propositado (…)»

«Nenhum dos escritores dos excertos aqui colocados pelo Francisco teve um curso intensivo de gramática portuguesa. O que tiveram foi tanto como eu, até ao 9º ano e sem muitos pormenores. (…) são erros que facilmente podem ser corrigidos com uma revisão do texto. Alguns deles poderão apenas ser falhas, por simples distracção. E digo-o por experiência própria.»

Tenham vergonha.

Não peçam a pessoas que têm obra feita, e nome respeitado na praça, que leiam as vossas coisas para, depois, lhes responderem desta maneira. Vocês acham que andamos aqui a brincar? Que “esta coisa do Fantástico” é um enorme fórum, onde são todos compinchas? Será que vocês já leram os livros das pessoas que andaram a chatear nas caixas de comentários? Um só, que seja? E se lessem, iriam ser mais comedidos nas vossas apreciações? Iam o tanas!, todos sabem que quem lê, critica; por isso não venham armar-se em viúvas virgens que isso já foi chão que deu uva.

A última questão que quero comentar é a da idade de um escritor e a relação com a qualidade do trabalho.
Não é de estranhar que na maioria dos concursos literários que, de quando em quando, erguem a cabeça, um pouco por todo o lado, se encontre o anonimato como parte imperativa do regulamento. Não só evita nepotismos, e outros ismos, como serve para evitar o estigma da idade: é que quem escreve bem, escreve bem – tenha cinco, dez, quinze, trinta, sessenta ou cem anos de idade.
Essa história dos autores em potência é uma treta.
Tirem isso da vossa cabeça.
Ou o texto é bom ou não é bom. E se não for, não é uma revisão que vai operar milagres.
Como em todas as artes, escrever é algo que sai de dentro para fora. Não vem de fora para dentro. Esqueçam os cursos de escrita criativa e os grupos de discussão, porque se vocês não forem bons, nada disso vos fará ficar bons.
A escola do escritor é a leitura. Só isto. A leitura, a reflexão sobre o que se lê e as regras da gramática. Que ele pode ou não respeitar, de acordo com o estilo. Mas não pensem que podem mascarar as vossas fraquezas dizendo que elas são o vosso estilo. Acham que enganam quem? Os vossos amigos, talvez, se eles estiverem para aí virados, mas os leitores exigentes não se deixam enganar. Por isso, quando vocês escrevem coisas deste género,

«E já agora, estão interessados em ler um texto (non-fantasy, aviso já), da minha autoria, que eu considero de qualidade? É um estilo de escrita mais solto e vago, que sinceramente duvido que vos agrade, parece-me que gostam de algo mais concreto, directo. Mas pelo sim pelo não, dêem-me a vossa resposta.»,

e ainda,

«(…) o conto como está não está nada de especial, mas sendo reescrito e levando uma grande volta (com mais 3 anos de leituras e escrita em cima) acho que poderia dar um conto engraçado. (…) É o que eu digo, são BOAS obras, na minha opinião. Esta não é publicável, mas o BOM está lá. Só falta, na minha opinião, trazê-lo ao de cima :)»,

querem ser levados a sério? Desculpem, mas não sou capaz de vos levar a sério.

Mais uns exemplos para toda a gente perceber o nível de ilusão a que isto chegou:

«Não há quem escreva bem e com originalidade, dentro do género? Há. (…) Uns têm, certamente, mais prática que outros, mas todos têm grande potencial para se tornarem os novos nomes do género (…) Esta última obra, atrever-me-ia a compará-la a uma qualquer do Neil Gaiman, em termos de originalidade. E não digo isto só por dizer - quem me conhece bem sabe que não evoco o nome do Neil em vão (xD)-, o Hedonê é MESMO bom!»

«Quanto ao Hedonê, creio que é uma obra soberba, tanto em termos de história como de escrita, ainda que precise de levar uma revisãozita.»

As obras soberbas não precisam de ser revistas. Por isso é que são soberbas. Mas uma obra má é uma obra má.
Acabou-se.
Não há volta a dar-lhe.
Com certeza que não será com «uma revisãozita» que se transformará o tal Hedonê no American Gods.
Não é assim que se faz.
Como se faz é fazer bem, desde o início até ao fim. E isso, cada um tem de aprender a fazer sozinho, não fosse o ofício da escrita um acto isolado que exige tempo e meditação. Não é nos “fóruns da net” que se aprende a ser o Neil Gaiman: aliás, não se aprende a ser o Neil Gaiman, em lado nenhum. Se anda por aí alguém com essa pretensão, está em maus lençóis.

«O que falha, na minha opinião, é a comunicação entre o Fandom e os comuns leitores, que são os escritores de amanhã.»

Isto está errado até aos ossos. Os comuns leitores de hoje não são os escritores de amanhã: os comuns leitores de hoje são os comuns leitores de amanhã. Os escritores de amanhã são aqueles que já são escritores hoje.
Vamos lá a ver uma coisa: vocês querem ser escritores, porquê?
Porque acham que é giro? Que dá dinheiro? Ou apenas acham que querem ser escritores, porque são leitores que gostam muito de ler uma determinada coisa e escrevem histórias semelhantes àquilo que lêem? Se é para isso, já há um nome: fan fiction.
Eu também gosto muito de ouvir música, mas não me passa pela cabeça andar a dizer que sou músico ou que quero sê-lo. Sinto-me fascinado pelos mecanismos secretos do corpo humano, mas não me passa pela cabeça dizer que sou anatomista ou que quero sê-lo… A ideia que eu quero transmitir é que não se diz, com leviandade, que se quer ser escritor.

Para começar, é preciso sê-lo, antes de sequer se pensar em sê-lo. É assim que acontece com todos os artistas.
Porque estamos a falar de arte, caso alguém se tenha esquecido.
Vocês fazem ideia da trabalheira que dá ser escritor?
À séria?
Acham que se pode escrever uma coisa qualquer, que, depois, faz-se «uma revisãozita» e está pronto? Que o texto fica ao nível dos romances do Neil Gaiman? Vocês estão muito enganados.
Bem sei que esta poderá ser uma opinião – e uma realidade – impopular, mas, como dizia o Léon Bloy, um dos meus escritores preferidos, «o autor não prometeu divertir ninguém – prometeu, antes, o contrário e cumpriu, fielmente, a sua palavra.»

Enfim, trocado em miúdos: cresçam e apareçam.
Em essência, toda a gente que escreve no fórum do Filipe Faria foi citada como sendo um autor português de literatura fantástica, mas… quantos é que já submeteram trabalhos a uma editora?
Esse fórum deve ser um verdadeiro viveiro de talentos. Um deles até está ao nível do Neil Gaiman – é extraordinário. Para quando um aspirante a autor ao nível do George R. R. Martin ou Tolkien?
Só é uma pena que esse fórum não ande a produzir talentos que escrevam melhor e que tenham menos arrogância em cima das costas. Em vez disso, dá-nos talentos para os quais a gramática não interessa e os defeitos contam como efeitos arrojados, à la pós-modernismo.
Ainda por cima, talentos que têm a lata de ficar danados com críticas sinceras que lhes fizeram as pessoas que eles andaram a chatear nos weblogs pessoais, pedindo-lhes que fossem ler os excertos.

Não gozem com a nossa cara e aprendam a escrever, se forem capazes.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Novo romance terminado

Um post rápido só para vos informar que terminei a escrita do meu novo romance.
Agora vou relê-lo com atenção e corrigir aquilo que ficou feio. Só é publicado para o ano, pelas edições Saída de Emergência. Quando ele sair, já deverei estar a escrever outro.
Vou dando novidades. Fiquem por aí.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Under a capricorned moon

As edições Saída de Emergência acabam de publicar uma excelente antologia de contos de ficção científica, intitulada Com A Cabeça Na Lua, que especulam sobre viagens à Lua, e subsequentes alunagens, com o traço distintivo de terem todos sido escritos antes desse desiderato ter sido concretizado em 1969.

Trata-se de uma edição de inegável bom gosto, e saber-fazer, mérito do organizador João Seixas, editor, autor e conhecedor do género que, com este volume, consegue criar algo bem especial com as participações de Arthur C. Clarke, Isaac Asimov e Robert A. Heinlein, entre outros. Podem ler um excerto aqui.
A leitura é, ainda, enriquecida por uma série de introduções e notas que contextualizam e aprofundam os registos, à luz da distância temporal que nos separam deles. Que delícia!

Para quem se queixa que não se publica nada de ficção científica em português, aí está um belo volume que fará pensar, sonhar e, porque não?, viajar.

E porque a Lua tem sido, numa óptica algo saloia, vinculada ao culto do Feminino (na maioria dos grandes cultos pré-clássicos, como o egípcio, a Lua era sempre uma entidade masculina, mas não vamos estragar a festa aos new agers...), vale a pena usá-la como ponte e sugerir uma proposta glamorosa para o próximo sábado: o regresso a Lisboa da artista norte-americana Tara McPherson, enfant terrible dos comics alternativos - e não só, tendo criado diverso artwork para bandas como Depeche Mode, Duran Duran, Interpol e outras.

No programa de uma tour europeia, de grande fôlego, Tara irá deslocar-se à loja Kingpin Books, pelas 17H00, para apresentar o seu novo trabalho, conversar com os fãs portugueses e espalhar o seu charme satânico pelas folhas brancas que lhe entregarem.

domingo, 5 de julho de 2009

MUCHA: preview




Quatro pranchas da banda desenhada Mucha, escrita por mim, desenhada por Osvaldo Medina e arte-finalizada por Mário Freitas.
A sair em Outubro, pela Kingpin Books.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Feira Laica para todos

Durante este fim de semana, ocorre mais uma edição da Feira Laica, a maior feira portuguesa de edição independente. O evento, dirigido por Marcos Farrajota (Associação Chili Com Carne, Ediçoes Mmmnnnrrrg, Bedeteca de Lisboa), apresenta uma programação variadíssima e com propostas a não perder, desde lançamentos de livros, trocas de artesanato urbano e vestuário, e, também, mostras de filmes de animação - entre os quais O Paciente, de Pedro Brito, e Pássaros, de Filipe Abranches. A Feira Laica tem lugar nos jardins da Bedeteca de Lisboa.
A feira abre às 14H00, nos dois dias. Fecha às 21H00 no Sábado e às 19H00 no Domingo.
Não faltem!