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sábado, 29 de junho de 2019

Tendes alguma coisa que se coma?


Não consiste em nenhuma capciosa conclusão a de que o humanismo de Quinhentos sintetizou a cultura clássica com o cristianismo, porque este, com efeito, dirige-se à dimensão somática do indivíduo, na completa acepção da corporalidade.


Em dois trechos dos evangelhos radica essa obvenção: em Mateus 4,4, a célebre expressão «nem só de pão vive o homem» comporta uma resignificância que intima a pensar que para a restante criação o pão é o suficiente, enquanto que o ser humano, criatura catabática, somente se sacia quando se anula a consciência da falibilidade, quando este, através da cultura, se projecta para além da sombra meramente existencial; o outro excerto, enantiomorfologicamente iterável com o primeiro, pode ler-se em Lucas 24,41, quando Cristo recém-ressuscitado aparece aos espaventados apóstolos e lhes pergunta «tendes alguma coisa que se coma?» — este simbionte antropalelopático do espírito com a carnalidade regressa com fome do além-túmulo, recompondo os seus elementos etéreos com o bocado de peixe assado dado pelos discípulos. 


Este conjunto não-casuístico de ideias familiares a esta — e a que se pode adicionar aquela que está em Marcos 2,27, «o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado», que rompe decisivamente com a subordinação mosaica do indivíduo diante do divino — é um repertório de representações revalorizadoras do humano que, no fundo, são já o prenúncio do profundo encentramento operado pelos humanistas cristãos do Renascimento.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

A Morte é sempre declarativa: uma meditação




A morte é um idioma universal.
Um desesperançado esperanto de pontos finais e verbos abreviados. Catacreses contidas em runas ocultas. Uma linguagem sequencial de presenças e ausências. Quadrículos sobre os quais são desenhados os destinos. A vida advém quando se pinta para fora das linhas.

A Prudência faz vista grossa.
Ébria no venéfico vinho da imaginação.

O sabor a sangue assombra sítios de sacrifício. Orlas onde, no vocabulário alquímico, se é devorado por dragões: o fogo dos seus ventres é uma coordenada que transcende o tempo.
Ainda morno, o xamanismo entalhado em algares cria ondas de calor. Saurópsides e artiodáctilos são tótemes frequentes em mitos fundacionais. Serpentes e cervídeos – cornos e cobras desbulham várias vezes a pele.
Nas oficinas dos alquimistas há sempre répteis pendurados nos tectos. Há répteis pendurados em igrejas. Crocodilos conspícuos: reptante fé que a repetência anediou e tornou invisível. Gnósticos ofitas acreditavam que Cristo e a Serpente eram o mesmo ser; e, com efeito, ecdise e crucificação são alegorias de ressurreição.

São sinais sabidos: escamíferas marcas de santidade – antídotos artesanais que são oferecidos.
Diz a esta pedra que se transforme em pão. Mas a qual pedra e que tipo de pão?...
O genoma da história é simétrico: ela rima e os mitos repetem-se. O profeta Daniel eliminou um dragão dando-lhe um bolo de breu, gordura e cabelos. Segundo Sérvio, as cobras habitam nas águas e as serpentes sobre a terra. Os dragões, todavia, vivem em templos. Num único templo nunca coexistirão dois dragões.
A pedra que o chamado Diabo e Satanás, o Grande Dragão, ofertou no deserto foi um bolo análogo ao de Daniel, feito para banir o dragão Cristo do templo de que o primeiro era príncipe: este mundo.


Porém, o templo de Cristo não era este mundo. A serpente desta terra equivocou-se: o reino não era daqui. O dragão de David obumbrava outro templo. Interrogações que, à laia de locais, ainda podem ser visitadas.   
Sai desse homem, espírito impuro. Qual é o teu nome?
Respostas estioladas como imagens expostas ao sol.
Derrubai este templo e em três dias o levantarei. O templo, afinal, era o corpo: antropomórfico ponto de fuga de um reino feito de verbo. Fármacos sacrificiais: carbunculoses no leito de um recendente rio de peçonha.
Em meu nome expulsarão demónios, apanharão serpentes com as mãos e se beberem veneno não morrerão.

Apanharão serpentes com as mãos. Ao toque, as serpentes são secas e duras; espécie de voltagem tornada carne, animais de vocação eléctrica, de visão termostática. Os seus silvos ardem como choques na pele. Há que confundi-las, descendo o catre do possesso por um único buraco que depois é tapado: Para demónios e espectros, a lei é esta: por onde entramos, somos extirpados. Livres de entrar e escravos para sair.
Será o homem como os demónios? Cativo da porta por onde entrou? Imobilizado no seu livre-arbítrio quanto um possuído decumbente num catre? A multidão é uma escultura viva, tão barroca no seu dinamismo quanto água ou estrelas em movimento.
Tornei-me um estranho para os meus irmãos.
Dois inequívocos sinais comprovam, a infecção de veneno espiritual que é a possessão demoníaca: glossolalia e a forense aptidão de revelar aquilo que está oculto.

Sangue que aliena o Diabo.
Mercúrio transudando da caldeira.
Vê o behemot que criei como a ti.
É a obra-prima de Deus.
Os animais do campo divertem-se à sua volta.
Acaso te dirigirá palavras ternas?
Algo orfeico e acre infiltra a quadricular moldura que nos cinge.
Quem lhe furaria as narinas para passar argolas?
Os seus ossos são como tubos de bronze, a sua estrutura como barras de ferro.
Põe-lhe a mão em cima.
Vais lembrar-te da luta e não repetirás.
Que luta é esta?
Que téssera se oculta nesta tapeçaria?
Que gramatical tenebrário?
Altivez argustica. Soberba algébrica - padrão opocéfalo que alucina e cheira a latim.
Este é, afinal de contas, o verdadeiro rosto. Caos. Um anti-jardim: prepóstero paraíso onde pastejam os porcos.
Reveste-te, pois, de glória e majestade.
E, então, também eu te louvarei, se triunfares pela força da tua mão.
Brincarás com ele como um pássaro?
Quando se atira uma pedra à agua, as ondas param longe nas margens. No horizonte.
O horizonte do peregrino está pejado de cruzes.
Sob o matiz submarino de lápis-lazúli, a coroa de espinhos parece feita de coral: argamassa aquática de agulhas e pólipos    
Pela força da tua mão.
Em cada mão um ponto final.
Dois pontos.
A morte é sempre declarativa.





(Imagens: detalhes de painéis de azulejos do Convento de São Paulo da Serra d'Ossa. Fotos do autor.)

segunda-feira, 28 de abril de 2014

As serpentes também vêm connosco


Noé, de Darren Aronofsky, é capaz de ser um filme visionário. É composto por espantosos elementos visuais, cujos modelos e modos de plasmar na tela já vimos em outros filmes realizados por cineastas de culto (Peter Jackson e George Miller, por exemplo), mas é o modo como esses elementos se conjugam que faz de Noé um filme intrigante. Não é um filme bíblico, no sentido em que o são Os Dez Mandamentos de Cecil B. DeMille, A Bíblia de John Huston ou até A Paixão de Cristo de Mel Gibson, mas as maiores derivações ao cânone nem sequer são as sequências que o público poderia achar (e achará) mais fantasistas, como a presença dos Vigilantes, retirados literalmente do Livro do Génesis e dos textos apócrifos judaico-cristãos, como o Livro de Enoch (pai de Matusalém, avô de Noé), entre outros: é a dinâmica emocional entre Noé e a sua família, inclusive a sua emergente dúvida sobre se valerá a pena conservar a espécie humana no mundo lavado de malevolência, algo que está ausente da história original, embora o modo como se apresente retenha uma autenticidade "bíblica" enorme - quase que poderia estar escrito. De qualquer das formas, a história de Noé é um dos episódios mais heterodoxos da Bíblia, tendo sido costurado a partir de várias histórias diferentes sobre dilúvios e redenção, imaginadas pelas diversas culturas que povoaram o Próximo Oriente. É uma história que transcende o bioma judaico-cristão.

O filme de Aronofsky é ambíguo sobre o espaço e o tempo em que a narrativa ocorre: Noé tanto pode ser interpretado como tendo lugar nos tempos veterotestamentários, como num futuro muito distante ou até em outra dimensão. Um detalhe que provocou a minha imaginação foi a presença conspícua de estrelas brilhantes no céu diurno: servem para reforçar a ideia de que Noé se passa num outro mundo ou, simplesmente, é uma forma de representar o céu mais límpido dos nossos antepassados pré-revolução industrial? Seja como for, o efeito é de grande beleza.

A primeira metade do filme é mais bem conseguida que a segunda e este contém mensagens (se forem mensagens) com as quais eu discordo totalmente: leia-se, uma quasicolagem ao ambientalismo extremo que, quando advogado por figuras sinistras e psicologicamente perturbadas como Les U. Knight e Petti Linkola, se transforma em algo que pouco se relaciona, de facto, com o ambientalismo e tem tudo a ver com o anti-humanismo. No entanto, o filme não vai tão longe e, no final, quando a survivor's guilt de Noé começa a dissipar-se, ele compreende o valor da vida humana, que foi a vida que, afinal de contas, foi capaz de salvar todas as outras.