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segunda-feira, 31 de maio de 2021

Sobre as dalmáticas azuis de São Vicente nos ditos Painéis de São Vicente de Fora

É fascinante a recente descoberta (notificada no jornal Público do passado dia 25 de Maio) de que nos painéis ditos de São Vicente de Fora, de autoria atribuída ao artista Nuno Gonçalves, o protagonista em duplicado (vulgarmente identificado como sendo esse santo) já envergou numa fase preliminar paramentos pintados de azul.
 
Na peça em que se dá prova do novo facto é lembrado que no Livro de Horas de D. Duarte existe uma iluminura na qual São Vicente também veste uma dalmática azul — mas no mesmo livro outras figuras, superiores e inferiores ao estatuto do mártir de Saragoça, vestem igualmente de azul; desde a Virgem (como seria de esperar), como alguns camponeses e até os sicários do rei Herodes. Criado no primeiro quartel do século XV (entre 1400 e 1430) na cidade de Bruges, este códice expressará ainda a trecentista cromofilia flamenga que mutaria de gosto no decurso da centúria seguinte, em que o azul foi, progressivamente, sendo substituído pelo preto como a cor aristocrática, por excelência — moda que se espalhou e perdurou por quase toda a Europa durante boa parte da Época Moderna. Aliás, já no século XVI, a rainha Isabel I de Inglaterra proibiu o uso da cor azul. No setentrional cosmos protestante, o preto é, superlativamente, a cor moral. (Na verdade, a afirmativa emergência do preto como a cor mais digna do espectro pode ser traçada desde a promulgação de certas leis trecentistas e quatrocentistas contra o luxo: as leis sumptuárias que tinham como objectivo regular o vestuário e os acessórios.)
 
De facto, o azul foi uma cor impopular — e até observada com desconfiança — ao longo de grande parte do período denominado de Idade Média: arreigadas aos costumes greco-romanos, as cada vez mais consolidadas elites reais e respectivas nobrezas privilegiavam a tríade clássica de branco, vermelho e preto, reservando, por vezes, algum destaque para o verde; nas representações artísticas, inclusive, o azul é inexistente — até como cor do céu. Foi, certamente, por via da indústria do pastel dos tintureiros, muitíssimo utilizado nas manufacturas de vitrais e de objectos de vidro que o azul, em principal nas primeiras décadas do século XII, foi associado nas igrejas à Luz Divina, como uma manifestação visual da imaterialidade. Para a nova associação contribuiu o pensamento gótico do abade Suger; com efeito, é a partir do tempo de Suger, do dealbar do Gótico, a Arte da Luz, que o azul logra sobrematizar o próprio manto mariano (que até à data era, muitas vezes, preto) e até transmutar-se em cerúleo avatar de França: a cor da corte e da nação. Não obstante, nesse período a popularidade do azul não se traduziu na sua celebridade — e permaneceu fora da paleta de outros reinos. Quanto a paramentos, o azul não se inscreveu como cor litúrgica no catolicismo, ou seja no Rito Romano; sem embargo de se encontrarem vestes cerimoniais azuis, por exemplo, na igreja de Inglaterra do século XIV, ainda em fase de difusão insular do Gótico.
 
O azul foi, em suma, uma cor de tradição francesa e flamenga — e neste caso até finais de Trezentos. Para a Flandres, e não só, o século XV já era o do preto. Assim, as dalmáticas azuis de São Vicente nos painéis consistem num “mistério” estimulante e que, certamente, vem sugerir interpretações que até agora têm estado em suspenso: uma delas, que eu não defendo (faltam elementos), mas que mantenho sem nenhuns problemas em aberto, é a de que os Painéis de São Vicente não são portugueses e podem, inclusive, representar uma camarilha de figurantes cuja identidade de grupo nos escapa à decifração. Lembre-se que Francisco d’Ollanda — que viu os Painéis na Sé de Lisboa e escreveu sobre eles — descreve esta obra como sendo insigne em «tempo mui bárbaro», porque na altura da sua concepção (século XV) os artistas portugueses só queriam imitar o estilo flamengo e desconsideravam o italiano: ora, na sua óptica, os ditos Painéis de São Vicente da Sé iam em sinal contrário, aproximando-se da arte italiana e não da flamenga — como exsuda do políptico aqui sob observação, que nos mostra toda uma gramática visual e encenação flandrinas.
 
(Abaixo segue a imagem de um excerto das notas finais do meu romance O Evangelho do Enforcado (Saída de Emergência, 2010), nas quais reflecti, precisamente, sobre a problemática da identificação das personagens dos Painéis e a proveniência destes.
Este texto foi publicado originalmente no passado dia 28 de Maio na minha página de Facebook.)

 

 

domingo, 17 de julho de 2016

Sobre Aleixo, no dia de sua morte


Esta tábua quinhentista (1541), cuja autoria inquestionável é do pintor português Garcia Fernandes (activo entre 1514 e 1565), é conhecida pela maioria do público como sendo uma representação do terceiro casamento do rei D. Manuel I com D. Leonor de Castela, irmã de Carlos V (celebrado a 1518). Todavia, já em 1998, o historiador de arte português Joaquim de Oliveira Caetano propôs e fundamentou a tese de que a imagem mostra o episódio hagiológico do casamento forçado de Santo Aleixo com Sabina. Esta obra faria parte de um conjunto projectado pela oficina do artista para a primeira Igreja de São Roque, em Lisboa (com efeito, a tábua encontra-se em exposição no Museu São Roque da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa). Ora, Garcia Fernandes foi eleitor da Misericórdia de Lisboa e o quadro foi-lhe encomendado por D. Álvaro da Costa, o primeiro provedor das Misericórdias, que, provavelmente, se encontra representado na figura central do sacerdote que celebra o casamento. Sabe-se, igualmente, que poucos anos antes da realização da tábua foi anexada uma confraria de Santo Aleixo à Misericórdia (em 1538); por conseguinte, fortalecendo esta tese. Em analogia, outros pormenores contribuem para a interpretação aleixiana, como a ausência na personagem dita manuelina da insígnia da Ordem do Tosão de Ouro, que D. Manuel I recebeu pelo seu casamento com D. Leonor de Castela. É, pois, neste dia de Santo Aleixo (terá morrido a 17 de Julho) que evoco esta obra enigmática, cujo hirsuto protagonista tem sido utilizado em múltiplos livros de história e veículos televisivos de divulgação histórica como sendo um retrato de D. Manuel I e pelos quais contornos temos desenhado, à guisa de escantilhão, determinados aspectos da vida e façanhas de O Venturoso.