sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A força da etimologia


Outro dia comprei um marcador de livros dos pastéis de Belém e numa das pausas na leitura dei por mim a pensar na força da etimologia: é que, em hebraico, Belém significa casa do pão. Ora, qual é a padaria mais famosa de Lisboa e onde é que ela fica?

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

10 Livros de Horror

O meu novo livro de contos de horror, A Luz Miserável (Saída de Emergência), está quase a sair e será apresentado em exclusivo no próximo Fórum Fantástico. Até lá, lembro dez livros de horror que qualquer fã do género deveria ler.

Books of Blood, Clive Barker
Partindo de uma premissa que faz lembrar The Illustrated Man, de Ray Bradbury, o carnaval horrível que Barker nos apresenta nestes livros é, provavelmente, o melhor exemplo que temos sobre o Horror como gerador de diversidade. Enquanto bestiário é riquíssimo e enquanto exercício literário é poderoso. Depois da sua publicação, Barker já escreveu melhor, no que alude ao estilo e à forma, mas Books of Blood continua intocável. É o trabalho de um escritor único no topo dos seus poderes criativos.

Histoires Désobligeantes, Léon Bloy
Em La Femme Pauvre, publicado em língua portuguesa pela Ulisseia, Léon Bloy diz-nos pela voz do narrador: «O autor nunca prometeu divertir ninguém. Prometeu muitas vezes o contrário e cumpriu fielmente a sua palavra.» É a tagline perfeita para caracterizar Histoires Désobligeantes. Pequenos contos sórdidos, sempre entre a imundície e a redenção, escritos com uma espécie de realismo simbólico em mente. Escamoteada a carapaça de lixo que envolve estas histórias, testemunhamos o talento literário de um autor incisivo e, surpreendentemente, optimista. Possui uma linha de diálogo que poderia servir para cartão de visita da ficção de horror: «O meu amor por ti tem tenazes de caranguejo!» Macabro e com muito humor negro.

Swastika Night, Katharine Burdekin
Livro terrível sobre um mundo nazi onde os homens são educados para serem soldados brutais e as mulheres estão reduzidas ao estatuto de gado parideiro. A Europa de Swastika Night vive a Era de Hitler, sete séculos depois da morte do ditador, agora adorado como uma divindade que nasceu da cabeça do próprio Deus do Trovão – logo despoluído do contacto com carne feminina. Escrito durante a consolidação dos regimes fascista na Itália e nacional-socialista na Alemanha, antes da Segunda Grande Guerra, este é um livro no qual Burdekin expande as ideias misóginas dos discursos de Hitler para criar um pesadelo insuportável. É preciso compreender que, naquele momento, não se sabia se os nazis iriam perdurar ou não e o temor de uma iminente ocupação global era sentido à flor da pele por todos aqueles que não simpatizavam com as ideias do III Reich. Mas por mais assustador que o livro de Burdekin seja, a realidade foi muito mais temível: Hitler esterilizou em segredo milhares de alemães durante os anos em que foi chanceler; e se as medidas eugénicas não alcançaram o resultado esperado foi graças às substâncias e métodos envolvidos: chumbo, raios-X e até alguns venenos feitos com plantas da América do Sul. Na sua ideia, somente oficiais nazis seriam autorizados a procriar e para isso criou centenas de bordéis onde as suas altas patentes, em verdadeiras linhas de montagem, engravidavam prostitutas, voluntárias e adolescentes raptadas. Eram as chamadas Lebensborn: as Fontes da Vida.

The Night Land, William Hope Hodgson
Estranhíssimo romance sobre um futuro longínquo em que o Sol morreu e os poucos sobreviventes da espécie humana, que não se cruzaram geneticamente com alienígenas, resistem aos ataques insondáveis de leviatânicas criaturas inescrutáveis dentro de um refúgio piramidal. Às tantas, um deles tem uma visão de que existem mais sobreviventes humanos noutro local e um grupo sai para o exterior com o objectivo de encontrá-los. Para o gosto contemporâneo, a prosa de Hodgson é pesada - e deliberadamente artificial, já que o narrador é, supostamente, um indivíduo do século XVII -, mas àquilo que lhe falta em estilo, Night Land compensa em imaginação e invocação de impending doom. Um romance underrated que merece ser mais conhecido.

The Monk, Matthew Lewis
Epítome da verdadeira literatura gótica e muito provável blueprint para o horror contemporâneo, The Monk tem de tudo: incesto, violação, satanismo, homossexualidade e tortura. O (bom) equivalente literário de um torture porn setecentista, escrito com um estilo endiabrado e refinado. Existe uma edição recente em português pela Bonecos Rebeldes.

La Luna e il Falò de Cesare Pavese
Último romance do escritor e poeta italiano Cesare Pavese, publicado em 1950, poucos meses antes do autor se suicidar. La Luna e il Falò é o relato simbólico do trágico regresso a casa de Enguia, personagem principal que decide voltar à terra natal, a região rural de Langhe, após ter feito vida nos Estados Unidos. Mas o que Enguia encontra não o reconforta e, na companhia de Nuto, o seu melhor amigo de infância, mergulhará numa crescente depressão, fortalecida pela melancolia que as searas desertas e os campos abandonados lhe provocam. Romance alegórico, inquieto, quente, de uma ilusória simplicidade e cujo final não trará nenhuma reconciliação a Enguia. E nós, leitores angustiados, descobriremos que as fogueiras a que o título alude podem ter diversos significados.

La Tour d'Amour, Rachilde.
Rachilde foi o pseudónimo de Marguerite Vallette-Eymery, autora integrada no Movimento Decadente, no qual figuram artistas tão diversos como Isidore Ducasse (Conde de Lautréamont.), Joris-Karl Huysmans ou o pintor Franz Stuck. La Tour d'Amour é uma história de travestismo e necrofilia, passada num farol isolado na costa de França, cujas personagens principais são Mathurin Barnabas, o faroleiro que pesca corpos destroçados dos escolhos para os usar nas suas sevícias, e Jean Maleux, o jovem aprendiz, simultaneamente repugnado e seduzido pela conduta do velho mestre. Numa sequência inesquecível, Rachilde conta-nos que Barnabas guarda uma cabeça decepada, em avançado estádio de decomposição, para se masturbar: jogos mais arrojados que as púdicas brincadeiras de Herbert West: Reanimator, de Lovecraft — e escritos por uma mulher no último ano do século XIX. Ambiente gótico sem folhos e com profanação de cadáveres.

Frankenstein, Mary Shelley
Frankenstein não é o nome da criatura feita de pedaços de cadáveres, mas o do seu criador. É engraçado descobrir que o monstro de Frankenstein é um homem sensível e bem falante (quando não lhe chega a mostarda ao nariz, pelo menos…), enquanto que as adaptações teatrais e cinematográficas o transformaram num golem imbecil e trapalhão: a imagem mais conhecida do monstro de Frankenstein, com a testa alva, cabelo oleoso e eléctrodos no pescoço, deve-se a James Whale e Jack Pierce, realizador e caracterizador que trabalharam na primeira adaptação cinematográfica desta história, e não se parece em nada com aquilo que o livro nos apresenta. Neste, o monstro aprende a ler com os grandes clássicos da literatura (encontrados num baú abandonado) e a falar inglês de ouvido. Tudo o que quer é encontrar o seu lugar no mundo e que Frankenstein o reconheça como humano. Mais tarde, o monstro assume a sua condição maldita, mas exige que Frankenstein lhe faça uma companheira que o acompanhe no exílio. A casmurrice do cientista terá consequências terríveis.
Na minha opinião, o final do livro, passado no deserto gelado do Pólo Norte, faz de Frankenstein a obra de transição entre um horror clássico e naturalista e o moderno horror interior.

Dr Jekyll and Mr Hyde, Robert Louis Stevenson
Toda a gente conhece o livro Dr Jekyll and Mr Hyde, seja por o ter lido ou visto alguma das suas diversas adaptações cinematográficas, mas poucos leitores devem saber que Stevenson já tinha escrito, dois anos antes da publicação desse título, uma peça de teatro intitulada Master Brodie, or The Double Life. Escrita em parceria com William Henley, a peça conta uma história baseada na vida real de um criminoso escocês chamado William Brodie, que vivera um século antes. Maçon, cavalheiro respeitado na sua comunidade, Brodie escondia uma natureza turbulenta sob a pele da diplomacia e entregava-se em segredo ao roubo e ao jogo. Mr Hyde é, largamente, mais violento que aquilo que Mr Brodie poderia alguma vez ter sido, mas foi a dualidade do segundo que inspirou Stevenson a escrever a peça e, posteriormente, a criar a figura miserável do Dr Jekyll. Hyde começa por ser um anão simiesco, traquinas, mas à medida que Jekyll lhe vai dando rédea solta ele transfigura-se num musculado monstro assassino. Um clássico simbólico, por excelência.

Ghost Story, Peter Straub
Quem estiver à procura de algo que pudesse ter sido escrito por M. R. James ficará confuso: Ghost Story não é uma história de fantasmas. No mínimo, no sentido tradicional. Na verdade, nem sei definir o que é. História de vingança além-túmulo? Compêndio impressionante de todos os elementos da ficção de horror num microcosmos de quinhentas e cinquenta páginas, à la The Monk, de Matthew Lewis? Revisão moderna de The Great God Pan, de Arthur Machen? Não nos vamos preocupar com definições. A prosa de Straub é arisca e o início do livro é exigente; contudo, assim que as personagens nos são apresentadas, Ghost Story transforma-se num verdadeiro page turner. Muito interessante.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

"A Luz Miserável" no Fórum Fantástico 2010


«Enquanto esperava por Joni, o grupo reunido na suite do último andar do hotel procurava decifrar os sons remissos que atravessavam o chão alcatifado. Mulheres elegantes, acompanhadas por homens vestidos com roupas escuras, olhavam para as pontas dos sapatos, e consultavam os relógios, enquanto dois serviçais deambulavam pela sala com tabuleiros nas mãos: um com comida e outro com bebidas; hoplitas do catering. Atrás da assistência disposta em círculo no centro da sala, em volta de um candelabro com velas acesas, as janelas estavam fechadas e o calor, mesmo com o ar condicionado ligado, era torturante. Um homem novo levantou-se da cadeira para que um velho, suado e cansado de esperar em pé, se sentasse e fez sinal ao criado para pedir uma flute de champanhe. O ruído dos hóspedes do piso inferior continuava a arrogar as atenções dos convidados e a despertar-lhes os nervos: era possível distinguir música e algo orgânico escondido entre as notas; como larvas alimentando-se de uma carcaça. Encostado a uma parede, um dos homens escrevia uma mensagem no telemóvel; outro chocalhava suavemente o porta-chaves que tinha no bolso. Então, Joni entrou na suite. Mortellite não vinha com ela.
'Boa tarde’, disse. ‘Obrigado por terem vindo.' Caminhou até ao centro da sala e esclareceu: ‘A Madame Mortellite não se sente bem, mas realizará a sessão. Peço-vos que aguardem uns minutos.'
'Que se passa?', perguntou uma mulher, com sotaque americano. 'Adoeceu?' A anfitriã respondeu:
'Felizmente, não.' Joni sabia que Mortellite estava deitada no quarto, cheia de dores menstruais. 'Ela está a caminho.' Agradeceu a paciência do público e saiu.
Desceu as escadas e avançou pelo corredor bem iluminado até ao quarto de Mortellite onde a encontrou de pé junto à janela. Estava a vestir um blazer branco.
'Podes fazê-lo?'
'Claro', anunciou a outra. 'A dor ajuda.' Puxou as mangas da camisa e compôs o blazer. Entrou na casa de banho por uns momentos e saiu com o cabelo amarrado num rabo-de-cavalo. O seu perfume cheirava a madeira verde. Bateu palmas e fez sinal a Joni para que abrisse a porta.
'Comeste alguma coisa?', perguntou-lhe Joni, apontando para o cesto cheio de frutas que estava em cima da cama, ainda com o revestimento de celofane inviolado.
'Não’, respondeu Mortellite. ‘Não comi.’ Subiu as escadas atrás de Joni, em direcção à suite onde os convidados a esperavam; olhou para a superfície espelhada das fotos penduradas nas paredes em busca da sua própria imagem, mas o vidro era anti-reflector.
Quando entrou no aposento sentiu a antecipação da assistência e alguma raiva. Avançou até ao centro, abanando a luz das velas com o vento dado pela sua deslocação, e, sem dizer nada, fitou com os olhos bem abertos os pavios incandescentes. Uma cãibra beliscou-lhe o ventre e o mênstruo verteu-lhe para as cuecas: esquecera-se de usar um tampão. Antes do silêncio submergir a suite, ouviu um homem ser calado de modo brusco por uma mulher; o ruído que assolava do piso inferior desapareceu progressivamente, como música afastando-se dos tímpanos de um ouvinte para seduzir outro. Enquanto se concentrava, viu um homem nu, encostado à parede do fundo da sala. Tinha cabelo e barba brancos e parecia exausto. Não estranhou a presença dele.
Encostada à porta, atrás do público, Joni apagara as luzes e observava o espectáculo: os pormenores fantásticos nunca falhavam em capturar a imaginação. Tudo tinha início inesperadamente, como se o momento tivesse esperado uma parteira desde sempre. Sentia um amor impetuoso durante as sessões. Poderia o interior do seu corpo preencher-se de amor como o fumo de tabaco preenche uma suite? Se sim, talvez fosse melhor deitar fora as fotografias e substituí-las por radiografias.
Uma matéria branca apareceu de repente sobre as pessoas.
Assustadas, elas levantaram-se das cadeiras, mas Joni sossegou-as.
'Sentem-se, por favor', disse com um sorriso. 'Não lhe toquem...', e apontou para a substância que rolava no ar. Cheirava a baunilha. 'E não serão tocados.'
Alheia aos movimentos do público, Mortellite continuava a dormir de olhos abertos. Estendeu os braços, mostrando a mão direita enluvada de branco, e a bola de matéria flutuou na sua direcção. Desfez-se em fatias como um novelo de minhocas sobre as palmas e assumiu rapidamente outra forma. Mais manifestações de matéria principiaram a aparecer na sua órbita; e no momento em que terminou a metamorfose, solidificando-se numa morfologia artropodiana, elas também se ossificaram em silhuetas raras, boiando no ar quente da respiração dos convidados: a excitação contida nesse bouquet podia ser provada.»

Um excerto do meu novo livro de contos de horror, editado pela Saída de Emergência, que será apresentado em exclusivo no próximo Fórum Fantástico.
O livro intitula-se A Luz Miserável e será composto por três contos: A Sombra Sem Ninguém (do qual é retirado o excerto reproduzido acima), A Luz Miserável e Rei Assobio.
Fiquem atentos porque, em breve, darei mais novidades sobre este lançamento.

(Imagem: The Witch of Endor Raising the Spirit of Samuel. William Blake, 1800)

Mais confusões g(l)óticas


De quando em quando, o mercado livreiro lembra-se de inventar rótulos novos para vender coisas novas e outras que não são assim tão novas. Quase sempre esses identificadores acabam por ser de carácter redutor para com o conteúdo daquilo que está a ser promovido sob a nomenclatura e, na maioria das vezes, relacionam-se com o género em que as obras, supostamente, se inserem, de forma a serem compreendidos e aceites com facilidade pelos leitores.
Sobre géneros literários, pode ler-se em Theory of Literature de René Wellek e Austin Warren (Harcourt Brace & Company, 1962): «Genre should be conceived, we think, as a grouping of literary works based, theoretically, upon both outer form (specific metre or structure) and also upon inner form (attitude, tone, purpose - more crudely, subject and audience)» (pág. 231). E ainda: «With the vast widening of the audience (...) there are more genres; and, with the more rapid diffusion through cheap printing, they are short-lived or pass through more rapid transitions. (...) we are conscious of the quick changes in literary fashion - a new literary generation every ten years, rather than every fifty» (pág. 232). É certo que a imutabilidade não é uma característica formativa dos géneros literários, que, enquanto entidades vivas (no mínimo, entidades culturais - ou meméticas) são de natureza proteica. Mesmo assim, o principal agente responsável pelas mutações que se verificam neste campo é o mercado e isso corresponde-se com muitas variáveis de ordem de sobrevivência comercial, nas quais pouco ou nada afloram preocupações de índole artística e intelectual. Além de ser um objecto comerciável, um livro é uma manifestação artística, mas o acto de designar um determinado romance com um género ou sub-género em particular tem tanto de artístico como rotular um frasco de salsichas com o logótipo da fábrica onde são feitas; consiste numa identificação dirigida ao leitor (consumidor) e que lhe transmite uma série de conceitos que ele, à partida, considera positivos. É aqui que deve ser considerado o argumento de Wellek e Warren, do qual se aduz que «Genre should be conceived, we think, as a grouping of literary works based, theoretically, upon (...) subject and audience». Acrescento que também o selo editorial de uma obra serve os mesmos propósitos que o género: é também uma marca (como a das salsichas) que cria um conjunto de expectativas nos leitores que dela se aproxima. Daí que a subvalorização ou sobrevalorização de um título literário pode estar - e muitas vezes está - em directíssima comunicação com a editora que o põe à venda: ou seja, essas apreciações são trajectórias exclusivas entre Editora e Leitor, pois não passam por nenhuns pontos que se encontrem no caminho do próprio livro. É uma questão que se pode considerar como sendo paralela à dos géneros e que prova como o mercado é um campo polimorofo.

Neste momento, está na moda um quinhão de denominações para uma série de supostos géneros literários, entre eles, no espectro da Literatura Fantástica, o dito romance paranormal que, pelo que eu entendo, é utilizado para catalogar histórias que, embora contendo elementos sobrenaturais, têm lugar num espaço e num tempo comuns. A minha primeira pergunta é esta: porque é que se inventou (mais) uma designação para denominar obras que já estavam incluídas, ou que podem perfeitamente ser incluídas, nos géneros fantásticos já existentes? A resposta atende à vibrância do mercado livreiro que precisa, de modo constante, de cunhar os seus produtos com o cariz de novidade, de exclusividade, de maneira a titilar o interesse dos consumidores - basta ler qualquer manual de marketing para percebê-lo. O problema é que quanto mais géneros e sub-géneros se inventam, à medida que as criações publicitárias pretéritas vão ganhando desgaste, mais a identidade dos livros se aliena dos leitores; levados a ignorar certas obras porque elas não lhes são apresentadas de acordo com os seus catálogos de nomes reconhecíveis ou predilectos.
Analisando a proposta de romance paranormal percebe-se, de imediato, como ela não se sustenta, pois a raiz da palavra paranormal (que entra no léxico da língua inglesa algures no segundo decénio do século passado) significa o oposto daquilo que se quer veicular: paranormal tem o sentido de próximo do normal, já que o prefixo para, em grego, significa próximo. É sempre arriscado inventar novas palavras quando não se sabe o que se está a fazer. Provavelmente criada com o sentido de ser um sinónimo de sobrenatural (palavra do glossário eclesiástico do século XVI que só no final do século XVIII passou a ser usada popularmente para designar fenómenos inexplicáveis, relacionados com espíritos e criaturas mágicas), a palavra paranormal traduz o contrário: algo que está ao nível da normalidade (do latim normalis que significa conforme o esquadro - que em latim se diz norma). Em suma: dizer-se que um romance que tem criaturas sobrenaturais como personagens é um romance paranormal não faz sentido nenhum.
Porque é que não se chama, simplesmente, romance gótico? Seria mais acertado, atentando até à possível etimologia da palavra gótico, sobre a qual escrevi em pormenor nesta ligação.
Mas romance gótico (ou de horror, ou até de suspense), apesar de ser correcto, não tem o verniz límpido do efeito de novidade que o mercado livreiro precisa para vender. Entretanto, vai-se contribuindo para o baralhamento das palavras e seus significados.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Toledices

Eu no Callejon del Diablo, famosa rua toledana em que um apóstata medievo foi obrigado a pendurar na sua janela o sambenito pintado com o rosto do Diabo que envergava diariamente, quando saía de casa. Terá sido daqui que veio a inspiração para as toalhas com as estampas do Menino Jesus?

E para que o Diabo não se sinta desenraizado em Toledo, alguém se lembrou de baptizar a rua de baixo (como convém) com o nome de Callejon del Infierno.

Na (in)famosa Plaza de S. Cipriano (o Verdadeiro Capa de Aço).

Quem diria que São Cipriano tinha uma padaria? E dá-se ao luxo de fechá-la ao Domingo, ainda por cima. Grandes vidas.

No final de uma viagem sulfúrica, com Diabos, Infernos e Sãos Ciprianos à mistura, nada como ir jantar à "La Abadia". Sim, porque os diabretes podem ser mais divertidos, mas nada supera a gastronomia dos seus opositores.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Intervenção Divina

Confusões com (figuras de) estilo

Usar-se a palavra metáfora quando é claro que se quer dizer alegoria.
Uma metáfora, cujo étimo grego significa transposição é o acto de transpor uma palavra para o lugar de outra, com a intenção de operar um efeito literário (positivo ou negativo) que funciona por comparação implícita: por exemplo, «Fulano de tal é burro». Ninguém espera que o sujeito do exemplo seja, de modo literal, representante da espécie asinina, mas que, por comparação implícita, se fique com a ideia de que possui faculdades com as quais os burros são conotados nas tradições populares (raciocínio coriáceo, teimosia, etc.). Por seu mérito, a alegoria (que significa figuração) é que se baseia na comparação de um termo concreto e um abstracto; ou seja: a função da alegoria é evidenciar objectos e mundos abstractos.

Por exemplo, o quadro A Carroça de Feno (De Wooiwagen, 1502) de Hyeronimus Bosch é um belo exemplo de uma alegoria, pois usa uma imagem (ou imagens) concretas para veicular significados abstractos.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Horror


«Tornar-se lenda é a ambição de todas as histórias.
Mas alguns homens também se tornam lendas. As suas vidas desaparecem e, transformados em lenda, tornam-se em histórias. E a ambição dos homens que se tornam histórias é serem boas histórias.
Todos conheciam a história do corcunda com a gaita.
Chegava de noite, embrulhado em treva como o Diabo que, certamente, adorava. Não falava. Não atacava ninguém. Penava pelos campos cultivados e pelas aldeias, tocando a gaita: um instrumento que assobiava como uma cobra e que chorava como uma criança.
As crianças, ouvindo o som da gaita, levantavam-se das camas e saíam de casa para seguir o músico até ao Inferno. Apenas as que dormiam um sono leve despertavam e as outras, acordando de manhã sem a companhia dos irmãos, sabiam que nunca mais os iriam ver. As famílias envergonhavam-se e mentiam, criando desculpas de doenças e acidentes, mas essas sepulturas eram sempre cenotáfios.
Uma vez, uma mulher encontrou uma flauta enquanto semeava o campo e fugiu. O marido correu para o lugar onde ela achara o objecto e apanhou-o: só podia ser uma das gaitas do corcunda, caída do instrumento quando ele passara ali de noite. Era feita de osso. Não soube explicar de que animal. Pensou em tocá-la, mas uma vertigem impediu-o de plantar os lábios no bocal. Suou. Estava cheio de medo! Partiu a flauta e enterrou os fragmentos no campo. Outros arrogavam que também tinham visto o corcunda desgrenhado; alguns admitiam ter falado com ele. Uma história acaba sempre por gerar outras piores, mas as crianças é que não deixavam de desaparecer.
Aquilo que a lenda conta é que as crianças fogem das casas onde são maltratadas, que são enviadas para viver com os tios na cidade porque os pais pobres não podem garantir-lhe o sustento, que são vendidas para servirem de serventes.
A história verdadeira é diferente.
As crianças desaparecem porque vão ao encontro dos monstros durante a noite. As crianças desaparecem porque são comidas por monstros durante a noite – monstros com fome de crianças. Monstros com fome de crianças e que as comem com presas e garras e esporões. As crianças desaparecem porque acreditam em histórias.»

O texto acima é um excerto do meu novo livro de contos de horror, a ser apresentado em exclusivo no próximo Fórum Fantástico, numa edição da Saída de Emergência. Fiquem atentos, porque em breve divulgarei o título do livro e outras novidades.

(Imagem: Poika ia Pääkallo de Magnus Enckell. 1893.)

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Sobre eReaders

No seu livro When Things Start to Think (Henry Holt & Co., 1999), o professor Neil Gershenfeld, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), enumera as vantagens que os livros têm em relação aos computadores: «Books boot instantly, and have a high-contrast/high-resolution display; they are viewable from any angle, in bright or dim light; they offer fast random access to any page, with instant visual and tactile feedback; they are easily annotated with no need for batteries or maintenance; and are robustly packaged.» A conclusão é: «If the book had been invented after the laptop it would be hailed as a great breakthrough!» (pg. 13).
Não sou tecnófobo, mas não acredito que tudo aquilo que a tecnologia oferece é capaz de simplificar ou resolver os nossos problemas; e no que diz respeito à leitura o único problema é a incapacidade de agarrar um livro, ler o conteúdo e compreendê-lo. O cérebro não é um músculo, mas trabalha como se fosse um, no sentido em que se fortifica e agiliza quanto mais for exercitado, e a leitura, que também não é um exercício, dá tanto trabalho como um grande esforço físico. É por esta razão que se lê tão pouco e tão mal: ler dá trabalho, ponto final. Nenhuma tecnologia é ou será capaz de resolver o problema da iliteracia, por mais fé com que se observe os gadgets.
Transfiro o que Gershenfeld escreveu sobre a vantagem dos livros em relação aos computadores para a problemática dos eBooks e dos aparelhos que permitem a sua leitura: os eReaders. A primeira pergunta a fazer é esta: o que é que se tem a ganhar com um eReader que não se ganhe, à partida, com um livro? A resposta é: nada. Pelo contrário: o eReader consome energia e, tal como qualquer outro electrodoméstico, como a torradeira ou o espremedor de citrinos, pode avariar-se de um momento para o outro ou até "comportar-se" de modo temperamental, escusando-se de funcionar por culpa das mais variadíssimas causas (as máquinas são sensíveis às condições climáticas, atmosféricas, ao pó, etc.).

Ler faz-se com livros. O que se faz com um eReader não é ler: é brincar. E se for com um eReader com ligação à Internet, então a brincadeira assume contornos quase multidimensionais, com múltiplas hiperligações para sites de venda de livros, pop-ups com anúncios a outros livros e ícones que abrem janelas para as últimas novidades do fabricante do próprio eReader. Em suma: é um universo de informação delirante e veloz, mas que tem tanto a ver com leitura como as batatas fritas que se vendem nas cadeias de fast-food têm a ver com batatas: zero. Ler num ecrã, mesmo que seja num ecrã supostamente preparado para o efeito, como os dos eReaders, não é conveniente à absorção - quanto mais à compreensão de textos - que tenham um tamanho maior que dois ou três parágrafos. Tenho muitas dúvidas sobre a qualidade de uma leitura feita num eReader e tenho quase a certeza de que o tempo irá demonstrar que a leitura e esta tecnologia não são compatíveis.
O modo como eu observo este problema é o seguinte: a mente humana é um produto do cérebro, mas, independentemente disso, é amoldada pelo corpo inteiro, o que significa que o modo como o corpo de um indivíduo experimenta o mundo influencia de forma cabal o desenvolvimento da mente; se fosse possível transplantar uma mente para um corpo diferente, ela mudaria passados poucos dias, porque o novo invólucro lhe forneceria diferentes sensações e experiências. É deste enunciado que parto para a análise da leitura nos eReaders: a leitura faz-se com o livro, porque o próprio livro, enquanto objecto, vai influenciar o leitor - o acto de agarrar e folhear um livro é parte constituinte da prática da leitura. A experiência de ler num eReader é uniforme: sem sobressaltos. O eBook é um "livro transplantado", tal como a hipotética mente transplantada do meu exemplo: extirpado do seu hardware natural (o papel), aquilo que o software (o texto) oferece é outro tipo de experiência. Não é leitura.

A atracção dos eReaders consiste em exclusivo na sua interactividade e isso ocorre porque vivemos numa época que valoriza as experiências empíricas que apelam à emotividade e não ao intelecto. Passem os olhos por um bloco publicitário em qualquer canal televisivo: a mensagem principal da maioria dos anúncios é "Na companhia dos teus amigos tudo é possível". Tudo é possível quando se está em grupo, comunicável e acessível no momento. O grupo é afectivo, aditivo e perigosamente uniformizador: as ideias não valem por si, mas têm que estar hiperligadas às experiências validadas pelo grupo, e os factos, seja de que área forem, são olhados com desconfiança quando não provém de dentro do grupo (o público) e são fornecidos por fontes de autoridade nos correspondentes campos de especialidade. Por oposição, a leitura apela ao ascetismo, à razão, à individualidade. Não admira que esteja fora de moda e a ser substituída. Será possível que, no futuro, ninguém terá a capacidade cognitiva ou competências intelectuais para ler e compreender uma narrativa longa, que exija um prolongamento temporal para além do momento da recepção, de maneira a ser usufruída? A tónica colocada na interactividade de que depende a comercialização de gadgets, como os eReaders, irá criar uma tendência ainda maior por experiências que sejam altamente estimulantes, em prejuízo de outras que se construam com a reflexão e a análise?

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Novo livro de contos de horror


«Quando a luz dos faróis dos automóveis incidia na fachada do hospital criava a ilusão de que as janelas eram olhos que piscavam aos condutores; como se a casa dos doentes fosse uma prostituta que procurasse clientes, à beira da estrada. Elevando-se pela encosta, a estrada encaracolava até ao cume, antes de endereçar-se até à vila mais próxima, entornando-se como enol entre os edifícios. Em andamento, atravessava um apoucado arvoredo que sulcava um septo entre o desusado sepulcrário e o aquartelamento abandonado: no Verão era vulgar ver joggers a correr entre ambas as ruínas, quais formigas farejando feromonas.
O sistema imunológico do hospital defendia-o das doenças dos acamados e apenas a ferrugem, que brotava nas articulações antigas, consumia-o em acerbas dentadas; às vezes com violência, mormente quando o metabolismo de madeira e betão agia como um antídoto contra a moléstia que feria o ferro. Caibros tortos, rombos pelo peso, suportavam as camas e as salas de intervenção cirúrgica. Os elevadores tossiam gotas de óleo tão espessas como banha. Na morgue, cujo cheiro dos cadáveres nos gavetões refrigerados fazia lembrar o do taboulé, a tinta descascava-se das paredes em pétalas sarapintadas de humidade. No telhado, um ninho abandonado de cegonha sacrificava raminhos ao vento – ex-votos secos.
Deitado, Fortunato olhou para o saco de soro que comunicava com ele através de um cateter. Abanou o braço e a bolsa balouçou, como um cacho de pérolas, iluminada pela luz dos faróis que era empurrada pelas frestas das persianas e fazia feridas douradas na parede à sua frente. Estava sozinho num quarto com seis camas, oculto por uma cortina que não o deixava ver a porta. Mas por mais eficaz que aquele biombo fosse, não seria impermeável à morte e Fortunato sabia que ela estava a caminho. Talvez já estivesse escondida, à espera do momento certo para romper a cortina e mostrar-lhe o sorriso escaveirado que iria sugar-lhe a vida. Ou talvez a morte estivesse dentro dele, aninhada na concha escura que era a sua mente, envenenando-o com pesadelos. O homem virou a cabeça para o outro lado da cama e esticou o braço para agarrar um copo de água. Passou a vista pelas sombras: não sabia onde a morte estava, mas sabia que não tardava.
Por acidente, observou o seu reflexo no espelho que tinha na mesa-de-cabeceira e não se reconheceu. Não tinha dado conta que o horror se apoderara dele: as pupilas eram poças baças e os olhos pareciam escoar para dentro da cabeça. Os pulsos tremiam-lhe, criando cordilheiras de suor no lençol; ouviu o tubo do soro bater repetidas vezes no suporte de aço inoxidável, como se fosse um código do Inferno. Há quantas horas estaria assim? Desde aquela noite em África, de certeza, mas só o compreendeu naquele momento: a doença, como ácido precipitado sobre uma placa de cobre, derretera o supérfluo – a esperança – e depurado o essencial – o desespero –, criando-lhe uma tremenda máscara de medo na cara.
Pensou em estrelas e em fagulhas cuspidas de uma fogueira, nadando no éter como girinos incendiados. Ouviu latidos guturais que soavam como se tivessem sido ladrados por lobos, mas que saíram das gargantas de crianças. A Lua estava vermelha e inchada, como um planeta cheio de sangue. Morria de calor. Agarrou um gafanhoto que lhe subia pelo pescoço e espremeu-lhe as tripas. Olhou para a palma da mão. Estava limpa. O quarto pareceu-lhe mais pequeno. Só existia a sua cama. A cama e a janela. Uma silhueta infame floresceu nas feridas luminosas na parede.
Ele vem a caminho, pensou, rangendo os dentes. Vem mesmo.
E a certeza foi seguida por uma dúvida: se ele vem, será que eles também vêm?»

O texto reproduzido acima é um excerto do novo livro de contos de horror que irei lançar, pela Saída de Emergência, em exclusivo no próximo Fórum Fantástico.

Mais novidades em breve.

(Imagem: Têtes de Suppliciês, Théodore Géricault.)

Bibliohistórias


O escritor Pedro Almeida Vieira (A Mão Esquerda de Deus, A Corja Maldita) elaborou no seu site de Internet um completíssimo acervo sobre romances históricos portugueses, chamado biblioHistória, que compila títulos publicados desde o século XIX até ao presente. São mais de 320 autores e mais de 750 obras em lista, enriquecidos com biografias, currículos editoriais e excertos. Um arquivo de grande preço a consultar e a visitar com frequência.

domingo, 8 de agosto de 2010

Dez dicas sobre escrita

1- Não escrever como se fala.
Aquilo que é desculpável no decurso de uma conversa não é tolerável num texto. Poucas coisas são tão denunciadoras da falta de talento de um escritor como a coloquialidade.

2- Aprender a gramática.
É melhor aprendê-la que fingir que a ignorância é um estilo de escrita arrojado. A gramática é como as leis da física: não é negociável. O que significa que um texto que a descure é, na maioria das vezes, ilegível. Quando alguém diz que a gramática não é importante, esse alguém não sabe escrever.

3- Apesar de aprender a gramática, escrever como um escritor e não como um linguista.
Os linguistas odeiam literatura, porque a literatura porta-se mal. Na maioria das vezes, eles têm razão, mas isso não deve consistir num obstáculo à imaginação - que é aquilo de que se ocupa (ou deveria ocupar-se) a literatura. Livros como Finnegans Wake, A Clockwork Orange ou Riddley Walker são anátemas para os linguistas, mas sem esses títulos a cultura ocidental seria muitíssimo mais pobre. Todavia, não pensem, nem por um segundo, que Joyce, Burgess e Hoban não aprenderam gramática (dica número 2).

4- Escrever um livro e não um guião de cinema.
Nas listas de conselhos para aspirantes a escritores não é novidade encontrar a dica da economia de descrições, mas que tipo de descrições, ao fim e ao cabo, devem ser económicas? Eu acho que o leitor não precisa de saber a cor dos olhos de todas as personagens do livro, ou outros detalhes da mesma ordem, mas os ambientes e os estados de espírito dos protagonistas devem ser descritos com requinte. Afinal de contas, o leitor comprou um livro e não um guião de cinema, por isso não escrevam livros como se eles fossem guiões de cinema (vulgo, colecções de diálogos intercalados com acção). Infelizmente, a literatura dita de género é fartíssima em exemplos dessa natureza, o que afasta leitores experimentados em outros tipos de literatura, mais ricos em discurso indirecto. É aqui que reside, também, um erro de percepção de leitores menos experientes: é que ser empolgante apenas significa ser empolgante, não significa ser bem escrito. Sejam exigentes.

5- Ser erudito.
Sejam inteligentes a escrever.
Escrevam livros inteligentes e não tratem os leitores como se eles fossem parvos.
Não se pode saber tudo, mas pode-se tentar. Procurem estar sempre bem informados e actualizados sobre tudo. Tentem saber o máximo que conseguirem do assunto sobre o qual querem escrever. Invistam em livros e leiam todos os dias. Não há nada mais triste do que um escritor que não é erudito.

6- Ler os clássicos.
Os clássicos da literatura são a fonte de tudo o que se escreve, realiza e encena. Conheçam-nos bem e percebam de que maneiras é que ainda reverberam no presente e de que formas é que o vosso trabalho comunica com eles. Não me refiro, somente, à ficção, mas também aos clássicos da filosofia, da história, da teoria da arte. Não há nada mais triste do que um livro sem raízes: é ainda mais triste do que um escritor que não é erudito.

7- Ler os melhores autores que escrevem no género de literatura em que se quer singrar.
É essencial ler o que de melhor se escreve na área em que se quer fazer uma carreira (ignorem o pior, porque é uma perda de tempo). Não só nos obriga a questionar o que é que temos para oferecer que seja melhor que aquilo que estamos a ler, como nos faz evitar repetir ideias que já foram publicadas. Ler as melhores referências e conhecer bem a história do género literário em que se quer nidificar é tão vital para um escritor como o hidrogénio é vital para a tabela periódica e eu desconfio dos autores ou aspirantes a autores que desconhecem ou não mostram interesse nenhum em descobrir o que já foi escrito. Isto também se relaciona com a dica número 5.

8- Ser perseverante.
Qualquer um é capaz de começar a escrever um livro, mas terminá-lo é outra história. Escrever bem dá muito trabalho: por isso é que tantos desistem. Sejam perseverantes: não percam tempo com coisas inúteis. Se não têm tempo para escrever todos os dias, por motivos profissionais (ou outros), escolham um dia do fim de semana para passá-lo a escrever e não deixem que nada interfira com essa escolha.

9- Sacrificar-se.
É, somente, uma progressão da dica número 8. Não se pode ter o glamour que uma profissão artística, como a de escritor, traz, sem se ter, também, as horas invisíveis de trabalho árduo e sacrifício. Ser escritor é uma actividade solitária. Não desperdicem em actividades inúteis as horas que poderiam devotar à leitura e à aprendizagem. Fiquem em casa a escrever, porque os livros não se escrevem sozinhos. Tenham o objectivo de ser os melhores naquilo que fazem, senão não vale a pena.

10- Ser sério.
O humor tornou-se uma espécie de língua franca (e um refúgio) que permeia todas as áreas da vida, inclusive as artísticas, mas as consequências disso é que tudo passa a ter uma importância relativa, mesmo aquilo que é verdadeiramente importante. Atrevam-se a ser sérios.

Uma doença excêntrica do mercado do livro

O Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas, compêndio fabuloso de síndromes e maleitas imaginárias, inventadas por um conjunto dos melhores autores actuais de literatura fantástica, e editado em português pelas edições Saída de Emergência, corre o sério risco de passar abaixo do radar dos seus leitores em potência, porque alguns livreiros o andam a arrumar nas estantes erradas. Num périplo que fiz por algumas das melhores e mais concorridas livrarias de Lisboa encontrei este livro, que é de ficção fantástica, disposto nas secções de Saúde e Enfermagem, Medicina e até Esoterismo.

Este erro é, no meu entendimento, incompreensível, pois na própria contracapa do livro está expresso o género ao qual ele pertence (como, aliás, é apanágio de todos os títulos editados pela Saída de Emergência), já com o objectivo de esclarecer os livreiros e desfazer possíveis confusões antes delas acontecerem. Isso, pelos vistos, associado às informações pormenorizadas dos presses-releases editoriais, ainda não é suficiente e várias vezes pode-se encontrar livros expostos em locais inesperados. Contudo, nunca tinha visto um caso de troca de identidade tão excêntrico como este que envolve o Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas.

Poderia aproveitar este post para discorrer sobre o estado de acefalia crónica a que chegou o mercado do livro e o modo pré-formatado com que este é etiquetado, exposto e comercializado às massas, cada vez mais desprevenidas e desenraizadas, por livreiros que já não são especializados e que às vezes mais parecem revisteiros, na ânsia de promover a rotatividade dos títulos em exposição de maneira a encontrar uma galinha dos ovos de ouro todas as semanas.
Mas não vale a pena.
Como insistiu (é a palavra certa) um livreiro a quem fui avisar da má colocação do Almanaque na sua superfície comercial: «O colega da Saúde achou que o livro ficava bem ali e é ali que vai ficar.» Se o "colega da saúde", insigne especialista em literatura como é evidente, achou que o livro ficava bem onde foi arrumado, então, está tudo dito. Alguém devia dizer a certos empregados das livrarias que nem toda a gente que entra nas suas superfícies comerciais são patetas sem referências, em busca do livro do Cristiano Ronaldo: alguns são críticos, jornalistas e, no meu caso, escritores que além de odiarem ser tratados com condescendência, ainda podem lembrar-se de emitir opiniões desfavoráveis nos seus veículos públicos de expressão sobre o modo como foram tratados.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

14ª Feira do Livro de Peniche


No passado dia 30, estive na 14ª Feira do Livro de Peniche para conversar com os leitores sobre O Evangelho do Enforcado (Saída de Emergência). A apresentação, à qual se seguiu uma sessão de autógrafos, foi conduzida pelo professor Rogério Cação, Presidente da CerciPeniche e da Assembleia Municipal de Peniche (na foto acima). A ele e a Manuel Luís da Associação Juvenil de Peniche agradeço a cordialidade e profissionalismo com que me receberam.


«Depois de ler
O Evangelho do Enforcado, imagino o David embrenhado em livros e narrativas históricas, a descobrir factos e personagens reais que, com um fantástico toque de uma imaginação fértil, irão resultar num cruzamento do real com a ficção, contextos que, por vezes, se torna difícil distinguir, tão bem urdidos são os enredos e tão credíveis são as histórias individuais. É isso que o torna distinto de outros autores. (...) David Soares descreve-nos personagens que conhecemos dos livros de História, mas despidas de adornos fictícios ou, se quiserem, vestidas com as características que interessam ao autor e à história. E acreditem que David Soares não deixa essa capacidade de imaginar por mãos alheias, sempre muito ancorado num trabalho sério de pesquisa. (...) extremamente realista na descrição de situações que outros tipos de escrita relevariam, e que se torna fascinante pela vivacidade e credibilidade dos retratos de época que, por isso mesmo e ainda que não sejamos fãs do género ou que nos suscite alguma dúvida a pretensa ligação do autor a um certo tipo de narrativas onde o horror pode espreitar num canto qualquer, temos que ler. E não tenho dúvidas que, se o fizermos, corremos o risco de querermos mais.» (Excerto do texto da apresentação, escrito e lido por Rogério Cação.)