sexta-feira, 19 de julho de 2019
Os Silenciosos
O capítulo cinquenta do Livro da minha vida do matemático e físico paduano Girolamo Cardano é uma peça biográfica que deslumbra pelo terror — um terror metafísico, feito de aforismos, uma epitáfia elegia ao seu uxoricida filho executado e um breve, mas arrebatador diálogo entre o próprio Cardano e um figurante fictício denominado S. É este S. que responde à declaração que o autor faz sobre ser uma fonte de infelicidade procurar incessantemente uma boa vida neste mundo, pois nele não existe verdadeira felicidade: diz o tal S. que filosofar daquele modo não basta, que é preciso conhecer o propósito daquilo que se procura, do mesmo feitio que um artífice — tal como um ferreiro sabe fazer pregos, barras, bigornas e marretas. "- Mas vós", queixam-se os artesãos, "não instruís de forma prática. Qual é a função da felicidade? Queremos saber qual é a utilidade das vossas teorias. Pois se nenhuma existe, para quê escrever, ensinar e aprender?"
Pergunta terrível, como um abismo que arreganha a dentuça granítica no fundo de um abrupto penhasco. Nietzsche intuíra esta inquietação permanente entre a abstracção e o utilitarismo no subtítulo de Crepúsculo dos Ídolos, livro escrito já no fio da loucura: é ele Como se Filosofa com o Martelo. Ou seja: como filosofar que nem um ferreiro na sua oficina? Como alcançar a cristalina e estéril simplicidade do artesanato, da técnica ao serviço do receituário? Quando se propunha a usar o martelo para fazer reverberar os ídolos de outrora, qual diapasão, e escutar a veracidade ou falsidade ressoantes era, pois, essa resolução que se procurava? Se, como dizia Cardano, não há verdadeira felicidade neste mundo, em que outro poderá existir?
A corrida ao espaço não respondeu a essa angústia. Tão pouco criou angústias novas: limpa e lisa como aço cirúrgico, foi pura técnica sem filosofia. Só martelo, sem reverberação. Comprova-o o facto de ter cessado sem galas diante do desentusiasmo do público desiludido pela ausência de felicidade no cosmos. Voltou-se, cardaniamente, a procurar-se insistentemente por ela neste mundo.
Não obstante, os animais foram os pioneiros no desbravamento dessa novíssima Nova Terra: cães como a spitz russa Laika, a primeira cosmonauta, o primeiro ser vivo a entrar no espaço intersideral, que sobreviveu seis dias sozinha num claustrofóbico cenóbio até morrer asfixiada quando se esgotaram as reservas de oxigénio; mas também gatos, como a tuxedo francesa Félicette, que foi ao espaço e voltou, de cabeça e cérebro atravessados por uma mão-cheia de desconfortáveis eléctrodos, para ser eutanasiada poucos meses após o regresso para se examinar esse seu cérebro semi-cibernético.
Estas não são as nossas mascotes amabilíssimas — representando-as esteve na Apollo 11 o ursinho de peluche de Neil Armstrong; ícone salvífico levado para absorver o pavor cósmico de se estar sozinho no hiante abismo do universo. Hiante, pois não é silencioso, apenas grita tão alto que só cães como Laika e gatos como Félicette são capazes de ouvi-lo.
No Museu Nacional de Arte Antiga pode ver-se o quadro Interior de Igreja Católica, pintado por Gerrit Houckgeest: no canto inferior direito da imagem está um casal em arroubo espiritual diante de um altar — e atrás do homem e da mulher, contemplativo no seu eterno mutismo de criatura sem fala, senta-se no chão o seu cão, também olhando para a ara devocional. No salto de fé em que consistem todas as íntimas adorações do invisível — sejam prostrações aos deuses ou desesperadas demandas por felicidade em novos mundos e novos planetas — os animais costumam dar o primeiro passo e, pasme-se!, permanecem, acompanham-nos nos interiores das naves: as dos templos, as que navegam e as que voam.
No seu insondável silêncio, na muda e irregular gramática das bestas e dos loucos, os gestos coreografam um código apetrechado de alma: esse período vazio entre cada martelada no ídolo e na bigorna comporta o vácuo do espaço e do abismo. Só na linguagem do silêncio, do pensamento, da introspecção, se poderá animar as empresas puramente tecnicistas que galvanizam no início e estiolam quase a seguir. Os artesãos a que S. deu voz estavam errados: as coisas importantes não se explicam por preceitos empíricos.
Uma cadela sufoca.
Uma gata é trepanada.
Um urso de peluche é vendido em leilão.
Os silenciosos olharam para o abismo e este também os olhou em silêncio.
A costureira da Lua
Na
edição de hoje do Jornal i, numa chamada de capa, a NASA diz que não
tem ideia de (se eu entendi bem a frase) quem fabricou a bandeira que
está fincada em solo lunar. Porém, seria fácil a NASA recuperar essa má
memória se olhasse para o Diário de Notícias de 23 de Julho de 1969 e
lesse a entrevista dada pela costureira portuguesa Maria Isilda Ribeiro,
que, residente nos Estados Unidos desde 1966,
trabalhava na fábrica de bandeiras que produziu o mais universal
estandarte do século XX. Na altura com vinte e três anos, Maria Isilda
Ribeiro não imaginava, provavelmente, que as marcas impressas pelas suas
mãos ficariam indeléveis no espaço: existem impressões digitais
portuguesas na Lua — romântica coda para a senda renascentista dos
Descobrimentos de que fomos pioneiros, se se quiser ver assim.
quinta-feira, 11 de julho de 2019
Barroco: metamorfoses de uma palavra - Parte II
3 – O regresso do extravagante
Barroco,
o neologismo de Orta, difundiu-se pela res
publica letrada e científica, mercê do fulgurante êxito dos Colóquios […]; em finais de 1564, o
físico e botânico flamengo Carolus Clusius adquire um exemplar em Lisboa e
traduz o texto para latim, imprimindo-o três anos depois em Antuérpia, na
tipografia do humanista francês Christophe Plantin: intitula-o Aromatum et simplicium aliquot
medicamentorum apud Indios nascentium historia – e na esteira desse best-seller aparecerão rapidamente outras
edições, em castelhano, italiano e francês.
Com efeito, no último quartel de
Seiscentos, o Dictionaire universel […]
do lexicógrafo francês Antoine Furetière (publicado postumamente em 1690, dois
anos depois da morte do autor) estabelece a acepção ortaiana da palavra na
redacção desta entrada: «BAROQUE. Terme de Joiialillier, qui ne se dit que des
perles qui sont pas parfaitement rondes.» Quatro anos depois, o significado
conserva-se, pois a primeira edição completa do canónico Le Dictionnaire de
l'Académie françoise dedié au Roy contém
um verbete muito parecido: ««BAROQUE. Adj. Se dit seulement des perles
qui sont d’une rondeur fort imparfaite. Un
collier de perles baroques.» Aliás, o mesmo texto é reproduzido verbatim na segunda edição do
dicionário, o Nouveau Dictionnaire de l’Académie françoise dedié au Roy, publicado em 1718. Porém, no ano de
1740, na terceira edição do dicionário, de título abreviado para Dictionnaire
de l’Académie françoise, pode ler-se o seguinte: «BAROQUE. Adj. Terme qui n’a d’usage qu’en
parlant. Des perles qui sont d’une rondeur fort imparfaite. Un collier
de perles baroques. BAROQUE, se dit aussi au figuré, pour Irrégulier, Bizarre, Inégal.
Un esprit baroque. Une expression baroque. Une figure baroque.» [Sublinhado meu.] Ou
seja: é inventariado pela primeira vez o sinónimo alegórico de barroco, enquanto coisa
extravagante, fora do normal.
É um significado que, por via autónoma,
reconquista o sentido da “ausência de harmonia” que Montaigne aplicara na sua
crítica aos escolásticos [ver Parte I]. Que terá sucedido entre 1718 e 1740
para, em França, a interpretação da palavra barroco se ter transformado? A resposta é simples: um quinquagenário professor
de música francês começou a compor tragédias musicais.
4 – O excessivo senhor Rameau
Em 1722, Jean-Philippe Rameau
publicou um pioneiro livro de ciência musical intitulado Traité
de l'harmonie, ápice de uma
longa carreira como teórico musical: nesse trabalho, o autor pensava ter
encontrado uma espécie de “lei natural” da música – tropo que, acrescente-se, começava
ser um indelével ingrediente do espírito “matematizante” desse dealbar de
Setecentos, pois que outra coisa não eram os recentes livros de John Locke e
Isaac Newton senão tentativas de encontrar leis naturais – repetíveis e universalmente
aplicáveis – nos seus respectivos campos de estudo? Em poucas décadas
seguir-se-iam, subordinados ao mesmo objectivo, os livros de Adam Smith, David
Hume e Jean-Jacques Rousseau – este último, adversário de Rameau nas ideias e
nos gostos musicais, como veremos. O acolhimento positivo dado ao singular tratado
inspirou Rameau a escrever outro, publicado quatro anos depois, com um título
mais programático: Nouveau système de musique théorique – considero que
não é acidental o facto de a harmonia estar ausente no novo título e ser
substituída por um novo sistema. É que a música que Rameau irá compor e
apresentar ao público será radicalmente diferente.
Na verdade,
Rameau só se estabeleceu em Paris aos quarenta anos de idade e envolto num
certo noli me tangere de provinciano, trazendo uma reputação de
instrumentista competente, é certo, mas nada que se guindasse ao génio; ele foi,
aliás, um retrato inverso do prodígio que irrompe na infância, à guisa de um
Mozart – até exasperou os mestres jesuítas do seu colégio em Dijon, no coração
da Borgonha, por culpa da fraca aptidão para o estudo. Dz-se que passava as
aulas a cantarolar tolas melodias que inventava… Há, de facto, organismos raros
que passam por um período dilatado de estádio larvar; constantemente
consumindo, ruminando, aguardando, para, no final, às vezes já muito distantes
do fulgor fisico da juventude, romperem o casulo de modo esmagador.
Foi isso,
precisamente, que ocorreu a Rameau no dia 1 de Outubro de 1733, com a estreia
na Académie Royale de Musique, em Paris, da sua primeira ópera Hippolyte et
Aricie: tragédia musical em cinco actos com libreto de Simon-Joseph
Pellegrin (adaptação parcial da obra poética Phèdre, de Jean Racine,
publicada em 1677). Até esse momento, pouquíssimo – nada – na vida musical de
Rameau preparara o público parisiense para a polifónica complexidade e
intensidade dramática dessa ópera inicática. Rapidamente, se criou um septo
entre as massas agitadas, num lado com admiradores fervorosos de Rameau e o
outro eivado de ferinos detractores: estes, apelidados de Lullistes,
partidários do compositor Jean-Baptiste Lully (antigo colaborador de Molière) e
do estilo de tragédie en musique por ele desenvolvido, caracterizado
pela chamada “abertura à francesa” (admirada e glosada por Bach e Handel, por
exemplo); e os outros, imediatamente denominados de Ramoneurs – palavra
francesa que significa limpa-chaminés e apensa a este fim específico em
virtude da homofonia com o apelido Rameau. Só em meados de Setecentos,
Rameau principiou a ser valorizado, tornando-se, inclusive, compositor da corte,
adoptando a partir daí o título de Compositeur de la chambre du roy. Não
obstante, em 1733 e nos anos que depressa se seguiram não era fácil
prognosticar esse triunfo e Rameau, do alto dos seus cinquenta anos, poderia
facilmente ter-se dobrado às críticas e permanecido um obscuro teorista
musical, hoje talvez totalmente desconhecido.
5 - A invenção do Barroco
Aos nossos
ouvidos contemporâneos, Hippolyte et Aricie não parece, de facto, tão
diferente assim dos trabalhos de Lully, embora já apresente determinados elementos
que Rameau consolidará numa identidade própria em óperas posteriores – por
exemplo, Les fêtes d’Hébé, ou Les Talents lyriques, de 1739, Dardanus,
também de 1739, e Zoroastre, de 1749 – como o abandono total de um
prólogo à francesa (em Zoroastre) e a tónica colocada no carácter
dramático, “narrativo”, da representação, prefigurando a revolução realizada em
1767 por Gluck e Calzabigi com a versão original, em italiano, de Alceste,
que no meu entender é já uma ópera proto-romântica. A abertura de Les fêtes
d’Hébé […] afasta-se da matriz lullista, elevando-se até à quase
dissonância – um tipo de dissonância ainda harmónica quando comparada com o paradigma
contemporâneo, mas antecipando o tipo de difonia que, num registo diferente,
telúrico, tenebroso, distinguirá a ópera Tristan und Isolde de Wagner
(1865). Sobretudo, a primeira ópera de Rameau é um caleidoscópio de conceitos, riffs
e matizes que, às tantas, não podia deixar de confundir a assistência – e os
próprios músicos.
Prova disso é a
crítica impressa na edição de Outubro de 1733 da gazeta literária Mercure de
France, publicação que datava desde 1672 e que é uma das melhores varas de
vedor para se detectar as pulsões desta sociedade francesa de finais de
Seiscentos e inícios de Setecentos. Nesse texto, o crítico escreveu o seguinte:
«On a trouvé
la Musique de cet Opéra un peu difficile à executer, mais par l’habileté
des Simphonistes et des autres Musiciens, la difficulté n’en a pas empêché
l’exécution. (…)» [sublinhados meus]. É tentador cotejar esta crítica com o
que diz outro texto, também publicado no Mercure de France, mas na edição de Maio de
1734; nessas páginas, sob o título “Lettre de M. *** à Mlle. *** sur l’Origin
de la Musique”, um autor anónimo diz o seguinte: «(…) toujours de la tristesse
au lieu de tendresse, le singulier étoit du barocque, la fureurdu
tintamare [algaraviada, assuada]; au lieu de gayeté, du turbulant, et jamais de
gentillesse, ni rien qui put aller au couer; (…)» [sublinhado meu].
Para mim não é
claro que este texto de 1734 se cifre numa crítica directa à música de Hippolyte
et Aricie, chamando-lhe barroca, como alguns autores vêem, pois nem
ela, nem o seu compositor são chamados à colação numa redacção bastante
ambígua. Todavia, é verosímil que, aqui, o emprego de barroco enquanto desqualificativo
que carrega o significado de desarmónico se relacione com a estreia em 1733 da
obra inaugural de Rameau e com o impacto provocado pela sua música estimada
difícil e excessiva por parte do público e pela crítica.
Mais importante
é a revelação que esta é, provavelmente, a primeira vez que a palavra barroco
aparece publicada enquanto adjectivo (pejorativo) de uma obra artística – neste
caso, uma ópera. E sabemos que é assim, porque podemos ler também no Mercure
de France, na edição de Junho de 1728, uma adivinha em verso, intitulada
“Enigme (de A. B. C.)”, em que a palavra baroque aparece no sentido de “forma
imperfeita”, que é o sentido que circulava na altura e que era registado nos
dicionários: «(…) a
l'étranger je dois mon nom, / comme ma baroque figure (…)»
[sublinhado meu]. Novamente no Mercure de France, essa montra de
mentalidades de uma comunidade francesa em mudança, a palavra barroco,
enquanto depreciativo musical, continua a fazer escola: no primeiro tomo da
edição de Junho de 1738, lê-se «(…) et s’y défait du peu que la Musique
Italienne peur avoir de baroque, surtour à nos oreilles, a
contrebalance le Clerc en France (…)». Só posso concluir que a estreia de
Rameau em 1733 como compositor de óperas consistiu numa micro-revolução
epistemológica, porque entendo que foi a partir desse momento no tempo que
começou a materializar-se na mente do público o nítido nominalizante de uma nova
linguagem artística, que na música – mas não só – parecia pugnar pelo excesso,
pela desarmonia; em suma, pelo rompimento do cânone classicista. Pela primeira
vez existe um nome para denominar essas múltiplas aportações de uma nova
realidade artística que radicam nas quinhentistas determinações tridentinas fluindo
na música francesa do segundo quartel de Setecentos. Dir-se-á que é do estilo barroco.
É isso mesmo que fará o
conservador Jean-Baptiste Rousseau, numa carta que escreve a 17 de Novembro de
1739 a Louis Racine, filho de Jean Racine, o autor de Phèdre, a obra em verso parcialmente adaptada por Rameau e Pellegrin em 1733.
Nessa composição, redige um verrinoso poema em que ataca Rameau indirectamente:
«Distillateurs d’accords baroques. / Dont tant d’idiots sont férus, / Chez
les Thraces et les Iroques / Portez vos óperas bourrus. / Malgré votre art
étérogène / Lulli de la lyrique scène / Est toujours l’unique soutien. / Fuyes,
laissêz-luis son partage, / Et n’écorchez pas davantage / Les oreiiles des gens
de bien.» [Sublinhado meu.] Este poema também não é uma crítica à ópera Dardanus de Rameau, como alguns autores vêem, porque a carta data de 17 de
Novembro de 1739 e a ópera estreou em Paris dois dias depois, logo Jean-Baptiste
Rousseau não a poderia ter ouvido – é, evidentemente, uma crítica a Hippolyte
et Aricie, já que o destinatário da
missiva é o filho do poeta cuja obra estava agora associada a uma ópera que ambos
consideravam desprezível.
Assim, torna-se mais claro o
caminho que levou a que a palavra barroco fosse mimoseada
em 1740 na terceira edição do Dictionaire de l’Académie françoise com o significado novo de coisa irregular, bizarra, desarmoniosa – em
espírito, em expressão e em figura.
6 - Aqui jaz o deus da harmonia
Outro Rousseau, mas chamado
Jean-Jacques, tão revolucionário quanto o Jean-Baptiste era tradicionalista,
também criou um dicionário – de música – em que não deixou de censurar o estilo
pelo qual era cógnito o compositor de que desgostava: pode ler-se no seu Dictionnaire de
Musique, de 1768, «BAROQUE: Une
Musique Baroque est celle dont l’Harmonie est confuse, chargée de
Modulations & de Dissonnances, le Chant dur & peu naturel, l’Intonation
difficile, & le Mouvement contraint. Il y bien de l’apparence que ce
terme vient du Baroco des Logiciens.» [Sublinhados meus.] Afasta-se do âmbito
desta análise discorrer sobre as facções musicais que Rameau e Rousseau
representavam (questão que explodiu na chamada Querelle des bouffons, em meados de Setecentos, com a representação
em Paris no ano de 1752 da opera buffa
de Pergolesi La serva padrona), mas
pode resumir-se deste modo: para Rousseau, a música de Rameau era a música da
desordem, do irracional, da hipérbole, elementos disruptivos que obstaculizavam
a “boa razão”, a ortogonalidade e matematização do tal pensamento das leis
naturais repetíveis e universais, a parcimónia do homem civilizado em contraste
com a conduta desbragada de um bárbaro. Não é diferente da crítica que farão depois
os adversários dos românticos, defensores de valores caros ao classicismo.
No final do século XVIII,
a definição de barroco como antítese do classicismo – na música, nas letras e
em todas as artes – está plenamente estabelecida. No célebre Dizionario delle belle arti del disegno […],
de 1797, publicado pelo historiador de arte italiano Francesco Milizia, campeão
do neo-classicismo e incansável adversário de estilos artísticos considerados “barrocos”,
pode ler-se «BAROCCO è il superlativo del bizzarro, l’ eccesso del
ridicolo . Borromini diede in delirj, ma Guarini , Pozzi , Marchione nella
Sangrestia de S. Pietro ec. in barocco.» [Sublinhados meus.]
É vertiginoso pensar que,
apesar de tudo, Rameau participou do espírito positivista nos seus tratados de
ciência musical – e que o indefectível Mercure
de France, um ano depois da sua morte, o recordava ainda com este epitáfio publicado
no primeiro tomo de Abril de 1765: «Pour l’épitaphe de Rameau / Chacun exerce
son génie : / Un vers suffit : dans ce tombeau / Cy gît le Dieu de l’harmonie.»
quarta-feira, 10 de julho de 2019
Barroco: metamorfoses de uma palavra - Parte I
1 - Uma origem silogística
Foi em meados do século IV a. C., pela mão
do filósofo grego Aristóteles, que apareceu no mundo das letras a primeira
consubstanciação da palavra barroco:
no tratado de lógica intitulado Analytica
priora (Analíticos Anteriores, um
trabalho envolvido mais tarde no compêndio peripatético Organon), ela assinala sob a forma baroco uma das mnemónicas pelas quais o estudante de filosofia invocaria
facilmente distintos tipos de silogismos – neste caso, um dos ditos da segunda
figura (como os festino e camestres), que expressa o atributo
inferencial do quantificador “nem todos”: ofereço um exemplo improvisado, 1)
Toda a literatura é filosofia, 2) Nem todos os escritores são filósofos, 3) Nem
todos os escritores são literários.
Todavia, nesta acepção aristotélica, o
silogismo baroco, mera categoria intelectual,
não se liga à actuação semasiológica que a palavra comportará no decurso da
modernidade. Encontramos, ainda, requícios dessa origem silogística nos ensaios
do cortesão francês Michel de Montaigne, publicados em 1580: em “De
l'institution des enfants”, capítulo XXVI do primeiro livro dos Essais, lê-se «La plus expresse marque
de la sagesse, c’est une esjouïssance constante ; son état est comme des choses
au-dessus de la Lune : toujours serein.
C’est Barroco et Baralipton qui
rendent leurs suppôts crottés et enfumés, ce n’est paselle; ils ne la
connaissent [à sabedoria] que par ouï-dire.» (Atentem à grafia moderna com que
Montaigne escreveu barroco.)
De molde a caracterizar como obsoleta a filosofia
medieval, considerada falaciosa face à quinhentista racionalidade humanista de
pendor platónico, Montaigne resgata quase arbitrariamente duas mnemónicas
aristotélicas para fundar o argumento que os silogistas arreigados à
escolástica só chegarão a uma incompleta compreensão da sabedoria – e por
ouvido… –, pois aos seus raciocínios falta a serenidade. Umas linhas à frente
encontraremos novamente esta ideia da ausência de serenidade – de harmonia –
associada ao “barroco”, mas, para já, introduza-se um outro concomitante
sentido que a palavra detinha no período em que Montaigne escreveu e à qual ele
não terá sido distante.
2 - Quando as ostras temem tempestades
Dezassete anos antes da publicação dos Essais, o físico português Garcia de
Orta deu à estampa em Goa o primeiro tratado português sobre botânica,
intitulado Coloquios dos simples, e
drogas he cousas mediçinais da India […], no qual se funda as modernas
significação e grafia da palavra barroco,
aí utilizada como sinónimo de pérola imperfeita: no trigésimo quinto colóquio,
“Da margarita ou aljofar […]”, lemos «Tudo por ser verdade porque ho aljofare
que de cà vai, e as perolas he groso, e redondo, e em toda perfeiçam, e o que
della vem das indias sam huns barrocos mal afeiçoados, e não redondos, e
com agoas morras (…)» [Sublinhado meu.] Afigura-se-me plausível que Orta se
tenha inspirado nesta passagem da trigésima quinta parte do nono livro da Naturalis Historia do historiador romano
Plínio, o Velho, no qual se descreve a germinação de vários tipos de pérolas, inclusive
aquelas que coalescem em deformidade por culpa do temor que as tempestades
marítimas insuflam nas ostras: «Si tempestive satientur, grandescere et partus;
si fulguret, conprimi conchas ac pro ieiunii modo minui; si vero etiam
tonuerit, pavidas ac repente conpressas quae vocant physemata efficere,
specie modo inani inflata sine corpore; hos esse concharum abortus.»
[Sublinhados meus.]
É este o significado que o capelão e
etimologista castelhano Sebastián de Covarrubias anotará no ano de 1611 em dois
verbetes do seu Tesoro de la lengua
castellana: na entrada alusiva ao aljôfar pode ler-se «Otras [pérolas] ay
desproporcionadas; que no se acomodan à la forma redonda ; y a estas
llamáron barruecos, quasi berruecos, porque tienen forma de berrugas. Las
gruessas, redondas, lisas, y de color claro, llamaron comunmente perlas: los
Romanos las llamaron vniones , quod nulli duo reperiantur indiscreti : y dellas
haze Plinio vn capitulo bien notable (…)»; e na entrada própria encontramos o
seguinte: «BARRVECO, entre las perlas llamã barruecos vnas que son desiguales,
y dixerõse assi, quasi berruecos, por la semejança que tienen a las berrugas
que salen a la cara.» [Sublinhados meus.]
Em 1712, o padre teatino estrangeirado
Raphael Bluteau deu no segundo volume do seu Vocabulário Portuguez e Latino […] algumas definições
complementares no verbete correspondente a barroco
– e, em analogia com Covarrubias, ignora Orta e cita novamente Plínio:
«BARROCO. Barrôco. Perola tosca, & desigual, que nem he comprida, nem
redonda.»; poucas linhas em seguida, cita este excerto da História Natural de Plínio para corroborar uma familiaridade etimológica:
«Crassescunt etiam in senecta conchisque adhaerescunt nec his evelli queunt
nisi lima. Quibus una tantum est facies et ab ea rotunditas, aversis planities,
ob id tympania nominantur.» Porém, do nome tímpano
(ou tímbale, que vai dar ao mesmo),
aqui chamado por Plínio para designar uma conformação inchada (já que, conforme
o trecho, estas pérolas anormais possuem uma face convexa e uma base achatada),
nunca derivaria o nome barroco
empregue por Orta, nem este se encontra, aliás, sob nenhuma morfologia, no clássico
texto de Plínio.
a) Metamorfose ou metaplasmo?
Com efeito, a única passagem dessa parte
que incita a uma ligação entre ela e a proposta de Orta é esta, na qual o autor
descreve o torpe engelhamento das pérolas envelhecidas: «Quare praecipuum
custodiunt pelagiae, altius mersae quam ut penetrent radii. flavescunt tamen et
illae senecta rugisque torpescunt, nec nisi in iuventa constat ille qui
quaeritur vigor.» [Sublinhado meu.] A presença de «rugisque», do latim ruga, com o significado de prega ou sulco, credibiliza a hipótese etimológica covarrubiasiana de verruga, assomando até a habitual
metaplasmia entre o /v/ e o /b/ e entre o /g/ e o /c/ nas palavras em latim
vertidas em vernáculo peninsular. Com efeito, a palavra em latim verruca é empregue por Plínio como uma
das maleitas que o sangue vertido do pescoço de uma tartaruga decapitada é
capaz de curar: no décimo quarto capítulo do trigésimo segundo livro lê-se «Sunt
qui testudinum sanguinem cultro aereo supinarum capitibus praecisis excipi novo
fictili iubeant, ignem sacrum cuiuscumque generis sanguine inlini, item capitis
ulcera manantia, verrucas. Iidem promittunt testudinum omnium fimo panos
discuti; et, quod incredibile dictu sit, aliqui tradunt tardius ire navigia testudinis
pedem dextrum vehentia.» [Sublinhado meu.] Não custa, pois, a conceber que Orta, inspirado pelo
modelo de Plínio, baseasse o neologismo barroco na palavra em latim verruca
para desenhar na imaginação uma coisa inchada e engelhada, oposta à beleza esferetérea evocada por uma pérola perfeita.
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