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sexta-feira, 19 de julho de 2019

A costureira da Lua

Na edição de hoje do Jornal i, numa chamada de capa, a NASA diz que não tem ideia de (se eu entendi bem a frase) quem fabricou a bandeira que está fincada em solo lunar. Porém, seria fácil a NASA recuperar essa má memória se olhasse para o Diário de Notícias de 23 de Julho de 1969 e lesse a entrevista dada pela costureira portuguesa Maria Isilda Ribeiro, que, residente nos Estados Unidos desde 1966, trabalhava na fábrica de bandeiras que produziu o mais universal estandarte do século XX. Na altura com vinte e três anos, Maria Isilda Ribeiro não imaginava, provavelmente, que as marcas impressas pelas suas mãos ficariam indeléveis no espaço: existem impressões digitais portuguesas na Lua — romântica coda para a senda renascentista dos Descobrimentos de que fomos pioneiros, se se quiser ver assim.



quarta-feira, 1 de julho de 2015

Sobre a (Des)União Europeia


Pense-se na câmara fotográfica digital, que funciona de modo totalmente diferente da analógica. Com efeito, nada daquilo que faz uma câmara fotográfica tradicional ser uma câmara fotográfica tradicional se relaciona com o vero funcionamento de uma câmara fotográfica digital. Num determinado aspecto, as possibilidades deixadas em aberto pela miniaturização de componentes técnicos digitais, mais similares a bairros citadinos ligados por estradas e travessas do que às engrenagens mecânicas dos anteriores modelos exclusivamente manuais, que tinham tudo a ver com a lógica de organicidade fabril, na qual diversos componentes isolados concorriam, em harmonia, para criar um corpo organizado - tanto no sentido de coerente, como no de provido de órgãos - não libertaram o design industrial das amarras do funcionalismo: ou seja, se uma câmara fotográfica digital funciona de um modo muito diferente de uma analógica, então a sua forma não precisaria de mimetizar a desta para justificar a sua existência ou, sequer, para funcionar. Uma câmara fotográfica digital poderia ser-nos apresentada segundo uma lógica de desenho e de utilização totalmente inédita; todavia, as expectativas do público, em relação à imagem arquetípica que uma câmara fotográfica deve ter para ser considerada, de facto, uma câmara fotográfica, tolhe, liminarmente, quaisquer audácias prototípicas com que um aparelho dessa natureza poderia consubstanciar-se nas oficinas das grandes marcas. Uma câmara fotográfica digital comum, daquelas que podemos comprar em qualquer loja de centro comercial ou hipermercado, ainda arreigada ao fenótipo das analógicas, sem, verdadeiramente, de precisá-lo, é, assim, um objecto de transição - sendo que "transição", neste sentido específico, não envolve nenhum real comprometimento com uma hipotética ligação entre um pretérito estado analógico e uma actual maneira de ser digital, porque essa ligação não existe, de todo. O que existe é mero disfarce. Um disfarce conveniente às vendas, porque o público que se dirige às lojas para comprar uma câmara fotográfica, seja digital ou analógica, não quer, em suma, ser confrontado com surpresas ou ambiguidades.

Será, pois, útil pensar nesta União Europeia, sobre a qual vemos e ouvimos na comunicação social, como uma entidade equivalente: tal como a câmara fotográfica digital somente se adapta por mimetismo à aparência da câmara fotográfica analógica, para ir ao encontro das expectativas do público, também esta União Europeia pouquíssimo ou nada terá a ver com aquela que existia há umas décadas, dando a entender que somente vai imitando, de maneira postiça, a aparência desta para ser capaz de manter-se operante diante do público. Os seus componentes internos, a sua fisiologia de funcionamento já mudou - como mudaram umas câmaras fotográficas para as outras - e nós, pobres cidadãos europeus, em certa medida iludidos pela carapaça benfazeja das fronteiras abertas e de todos os autênticos progressos do passado recente, não nos apercebemos disso - a tempo útil, pelo menos.
Assim, a poucos dias do referendo na Grécia, as horas são, em simultâneo, de perplexidade e de ansiedade. Portugal, por tudo o que se sabe, deveria estar muitíssimo atento aos próximos desenvolvimentos desta situação, mas, provavelmente, não valerá a pena manter ilusões nenhumas acerca da conjecturada camaradagem europeia, porque esta União Europeia, a destes indivíduos tão empáticos quanto torradeiras (e igualmente frios e automatizados) que nos entram em casa pelas televisões adentro, já demonstrou, activa e consecutivamente, que não é a da solidariedade e a da confiança e a da irmandade. Na verdade, tem demonstrado reiteradamente, e com timbre de torcionário, o contrário: que aquilo que continua a existir parece ser, afinal de contas, a mais prosaica e brutal razão de estado, prosseguida pelos estados-nações mais fortes nas mesmas fórmulas egoístas e desapaixonadas do passado, excepto o, vá lá!, avanço ético, diga-se assim, de não o procurarem fazer pela guerra, mas com armas também destrutivas e, demasiadas vezes, mortíferas (que o digam os gregos, cujo tecido social se encontra completamente esfarrapado pelas medidas austeras do chamado Consenso de Washington: camisa de forças, de medida única, fornecida pelo FMI, com a ajuda dos seus parceiros, que não se compadece com as idiossincrasias e fragilidades de cada país em que é aplicada).

Enquanto Portugal faz figura de Pobre Diabo no palco do teatro internacional, cujos críticos não lhe perdoarão a interpretação miserável que está a desempenhar, a Grécia prepara-se para, sem muito tempo para reflexão, servir de exemplo histórico àqueles que ousarem enfrentar o Leviatã. Continuo a acreditar num projecto europeu e continuo a ser, como é óbvio, um europeísta, mas tenho cada vez mais dificuldades em reconhecer-me nesta desgraçada União Europeia na qual as políticas, manifestamente, são as da profunda hipocrisia e as da exploração - física e moral - dos países fracos. Algo de novo - e mais justo - é necessário, com total urgência.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Geração Única


O jornal Público está a publicar uma série de artigos que reflectem sobre problemáticas de confrontos geracionais com a contemporaneidade portuguesa: o primeiro artigo intitula-se GERAÇÃO 45-64: Vinte anos para gozar a vida de reformado; o segundo, adoptando o título de Criados para aquilo que não podem ou não querem ser, analisa a geração nascida entre 1965 e 1981. Eu nasci no dia 17 de Abril de 1976, por conseguinte - por comodidade discursiva - pertencerei à geração que o fotógrafo húngaro Robert Capa apelidou de Geração X, referindo-se à juventude do período pós-Segunda Grande Guerra: designação que, depois disso, passou a conhecer o significado que hoje lhe é atribuído.

Confesso que não me sinto parte de Geração X nenhuma - nem de outra, identificada com diferente letra ou número. Sinto-me, sim, parte de um grupo muito heterogéneo, formado, em principal, por indivíduos com idades iguais ou próximas da minha, mas esse sentimento de pertença predica por uma epidermia enorme, no sentido em que ele existe por generosidade de meia-dúzia de genéricas referências culturais que servem de aglutinador, porque, vistas bem as coisas, e perdoem-me o plebeísmo, ainda ando, passados tantos anos desde a minha adolescência, "às apalpadelas" no que diz respeito a pertenças de grupo: a verdade é que nunca me senti parte de grupo nenhum - e ainda hoje não sinto.

Dito isto, confessada a minha incapacidade de investir num exame mais profundo sobre como a problemática geracional me afecta, confesso em idêntica medida a minha perplexidade diante do discurso frequente e simplista segundo o qual a minha geração é mimada, privilegiada e outros "adas" que seria fastidioso elencar (poderia escolher apenas um: enganada, mas nestes apontamentos tenho vontade de ir por outra via). Eu sinto-me mais próximo de alguns indivíduos que pertencem a gerações diferentes da minha (tanto mais velhas como mais novas) e essa transversalidade permite-me observar o seguinte: ao contrário de classes, não existirão gerações privilegiadas. Talvez até nem sequer faça sentido o conceito de "geração", como neste tópico tem sido aplicado: o que se passa é que existem e continuarão a existir indivíduos, que nascem e vão morrer, e que terão, à maneira dos seus tempos, de encontrar estratégias, horizontes, e lutar contra os seus monstros. São os indivíduos, nas suas esferas privadas e nos seus espaços de intervenção pública, que - como terá dito o papa Clemente VII ao advento do saque de Roma organizado pelo imperador Carlos V - têm de olhar de frente o horror e indignar-se: «Meu Deus, deste-me vida para que pudesse ver isto?» Ou seja: acho que, no fundo, arrumar a sociedade em caixas convenientes chamadas "gerações" é mais divisivo do que outra coisa: afinal de contas, a sociedade é composta por mais do que uma geração - as gerações não se substituem umas às outras, como certas "raças mágicas" de alguns sistemas esotéricos oitocentistas: elas coexistem. Logo, partilham problemas e terão, também, de partilhar soluções.

A ideia que pretendo transmitir é que só existe uma "geração", formada por todos os indivíduos que estão vivos: uns a estudar, outros a trabalhar, outros desempregados, outros reformados, mas todos parte integrante e importante da sociedade portuguesa. Não existem "gerações": existimos nós.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Breves apontamentos sobre as touradas


Recentemente, vi parte de um episódio do programa televisivo Prós e Contras em que o tema de debate foi a tourada e isso infundiu-me a apontar aqui algumas meditações que tenho sobre esse assunto. Vale a pena começar por esclarecer que não gosto de touradas, logo o meu discurso não será simpático para com elas, mas estou longe de ser antitouradas, assim como considero desimaginoso e desanimador o desenho que, por vezes, aqueles que o são riscam sobre os aficionados, caracterizando-os como sendo pessoas perversas e carenciadas de empatia. Admitindo a falta de indicadores estatísticos que me comprovem a minha seguinte suposição, aposto com segurança que a maioria dos aficionados (para efeito de simplificação incluo neste grupo todos os agentes que fazem parte do mundo das touradas, espectadores e não só) não são assassinos, nem criminosos, nem psicopatas: são, somente, indivíduos comuns que gostam de touradas, que têm paixão por elas e que sobre elas projectam uma série de conceitos e valores positivos que escapam à leitura de todos aqueles que não gostam de touradas.

Embora me choque a conjunção de brutalidade e artificialismo que consubstancia o espectáculo das touradas não é tanto pela via da violência que se desenvolve o meu desgosto por elas. Na verdade, os circos ferem muito mais a minha sensibilidade do que as touradas. Aquilo que me faz desgostar de touradas é, notadamente, o facto de achá-las repetitivas, aborrecidas e anacrónicas: resquícios de uma congeminência cultural que, hoje em dia, não faz o sentido que fazia há, digamos, trezentos ou quatrocentos anos. Nesta óptica, penso que a proibição seria ineficaz, porque sendo a tourada uma tradição ou uma quasitradição só poderá desaparecer na mesma feição que todas as tradições desaparecem: quando deixam de veicular os desejos e as aspirações de uma comunidade.
Em rigor, a extinção das touradas passará por renovações naturais que, provavelmente, nem sequer estarão relacionadas com elas, mas com o modo como nós, enquanto sociedade, vamos criando outros costumes e novos processos de sentir o colectivo, muito mais sintonizados com a nossa contemporaneidade – o que vai acontecendo. Escrevo “sentir”, porque este fenómeno, como outros da mesma natureza, não investe através da razão, mas da emoção – e é pela via da emoção, colectiva, claro está!, que ele terá de ser vencido, tal como foram outras tradições inúteis. As ingluviosas presas do tempo não se condoem com improficiências. O significado que daqui se assaca é que as touradas ainda reverberam de uma forma mais ou menos vibrante nos nossos dias – não para todos, é certo, mas, ainda assim, para muitos. Caso contrário, não existiriam. Isso parece-me transparente e ignorá-lo é fechar-se os olhos diante de uma realidade que marca o nosso património de ideias.

Falando em património de ideias vale a pena perguntar se, de facto, as touradas serão cultura. A pergunta responde-se a si própria, mas gostaria de contribuir para esta reflexão com a lembrança de que quando se fala de touradas enquanto cultura leia-se, a resistência do espírito de um grupo à erosão operada pela passagem do tempo assume-se, de modo erróneo, que elas sempre foram idênticas à sua taxonomia actual, quando, na realidade, já foram muitíssimo diferentes.
A tourada contemporânea é mais recente do que, à partida, a maioria do público, aficionado ou não, poderá pensar. O toureio a pé, com muleta e estoque, é uma inovação da tourada espanhola, (que sempre foi, em vero aspecto, menos aristocrática que a nossa), inventada à entrada do terceiro decénio do século XVIII, que entrou tardiamente em Portugal. Até os tropos actuais da tourada espanhola são uma invenção do início do século XX: simplesmente, não se encontram nas touradas seiscentistas ou setecentistas. Do mesmo modo, a prática portuguesa da pega do touro, realizada pelos forcados (dantes chamados moços de forcado ou boieiros), não possui um ascendente mais transacto que os meados do século XIX: hoje é apontada como sendo a mais igualitária, chamemos-lhe isso, das práticas tauromáquicas, mas, de facto, chegou a ser proibida pelas autoridades na segunda metade do século XIX, porque a consideraram demasiado violenta (cerca de 1890 já tinha sido reinstituída, todavia). A tourada portuguesa de setecentos, por exemplo, consistia num espectáculo mais selvagem – em violência e desorganização – do que a actual.
O toureio realizava-se sempre a cavalo, com o cavaleiro munido de um chuço para matar o touro, e os espectadores assistiam às mortes não-coreografadas e atrozes de touros, cavalos e, às vezes, alguns homens. Havia a prática do touro-de-fogo: gado que entrava na arena com fachos ou paus de fogo-de-artifício amarrados aos cornos ou ao pescoço; outra variedade de touro-de-fogo constituía no arremesso de guirlandas de granadas aos cornos dos touros. Podia ver-se lutas de touros com cães, lutas de touros com outros touros, espicaçados para o efeito, e encenações bizarras em que os touros eram levados a investir contra bonecos e outras composições feitas de madeira, papel ou tecidos coloridos que nos seus interiores continham coelhos e gatos vivos: quando os touros as desmanchavam, os coelhos ou os gatos fugiam, confundidos, mas eram, de imediato, mortos à cacetada por dezenas de escravos armados de porretes, que corriam pelo picadeiro à caça deles para grande gozo do público. Tudo somado, a autêntica tourada tradicional portuguesa foi esta e não a sua reencarnação recente, organizada e amansada às sensibilidades liberais de meados do século XIX, por conseguinte quando se declara que as touradas são cultura é preciso definir qual tourada está a ser trazida à colação: se esta ou a outra. Se é a outra, tem de perguntar-se se matar coelhos e gatos à cacetada é cultura. Se não é, tem de perguntar-se por que razão é que matar coelhos e gatos à cacetada não é cultura, mas matar touros com estoques ou com pontilhas é cultura. Mais à frente, oferecerei uma possível resposta para esta ambiguidade.

Tenho alguma hesitação em ver as origens da tourada nos espectáculos romanos de lutas de feras contra feras e de feras contra homens. É muitíssimo provável que a origem das touradas se trace a partir daí, mas também é possível que elas possuam uma origem mais enviusada em relação a essas representações. Seja como for, o que interessa para esta exposição é o facto de que os efeitos públicos de catarse das touradas e das lutas romanas de feras são aproximados, assim como são análogos ao efeito de purga popular provocado pelas lutas de ursos com cães e de cães com cães que podiam ser vistas nas principais praças das cidades do norte da Europa até meados do século XIX. Na maioria das vezes, os ursos eram acorrentados a um poste e cegados para que os cães – buldogues e boxers, raças criadas artificialmente para este fim em específico – os pudessem desfazer aos pedaços. Até em Portugal se contam alguns incidentes destes. Um dos principais divertimentos europeus foi o de queimar milhares de gatos em fogueiras: toda a gente trazia gatos dentro de sacos e chegava-se à fogueira para atirá-los às chamas. Existem descrições chocantes de como as gentes riam até rebolarem no chão ouvindo os gritos de sofrimento dos animais imolados. Durante algum tempo estas práticas também foram consideradas cultura. Se as touradas se inscrevem neste rol de passatempos públicos que envolviam o sofrimento de animais, por que é que ainda subsistem? Existem duas respostas plausíveis para esta pergunta, segundo o meu pensamento.
A primeira é a de que a tourada sobreviveu à selecção natural que extinguiu a maioria desses passatempos porque se foi tornando gradualmente um sistema altamente organizado no qual muitos sectores da sociedade participam; um pouco à semelhança, com as devidas distâncias, é claro, do futebol, um desregrado e brutal jogo de rua que foi amansado e sistematizado até à cristalização contemporânea. A segunda é o facto de que as touradas lidam com touros: animais abatidos para consumo humano. Quando se olha para as lutas de cães com ursos ergue-se à nossa frente uma dimensão ética enorme, porque a sociedade mudou e hoje os cães e os ursos são animais que, de modos diferentes, estão sob nossa patronagem: amamos os primeiros e protegemos os segundos. Em oposição, comemos os touros: são animais dos quais cuidamos, note-se, mas que não amamos, nem protegemos. É por essa razão que ainda existem touradas, mas já não existem ursadas, nem queimas maciças de gatos em fogueiras. Simplesmente, achamos que é mais ético objectificar na arena uma espécie animal que já é vista, à partida, como sendo um objecto – neste caso, um alimento. Não tenho dúvida nenhuma que, por responsabilidade de um desvio histórico qualquer, se tivesse passado a comer gatos e ursos em vez de touros, as ursadas e as gatadas seriam tão conspícuas e legais quanto as touradas, porque seriam os ursos e os gatos a ser objectificados. Uma boa maneira de vencer a paixão pelas touradas seria lembrar que não se deve brincar com a comida.

Termino esta explanação com a ideia de que acho ético comer-se touros. Recuso com veemência a argumentação dos vegetarianos radicais, dos veganistas, dos frugívoros e dos anti-humanistas disfarçados de ambientalistas que conculcam constantemente o valor da vida humana em benefício do estatuto superior que atribuem à vida animal. Há quem advogue até que os animais carnívoros deveriam ser extintos para que restassem apenas os animais herbívoros, mas comer carne não é nenhuma imoralidade, nem nenhum crime: crime é tratar como lixo os animais que se criam para consumo humano em sórdidos degoladouros que evocam as masmorras medievais. Melhores condições de criação e abate custam muito mais dinheiro e são muito mais difíceis de implementar, mas o preço a pagar pelas escolhas do barato e do fácil é a nossa desumanização. A tortura enxovalha a vítima e desumaniza o perpetrador. Não existe nenhum justificativo para a tortura.
Seja na prisão, seja no matadouro, seja na arena.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Por apófase


É com desalento que concluo que, hoje, Portugal só pode ser explicado por apófase: ou seja, por tudo aquilo que não é.
Não me tornei, ainda, um verdadeiro pessimista, mas não consigo encontrar razões para me designar como optimista, daí que, talvez, seja um "céptico simbólico"; sendo que "simbólico", aqui, deve ser lido segundo a aplicação que lhe foi dada por Pierre Bordieu: leia-se, um invisível, mas presente, conjunto de preceitos que afectam de modo desoficial. Recair, ininterruptamente, sobre esses discursos invisíveis faz-me pensar na probabilidade de estar-se a assistir a uma desaceleração da democracia (se isso significa uma iminente e tout court abolição da mesma restará para ser visto). Agora que estamos prestes a sair "limpos", dizem, da purga que nos sanou das nossas supostas abligurições, veremos até que ponto o estrago provocado pela iatrogenia nos deixou, permanentemente, aleijados - no corpo e, principalmente, no espírito. Qualquer domador sabe que é preciso quebrar o espírito das criaturas de modo a obrigá-las a aceitar com resignação uma nova normalidade.

(Quadro: Job, de Sir William Orpen. 1905.)

quinta-feira, 25 de abril de 2013

O símbolo


«O símbolo é o nada que é tudo.»
Fernando Pessoa