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sábado, 18 de abril de 2020

Pequenas Histórias - ep. 1: "Filhos de Anúbis (freguesia da Misericórdia)"

Este é o primeiro episódio de Pequenas Histórias: série de vídeos sobre a história de Lisboa, que criei para o meu canal de YouTube, contada por freguesias e partindo de personagens e factos ignorados ou desconhecidos, que enfatiza a importância das pequenas histórias no entrecho dos grandes acontecimentos.

Em Filhos de Anúbis (freguesia da Misericórdia), observa-se uma ligação tropológica entre a guerra contra os cães vadios de Lisboa, iniciada a 12 de Abril de 1808 pelo intendente da polícia Pierre Lagarde, e o fixamento dos ideais do Liberalismo. Duas cosmovisões em confronto, num período transitório entre um mundo que acabava e outro que, progressivamente, se instaurava.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Um Dia de Finados à antiga lisboeta


A exibição dos mortos aos vivos fazia parte dos oitocentistas rituais lisboetas de Dia de Finados — aqui ilustrados em sinédoque numa litografia que mostra a cripta do Convento de S. João de Deus, em Buenos Aires (não a capital argentina, mas uma zona ali para os lados do bairro da Lapa, em cuja freguesia ainda existe a Rua de Buenos Aires).

Os mortos de outrora eram guarnecidos com ramos de loureiro e encostados às paredes. Esta é uma sensibilidade devedora da abordagem sentimental do Barroco, para o qual a morte se revestia de uma dimensão de espectacularidade. Ainda na mentalidade pós-tridentina, a chamada Boa Morte era corolário de uma atitude reflexiva e meditativa sobre a finitude; segundo, por exemplo, Vieira no seu “Sermão de quarta-feira de cinzas”: «quem morre antes de morrer [ou seja, quem ensaia a sua morte no pensamento], não há mister mais doutrina para bem morrer».
Por aqui, evidentemente, ressoa o estóico sentir de Séneca em Cartas a Lucílio e a constante recomendação de que este deveria praticar a sua morte mentalmente, de modo a morrer bem quando soasse a sua hora.

Não é exequível apurar um início para práticas desta natureza, será mais prático admitir que foram sendo iniciadas ao longo do tempo, de acordo com especificidades locais ou segundo circunstâncias especiais. A minha convicção, para o caso meridional europeu, é que radica em práticas taumatúrgicas/apotropaicas relacionadas com a exposição de relíquias e de corpos santos, assim como de defuntos célebres. Na época moderna, os nossos reis cumpriam cerimoniais de abertura de túmulos régios, de molde a religar os seus presentes com o passado e com a herança dos monarcas de outrora. A atitude religiosa do barroco pós-tridentino insistirá no arroubo espiritual, na demonstração de uma emoção cada vez mais patenteada e expressiva, na qual o culto das relíquias está totalmente integrado, desde os grupos sociais mais baixos aos mais altos. O sentir da morte desta época passa, como escrevi, pelo testemunhar cerimonialmente a morte — e nesse aspecto, as exéquias régias são paradigmáticas desse programa discursivo, religioso e artístico. 
 
Em seguida, as práticas acabam na maioria das vezes por se desvincular do contexto erudito ou popular que as concebeu para assumirem recortes novos e até inauditos. Estas actividades de speculum mortis, cumprem propósitos catárticos, de reconfirmação do passado e de restabelecimento comunal. São frequentes em países de confissão Romana, pois os países Protestantes possuem outros códigos e outra forma de sentir a morte. Por exemplo, são adversos à cerimonialização e à ostentação de relíquias e objectos. Daí que encontremos exposição de defuntos na Irlanda, mas não na Inglaterra — apesar da contiguidade que, ainda assim, existe entre anglicanismo e catolicismo Romano.  

 

sábado, 15 de junho de 2019

Sobre notícias falsas e falsificações


«Seria uma boa idéia fazer no final de cada ano um julgamento ao procedimento dos jornais: talvez isso fizesse com que as pessoas que escrevem neles se tornassem mais ponderadas... Comparavam-se os conteúdos de dois ou mais jornais de orientações editoriais opostas com o curso real dos acontecimentos. Assim, talvez se chegasse finalmente a uma apreciação geral da utilidade dos jornais políticos…»
Escrita entre 1789 e 1793, na turbulência das ondas de choque provocadas pelo dealbar da Revolução Francesa, esta nota do polígrafo alemão Georg Christoph Lichtenberg é um antídoto contra a perturbação do presentismo e demonstra que a preocupação com as fake news não é nenhuma novidade; com efeito, já anteriormente escrevi sobre a introdução no léxico português da expressão “notícias falsas” pela mão do plumitivo padre José Agostinho de Macedo, no seu pasquim Cordão da Peste; ou, Medidas Contra o Contágio Periodiqueiro, de Fevereiro de 1821.

Todavia, no início da Modernidade, outra personagem emblematizava aos olhos do público a fusão entre toarda e notícia que consubstancia a chamada “notícia falsa”: a célebre estátua “falante” designada de Pasquino (ainda hoje situada na Piazza Pasquino em Roma). O pedestal desta truncada escultura de Menelau transportando o corpo morto de Pátroclo (datada do século III a. C.) tornou-se a partir do século XVI – e até hoje – o sítio favorito para os cidadãos de Roma afixarem de modo anónimo rumores, maledicências e denúncias – prática popular da qual rapidamente enflorou o nome “pasquim”, sinónimo de jornal de má qualidade ou compêndio de calúnias que os franceses chamavam de canard e os ingleses de gutter press, mas também “imprensa amarela”.

Uma definição curiosa sobre a diferença entre o falso e a falsificação pode ser lida no Brewer’s Dictionary of Phrase and Fable: «um falso é algo que não é genuíno, tivesse ou não o seu criador ou perpetrante a intenção de enganar, enquanto que a falsificação é uma tentativa de fazer passar por genuína uma criação espúria com a intenção de enganar e defraudar.» Assim, Os Protocolos dos Sábios de Sião – panfleto simultaneamente anti-semita e antimaçónico forjado entre 1897 e 1898 pelo aristocrata russo anti-semita Matvei Golovinsky, ao serviço do gabinete parisiense da Okhrana, a polícia secreta czarista, e publicado originalmente em seriado no jornal russo Znamya em 1903 – é uma falsificação – e algumas notícias falsas também são, na verdade, falsificações.

Reportando, pois, às épocas em que panfletos e folhas volantes com noticias falsas circulavam em massa, informo os leitores de idades mais novas que me lembro muito bem de ver nas décadas de oitenta e noventa do século passado – muitíssimo antes do advento da Internet e das redes sociais, em que sobejam memes e fake news – andar entusiasticamente de mão em mão (sem nunca se saber a origem) fotocópias com montagens paródicas e desenhos mordazes, mas também textos de verve verrinosa e de questionável conteúdo político, visando figuras públicas da nossa praça no melhor estilo tradicional pasquinesco. A certos casos mediáticos que rompiam na comunicação social a membrana da vulgaridade, era comum seguir-se um manancial de fotocópias dessa natureza, comentando com humor ou com má-língua os acontecimentos – por vezes, fotocópias de outras fotocópias, em que o grão rebentado até aos limites da legibilidade concorria para criar uma especial estética semi-punk que conferia contornos de comédia slapstick a algumas das montagens mais atrevidas. Em suma: as memes e as notícias falsas não foram inventadas na era da Internet.


Pessoalmente, uma imagem que considero emblemática da problemática das notícias falsas é aquela que foi popularizada em 1679 por La Fontaine na sua fábula do macaco e do gato, embora o conceito lhe preceda: nessa história, Bertrand, um macaco javardo, instrumentaliza Ratão, um gatarrão crédulo, a tirar do lume castanhas assadas; no entrecho, a jeremiada de Bertrand surte efeito e Ratão lá vai queimando as patas na fogueira – absorto na miserável tarefa, o gato não se apercebe que o macaco está a comer as castanhas todas. A chegada de uma criada põe em fuga os dois malandros: um de barriga cheia e o outro chamuscado. E como mostra a ilustração publicada em anexo, antes de La Fontaine redigir a sua versão existia outra em que o macaco sem nenhuma subtileza subjugava o gato e usava uma pata deste como ferramenta para tirar ele próprio as castanhas do lume. Ora, as noticias falsas sempre funcionaram assim: por mais imperceptíveis ou grosseiras as histórias inventadas por espertalhões, quando se actua em função delas acaba-se invariavelmente queimado. E quando a verdade chega finalmente à cena, dissipando todos os intervenientes, nem todos partem de barriga cheia.
                

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Veneza inundada - e congelada


 
Pelas imagens que a comunicação social nos vai mostrando pode constatar-se que a pulcritude de Veneza possui fulgurância suficiente para impedir que a água que a alcatifa neste instante não a repasse pelo sentimento trágico que, infelizmente, acompanha este género de infortúnios infligidos pelos elementos.

Há quatro anos, quando estive em Veneza, fotografei este precioso testemunho litografado numa hierática coluna disposta no Sotoportego del Traghetto, situado no distrito de Cannaregio: de contornos dilatados pela erosão, os petrícolas caracteres inscritos na superfície por um veneziano chamado Vincenzo Bianchi contam-nos sobre um extraordinário episódio, datado do Inverno de 1864, em que as águas venezianas congelaram.

O gelo era robusto e extenso o bastante para os venezianos irem a pé até à ilha de San Michele - na qual fica o cemitério de Veneza; onde está sepultado um dos meus heróis literários, o escritor inglês Frederick Rolfe, mais conhecido pelo seu pseudónimo Barão Corvo. A inscrição diz o seguinte [tradução minha]: «Eterna memória, do ano de 1864, do gelo visto em Veneza, que da Fondamenta Nove* a São Cristóvão** iam as pessoas em procissão, como numa avenida. Vincenzo Bianchi, em 1864.»


*Novo Paredão, uma reconstrução do século XVIII do antigo passeio marítimo quinhentista, destruído por uma tempestade.

**A ilha de San Michele consiste na junção artificial de duas ilhas: a antiga ilha de San Michele (onde foi construída no último quartel do século XV a primeira igreja veneziana de tipo renascentista) e a de San Cristoforo della Pace (na qual foi construído o cemitério, já no século XIX).


terça-feira, 23 de outubro de 2018

José Agostinho de Macedo: o inventor das 'Fake News'


Confiando no limite que a minha memória alcança, é seguro avançar com a hipótese que o inventor da insólita expressão Fake News (que tanto tem dado que falar) foi o nosso padre polemista José Agostinho de Macedo, um dos anti-heróis mais fascinantes da nossa história contemporânea e personagem paradoxal que tem merecido o meu estudo.

Se não me precipito, creio que a supramencionada expressão se estreia no verrinoso opúsculo Cordão da Peste; ou, Medidas Contra o Contágio Periodiqueiro, escrito em Fevereiro de 1821. Aí, sob o pseudónimo de Corcunda de Boa-Fé, Macedo escreveu o seguinte [actualizei a grafia]: "Como se pode combinar a estabilidade do governo, o sossego público, o amor da ordem, a observância das leis do novo regime, com a inquietação, que nos ânimos derramam tantas ideias destampadas, tantas NOTÍCIAS FALSAS, tantos projectos loucos, tanta flutuação de ideias, tanta contrariedade de doutrinas, e tão encontrados gritos dos incansáveis Periodiqueiros? Quem por eles saberá o que deve pensar, e o que deve fazer?"