sábado, 26 de maio de 2012

Acrotomofilia Zoófila (Requintada) em "Gorefilia" de Holocausto Canibal



Gorefilia, o novo álbum da banda portuguesa de death metal/grindcore Holocausto Canibal, já se encontra disponível: consiste num disco conceptual sobre a temática das chamadas parafilias, designação generalista para todos os comportamentos sexuais desviantes da norma, desde as práticas mais inócuas às mais extremas. Considerando que este é um disco de Holocausto Canibal, as parafilias exploradas no universo lírico das canções são as mais extremas possível, apresentando visões violentas de horror sexual e visceral que não são, de maneira nenhuma, indicadas para quem tem corações e estômagos frágeis. Musicalmente, Gorefilia é muito sólido, fazendo lembrar, e bem, os Carcass de Reek of Putrefaction, por exemplo.

Por gentil convite da banda, uma das músicas tem letra de minha autoria: intitula-se Acrotomofilia Zoófila (Requintada) e, como o nome indica, consiste numa observação (com muito humor negro, claro), sobre a prática da acrotomofilia; ou seja, atracção sexual por indivíduos amputados. Neste caso, por animais amputados, mas o «requintada» do título denuncia que algo mais complexo se passa.

Amantes de sonoridades pesadas, Gorefilia é para vocês: atrevam-se a ouvir um disco (verdadeiramente) extremo. Pela parte que me toca, estou muito contente com a música composta para a letra que escrevi: agradeço, pois, à banda pelo convite e faço votos para que Acrotomofilia Zoófila (Requintada) seja um dos pontos altos nos próximos concertos.


ACROTOMOFILIA ZOÓFILA (REQUINTADA)
 
Desmoralização sexual ritualizada –
sofrimento que rima com regozijo.
Acrotomofilia zoófila (requintada)
é que é o meu estilo de bestialismo.

Capturo pequenas criaturas
e delas faço abreviaturas
(para sevícias sexuais).

Apaixonada penetração venereal.
(Em busca de prazeres sofisticados…)
Irrigando o meu líquido seminal.
(Em corpos mortos desconjuntados…)

Desbarates das torturas
que articulo por suturas
(grotescos bonecos animais).

Operação sensualista organizada –
flebotomia que leva à consumpção.
Acrotomofilia zoófila (requintada):
orgasmos com animais de estimação.

Capturo pequenas criaturas
e delas faço abreviaturas
(para sevícias sexuais).

Extirpação de membros desproporcionados.
(A procura pela forma irrepreensível…)
Pernas e braços e caudas são desarreigados.
(Com imaginação nada é impossível…)
Velhacaria sexual e truculência.
(Não há mascote que eu não apanhe…)
Anestesio-as, mas sem violência.
(Aplicando clisteres de champanhe…)

Vidas por um fio – cerimonial doentio.

Desbarates das torturas
que articulo por suturas
(grotescos bonecos animais).
    

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Arco do Triunfo da Rua Augusta


O Arco do Triunfo da Rua Augusta foi concebido pelo arquitecto "pombalino" Eugénio dos Santos, em 1759, mas somente em 1815 se ergueram as suas colunas; vinte e oito anos depois (durante o governo de António da Costa Cabral), foi aberto um concurso público para a construção do coroamento destas e, no ano seguinte, foi escolhido para o efeito o projecto do arquitecto Veríssimo José da Costa. Com contribuições escultóricas dos artistas Anatole Célestin Calmels, Vítor Bastos e Leandro Braga (assistente de Calmels), iniciadas em 1873, o monumento foi finalmente inaugurado dois anos depois.

Enquanto escultor e entalhador, Braga trabalhou com clientes de prestígio, realizando peças diversas para locais como o Palácio Foz, na Praça dos Restauradores, em Lisboa, e o Chalet Biester e o Palácio da Quinta da Regaleira, em Sintra. No conjunto escultórico do Arco do Triunfo da Rua Augusta, Calmels esculpiu as três personagens cimeiras que, de modo mais ou menos consensual, têm sido interpretadas como sendo três alegorias: a Glória coroando o Génio e o Valor. Com efeito, a coroação das alegorias remete para os tratamentos artísticos das coroações dos iniciados pela Beatitude em certos ritos iniciáticos; interpretação "esotérica" reforçada pela existência de uma ara situada atrás da personagem central e que sustenta mais duas coroas de louros (à espera de outros iniciados). A personagem à esquerda do observador assemelha-se às alegorias da Fortaleza que têm como modelo a deusa grega Atena (como a que decora o túmulo do Papa Gregório XIII - cujo nome baptizou o calendário gregoriano -, esculpida pelo artista italiano Camillo Rusconi). A personagem à nossa direita também remete para as costumeiras reproduções do Génio das Artes, que faz-se acompanhar por instrumentos musicais, parafernália de pintura e até livros (todos elementos existentes nesta escultura). Outra interpretação que pode ser feita sobre as anteriores, e que não as desvirtua, é a de que as personagens masculina e feminina que estão a ser coroadas também compõem uma alegoria maçónica para o Sol e para a Lua, da mesma ordem que, por exemplo, as obras escultóricas ou pictóricas que mostram, lado a lado, Apolo e Ártemis.


Aliás, esta leitura apolínea corresponde-se com um detalhe curioso, somente visível aos visitantes do monumento, in situ: sob uma das asas, a personagem masculina oculta uma estatueta de um homem barbado, que agarra um bastão. Várias interpretações têm sido avançadas para explicar a identidade desta personagem, desde a que consiste numa alegoria quinto-imperial até à de que se trata de uma estátua de Ulisses, logo uma alusão à lenda da sua fundação da cidade de Lisboa. A minha humilde proposta para a decifração deste enigma é a de que talvez seja uma criação de alguma maneira relacionada com a estátua romana de Constantino como Apolo, deus do Sol, que era conservada no interior do Milion de Constantinopla - o pavilhão formado por dois arcos do triunfo, mais uma cúpula, a partir do qual eram medidas todas as distâncias entre as cidades do império e a Nova Roma. Nos dias de triunfo, essa estátua de Constantino-Apolo era levada numa quadriga até ao hipódromo e todos podiam ver a pequena figura alada que ela trazia na mão: o espírito-guardião da própria cidade. À luz desta informação histórica, não é nenhuma impossibilidade que a estatueta quasi-oculta personifique em pedra o "espírito-guardião" de Lisboa. Não faz sentido? Faz sentido? É um contributo que deixo para este debate.

As esculturas de Bastos no Arco do Triunfo da Rua Augusta são, da esquerda do observador para a direita: uma alegoria do Rio Tejo, uma estátua de Viriato, outra de Vasco da Gama, uma de Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal, uma de D. Nuno Álvares Pereira e uma alegoria do Rio Douro. A tradução da inscrição em latim («virtvtibvs maiorvm vt sit omnibvs docvmentvm. Pecvnia pvblica dicatvm») que pode ler-se no pódio é «às virtudes dos maiores, para que a todos sirva de ensinamento. Dedicado a expensas públicas».
No que concerne a esta inscrição, chamo a atenção para o que Justino Mendes de Almeida apontou no Dicionário da História de Lisboa na entrada que escreveu sobre o Arco do Triunfo da Rua Augusta: «Curiosa a "guerra" filológica travada entre os autores do projecto final, que redigiram um texto, e a Academia das Ciências de Lisboa, com relevo para Augusto Soromenho e D. José de Lacerda, que impuseram outro bem diferente. Ainda assim, os primeiros "vingaram-se": onde os académicos escreveram SINT, em concordância com "virtudes", os escultores registaram SIT, em ligação com a ideia genérica de "monumento", subentendida». É um sinal de que as boutades das quais a história também se faz não podem iludir os hermeneutas.  

Vale ainda a pena cotejar estas estátuas do Tejo e do Douro com as homónimas que se encontram no passeio da Avenida da Liberdade, da autoria do escultor setecentista Alexandre Gomes: destinadas a um chafariz que nunca chegou a ser construído no Campo de Santana, foram adornar o célebre (e desaparecido) Passeio Público (abrangia a área entre as actuais Praça D. João da Câmara - em frente à estação ferroviária do Rossio - e Praça dos Restauradores e terminava onde hoje a Rua das Pretas encontra a Praça da Alegria. Notem que a nossa Praça da Alegria era, na altura, a Praça da Alegria de Cima, pois no extremo Norte do Passeio Público, para lá do muro, ficava uma praça chamada Praça da Alegria de Baixo). Construído na segunda metade do século XVIII, após o terramoto de 1755, o Passeio Público pouco tinha de "público", pois era muralhado e nele só entrava a elite. Em suma, era um grande parque, cheio de fontes e diversos cursos naturais de água que nessa época ainda sulcavam o solo daquilo que viria a ser, no final do século XIX, a Avenida da Liberdade. O principal pugnador da Avenida da Liberdade (contra quase toda a opinião pública) foi Rosa Araújo, o único presidente da câmara de Lisboa que foi pasteleiro antes de ser político. O projecto da Avenida da Liberdade foi gizado pelo arquitecto Frederico Ressano Garcia, que também projectou a Praça Marquês de Pombal e a Avenida 24 de Julho. Hoje pouquíssimo resta dos inúmeros fontanários e estatuária do Passeio Público. Algumas peças encontram-se, hoje, no Museu da Cidade (Palácio Pimenta), no jardim do Miradouro de São Pedro de Alcântara e, como vimos, no caso das alegorias do Tejo e Douro, na Avenida da Liberdade.
       
A esta altura vale a pena pensar um pouco sobre o que é, afinal de contas, um arco do triunfo. Em síntese, quando um imperator romano operava uma grande vitória sobre os exércitos bárbaros, o senado concedia-lhe o direito de realizar uma marcha triunfante, na qual ele, à cabeça do seu exército, entrava na cidade com espectacularidade. De maneira geral, estas marchas - triunfos - seguiam a chamada via sacra, que dava entrada em Roma pelo lado meridional: ou seja, deixando o Coliseu para trás, ao longo do Mons Palatinus (do qual deriva a nossa palavra palácio - os palácios eram apenas as casas das famílias de elite erguidas no Monte Palatino) na parte mais velha da cidade, até ao famoso Fórum e em direcção ao templo dedicado a Júpiter no Monte Capitólio. Nesse templo penduravam-se as grilhetas dos prisioneiros, expunha-se o espólio, do qual a parte mais simbólica eram sempre os portões partidos das cidades conquistadas, e faziam-se os sacrifícios e festividades rituais. Em sequência, os imperadores mandavam construir arcos dos triunfos ao longo da via sacra, de modo a que as suas conquistas, como é óbvio, não fossem esquecidas - e, de facto, todos os arcos dos triunfos (ou seja, arcos construídos para lembrar os triunfos dos imperadores), cumeados por alegorias da Vitória (e outras) e decorados com baixos-relevos que narram histórias de campanhas militares bem-sucedidas, são arquitectados ao jeito dos portões das cidades: são as entradas triunfantes dos cidadãos mais ilustres; posto que possuir o estatuto de cidadão romano, pelo menos até ao século III, a partir do qual ele passou a ser automático e universal para todos os indivíduos do império de molde a atender à escassez de legionários, era uma honra por mérito próprio.



Na antecâmara do terraço do Arco do Triunfo da Rua Augusta, onde se encontra o mecanismo do relógio que volta a face para a Rua Augusta.


No meu romance Lisboa Triunfante (Saída de Emergência, 2008), o Lagarto perde para a Raposa: mas ei-lo, no mecanismo do relógio do Arco do Triunfo da Rua Augusta, a contar a passagem do tempo, à espera do momento ideal para emergir com nova pele.





Fotos de Gisela Monteiro: http://www.flickr.com/photos/agmonteiro.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Pré-venda de "Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes"


O meu Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes já se encontra disponível para pré-venda na loja online das edições Saída de Emergência: se clicarem na capa poderão ler as primeiras sessenta e seis páginas do livro (pertencentes à História, a primeira via deste trabalho) e descobrirem quais os segredos sombrios e factos arrepiantes - e verdadeiros - que se escondem atrás de títulos como "Padre António Vieira Abolicionista", "Inspirados pela Suástica", "O Verdadeiro 'Grito do Ipiranga'" e "Especiarias Orientais e Cruzes Portuguesas".



terça-feira, 22 de maio de 2012

Crítica a "O Pequeno Deus Cego"


Vale bem a pena ler esta excelente crítica de Pedro Vieira de Moura a O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books, 2011), publicada no seu weblog LER BD. O Pedro diz que o tema central do livro é o Conhecimento e envereda por essa via para analisá-lo... Ora, o tema central de O Pequeno Deus Cego relaciona-se com o conhecimento, sim, mas é outro: o Crescimento - o crescimento através da Iniciação (crescer das Trevas para a Luz). Não quero desvirtuar a leitura que o Pedro fez, somente esclarecer, enquanto autor, qual é o tema central do livro - que, claro, permitirá sempre mais que uma leitura.

Na imagem: clímax de O Pequeno Deus Cego, no qual a carne desprende-se dos ossos...

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Os dois Pratts


Acaba de ser lançado um novo fanzine de homenagens Efeméride, criação de Geraldes Lino, insigne divulgador, editor e investigador de banda desenhada, dedicada às mais importantes personagens do universo bedéfilo. Este novo número é dedicado a Corto Maltese, criado pelo autor italiano Hugo Pratt, e conta com bandas desenhadas de diversos autores portugueses.

Participei em conjunto com o desenhador Jorge Coelho, numa história escrita por mim e intitulada Os Dois Pratts: uma observação hermética sobre algumas coincidências essenciais na vida e carreira de Pratt (iniciado na Maçonaria em 1976, na loja veneziana Hermes) e a sua ligação insuspeita ao Monstro de Frankenstein.

Poderão encontrar esta edição do fanzine Efeméride em todas as livrarias especializadas em banda desenhada, assim como pedi-la directamente ao editor Geraldes Lino: geraldes.lino [at] gmail.com.

(Desenho da capa: Regina Pessoa.)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Dois apontamentos


Regressado há pouco da Polónia, enquanto convidado especial do Festival Internacional de Banda Desenhada de Varsóvia: prometo publicar uma descrição mais pormenorizada do evento, mas, para já, fica este apontamento, comigo e com o também convidado especial Pedro Serpa, junto da nossa coutada na exposição. Obrigado ao Instituto Camões de Varsóvia, à embaixada portuguesa na Polónia e ao Instituto Cervantes de Varsóvia pelo convite e excelente acolhimento, assim como, em especial, a José Carlos Costa Dias e a Jakub Jankowski.


E amanhã, Sábado, às 16H30, estarei no auditório da APEL na Feira do Livro de Lisboa para o lançamento do meu novo livro Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes (Saída de Emergência). A apresentação será feita pelo cineasta e escritor António de Macedo. É daqui a pouco, portanto: estão todos convidados, apareçam e passem a palavra.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Lançamento de "Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes"


Caros, o lançamento de Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes (Saída de Emergência) é já no próximo Sábado, dia 12, às 16H30, no auditório da APEL na Feira do Livro de Lisboa.
«Em Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes, David Soares convida a uma viagem surpreendente pelo lado negro da História, da Ciência, do Oculto e do Bestiário: quatro pilares de saberes secretos, como a Alquimia e a Cabala, mas também de criaturas como o grifo do Infante D. Pedro e as gárgulas das catedrais medievais, assim como experiências com cabeças decepadas, rituais de feitiçaria, pragas de dança e vampiros lisboetas. A profusão de temas, reflexões e desmistificações abrangidos será uma fonte inestimável de consulta para todos os leitores empenhados em saberem sempre mais sobre aquilo que os rodeia. Numa união erudita entre a enciclopédia e o livro de ensaio, Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes é um livro repleto de histórias reais e factos espantosos que vos desvendarão um mundo negro, mas admirável.»
A apresentação será feita pelo escritor e cineasta António de Macedo. Passem a palavra e apareçam: estão todos convidados.

domingo, 6 de maio de 2012

sábado, 5 de maio de 2012

David Soares na Polónia #1


Para a semana, eu e o Pedro Serpa seremos os convidados portugueses no Festival Internacional de Banda Desenhada de Varsóvia, com o apoio do Instituto Camões e da embaixada portuguesa em Varsóvia. Além dos nossos trabalhos a título individual, apresentaremos O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books, 2011), um álbum que a Revista LER definiu como sendo «uma alegoria em torno da ignorância e da urgência do seu antídoto».


Em Outubro, também com o apoio do Instituto Camões e da embaixada portuguesa em Varsóvia, voltarei à Polónia como um dos convidados principais da oitava edição do Festival Internacional de Ficção Curta de Wroclaw, um dos mais interessantes e dinâmicos festivais literários europeus, onde irei participar em diversas sessões literárias sobre os meus romances (todos editados pela Saída de Emergência), em leituras realizadas em português com tradução simultânea em polaco e em conversas com os leitores.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

A Invenção da Existência: o ponto de vista de um escritor sobre o Novo Acordo Ortográfico

Com o objectivo de legitimar o chamado Novo Acordo Ortográfico, a volubilidade da língua tem sido nomeada, até à exaustão, pelos pugnadores dessa modificação – nos quais eu não me inscrevo –, para justificar os transtornos que o supramencionado acordo intenta implementar. A partir daqui, em vez de discutir esses desméritos, prefiro desviar a crónica para outro caminho e chamar a atenção para a ideia que tem sido difundida enquanto suplemento de todo o debate: a de que a língua muda de modo orgânico, consoante o seu emprego no dia-a-dia. É errado: o que muda é a oralidade – a maneira como a língua é exposta diariamente, sempre com atalhos, abreviações e conveniências de carácter prático que têm como fito facilitar a comunicação.
A repetição dos vocábulos através dos tempos cria sempre cópias imperfeitas; não no sentido de que são incorrecções, mas no de que, por vezes, se afastam largamente da matriz e até adquirem significados diferentes dos originais. (Um dos exemplos mais comuns da perda de sentido é o da expressão latina ad hoc, por exemplo, que significa para um fim específico e que acabou por revestir-se com a acepção adversa de desordem.) Quando é a língua, em si, a mudar, ela fá-lo pela mão de quem a labora: os escritores.
Todas as línguas são revitalizadas na página pelos seus autores. Existe, literalmente, uma língua inglesa anterior e posterior a Thomas Browne e John Milton; uma língua francesa anterior e posterior a Michel de Montaigne e François-René de Chateubriand; um português anterior e posterior a Luís de Camões e Aquilino Ribeiro. A língua não muda como se fosse um terreno desamparado, mas às mãos de jardineiros inteligentes que combinam as espécies para que frua algo notável.
A língua portuguesa é, em simplificação, uma corruptela popular do latim – um latim “labrego”, tal como o francês e o italiano: dialectos que, quando cotejados com o latim erudito, se chamavam “linguagens”. (O mais antigo documento escrito em “linguagem” portuguesa data de 1175 e é propriedade do acervo do Mosteiro de São Cristóvão da cidade de Rio Tinto, na freguesia de Gondomar, distrito do Porto: consiste numa “notícia” de fiadores que pertenceu a Paio Soares Romeu.) Ao ritmo do avanço da Idade Média, as linguagens europeias foram sendo sistematizadas pelos seus escritores: em maior espessura, pelos escolásticos que coordenaram as gramáticas. Até o latim erudito não foi excepção: existe um latim anterior e posterior a Marco Túlio Cícero, que, no século I a. C., dedicou os últimos anos de vida à construção de uma língua que se superiorizasse ao grego.
Na peugada de Cícero, os monges completaram um trabalho extraordinário de composição da língua latina, engendrando neologismos diversos e até reinventando o verbo “existir”, que no latim clássico significava apenas aparecer, criando ainda o conceito de entitas como sendo o da existencialidade. Sem as inovações destes escritores pioneiros, a interrogação da existência – aquilo que em alemão se designa por seinsfrage – não seria possível e nunca teríamos lido o Hamlet de Shakespeare e o Walden de Thoreau, nem os escritos de Kierkegaard e de Sartre, muito menos os de Heidegger e de Wittgenstein; os romances de Dostoiévski seriam livros muito diferentes – e nunca teria havido um Dom Quixote.
Todas as palavras retocadas e os neologismos burilados pelos escritores nos seus livros é que fabricam a língua: esta não se faz na rua, ao contrário do que anda a ser dito, mas nas escrivaninhas dos escritores.

(Crónica publicada originalmente no número 133 da Revista LOUD!, em Abril de 2012.)

Carta de António de Macedo ao Secretário de Estado da Cultura



Leitura urgente para quem repudia o Novo Acordo Ortográfico e verdadeiro serviço público - como é cada vez mais raro ver-se, infelizmente - contra a sua aceitação generalizada.

Recupero, ainda, um esclarecimento legal sobre o Novo Acordo Ortográfico, também da autoria de António de Macedo, que poderão ler ou reler nesta ligação.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Anthony Bourdain em Lisboa


Ai, Bourdain... Vieste de tão longe para jogar ao chinquilho, mesmo à frente da minha casa, meu malandreco?... (O clube Chinquilho Junqueirense Giestal fica mesmo em frente ao meu prédio.) Acho bem que cá tenhas vindo: foi pena o programa apresentar uma imagem de Lisboa, e de Portugal, um pouco desviada da realidade, no sentido em que dá a entender que nascemos com o Salazar às costas e só agora estamos a trilhar caminho próprio. Lisboa não nasceu com o Salazar, meu caro: aliás, Lisboa nasceu antes de Portugal e antes de Roma, mas isso é outra história. Mas ainda bem que gostaste de cá vir. Foi pena é não teres passado pelos pastéis de Belém, quando acabaste de chinquilhar: era só seguires em frente, pela Rua da Junqueira até Belém. Para a próxima, avisa que eu vou contigo e conto-te umas histórias de terror sobre Lisboa bem assustadoras. Tanto que nem um balde de ginjinha será suficiente para esquecê-las (talvez dois).

Bota abaixo!...

segunda-feira, 30 de abril de 2012

"Piscis"


Canção "Piscis" do álbum Cabaret Portugal de La Chanson Noire, interpretada por Charles Sangnoir no fórum da loja FNAC do Algarveshopping. Com participação especial em spoken word por David Soares.

Banda desenhada portuguesa na Revista LER


Hoje, nas bancas, uma edição histórica da Revista LER, com um artigo de prestígio sobre banda desenhada portuguesa, assinado pela jornalista e investigadora Sara Figueiredo Costa, e uma capa inesperada da autoria do desenhador João Lemos. Para comprar, ler com atenção e guardar. Os autores destacados são Filipe Abranches, João Lemos, Osvaldo Medina, Susa Monteiro e eu. No vídeo disponibilizado em anexo, podem ver um trailer com João Lemos a desenhar a capa da revista.

Capela dos Ossos de Alcantarilha







Mais fotografias e artigos sobre a temática cemiterial em:


(Fotos: Gisela Monteiro.)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A gaia etimologia

O incrível (no sentido etimológico de «algo que custa a acreditar») e lamentável artigo de opinião escrito por José António Saraiva no seu jornal semanal Sol parece querer demonstrar que é provável reconhecer de imediato um homossexual a partir de algumas misteriosas características fenotípicas, exibidas em espaços exíguos («À minha frente, no elevador, está um rapaz dos seus 16 ou 17 anos. Pelo modo como coloca os pés no chão, cruza as mãos uma sobre a outra e inclina ligeiramente a cabeça, percebo que é gay», José António Saraiva in Sol, 9 de Abril de 2012).

Com efeito, cada um é livre de escrever o que bem entender e, evidentemente, também os leitores são livres de julgarem como bem entenderem os autores pelas bitolas que eles próprios escreveram. É, pois, uma pena que se tenha perdido tempo a escrever um texto jornalístico de carácter intolerante em que a palavra gay é usada onze vezes de modo preconceituoso e no qual nada nos seja dito sobre o contexto histórico dessa designação.
Por conseguinte, e à aproximação do dia 25 de Abril, data de liberdade e de igualdade de oportunidades para todos, independentemente de serem heterossexuais ou homossexuais, de esquerda ou de direita, jornalistas ou leitores, tipos que se deslocam de elevador ou tipos que preferem ir pela escada, achei que seria uma boa ideia partir do mote dado pelo artigo de opinião publicado no supracitado jornal e oferecer um contributo muito mais positivo.

A palavra inglesa gay provém do étimo francês gai e ambas já eram usadas no século XII com o mesmo significado: o de alegre ou despreocupado; mas convém esclarecer que gai começou por ser um apelido, antes de tornar-se adjectivo. Em português, esse galicismo entrou no nosso léxico como gaio, que, além de possuir significação idêntica, também é um apelido: neste caso, por via adjectival, ou seja a alcunha tornou-se apelido, embora a genealogia não seja clara no que concerne às origens desta família que, nos estudos heráldicos, surge com as armas dos Góios, um ramo diferente cujo nome de família, provavelmente, terá origem numa corruptela do sobrenome Goes, à qual pertenceu, por exemplo, Estevão Vasques de Goes, um trecentista alcaide-mor de Lisboa (por curiosidade, o humanista quinhentista Damião de Goes ou Góis não parece ter pertencido a esta linhagem, fazendo lembrar que nem sempre a semelhança entre sobrenomes indica a mesma proveniência).


Contudo, a palavra gaio também é o nome de uma ave muito comum na Europa: em português, essa ave, da família dos corvos, chama-se gaio, em inglês chama-se jay e em francês chama-se geai - todas derivações da palavra original gai. O gaio, espécie de corvo colorido, sempre foi conhecido pelos nossos antepassados pela sua capacidade inata de imitar o canto de outras aves e, talvez por essa via, os actores e os artistas de rua já eram chamados de gaios (jays) na Inglaterra seiscentista, mas a designação não tinha nenhuma conotação sexual.

Essa apareceu, em finais do século XIX, em Inglaterra, com a expressão gay house: epíteto dado aos bordéis, mas, lá está, sem nenhuma conotação homossexual que se saiba. (Tinha um significado eufemístico, análogo ao da expressão contemporânea happy ending massage.)
Todavia, a colagem ao sexo homossexual terá surgido mais ou menos na mesma altura, entre os anos 1893 e 1897, mas nos Estados Unidos, nos quais uma grave crise económica abalou o país, retirando o emprego a milhares de pessoas. Entre os hobos, vagabundos que romavam pelo território em busca de pequenos trabalhos, os jovens sem-abrigo dispostos a fazerem sexo com homens mais ricos, em troca de dinheiro, eram conhecidos por gay cats: trocadilho com stray cats; ou seja, eram chamados de gay cats, do mesmo modo que os prostíbulos também se chamavam gay houses, e, neste caso, por serem jovens rapazes sem dinheiro, dispostos a prostituirem-se, a palavra gay começou a ser associada ao sexo homossexual. (No seu romance auto-biográfico The Road, publicado em 1907, o escritor norte-americano Jack London descreve essa realidade em primeira mão, pois ele próprio foi um vagabundo nesse período - e nunca afastou suspeitas sobre a sua suposta homossexualidade.)

Apesar disso, a adopção da palavra gay, enquanto sinónimo exclusivo de homossexual, tanto pelas comunidades homossexuais, como pelo público, em geral, é um fenómeno de meados do século XX: em essência, a partir de 1940, a palavra gay ganhou não só uma difusão inaudita como um cunho distintivo que ainda perdura. Porquê?

Como em tantas outras circunstâncias, em diversas alturas, é muitíssimo provável que tenha sido a cultura popular de entretenimento a dar esse impulso. Neste caso, com a estreia, em 1938, da comédia Bringing Up Baby (Duas Feras) do realizador norte-americano Howard Hawks, com a actriz norte-americana Katharine Hepburn e o actor inglês Cary Grant nos papéis principais. Às tantas, o paleontólogo David Huxley (Grant) vê-se obrigado a vestir um négligé com penas, porque as suas roupas foram roubadas por Susan Vance (Hepburn) enquanto tomava banho. Ao ser confrontado à porta de casa pela personagem Tia Elizabeth (May Robson), o espaventado Huxley reage de uma maneira muito especial, como podem ver no vídeo abaixo.



Considerando que este filme é de 1938 e que a palavra gay se difundiu cerca de dois a três anos depois é provável que se encontre aqui a origem da sua popularidade. Nesta cena, a ambiguidade de sentido da palavra gay é reforçada pelo conhecimento de que Grant nunca se livrou das suspeitas de ser bissexual e de manter uma relação com o actor norte-americano Randolph Scott, que conheceu na rodagem do seu primeiro filme: Hot Saturday, do realizador norte-americano William A. Seiter, estreado em 1932.

David Soares e Pedro Serpa no Festival de Banda Desenhada de Varsóvia


De 10 a 13 de Maio, ocorre o Festival de Banda Desenhada de Varsóvia, evento para o qual estão convidados artistas de várias nacionalidades, como os mestres Brian Bolland e Grzegorz Rosinski. Eu e o Pedro Serpa seremos os representantes portugueses no festival, com o nosso O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books, 2011).

Podem visitar a página oficial do festival nesta ligação.

E nesta, a página oficial do festival no Facebook.

Acrescento que esta é a minha primeira visita deste ano à Polónia: em Outubro serei o convidado português do 8º Festival Internacional de Ficção Curta de Wroclaw, um dos mais interessantes e dinâmicos festivais literários europeus.