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terça-feira, 29 de março de 2016

Triple review treat


Duas excelentes críticas a O Poema Morre (2015) e uma excelente crítica a Sepulturas dos Pais (2014), escritos por mim e desenhados por Sónia Oliveira e André Coelho, respectivamente (ambas edições da Kingpin Books). Podem lê-las nas seguintes ligações:
2) O Poema Morre (crítica de Artur Coelho): http://www.acalopsia.com/poema-morre-david-soares-sonia-oliveira/
3) Sepulturas dos Pais (crítica de Bruno Campos): http://www.acalopsia.com/sepulturas-dos-pais-david-soares-e-andre-coelho/


quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Crítica a «O Poema Morre» na revista Blimunda nº42


Excelente crítica a O Poema Morre (Kingpin Books, 2015) por Sara Figueiredo Costa na revista Blimunda (editada pela Fundação José Saramago). Escreve Costa:

«(...) o que David Soares parece utilizar como matéria-prima do seu trabalho na banda desenhada é aquilo a que poderíamos chamar miséria humana, as vertentes menos nobres da nossa natureza comum, os gestos que guardam a violência, a sordidez, a ignorância, a maldade. Não podia ser mais universal e menos atreito a rótulos de género. (...) O trabalho de Sónia Oliveira acompanha esta vontade de modo orgânico, usando as linhas finas e sinuosas do seu traço como matéria capaz de moldar este retrato cinzento (também na paleta de cores) de um tempo que poderia ser muitos tempos.»

A ler na íntegra nesta ligação: http://www.josesaramago.org/?ddownload=536384


sábado, 6 de dezembro de 2014

Excelente crítica a «Sepulturas dos Pais» no blogue Ler BD


«Há algo clínico no comportamento das suas personagens, que torna mais gélido o choque com a dimensão de horror que elas comportam em si. Como se lhes fosse impossível não caírem em gestos duros e de consequências dolorosas. Essa espécie de frieza está assente numa materialização das próprias emoções, e no afastamento de uma redenção por uma qualquer hipotética transcendência. (…) Outros críticos (como Sara Figueiredo Costa) apontam o carácter bruto e mesmo misógino de algumas das personagens, ou a bruteza quase insuportável de algumas cenas. Isso é patente. Todavia, o sexo nos escritos de Soares nunca estiveram presentes com o intuito de titilar os seus leitores, e surge na sua dimensão mais carnal e despojada possível. Não se trata de pornografia, nem de sadismo (num seu sentido mais popular, já que se abusa desta palavra no seu sentido mais preciso, quer psicológico quer cultural), mas de uma exploração quase de materialismo da carne e do sexo, à la Bataille.»
Sepulturas dos Pais é escrito por mim e desenhado por André Coelho.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Artigo sobre «Crumbs» no jornal Ponto Final (de Macau)

A crítica de banda desenhada Sara Figueiredo Costa escreve sobre a antologia Crumbs (Kingpin Books), na qual participo com a história O Homem-Javali Vai Casar; ou, Leng Tch'e, escrita por mim e desenhada por Pedro Serpa. A ler aqui: https://pontofinalmacau.wordpress.com/2014/12/02/crumbs-um-livrinho-a-conquista-do-mundo/


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Excelente crítica a «Sepulturas dos Pais» em The OF Blog


«By the time I read the final panel, I felt a brief sort of aching commiseration, as the things lost served to remind me of the things gained over the course of this beautifully tragic story. "Sepulturas dos Pais" is another strong tale by a very talented writer.»


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Excelente crítica a «Sepulturas dos Pais» na revista Blimunda

 

«(…) Sepulturas dos Pais é um livro que merece o epíteto de cruel, não porque a violência surja em várias vinhetas (e surge), mas sobretudo porque o que fica da sua leitura é o reverso das boas intenções sobre histórias bonitas ou finais felizes: chegado o futuro, não há esperança que sobreviva. Possa a memória servir para manter alguma luz por entre as trevas e já teremos alcançado toda a quota de esperança contida nestas Sepulturas dos Pais.»


quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Crítica a «Sepulturas dos Pais»...



Sepulturas dos Pais (Kingpin Books, 2014) foi lançado no passado dia 25 (sábado) no festival internacional de banda desenhada Amadora BD e é escrito por mim e desenhado por André Coelho.


sexta-feira, 7 de março de 2014

Apontamentos sobre Arte #1


Objectos de arte e objectos artísticos 

Um dos problemas que obstaculiza a apreciação daquilo que constitui arte e daquilo que não constitui arte encontra-se na convivência, muitas vezes forçada, entre objectos de arte e objectos artísticos.

Um filme (para usar como exemplo uma linguagem - a cinematográfica - que, para o bem e para o mal, tornou-se no grande medidor universal da cultura contemporânea) pode ser culturalmente e esteticamente significante para ser classificado como obra de arte, mas serão arte, por mérito próprio, os seus cenários e guarda-roupa? Um bolo faz-se de ovos, farinha e açúcar, mas estes ingredientes não são o bolo.

A diferença reside no facto de que cenários e guarda-roupa são criados para servir um filme, enquanto que um filme é criado como um fim em si mesmo. Um dos axiomas mais discutidos sobre arte é, precisamente, se esta é algo que existe enquanto um fim em si mesmo, livre de quaisquer critérios utilitários; sendo que, muitas vezes, é o carácter utilitário dos objectos, muito mais do que a sua harmonia ou desarmonia, que os impede de candidatarem-se a objectos de arte. Pode considerar-se que, neste exemplo, o guarda-roupa e os cenários são objectos artísticos, porque existem valores estéticos elevados e saberes técnicos rigorosos nas suas confecções, mas não são objectos de arte, porque estão ao serviço do filme - e estando ao serviço significa que são usados, logo não são arte. Mormente são, até, destruídos quando deixam de ser necessários para as filmagens. A arte não tem como finalidade a instrumentalização - nem a mais refinada, nem a mais brutal - e, ainda menos, a efemeridade. Toda a arte tenta ter a eternidade por horizonte.

Em certos casos, as peças ou os componentes de um objecto de arte precisam de ser recuperados, restaurados, substituídos, mas nenhuma dessas operações lhe irá confiscar o título de objecto de arte, porque este possui uma espécie de corpo astral que transcende a matéria: a arte faz-se sempre de uma idealização e de uma corporização. Uma vez terminado, o objecto de arte imprime essa configuração híbrida na cultura que o vê nascer e essa impressão servirá tanto de bilhete de identidade como de passaporte.

Se assim não fosse, a falsificação seria impossivel, porque só o mimetismo mais perfeito consiste em falsificação: não existem falsificações falhadas. As tentativas vãs mostram-se tão distantes do objecto de arte a imitar que se tornam objectos distintos. Exemplos há de tentativas desse tipo que se tornaram obras célebres - por vezes, feitas pelos próprios artistas que autoraram os objectos de arte originais. Aqui, insere-se outro axioma discutido sobre o objecto de arte: o de que é, por natureza, único e irrepetível. Quando o objecto de arte original serve de molde a manufacturas idênticas, seja uma ou múltiplas, não se fala mais de arte, mas de artesanato; algo que é semelhante, mas desigual à reprodução seriada de um objecto artístico, também com fito comercial, como, por exemplo, as centenas ou milhares de exemplares impressos de um livro. Com efeito, uma pintura, em tela ou em painel, tem de ser vista, presenciada, para que a pintura possa existir enquanto arte. Ora, a tela da literatura, entenda-se, é o livro e a literatura só é arte se for lida; mas como a leitura é um acto individual, a lógica é a de que tem de imprimir-se o maior número possível de livros de uma obra literária, porque de outra forma ela nunca chegaria a fruir: não pode expor-se a literatura do mesmo modo que a pintura, observada por milhares de pessoas ao mesmo tempo numa sala de um museu. Diferentes artes têm diferentes estratégias de chegar às pessoas para criarem o seu público, para transmitirem as suas mensagens e, se for o caso, para comunicarem. Neste sentido, o livro é um objecto artístico, enquanto que o texto é um objecto de arte.



Um olhar crítico sobre alguma crítica de arte

A avaliação crítica de um objecto contemporâneo de arte é muitíssimas vezes baseada na mais elementar salvaguarda da reputação intelectual e social do crítico que sobre aquele discorre (com os valores económicos e culturais vigentes nesse período em mente), em vez de ser baseada, verdadeiramente, no valor artístico que possua. Daí que o tempo, tantas vezes, se encarregue de resgatar e valorizar objectos de arte que foram votados à invisibilidade nos seus momentos originais de apresentação, mas que, uma vez dissipados ou desvalorizados os padrões económicos e culturais que os censuraram, poderão usufruir de uma vida nova, junto de um público novo, que, livre de antigos preconceitos, agendas e compromissos, se regozijará com eles.

Em suma, quanto mais um objecto contemporâneo de arte estiver encastrado num escalão social e artístico elevado, mais o factor economicista pesará na sua avaliação crítica, mas, de maneira geral, esse juízo crítico tem como autêntico objectivo a pura conservação do próprio crítico no estrato social ao qual pertence - ou ao qual pretende pertencer: nesse sentido, a avaliação crítica do objecto contemporâneo de arte é, somente, uma prosaica plataforma para se criar um discurso confortável que vá ao encontro dos padrões estéticos e intelectuais e de linguagem endémicos dos indivíduos que são reconhecidos nessas comunidades restritas como sendo os seus mais importantes representantes - e sem os quais essas comunidades nem sequer existiriam, provavelmente. No entanto, como é árduo, se não impossível, criar um discurso desse feitio, porque não existe, como é natural, uma linguagem simultaneamente sofisticada e sicofante (existem as linguagens da publicidade e da propaganda, que são intoleravelmente vulgares - mesmo para um crítico desesperado - mas que, ainda assim, são, por vezes, desavergonhadamente, utilizadas), esse texto invisível, digamos assim, tem de ser formulado, em exclusivo, com o recurso ao cânone histórico e estético tradicional - que, nestes casos, para o efeito pretendido, tem de ser tornado críptico, obscuro ou, pelo inverso, totalmente superficial, inócuo e desvinculado em relação ao objecto contemporâneo de arte enunciado, porque esse, em si, não interessa absolutamente nada para a inscrição do crítico num determinado bioma; ou seja, não interessa se o discurso crítico artístico se relaciona com o objecto contemporâneo de arte, mais as interrogações que este poderia suscitar, porque os autênticos destinatários do discurso só estão interessados em perceber se o crítico lauda e promove os padrões estéticos e intelectuais da comunidade à qual pertence - por motivos largamente economicistas ou até por motivos de simples coesão de grupo - do que em perceber quais são os méritos artísticos do objecto. Embora se apresentem nos espaços públicos de opinião, estes são, maioritariamente, discursos pensados e preparados para as expectativas de consumidores internos e inflexíveis muito específicos.

Na realidade, quantos críticos de arte gostariam de falar sobre certos objectos contemporâneos de arte e não podem fazê-lo, porque estes encontram-se além da fronteira daquilo que é aceite (por várias razões, desde o preconceito de classe, o preconceito voltado contra certas instituições de ensino artístico, os ódios e as preferências de estimação, as tendências do mercado, etc.) pelos seus grupos de pertença? Aqui, entende-se, perfeitamente, que o problema da crítica contemporânea de arte, como o velho problema do snobismo, é sempre - e será sempre, calcula-se - um problema de pertença.
"Será seguro falar sobre isto?", "será que irei ser posto de parte pelos meus pares por falar sobre isto?", "até gostaria de falar sobre isto, mas será que me deixarão?", "gostaria de falar muito bem disto, mas pediram-me que falasse menos bem". Neste domínio, como em tantos outros, o preço a pagar pela independência - até pela independência intelectual, que, se calhar, é a única que poderá existir verdadeiramente e, assim, é aquela que interessa conservar - é o isolamento.

sábado, 16 de novembro de 2013

Excelente crítica em polaco a «Palmas Para o Esquilo»

Nesta ligação podem ler uma excelente crítica em polaco (por Jakub Jankowski) a Palmas Para o Esquilo (Kingpin Books, 2013), escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa: http://komiks.polter.pl/Varia-7-c26065

Podem traduzir a crítica no Google Translate: o texto em questão é a 16ª resenha do artigo, que apresenta críticas (pontuadas de 0 a 10) a diversos livros de banda desenhada portugueses e estrangeiros. Palmas Para o Esquilo é pontuado com um 9.




terça-feira, 29 de outubro de 2013

Comentário sobre «Astérix Entre os Pictos»


A capa de Astérix Entre os Pictos, novo livro de banda desenhada da série Astérix, quase resgata do esquecimento o sentimento mágico que os melhores títulos dessa colecção evocam, mas escorrega num pormenor que poderá ser ignorado pelos leitores menos sensíveis às questões relacionadas com o tom que as narrativas devem ter: é um desenho que cai no erro de nos mostrar os Pictos.
Ora, o grande truque dos álbuns de Astérix, em particular daqueles cujas histórias podem classificar-se de "grandes viagens", é, precisamente, nunca desvendar o aspecto e o carácter dos povos que os gauleses visitam - e quando aqueles aparecem nas capas, como em Astérix Entre os Bretões e Astérix na Hispânia, por exemplo, tais figurações frontais não passam de cameos (na maioria, de personagens secundárias), que nada desvendam sobre as características particulares dessas etnias. O facto é que, tal como em Jaws, de Steven Spielberg, em que o tubarão permanece oculto durante quase todo o filme, também as lacónicas capas de Astérix cumprem a função de manter misteriosa e interessante a história. Um caso paradigmático desse modus operandi será, provavelmente, a capa de Astérix e o Caldeirão, com um desenho completamente alegórico - económico, até. Esta opinião poderá parecer insignificante, mas relaciona-se com aquilo que faz as melhores histórias de Astérix serem especiais: uma boa história de Astérix nunca se apoiou em fórmulas e em lugares-comuns - e, de há uns livros para cá, o universo de Astérix transformou-se numa bula farmacêutica na qual estão listados os ingredientes e os efeitos previsíveis que provocarão.
Se os livros a solo de Uderzo inventaram e esticaram perigosamente essa fórmula, ao ponto de rebentá-la (O Pesadelo de Obélix é, na minha opinião, o livro em que se opera esse rebentamento), este novo álbum, escrito por Jean-Yves Ferri e desenhado por Didier Conrad, demonstra que ela está irremediavelmente quebrada: ou seja, nem um par novo de mentes, com algum talento, diga-se, é capaz de regenerá-la, num livro que se lê como se fosse um receituário, com a introdução de quase todos os chavões asterixianos, alguns estribilhados num espaço de poucas pranchas, o que culmina numa irritante saturação "museológica".


Não me perfilo entre os críticos dos elementos "disneyescos", chamemos-lhe isso, que Uderzo introduziu num número cada vez maior nos álbuns recentes, porque eles sempre fizeram parte do mundo de Astérix, como pode ler-se em O Combate dos Chefes, entre outros títulos - mas na escrita de Goscinny, o antropomorfismo nunca passou para o primeiro plano da narração; ou seja, sempre assinalou momentos de humor e de fantasia mais desregrada entre personagens secundárias, nunca interagindo com as principais, criando, desse modo, uma distância que mantinha coerente o cômputo dentro das linhas mestras do universo de Astérix. Podíamos ver, em segundo plano, os javalis a falar uns com os outros (em A Odisseia de Astérix, já com Uderzo a solo) ou os animais da floresta armoricana a assistir às lutas dos gauleses com os romanos, mas nunca víamos os javalis a falar com os gauleses ou os animais a interagir com estes - como na sofrível cena com o golfinho em Astérix e Latraviata. Em suma: o problema está na miscigenação daquilo que eram apontamentos secundários de humor com os elementos da narrativa central, o que quebra a cumplicidade do leitor.
Astérix Entre os Pictos traz para primeiro plano uma espécie de avatar do Monstro de Loch Ness, mas isso era expectável (afinal, está-se na Escócia), embora, neste ponto, me dê vontade de recordar outra aparição de outro avatar do monstro lochnessiano, também numa banda desenhada franco-belga, que, acredito, é muito melhor conseguido: a meio de San António na Escócia, a personagem Béru, ébrio e incompetente inspector que auxilia o comissário San António, diz, com perturbação, ter pescado o célebre Monstro de Loch Hater, mas nem as personagens, nem o leitor acreditam nele até à última vinheta do álbum, na qual o monstro aparece (e numa excelente caracterização, mais espectacular que a de Ferri e Conrad). Dava vontade de ver algo semelhante acontecer entre Obélix e o Monstro de Loch Andloll, ao qual ele chama "lontra": uma hipótese teria sido Obélix passar o álbum inteiro a falar sobre a tal "lontra" que ia vendo no lago para, no final, o monstro aparecer e assustar toda a gente, ficando Obélix sozinho, de braços cruzados e a bater o pé, gozando o facto de se ter "tanto medo de uma lontra". Também teria sido mais indicado que a personagem principal Mac Brasa, o picto que, no início, os gauleses salvam do gelo e levam de volta à sua terra, fosse uma caricatura de um actor escocês famoso nos dias de hoje (como Gerard Butler, por exemplo), o que tornaria satírico (em vez de "revisteiro") o enfatuamento que as mulheres da aldeia gaulesa sentem por ele. São, apenas, duas ideias que poderiam ter elevado a outro nível este Astérix Entre os Pictos que, infelizmente, se esgota em trocadilhos duvidosos e derivativos, em referências tão aleatórias que perdem todo o humor que poderiam ter em circunstâncias melhores e na bola-e-corrente do receituário asterixiano que pesa muitíssimo nos últimos cinco ou quatro álbuns da série.

Astérix Entre os Pictos também ignora a cronologia dos álbuns anteriores: em Astérix e os Bretões, um taberneiro "inglês" alude ao carácter avarento dos caledonianos (escoceses) que, nesse álbum, já estariam num estádio civilizacional um pouco mais desenvolvido que o dos Pictos do novo livro. O whisky também já era conhecido de outros álbuns, por isso a sua descoberta neste título não faz sentido. Reconheço que se trata de um livro humorístico, mas, ainda assim, uma observação histórica mais acertada faria maravilhas à narrativa principal. Em resumo: os pictos não foram os antepassados dos escoceses - foram um "povo" (falar-se em "povos" no que diz respeito a estas eras é sempre conjectural) assimilado pelos invasores Escoceses (do nome romano scoti, derivado de scotia, que significa goteira - uma alusão ao clima chuvoso e frio daquelas regiões setentrionais), que vieram da Irlanda do Norte. Por conseguinte, os actuais escoceses não descendem dos pictos, mas de um cruzamento de (pelo menos) duas etnias: 1) os invasores escoceses que vieram da Irlanda (Hibérnia) e 2) os pictos que assimilaram. Ainda hoje, a língua escocesa retém influências directas do dialecto desses invasores escoceses, o chamado Celta Q* - como a pitoresca palavra mac, que significa filho. O fetiche picto que os escoceses têm é, analogamente ao fetiche lusitano que têm os portugueses e ao fetiche gaulês que têm os franceses, uma mera tentativa romântica de encontrar-se um único povo, quasimítico, que seja antepassado e fonte originária das virtudes de um país, mas de um ponto de vista histórico, científico, ficções dessa natureza não se sustentam, por mais ressonância que repercutam em certos sectores da sociedade. Daí que teria sido interessante se Astérix Entre os Pictos tivesse mostrado esse conflito entre os pictos e os escoceses, injectando humor nas diferenças de dialecto (o hibérnico Celta Q e o "britânico" Celta P), nos costumes dissemelhantes e nas tentativas dos romanos de governar duas etnias ingovernáveis.

Escrevo este comentário por duas razões: porque o material que serve de inspiração ao álbum poderia, como vimos nos parágrafos anteriores, ter sido explorado de uma forma mais rica; e porque se perdeu uma oportunidade de, verdadeiramente, revitalizar Astérix.
A série Astérix tornou-se famosíssima e incontornável pela sua iconoclastia. Está, pois, na altura de quebrar a imagem construída nos últimos álbuns para que estas personagens que todos nós gostamos possam respirar um novo sopro de vida que não cheire a homenagem, muito menos a cliché. Este Astérix Entre os Pictos é um esforço fraco nessa direcção, mas é provável que ela venha a ser alcançada num próximo livro. Seja como for, esta fórmula está gasta, completamente.


* - A designação Celta Q é a corrente, mas, como já escrevi em outras ocasiões, a palavra celta é mal aplicada. Celtas deriva do nome grego keltói, que significa bárbaros ou estrangeiros. Por conseguinte, falar-se em celtas é exactamente a mesma coisa que falar-se em bárbaros. Nunca existiu nenhuma civilização, cultura ou língua celtas: existiram civilizações, culturas e línguas que dessa forma foram apelidadas, nos textos clássicos, para efeito de simplificação. Os celtas nunca existiram.

sábado, 12 de outubro de 2013

Gravitas


Acho que Gravidade, de Alfonso Cuarón, é um bom filme, mas não fui capaz de emocionar-me como esperava. Para começar, o argumento é quase inexistente e a maioria dos diálogos só existe para preencher o silêncio sepulgrave do cosmos: ainda no preâmbulo da provação que se seguirá, a personagem interpretada por George Clooney alerta a personagem interpretada por Sandra Bullock sobre a conveniência de estar-se sempre a falar, mesmo que não se diga nada de concreto, de modo a que a estação terrena da NASA dê pelas suas presenças. E, com efeito, a maioria dos diálogos surge somente como um farol que vai piscando no meio do breu, embora, na minha opinião, isso não seja o maior problema do filme, porque, desde o início, somos levados pela mão com inegável mestria por uma história de pura sobrevivência, na qual a própria sobrevivência, num ambiente ultra-hostil, é, sem decorações, o único móbil. Mas, nesse sentido, o filme deveria assumi-lo sem complexos: ou seja, a haecceitas de Gravidade é, sem dúvida, a luta pela vida travada pela cosmonauta corporizada por Bullock que, ultrapassando o velho tropo do "homem (ou da mulher) contra o mundo", surge como alguém que precisa de derrotar o universo. Escreveu Catão-o-Velho, «rem tene, verbas sequentur» («agarra o tema e as palavras seguir-se-ão»), mas, em específico, o tema da sobrevivência solitária não precisa de palavras. Talvez não sejam os exemplos ideais de comparação para este caso, mas filmes como Few of Us (1996) de Sharunas Bartas ou Mãe e Filho (1997) de Aleksandr Sokurov já demonstraram como o silêncio pode ser tão conducivo da contemplação como inquietante e aquilo que falta a Gravidade é, sobretudo, inquietação. No seu quasi-hibridismo entre o ficcional e o documental, o filme de Cuarón falha em inquietar o espectador, constantemente posto fora do filme por culpa dessa indecisão que rompe toda a cumplicidade, e, por ironia, o momento mais perturbador dos seus noventa minutos de duração passa-se na Terra.
A duração do filme é, de facto, outro problema: Gravidade precisava de mais espaço - e isto não é nenhum trocadilho. Porém, é possível que o público contemporâneo não esteja preparado para fôlegos "kubrickianos", porque aos primeiros minutos do "longo" plano de sequência do início dei por mim a ouvir murmúrios de impaciência de outros espectadores - a montagem frenética dos vídeos musicais que foi transposta para o cinema na segunda metade dos anos noventa do século passado formatou toda uma geração à velocidade vertiginosa do teledisco e do videojogo, obrigando muitos realizadores a caminhar cada vez mais nessa direcção. À luz disso, este esforço de Cuarón até é heróico, contextualizado no espectro do cinema norte-americano, produzido pelos grandes estúdios: será, provavelmente, o filme-contemplativo possível, hoje em dia... Aliás, Cuarón é um cineasta de grande calibre: falando em planos de sequência, recorde-se o exemplo notável de equilíbrio de tempo e de espaço, e muitíssimo bem interpretado por Clive Owen, que pode ser visto perto da conclusão de Os Filhos do Homem (2006). De igual modo, Bullock e Clooney (ambos capazes da pior canastrice) são exemplares na composição das personagens semi-unidimensionais que lhes são dadas, granjeando sem dificuldade a nossa empatia, ficando provada a qualidade de Cuarón como director de actores.
Feito com o rigor científico possível (contornando-o quando este poderia tornar-se um obstáculo à própria linguagem do cinema, porque, no espaço, aquilo que apelidamos de "senso comum" não existe e seguir a realidade resultaria num espectáculo bizarro para o espectador), suportado por interpretações desarmantes e filmado com muita arte, Gravidade é o filme que eu ansiava por ver há bastante tempo (sóbrio, maduro, inteligente), mas, ainda assim, é demasiado curto e circunspecto para que brilhe todo o potencial que encerra, o que é uma pena. No entanto, para quem achou que Avatar, de James Cameron, foi um fiasco de filme (eu acho que Avatar é péssimo), Gravidade será o colírio certo: eye candy de elevadíssima qualidade, embora servido com um inesperado sentido de discrição.
  

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Horror do fundo do baú


Andei a arrumar o escritório e encontrei a primeira crítica profissional, publicada na imprensa, sobre um trabalho de minha autoria: uma resenha ao meu primeiro fanzine de banda desenhada, intitulado Alimentando-se Com os Fracos (1999), publicada no jornal Blitz, a 13 de Julho de 1999. Já foi há tanto tempo - e, entretanto, já escrevi tantos livros, desde esse Verão Negro até agora. Foi uma bela surpresa encontrar este recorte: existe uma continuidade mefistofélica entre as presas do babuíno que está na capa do fanzine e o universo autoral que desenvolvo actualmente e isso preenche-me de orgulho.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Nova entrevista sobre «Os Anormais»

No novo número da Infektion Magazine, já disponível para download, poderão ler uma entrevista comigo sobre «Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense», spoken word escrito e interpretado por mim e musicado e produzido por Charles Sangnoir. Sinto-me privilegiado por ter tido oportunidade de responder a perguntas muitíssimo interessantes (feitas por Ruben Infante), o que, infelizmente, vai sendo raro hoje em dia: http://issuu.com/infektionmag/docs/infektion19
Na secção de críticas poderão ler uma excelente resenha do disco - que, lembro, está disponível para compra nesta ligação: http://necrosymphonic.bandcamp.com/album/os-anormais

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

«Os Anormais» na revista LOUD nº 139.

Excelente crítica a Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense, de David Soares e Charles Sangnoir (Necrosymphonic Entertainment/raging planet, 2012) na revista LOUD! deste mês.
Podem ouvir e adquirir o disco nesta ligação: http://necrosymphonic.bandcamp.com/album/os-anormais



terça-feira, 22 de maio de 2012

Crítica a "O Pequeno Deus Cego"


Vale bem a pena ler esta excelente crítica de Pedro Vieira de Moura a O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books, 2011), publicada no seu weblog LER BD. O Pedro diz que o tema central do livro é o Conhecimento e envereda por essa via para analisá-lo... Ora, o tema central de O Pequeno Deus Cego relaciona-se com o conhecimento, sim, mas é outro: o Crescimento - o crescimento através da Iniciação (crescer das Trevas para a Luz). Não quero desvirtuar a leitura que o Pedro fez, somente esclarecer, enquanto autor, qual é o tema central do livro - que, claro, permitirá sempre mais que uma leitura.

Na imagem: clímax de O Pequeno Deus Cego, no qual a carne desprende-se dos ossos...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Anonymous

Começando com um prólogo teatral, passado nos nossos dias, com o actor inglês Derek Jacobi sozinho no palco, à guisa de Grilo Falante, enunciando ao público as razões pelas quais o dramaturgo inglês William Shakespeare não pôde ter sido o verdadeiro autor dos seus trabalhos, o filme Anonymous de Roland Emmerich é desonesto desde o início. Na verdade, o filme, com mais de duas horas de duração, mais parece um trailer a posteriori, apenas realizado para justificar a projecção do prólogo e do epílogo de Jacobi. De outra forma, qual é a justificação desses segmentos numa obra cinematográfica de ficção? A única justificação possível é a de que servem unicamente para provocar a opinião do público e granjear publicidade para o filme: adivinha-se que quanto mais polémico for o discurso, mais espectadores o filme terá e, nesse sentido de estratégia de mercearia de bairro, é um truque tão natural quanto outro qualquer. Porém, não deixa de ser desonesto em virtude disso: é uma estratégia que não deixa o filme respirar, nem oferece espaço ao espectador para retirar da história as suas próprias conclusões. Anonymous não é, pois, diferente de qualquer panfleto de propaganda eleitoral: o filme escolheu o seu candidato para autor das obras de Shakespeare, na figura de Edward de Vere, 17º conde de Oxford, e tudo faz para que os espectadores votem nele. Ora, eu não voto.

Enquanto filme, no mínimo enquanto espectáculo, Anonymous tem alguns méritos -- a cenografia, guarda-roupa e fotografia são de qualidade, assim como o trabalho superlativo da maioria dos actores (em principal Rhys Ifans como o mirífico Edward de Vere e Edward Hogg como o gebo Robert Cecil) --, mas não são suficientes para ofuscar a amargura de um argumento desastrado. O problema de Anonymous é que tem tudo para ser um filme interessante, mas recusa-se a ser um filme, de todo, apresentando-se como um panfleto de propaganda eleitoral, como já referi. No final do tempo de antena, depois de mostrada a arenga da praxe, pejada de intrigas palacianas, à la "Código da Vinci" quinhentista, e alguns complexos de Édipo, lá aparece Jacobi novamente, no seu melhor como porta-voz de campanha, a resumir com paternalismo as razões pelas quais se deve votar no candidato apresentado, não vá o espectador enganar-se e ir para casa sem a cartilha bem aprendida. Dá sempre jeito ter um senhor de cabelos brancos e com aspecto de cavalheiro respeitável para papaguear umas barbaridades, quando o objectivo é que elas pareçam credíveis.

Sobre o filme, pouco ou nada mais há que comentar, porque, com efeito, o filme verdadeiro, aquele que, de facto, o realizador está ansioso por nos mostrar, é composto pelo prólogo e pelo epílogo. E esse transmite algumas mensagens perigosas, mas que, enfim, devem estar sintonizadas com o tempo em que vivemos, no qual ter talento não interessa nada. A tónica colocada nas origens iletradas de Shakespeare, insistindo que ele não poderia ter escrito os seus trabalhos porque o pai não sabia ler, e porque as suas filhas também não, parece retirado a papel-químico dos discursos de Marcelo Caetano, delfim de António de Oliveira Salazar, que defendia a ideia de que a inteligência e o talento eram faculdades que apenas se refinavam «no seio de uma família» (à laia de lamarckismo revisto pelo Estado Novo). Ou seja: na visão de Emmerich, Shakespeare não tinha nada de ser escritor e deveria ter sido fabricante de luvas como o pai; tal como, na lógica de Caetano, ao filho de um sapateiro só era permitido ser sapateiro. Anonymous tem, como se vê, a finura do feitor de castas: a cada um, de acordo com o seu berço.
Mas há mais: numa observação totalmente contemporânea sobre a vida de indivíduos que já morreram há mais de três séculos, Jacobi ainda refere que Shakespeare não poderia ter escrito os seus trabalhos porque só tinha o ensino primário (no original, grammar school). É um argumento tão anacrónico que nem sequer merece uma refutação séria. Prefiro deixar o esclarecimento de que a maioria dos indivíduos da sociedade quinhentista isabelina não teriam muitos anos de estudo, nem sequer os nobres, dos quais se resgatou a personagem Edward de Vere: a função da nobreza não era saber ler nem escrever, mas saber guerrear. Para ler e filosofar havia o clero e para governar havia o rei (ou a rainha). Como é que, por um lado, Anonymous faz questão de ostentar o desprezo cabal dos nobres pela literatura (não esquecer que é esse desprezo que está na base da teoria da conspiração que serve de esqueleto ao filme) e, por outro, defender que um campónio, que tinha um pai analfabeto, ainda por cima, também seria incapaz de escrever? Então, quem é que escrevia naquele país? É verdadeiramente espantoso como uma sociedade tão tacanha como a retratada no filme foi capaz de servir de parteira a um dramaturgo tão genial, viesse ele de que classe social viesse. É um mundo muito feio, o de Emmerich e John Orloff (argumentista).

Anacrónico, preconceituoso e panfletário podiam ser boas designações para Anonymous, mas não são. Não são, porque Anonymous não existe enquanto filme: só existe enquanto tempo de antena de campanha eleitoral, na projecção do prólogo e do epílogo. As duas horas e dez minutos que estão no meio são apenas a música de baile que os mestres-de-picadeiro escolheram para dourar a pílula.
Vale a pena ver este teaser em que Emmerich expõe as suas dez razões para que Shakespeare não possa ter escrito os seus trabalhos -- em síntese, é o discurso de Jacobi em Anonymous, mas com a desvantagem de ser Emmerich a soliloquar, em vez de ser um actor profissional: http://www.imdb.com/video/imdb/vi1157013017

Mesmo assim, no que diz respeito a candidatos alternativos para a autoria das obras de Shakespeare, Edward de Vere, deixa um pouco a desejar, como se pode ler em Brief Lives, do cronista seiscentista John Aubrey. De Vere cometeu uma falha imperdoável junto da rainha Elizabeth I, quando a ela foi apresentado: o conde estava tão nervoso por conhecê-la que, ao realizar os salamaleques da praxe, descuidou-se em alto e bom som. O episódio foi um escândalo e Edward de Vere andou exilado cerca de sete anos, sem sequer olhar na direcção de Inglaterra. Ao retornar, foi ter com Elizabeth I, como era mandatório, e ela disse-lhe: «Caro Senhor, já me esqueci do seu peido [sic]». A ser verídica a tese oxfordiana, quem sabe se sem esse tirocínio forçado pela Europa, De Vere não teria sido capaz de inspirar-se na alta cultura florentina para escrever. Nesse caso, devemos agradecer não à providência, mas à flatulência, uma das maiores obras literárias mundiais.

No fim do epílogo de Anonymous, depois de Jacobi ter cumprido o papel de advogado do Diabo e desaparecer atrás da cortina, vemos os espectadores esclarecidos a levantarem-se dos seus lugares. A caminho das urnas, portanto, prontos a assinarem de cruz como o pai de Shakespeare.