quarta-feira, 30 de julho de 2014

Cinco sugestões de leitura (ficção)

Geralmente, não leio ficção, mas isso não significa que eu não goste de ficção. Na realidade, a única razão pela qual vale a pena escrever é a de passar-se uma temporada em excusivo retiro mental num mundo totalmente fictício - sobretudo quando o mundo real falha em alcançar padrões de excelência aceitáveis. Assim, deixo uma pequena lista com cinco livros de ficção, lidos durante os últimos quatro ou cinco anos, que me emocionaram. Neste momento, as escolhas são estas - em outro, seriam, certamente, diferentes. Não elenco estes títulos em nenhuma ordem preferencial ou parecida.


1) Stoner, de John Williams. Um livro extraordinário, escrito com uma subtileza surpreendente, sobre um filho de agricultores que se torna professor universtário. Grande parte da narrativa tem de ser percebida nas entrelinhas, porque não é descrita. Uma história sobre o valor redentor da cultura, da inteligência e da inexpugnável integridade de carácter. Um belo livro triste.



2) Nicholas Crabbe, de Frederick Rolfe (Barão Corvo). Terrível relato sobre as agruras de um escritor em início de carreira, mais angustiante ainda por ser, em maior espessura, autobiográfico. A linguagem é luxuriante e o final é castigador. Um livro essencial.


3) Sirius, de Olaf Stapledon. Excelente romance sobre um cão com inteligência humana, que consegue falar (de modo um pouco tosco, mas os donos entendem-no). Misto de noveleta de ficção científica e ensaio filosófico wittgensteiniano, provocante e pertinente, que nunca, em momento algum, escorrega para a caricatura ou para o artificialismo, o que, considerando o tema, é impressionante.


4) The Sot-Weed Factor, de John Barth. Romance (verdadeiramente) picaresco, escrito sem concessões ou facilitismos em linguagem seiscentista, sobre as graças e as desgraças de um pobre diabo a quem convenceram ser o poeta laureado da colónia de Maryland. Uma obra-prima que mistura, em partes iguais, comédia desbragada e uma fina sensibilidade. Em português, o título pode ser traduzido como O Contratador de Tabaco.


5) Ada, or Ardor, de Vladimir Nabokov. Na minha opinião, o melhor romance de Nabokov, escrito com a habitual prosa pirotécnica, mas em grau superlativo de delícia. Sátira filosófica ao chamado bildungsroman, com laivos de ficção fantástica. Um livro complexo e fascinante que, misteriosamente, passa sempre abaixo do radar, comparado com o (também genial, mas) mais famoso Lolita.


segunda-feira, 21 de julho de 2014

Estrompa (1942-2014)

É com tristeza que informo que faleceu recentemente (na passada sexta-feira, dia 18 de Julho) João Estrompa, autor português de banda desenhada, conhecido, entre outros trabalhos, pela personagem Tornado. Foi criador e editor do importante fanzine Shock (publicado pela primeira vez em 1983), no qual colaboraram diversos autores portugueses de banda desenhada.

 (Capa do nº0 do fanzine Shock.)

Recordarei o seu entusiasmo, a simpatia, o optimismo e o humor. O mundo da BD portuguesa ficou mais pobre.
Segundo o weblog Divulgando BD, de Geraldes Lino, o velório de Estrompa terá lugar amanhã, a partir das 18H00, na Igreja de Arroios (Rua de Arroios), em Lisboa.


sábado, 19 de julho de 2014

«O Homem-Javali Vai Casar: ou, Leng Tch'e» de David Soares e Pedro Serpa


Eu e o Pedro Serpa começámos uma nova colaboração homicida em banda desenhada que sairá este ano pela Kingpin Books.
Ainda é cedo para revelar pormenores, mas posso avançar com a informação de que consistirá numa história (mais ou menos) curta, intitulada O Homem-Javali Vai Casar: ou, Leng Tch'e que, simplesmente, só posso definir como sendo um delírio que Buñuel arquitectaria se decidisse criar um híbrido de The Elephant Man de David Lynch e You've Got Mail de Nora Ephron. Aguardem...

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Sobre Lovecraft


Não sou um fã fervoroso dos contos de H. P. Lovecraft, mas não pertenço ao campo dos seus detractores literários, nem tão-pouco ao dos seus assassinos de carácter, que, com odiosa curiosidade, o querem reduzir à caricatura de racista virulento (como o escritor francês Michel Houellebecq, autor da biografia H.P. Lovecraft: Contre le monde, contre la vie, que, no mínimo, pode ser caracterizada como carente de fontes fidedignas). Quero acreditar que a maioria desta gente, de facto, não conhece a vida e a obra de Lovecraft e, pela rama, escreve e fala sobre o que não sabe.

O racismo de Lovecraft foi um racismo de pechisbeque: um arremedo adolescente de alguém que, inserido num contexto muito provinciano, cresceu a pensar de um modo tradicionalista e ultra-conservador. Orientado por um elitismo de inspiração aristocrática, a que, em dada altura, quis almejar, Lovecraft desgostava e desconfiava das massas, mas - o que tem piada! - nunca rejeitou o indivíduo - fosse ele branco, negro ou de outra etina, algo que a sua profusa correspondência pessoal demonstra com clareza.

Outra coisa que a sua obra (é numerosa e literariamente significante para ser assim considerada) epistolar demonstra sem margem para dúvida é que o escritor, ao longo dos anos, afastou-se da matriz ultramontana e isolacionista da Direita norte-americana do seu tempo para tornar-se um homem aberto, mais positivo, menos pessimista e, sobretudo, menos precipitado nos seus julgamentos de sofá - até porque já se atrevia a sair de casa, de quando em quando, para visitar alguns amigos epistolares.

De facto, nas vésperas da morte, Lovecraft tornou-se um simpatizante da Esquerda e escreveu com entusiasmo sobre a democracia. Estamos, por conseguinte, muitíssimo longe dos textos intolerantes que escreveu na juventude e nos primeiros anos da idade adulta (como as histórias The Horror of Red Hook e He, por exemplo). A sua ficção patenteia essa viragem. Se nos primeiros contos ele observou com horror a proximidade do Outro - se desejarmos ler a obra dessa forma (a obra permite mais do que uma leitura) -, nos contos finais o contacto com o Outro - com o alienígena (em inglês, alien também significa imigrante) - é procurado como uma hipótese transformadora e até redentora: ao ponto de escrever, em At the Mountains of Madness, que os Outros «radiates, vegetables, monstrosities, star spawn — whatever they had been, they were men!». Quando o narrador de The Shadow Over Innsmouth descobre que é um mestiço e que tem sangue do Outro nas veias reage com maravilhamento, em vez de sentir repulsa: «the tense extremes of horror are lessening, and I feel queerly drawn toward the unknown sea-deeps instead or fearing them. I hear and do strange things in sleep, and awake with a kind of exaltation instead of terror. Stupendous and unheard of splendours await me below, and I shall seek them soon. (...) in that lair of the Deep Ones, I shall dwell amidst wonder and glory forever».
Dificilmente este será o ponto de vista de quem encara com repúdio uniões multiétnicas.

Sobre essa questão, acrescente-se o casamento de Lovecraft com Sonia Greene, uma judia ucraniana, sete anos mais velha que ele. A união de Lovecraft com Sonia fez-se de verdadeira cumplicidade e afeição, embora esta se tenha dissolvido, de modo amigável, por culpa das circunstâncias laborais de Greene, obrigada a viajar de um lado para o outro, ficando Lovecraft muito tempo sozinho no pequeno apartamento que ambos tinham alugado numa zona muito pobre de Brooklyn, em Nova Iorque. Com efeito, em segredo, Lovecraft nunca assinou o documento do divórcio, na sincera esperança de que ele e a mulher, em breve, voltassem a viver juntos. Se este é o comportamento de um racista virulento, anti-semita e misógino, então eu não sei qual é o comportamento de alguém de sinais opostos.

Ainda assim, mesmo que Lovecraft correspondesse à caricatura racista que dele alguns querem fazer (até existe um jogo na Internet que o compara com Hitler), o que é que isso tem a ver com a autêntica apreciação literária da sua obra? É óbvio que somos livres de não querer ler obras de autores que não admiramos pelos mais variados motivos (eu, por exemplo, recuso ler livros escritos por quem escreve mal), mas recusarmos ver o valor literário que as obras têm, por culpa do nosso desgosto ou preconceito sobre os autores, é totalmente errado.

Lovecraft viveu toda a vida como um indigente, que mal tinha dinheiro para comer e, pese essas dificuldades, preferia gastá-lo em livros e em papel de carta para se corresponder com os seus múltiplos amigos epistolares - que, genuinamente, o admiravam e acarinhavam. Foi, em suma, alguém que recusou uma vida normal, fácil, com um emprego banal, das nove às cinco, para se entregar com toda a alma à criação literária de mundos imaginários que, hoje, reverberam com uma força imensa. Quando penso em Lovecraft, não é a imagem do racista a espumar da boca que evoco, mas a do escritor esforçado - e culto - que se sacrificou diariamente para deixar obra feita: a obra que ele quis e não aquela que as modas do seu tempo poderiam ter ditado.

Hoje como ontem, o preço a pagar pela integridade, pela ética e pelo sacrifício é sempre o isolamento. Não direi sobre Lovecraft o que Pierre Klossowski disse sobre Sade, mas posso dizer que, para mim, Lovecraft é um exemplo luminoso: se eu, enquanto autor, me juntasse ao coro de detractores lovecraftianos, rapidamente me vergaria até aos calcanhares sobre o peso insuportável da vergonha mais desonrosa. Aviltar de modo tão cobarde quem amou tanto as letras e o mundo imaginal que criou de maneira tão especial é uma veleidade de homens pequenos.


A bodega de Lisboa

Não há outra forma de dizê-lo e tentá-lo seria, ao mesmo tempo, uma hipocrisia e uma perda de tempo: este texto que o The New York Times publicou sobre Lisboa é uma bela bodega.

Aqui, pode ler-se a apologia de uma espécie de turismo rural olisiponense, no qual a cidade, longe de possuir uma história antiquíssima (Lisboa foi fundada em 1200 a.C.) que urge descobrir, irrompe como uma simples e simpática aldeiazinha alcandorada ao Tejo, que convida o turista - cansado da história e da cultura que encontra em outras cidades europeias mais interessantes - ao ócio desmiolado, em restaurantes e ostarias hipster que, ainda por cima, como Portugal atravessa uma crise economico-financeira, são muito mais baratos que os das restantes capitais. Ena, pá! Sobretudo, nesta visão miserabilista sobre Lisboa, a cidade é minúscula: adstrita ao Parque Eduardo VII - onde pululam cachorros amestrados (tão giro que isto é) -, às ruas da Baixa - onde pululam serventes amestrados (tão prático que isto é) - e à colina do Castelo - onde pulula a parenética amestrada sobre o território (tão conceptual que isto é) - , como se o resto não existisse. Aos olhos de Frank Bruni, antigo crítico de restauração do The New York Times, Lisboa é um diorama sem delínquio, simplesmente porque não exige nada ao visitante: segundo o cronista, não tem locais de relevo para visitar, não tem museus, não tem sítios com interesse artístico e histórico, não tem nada a não ser dois restaurantes do caraças e meia-dúzia de hotéis super-chiques (onde também pululam os serventes amestrados). O Rei Midas iria gostar da talha dourada da Igreja de São Miguel, escreve Bruni: aqui já se está no campo da alta literatura, pelos vistos. É comovente, assim como comove a abulia que, segundo Bruni, é o trunfo de Lisboa.

Lisboa é descrita como sendo o castelo da Fera do filme de animação Beauty and the Beast, dos estúdios Disney, durante o segmento musical «Be Our Guest»; é tão fácil imaginar o cronista sentado à sossega, ao entardecer, numa das esplanadas in dos hóteis que cita no artigo, enquanto a fauna mágica da criadagem lisboeta se desunha para o deslumbrar com as suas qualidades subservientes: «be our guest, be our guest, put our service to the test, tie your napkin round your neck, cherie, and we provide the rest». Eu acho isto digno de dó. Aliás, vou reformular o que escrevi no primeiro parágrafo: o artigo não é uma bela bodega. É uma grande merda.


E aqui está, como complemento, uma bucólica cena recente, observada pela manhãzinha no último Mega Picnic, na Avenida da Liberdade. (O The New York Times iria gostar.)

quinta-feira, 3 de julho de 2014

XII Troféus Central Comics: Nomeação Melhor Argumentista Nacional

O meu livro de banda desenhada Palmas Para o Esquilo (Kingpin Books, 2013), escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa, está nomeado para a categoria de Melhor Argumentista Nacional na décima segunda edição dos Troféus Central Comics: prémios anuais de banda desenhada, promovidos pelo site Central Comics, que têm a particularidade de ser escolhidos por votação dos leitores. Para esta edição, a votação dos leitores terminará no dia 10 de Julho.
A entrega dos prémios ocorrerá no dia 12 de Julho (sábado), às 17H30, no auditório principal do Hard Club do Porto (antigo Mercado Ferreira Borges): cerimónia inserida na programação do evento Central Comics Fest.

Caros leitores, Palmas Para o Esquilo é, neste momento, o meu livro de banda desenhada preferido - e se ele é tão especial para vocês como para mim ajudem-me a ganhar este prémio, porque o livro merece: podem votar até ao dia 10 de Julho nesta ligação (é a Categoria nº9). Para o efeito, só têm de preencher os campos de identificação indicados na página e votar, no mínimo, em cinco das categorias a concurso. Agradeço, em avanço, a vossa participação e a divulgação.



quarta-feira, 2 de julho de 2014

Coincidentia oppositorum

 
A gente vai envelhecendo e dá conta da fenomenicidade que é viver-se em tempo histórico e que, daqui a uma década ou duas, no mínimo, se irá ler sobre a actualidade do mesmo modo que, hoje, se lê sobre os meados do século XX. Quando somos jovens não nos apercebemos disso, porque o tempo demora muito a passar e tudo parece cristalizado num eterno presente - é um tempo de vista larga. Em oposição, quando o tempo passa mais depressa coarcta-nos o horizonte do visível; daí que as coisas terríveis e as coisas belas que, a esta altura, parecem ser produzidas por propulsões irreconciliáveis serão reunidas pela história do futuro próximo numa espécie de coincidentia oppositorum - menos mística que a boehmeana, mas, ainda assim, espera-se, liberta do ludíbrio.


terça-feira, 1 de julho de 2014

«Imundo Bizarro» em «Larvas» de Holocausto Canibal



Larvas, o novo disco (EP) dos Holocausto Canibal, já se encontra disponível. Chamo a atenção para mais uma colaboração lírica (em todos os significados da palavra), no feitio da letra da música Imundo Bizarro, que idealizei e escrevi, propositadamente, a convite da banda. Na ligação em anexo poderão ouvir a música, uma das estrelas do disco, com um solo de guitarra muitíssimo venenoso, e acompanhar a audição com a leitura da letra (integral) que publico no parágrafo seguinte. Aviso: só para estômagos fortes e mentes com sentido de humor (negro).

IMUNDO BIZARRO (música: Holocausto Canibal; letra: David Soares)

Repuxos vagais laríngicos – cessam as inibições.
Inalando matéria regurgitada – surgem alucinações.

Psicótico, desviante:
não estou só nesta parafilia.
Hipnótico, excitante:
o vicio da minha emetofilia.
O vómito inflama a fantasia.

Total fadiga epiglótica – depois da quietação orgástica.
Hidropisia pulmicórtica – efeitos da inspiração cáustica.

Perigoso, glorificante:
um epicurismo singular.
Asqueroso, exaltante:
ejaculo em lixo hospitalar.
Prazeres a não depreciar.

Delírio e desritmia – infecção bactérica do sistema.
Fibrilação ventricular – colapso cardíaco com edema.

Relapsa, a lascívia é activa: imagino uma delícia putrescina.
Fétida, a fecalidade é vomitiva: besunto-me com bilirrubina.

(Indignante –
a minha presença mete nojo.
Sevandijante –
não há outro verme tão sujo.)

Nódoas no corpo, nódoas na mente. Imundo bizarro!
Sexualidade misófila e indecente. Imundo bizarro!

sábado, 28 de junho de 2014

A língua portuguesa não faz 800 anos de idade...

 
...ao contrário do que anda por aí a dizer-se, sobre o aniversário da assinatura do testamento de D. Afonso II (27 de Junho de 1214).
Só para esclarecer que o mais antigo documento escrito em linguagem* portuguesa data de 1175 e é propriedade do acervo do Mosteiro de São Cristóvão da cidade de Rio Tinto, na freguesia de Gondomar, distrito do Porto (pergaminho nº2 do maço nº10): consiste numa “notícia” de fiadores que pertenceu a Paio Soares Romeu («Pelágio», na grafia original), um dos senhores de Paiva e hipotético avô materno do pregador franciscano Fernando Martins - também conhecido por Santo António de Lisboa.

Por conseguinte, a língua portuguesa não faz 800 anos de idade: faz 839.
Isto, claro, se tivermos, mesmo, de encontrar uma data de nascimento para ela; algo um pouco artificial, na minha opinião, mas, enfim, sempre é mais rigorosa a data de 1175 que a de 1214. 

Como rebuçado, ainda deixo a informação que Gondomar significa cavalo de guerra.

* Linguagem era a designação que se dava a todas as línguas que não fossem latim erudito. Nunca é demais sublinhar isto, porque, às vezes, a este respeito, lê-se com cada disparate que até faz doer a vista.


quinta-feira, 26 de junho de 2014

Sobre a Peçonha Branca - em «Lisboa Triunfante»

 
Um excerto do capítulo «A Lição de Arquitectura», do meu romance Lisboa Triunfante (Saída de Emergência, 2008). Neste trecho, inserido no romance em nota de rodapé, mas parte integrante da narrativa – em Lisboa Triunfante todas as notas de rodapé são falsas e consistem em enredo –, observa-se a obra do filósofo fictício Binmarder da Silba, que, no romance, é um heterónimo fantasmático do verdadeiro poeta e cronista quinhentista português Francisco de Sá de Miranda. Binmarder da Silba cruza, ainda, duas personae literárias: o escritor quinhentista português Bernardim Ribeiro e De Selby, o filósofo fictício inventado pelo escritor irlandês Flann O’Brien no romance The Third Policeman. Nesse livro, De Selby, filósofo preferido da personagem principal, aparece apenas nas profusas notas de rodapé e, às tantas, o leitor descobre que ele sonha em destruir o mundo em nome de Deus com uma substância misteriosa, chamada D.M.P., por ele engendrada. Existe, assim, um paralelo entre De Selby e da Silba, por via da Peçonha Branca: droga com a qual Sá de Miranda, em Lisboa Triunfante, se intoxica para escrever e para se relacionar sexualmente com a prostituta Aurélia. A Peçonha Branca foi uma verdadeira droga muito popular na Lisboa Quinhentista e cujos efeitos Sá de Miranda testemunhou e registou. No trecho que se segue, o fictício da Silba conjectura sobre a origem da Peçonha Branca – droga que, em rigor, ainda não se sabe a origem e a forma:

Um artigo muito raro do filósofo Binmarder, publicado pela primeira vez no raríssimo Novas Horas Douradas (1487); incunábulo mais antigo que o Tratado de Confissom (impresso em Chaves no ano de 1489 e, erroneamente, apontado como sendo o mais antigo livro impresso em língua portuguesa). Num estilo proto-humanista, que rejeita a escolástica e antecipa os melhores trabalhos de André de Resende e Garcia da Horta, o visionário Binmarder ousa trazer para a filosofia a tradição satírica dos trovadores goliardos; o que, de certo modo, é a pedra basilar do estilo humanista, já que a glória das letras não passa de um substituto da antiga nobreza cavaleiresca. Enquanto escritor – e filósofo – Binmarder tece nos seus ensaios uma filigrana vaidosíssima que se preocupa em glorificar Minerva e Mercúrio; ou seja: o Intelecto, na pele dos pensadores, e o Comércio, na pele da nova classe burguesa. Neste ensaio sobre, precisamente, a branqueza da peçonha branca, ele coloca a Razão acima do Sentimento para perceber como os efeitos do estupefaciente mais popular do tempo dele estão relacionados com a propriedade principal que é a cor. Transcrevo de “A Branqueza da Peçonha”, retirado de Novas Horas Douradas de Binmarder Da Silba (Vol. II, pag. 157):

«O autor anónimo de O Atlas do Mal, livro que considero a primeira análise metafísica sobre a Sátira porque ao escarnecer dos meus ensaios satíricos ele está, enfim, a julgar esse género literário. A melhor constatação que retiro da leitura do texto enfadonho de O Atlas do Mal é que o autor não tem sentido de humor. Em primeiro lugar, ele acusa-me de ser um viciado em peçonha branca (!) e que a substância querida não só é responsável pela minha péssima prosa (aos olhos dele) como, ainda, a causa da minha fealdade (!!) e dos meus problemas de gota (!!!). Gostava de esclarecer que não sou um viciado. Sou um utilizador, porque a dita droga não rouba o ânimo para me dedicar a outro tipo de tarefas que não sejam o consumo (tarefas como escrever). Não é o local indicado para discorrer sobre a origem farmacológica da peçonha branca, misto do Vegetal e do Mineral, nem do intrincado processo através do qual ela se adapta ao dispêndio humano. (Basta dizer que, de acordo com as crónicas apócrifas de João de Barros - A Ásia Oculta –, toda a peçonha branca que se encontra disponível neste momento provém de um lote imenso que foi produzido há mais de trinta anos na Índia. O motivo da quebra de produção poderá ser a extinção das Centopeias Gigantes do Ganges, bizarros animalejos aquáticos que eram usados pelos fabricantes para pisotear as pétalas da flor da peçonha até estas se transformarem num pó fininho. A extinção das criaturas é justificada com uma inesperada intolerância à água conspurcada pelos indígenas que nela se banham amiúde.) O que me interessa é precisar o modo como a branqueza da peçonha é ela mesma um factor decisivo no modo como afecta o peçonhento (aquele que fuma ou ingere por outros meios – conheço, inclusive, um grande senhor do nosso Reino, que toma a peçonha por via anal com clisteres). A cor branca é, em muitas culturas, sinónimo de beleza ou de pureza. Ao transpor esse ideal para a actividade do peçonhento é legítimo afirmar que a cor não só é uma garantia que o material consumido é puro como a própria prática de o consumir é benta: purificada – e espécie de renúncia ascética ao alimento ordinário por outro mais espiritual (porque comunica com o sentido da visão interior). Os deuses não comem senão ambrósia e o peçonhento sabe que a satisfação que o pão oferece ao esfomeado de comida nada é comparada com o sentimento de satisfação que a peçonha presenteia ao esfaimado de sonhos! Então qual é a simbologia que esconde a flor branca e a peçonha magnífica que é seu sucedâneo? Que grande milagre é (ou era…) realizado pelos milhares de pezinhos das Centopeias Gigantes do Ganges? O que é que elas faziam? Pisavam as pétalas, somente? Ou possuíam um segredo mais elevado como o das abelhas laboriosas? Por que motivo desapareceram? Saberiam demais? Qual o segredo máximo da peçonha branca? É essa resposta que o peçonhento almeja conhecer quando se intoxica: a fé que a generosidade imensa da Natureza, expressa sempre nos feitios mais subtis, lhe mostre o real sentido do acto ao qual é – porque não dizê-lo? – misticamente orientado. Não se trata de preencher o tédio desta vida cada vez mais arreigada do pensamento com novas formas de arrumar as ideias: é buscar na comunhão com a substância secreta a raiz de uma essência! Não anda Sua Majestade em busca do Reino do Preste João? Se tomasse peçonha branca iria encontrá-lo mais depressa, de certeza. Ontem dei peçonha branca ao meu gato. Acho que ele gostou, mas terá compreendido a essência? E se ao tomarmos peçonha branca perdemos aquilo que faz de nós homens e começamos a ser mais como as centopeias que devem, sem dúvida, ter deixado algo de seu na mistela? (Pensem que uma delas escorregava e caía. Acham que a produção parava para que a ajudassem a levantar? Claro que não! Seria, isso sim, impiedosamente espezinhada.) Ou a ser mais como a própria flor que constitui o produto? Então que dizer sobre a terra e a água que nutriram a planta? Onde é que paramos? Em DEUS!... Deus é uma centopeia. Ou uma flor. Não há meio-termo. E tomar peçonha branca é uma experiência de comunhão com Ele.»

quarta-feira, 25 de junho de 2014

«Apocalipse em Azul»


Uma pequena banda desenhada escrita por mim e desenhada por André Coelho foi compilada recentemente no segundo volume da antologia Heróis de BD no Século XXI, publicação organizada e editada por Geraldes Lino (figura incontornável do universo da banda desenhada portuguesa), que irá estender-se por seis volumes. Esta antologia reúne diversos autores que contribuem com histórias de uma única prancha sobre as suas personagens preferidas, inseridas num contexto contemporâneo ou futurista que, em muitos casos, é inédito ou estranho aos seus universos originais, provocando, quase sempre, um efeito irónico ou satírico, mas sempre em tom de homenagem. Orientada por esse espírito, a minha homenagem é feita aos Estrumpfes, de Peyo, e intitula-se Apocalipse em Azul. Desfrutem. (Informações sobre como adquirir este e os restantes volumes da antologia podem ser pedidas pelo endereço de email: geraldes.lino [at] gmail.com).


terça-feira, 24 de junho de 2014

Hoje, prosa e poesia no Bairro Alto



Hoje, às 21H30, haverá tertúlia e spoken word no espaço cultural Buédalouco Pharmácia de Cultura (Rua do Norte, 60), no Bairro Alto, em Lisboa, comigo e com Charles Sangnoir. O Bairro Alto será alvo de uma pós-cirurgia e revisitar-se-á um lado mais humano e menos conhecido de Fernando Pessoa, com a interpretação musicada de trechos escolhidos a dedo. Por conseguinte, divulguem e apareçam. Para evocar a aura do espectáculo de hoje, deixo um registo em vídeo de parte do espectáculo de apresentação do disco Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense (2012), escrito e interpretado por mim e musicado e produzido por Charles Sangnoir.


segunda-feira, 23 de junho de 2014

Franjas Sonoras do Século XX: uma formação


João Morales (Revista Os Meus Livros, Festival Literário Livros a Oeste) está a organizar uma formação histórica sobre algumas correntes musicais do século XX, chamada Franjas Sonoras do Século XX. O local onde decorrerá a formação será o Fórum Dança (Travessa do Calado, nº26B, em Lisboa) e o horário será das 10H30 às 12H30 e das 13H00 às 15H00, nos dias 5 e 6 de Julho. (Até dia 27 de Junho, o custo da inscrição será de 40 euros; depois dessa data será de 45 euros).

Será uma boa oportunidade para melómanos e amantes mais generalistas deste espectro musical enriquecerem os seus conhecimentos.

Agradeço a divulgação.



sábado, 21 de junho de 2014

Nazis e desinformação histórica


Mais desinformação, cortesia do Canal História, desta vez pugnando a velha ideia de que os nazis foram pagãos e obcecados com o oculto, noção totalmente errada, mas cuja integração ideológica no imaginário popular parece ter sido feita a ferro quente. Uma dilucidação exige-se: os nacionais-socialistas - que, para começar, nem sequer se chamavam, entre eles, de nazis, porque nazi era uma alcunha pejorativa, inventada pelas massas, cujo significado pode traduzir-se por campónio ou saloio e que eles, simplesmente, odiavam - nunca foram "pagãos" (designação que, acrescento, é totalmente desprovida de conteúdo e de sentido quando usada fora do restrito contexto dicotómico que existiu entre a religião romana imperial e a paleo-cristã no dealbar mais primitivo do cristianismo), mas cristãos.

Os nacionais-socialistas foram cristãos e, sobretudo, tiveram o objectivo de criar um cristianismo novo, de massas, e por eles "purgado" daquilo que entendiam ser influências judaicas, chamado Cristianismo Positivo. O próprio Hitler foi cristão e considerava que o culto odínico era um embaraço e uma perda de tempo. Apesar de cristão foi anticatólico; no mínimo, não considerava com bons olhos o catolicismo e a sua animosidade contra o catolicismo foi sismográfica consoante os anos. De onde provém, então, a tal ideia que os nacionais-socialistas foram "pagãos"? Provém, pela medida grande, pelas mãos dos plumitivos e poetastros neonazis de meados do século XX em diante - como Savitri Devi ou Miguel Serrano, entre outros - que, pelas mais variadas razões, inventaram histórias sensacionalistas e fantasiosas nas quais os nacionais-socialistas contactam e instrumentalizam, dos mais variados feitios, forças sobrenaturais ou energias de origem extraterrestre. Foi esse caldo cultural marginal e politicamente mefítico que chegou até às décadas mais recentes e influenciou produtos de entretenimento de grande mediatismo, como o primeiro e o terceiro filmes da tetralogia de Indiana Jones, por exemplo. Filmes e livros que apresentam conceitos dessa natureza, ou similar, não possuem nenhuma relação com a verdade histórica daquilo que foi o fenómeno nacional-socialista e, com efeito, reduzir esse fenómeno à caricatura anti-heroística é desvirtuar a memória e extirpar-lhe a componente criminosa - quando não se projectam, de todo, no mais despudorado revisionismo.

A verdade é que de todo o aparelho nacional-socialista só Himmler e Rosenberg, provavelmente, namoraram, à sua maneira, com o oculto, mas, ainda assim, de um modo muito diferente daquele que é apresentado em produtos como o documentário The Nazi Gospels produzido pelo Canal História e por ele transmitido. Himmler não foi "pagão" e não quis criar nenhum culto "pagão" em volta da SS (informo que se diz "a SS" e não "as SS"): o seu flirt ocultista foi, sem dúvida, motivado pelo fascínio pelo bizarro e pelo sensacionalista, sem qualquer programa definido que o suportasse. O seu mentor, Willigut, também chamado de "o Rasputine de Himmler" não teve, ao fim e ao cabo, tanta influência como aquela que lhe imputam e, de qualquer das formas, essa influência operou por via do velho ariosofismo cunhado por Guido von List e por Lanz von Liebenfels: os avôs do chamado "ocultismo nacional-socialista", que acreditavam que Cristo fora ariano e que a Bíblia tinha sido escrita na Alemanha, antes de ser corrompida pelas influências dos antepassados dos judeus modernos.
Aliás, Liebenfels na revista Ostara escreveu várias vezes que era preciso exterminar todos os judeus, porque eles obstaculizavam o verdadeiro Cristianismo Ariano - Liebenfels que, ainda por cima, fingia ter sangue-azul e fingia ser um herdeiro da autêntica tradição templária. Isto porque ele foi monge cisterciense e após ser expulso dessa ordem criou a espúria Ordi Novi Templi, a primeira organização de língua alemã a ter uma bandeira com uma suástica (tinha um fundo amarelo com uma suástica vermelha). Foi, por conseguinte, no espírito da admirada Ordi Novi Templi que Himmler pensou em ritualizar alguns aspectos da SS: dar-lhe um certo ar de ordem cavaleiresca, aristocrática, mas sem a tal tónica "pagã" ou heliólatra que alguns nela querem ver.

Outro mito: a infame Sociedade de Thule, por exemplo, na qual estariam embebidas em ocultismo todas as cabeças do partido nacional-socialista, nunca existiu. Pelo menos nos moldes que é representada, geralmente. Em síntese, a verdade é que nunca passou de um ramo semi-obscuro, em Munique, da, mais conhecida - e, já nessa altura, bafienta - Germanenorden, mas baptizada com um nome individual por Rudolf von Sebottendorff para parecer mais moderna e apelativa a novos membros. Aparentemente, pouca influência - ou nenhuma - teve sobre o partido nacional-socialista, apenas contando com Rudolf Hess e, provavelmente, Hans Frank, como membros. Sebottendorff nunca se filiou no partido nacional-socialista, sequer. A chamada Sociedade Vril, que os fãs do "nazismo oculto" tanto gostam nunca existiu: é uma completa ficção.

Compreender o nacional-socialismo requer muitas e intensas leituras de materiais exigentes e o público comum não está disposto a realizar esse esforço, nem sequer terá, bem vistas as coisas, um conhecimento histórico basilar suficiente para isso, a verdade tem de ser dita. Será, no fundo, mais simples dizer-se que os nacionais-socialistas praticavam ritos de magia negra e que usavam tecnologia extraterrestre e que o genocídio dos judeus foi uma espécie de sacrifício de sangue aos deuses "pagãos" que idolatravam. Essa é a linguagem do comércio sensacionalista e do revisionismo. Não é a linguagem do rigor. É preciso lembrar que num dos infames discursos de Posen, Himmler pediu a Deus - ao deus cristão, não foi a Odin - que desse forças aos nacionais-socialistas para que eles conseguissem terminar o Holocausto («que Deus nos ajude»). O Holocausto foi o culminar tenebroso da velha escalada de violência anti-semita que o cristianismo/catolicismo europeu usou contra os judeus. Como disse o historiador Raul Hilberg, os nacionais-socialistas não inventaram nada: apenas decidiram que não bastava os judeus estarem proibidos de circular entre os cristãos ou confinados a guetos murados em bairros das cidades, como decretou Roma tantas vezes - mais do que apartá-los a todos, era preciso exterminá-los a todos, ponto. O discurso, como escrevi anteriormente, quando falei em Liebenfels, já estava feito: faltava quem tratasse da prática. Foi o que aconteceu, embora no início dos anos cinquenta do século XX começasse logo a aparecer quem dissesse que era tudo mentira, como, entre outros, Paul Rassinier, que escreveu o vergonhoso A Mentira de Ulisses, livro que se tornou muito popular rapidamente nos Estados Unidos e consiste no gérmen dos movimentos que negam a existência do Holocausto.


segunda-feira, 16 de junho de 2014

Tertúlia literária de amanhã adiada

Caros, a tertúlia literária Poesia e Arte agendada para amanhã, às 21H30, comigo e com Charles Sangnoir, no espaço cultural e de convívio Buédalouco Pharmácia da Cultura (Rua do Norte, 60), foi adiada para dia 24 de Junho, à mesma hora, por motivo de última hora. Reagendem e divulguem, por favor. Obrigado.


Bairro Alto: Uma Pós-Cirurgia - amanhã às 21H30

 
 
Lembro que amanhã, às 21H30, eu e Charles Sangnoir seremos os convidados especiais da tertúlia literária Poesia e Arte, que se reúne todas as terças-feiras no espaço cultural e de convívio Buédalouco Pharmácia da Cultura (Rua do Norte, 60), no Bairro Alto, em Lisboa. Iremos reinterpretar a peça Bairro Alto: Uma Cirurgia (escrita e declamada por mim e musicada por Sangnoir), composta originalmente para as comemorações do quinto centenário do Bairro Alto e apresentada ao público no Palácio Quintela, em Dezembro de 2013. Também se irá ler poesia e prosa de Fernando Pessoa (figura sobre a qual já escrevi no meu romance A Conspiração dos Antepassados). Apareçam.

Deixo-vos com um excerto de Bairro Alto: Uma Cirurgia:

«O Bairro Alto podia muito bem ter definhado ao grito primevo de partida e não passar de uma espécie de zingamocho na corola lisboeta – uncial e rebocado como um quadro falsificado. Quantos bairros e freguesias não se extinguem, em tétrica tanatocenose, no côncavo leito da história? Toda a matéria possui uma peculiar pecabilidade que empolga o estrago e nem a xilolatria, nem a litolatria podem remir da ruína esses restos. Os bairros desaparecem, como se coordenadas geográficas e temporais estiolassem ao Sol que nem fotos expostas numa vitrina. As linhas do território afunilam, absorvem-se até ao ponto e, finalmente, atravessada a fronteira da unidimensionalidade, remetem ao vácuo para nunca mais serem vistas. Existem lugares assim, à nossa volta: não-lugares, carregados de nada – ao passarmos por eles, sentimo-nos pesados no corpo e na alma, porque levamos um pouco de morte connosco. Envenenamo-nos. O Bairro Alto, contudo, persiste – com notável imutabilidade; tão macróbio quanto a concha de uma amêijoa hipermaturescente.
      
Escalavraduras estendendo-se pelo estreito eixo que já escorou a muralha fernandina: ferro compunge tijolo, próteses de edifícios que amparam assombrações de um tempo igualmente fatal, mas autêntico. Sobre ele, veículos escorregam como fatídicas faluas e repercutem nos carris defuntos como em cordas de piano – o ruído é estridente, que nem gritos de guebros carregados com guelritas. Perpendicularmente aos turistas apressados, cujas vozes cambalhotam no vento como acrobatas de cartão, espalham-se graffiti nas paredes: equimoses hipertricósicas, de cores tão lientéricas quanto o lixo e os mortos que medram fora da vista, mas que se mantêm – como jóias negras – nos nossos peitos. Há uma energia bizarra, aqui, neste altiplano que se contorce para o Tejo à guisa de predador infantil que gazofilou uma presa demasiado grande para a boca. Se as suas noites fossem silenciosas ouvir-se-iam os murmúrios dos três fios de água que, sob a Rua do Alecrim, a Rua da Bica de Duarte Belo e a Rua do Poço dos Negros, se entornam eternamente no Tejo, emitindo um pulsar plutónico que comunica connosco em código.

O Bairro Alto é uma cirurgia.

Mas que cirurgia é esta?

Por que é que somos, irresistivelmente, atraídos por ela?

Estas ruas centenárias, que resistiram incólumes a vários terramotos, moradas mórbidas de desesperos e desejos, são os liçaróis e os liços da urdidura central olisiponense: sem o Bairro Alto como tear, a manta de retalhos que é a Lisboa contemporânea nunca teria sido meselada; nunca teria perseguido, sôfrega, o Sol na sua libitina trajectória ocidental. Sem esse primitivo modelo, o levantamento da Lisboa Pombalina não teria acontecido: toda a Lisboa imitou o Bairro Alto, olhou para ele e ficou estupefacta com o futuro que ela própria já encerrava – ficou de queixo caído à margem do Tejo e nem Cristino da Silva nem França Borges foram fortes o suficiente para o lacerar. Persistindo incólume às calamidades provocadas por deuses e homens, ele é o único grande fóssil vivo de Lisboa – tão assombroso e anacrónico quanto um variegado celacanto. Mas não se pode compreender essa cirurgia sem uma iniciática diérese territorial.»


sexta-feira, 13 de junho de 2014

Autógrafos na Feira do Livro de Lisboa no próximo Domingo


Os vencedores do desafio relacionado com o meu romance Lisboa Triunfante já foram anunciados. Entretanto, aqui fica, também, uma foto minha, tirada enquanto escrevia esse romance, algures no primeiro semestre de 2008.
É uma boa imagem para lembrar que no próximo Domingo, dia 15, estarei na Feira do Livro de Lisboa, junto ao pavilhão da distribuidora Europress, adjacente à Praça Amarela, entre as 17H30 e as 19H00, para assinar os meus livros, os de prosa e os de BD. Apareçam.