quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

História ou estória?


Uns amigos pediram-me que os esclarecesse sobre a palavra estória: seria correcta, seria incorrecta?... Depois de responder-lhes, achei que o esclarecimento poderia interessar a mais leitores e, por conseguinte, transcrevo-o para este post:

«A palavra estória (que eu detesto - tenho palavras que gosto e outras que não gosto) já aparece mencionada em escritos portugueses do século XIII, mas a sua origem permanece ambígua.
A hipótese que se afigura como sendo a mais verosímil é que consiste num galicismo derivado da palavra estorie que, por sua vez, terá origem no baixo-latim popular storia que era a forma como os populares pronunciavam e escreviam a palavra erudita historia - da qual deriva a nossa homófona palavra história. A palavra inglesa story tem a mesma origem e aparece documentada em escritos do final do século XII - mas, lá está, tanto num caso como no outro, estamos diante de palavras que, provavelmente, já circulariam oralmente há mais tempo. Resumindo: não é uma palavra incorrecta, mas é grosseira. A forma adequada é, claro, história.

Contudo, neste tempo relativista em que vivemos, no qual quase toda a gente já esqueceu como se fala e como se escreve, é chique escrever estória, principalmente na nossa famélica comunicação social. Enfim, é mais um desvio, daqueles que entram no nosso léxico; às vezes pela mão de quem tinha obrigação de saber o significado e a origem das palavras. Querem escrever estória? Escrevam. Mas é "à labrego", como se costuma dizer.»

(Uma adenda: acrescento que nenhum dicionário que tenho em casa [e tenho muitos - como, por exemplo, o de Almeida Costa e Sampaio e Melo, o de Eduardo Pinheiro, o de Cândido de Figueiredo, todos os de José Pedro Machado] lista a palavra estória. Acrescento ainda que a criação literária deve ser livre, como é evidente: mal estaríamos se não nos fosse permitido usar uma palavra só porque ela não consta em nenhum dicionário ou até que não nos fosse permitido inventar neologismos. A minha resposta consiste somente num esclarecimento filológico e etimológico.)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Sessão de autógrafos + Algumas novidades

«Será que a sabedoria aparece sobre a Terra,
que nem um corvo inspirado pelo cheiro de carniça?»

O fim do ano aproxima-se e a conclusão do meu novo livro também: vou iniciar a escrita do último capítulo. Mais à frente, revelarei pormenores -- para já, apenas asseguro que consistirá numa viagem ao lado negro, mas em registo de não-ficção. Dou-vos uma pista: a citação de Nietzsche que acompanha o retrato de São Onofre reproduzido acima é uma das suas epígrafes de abertura. Será publicado durante o primeiro semestre de 2012 pelas edições Saída de Emergência.

Por outro lado, também tenho em mãos a tradução de um clássico da literatura fantástica: Something Wicked This Way Comes, de Ray Bradbury, que também será publicado em 2012 pelas edições Saída de Emergência.

O meu primeiro livro infantil, O Homem Corvo, ilustrado por Ana Bossa e Nuno Bouça, também irá ser publicado em 2012 pelas edições Saída de Emergência.

Entretanto, na próxima quinta-feira, dia 22, irei estar na loja FNAC do Chiado para uma sessão de autógrafos, entre as 18H30 e as 19H30, e trocar umas palavras com os leitores. Marquem nas vossas agendas.

(Imagem: Santo Onofre, Francisco Collantes. Séc. XVII.)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

"Five Variants of Dives and Lazarus"

Gosto muito das composições de Ralph Vaughan Williams (1872-1958) - e esta epopeia Five Variants of Dives and Lazarus (1939) é extraordinariamente épica. Talvez um pouco anacrónica nestes tempos "pequenos" em que vivemos: pois se no "grande" cabe o "pequeno", o contrário já não se verifica, infelizmente. De qualquer das formas, são dez minutos soberbos: pura Arte.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Votos para 2012


O ano de 2011 já se roja até à região antárctica do calendário para morrer, qual floco de cotão empurrado por baixo da porta, mas será 2012 o annus horribilis profetizado tanto pelos extintos Maias como pelas Sibilas contemporâneas do comentário público?

A verdade assustadora não é a de que vem aí o Apocalipse, nem a de que ele já chegou sem darmos por isso: é a de que nunca existiu outra coisa -- vivemos no eschaton todos os minutos de todos os dias. É por isso que não compreendo o pessimismo. Na verdade, também não compreendo o optimismo, porque ambos se apoiam na esperança: um na esperança de que será tudo mau e o outro na esperança de que será tudo bom. Sou ateu: não me norteio por virtudes teológicas. Oriento-me pela realidade e ela demonstra que o mundo só adquire significado se nós lho imprimirmos. Gravidade, electromagnetismo, força fraca e força forte: estes são os pilares do universo -- quatro, claro. Frias forças físicas. Mas existe uma quintessência radiante, muito mais transcendente: a nossa imaginação.

Todos os dias nos dizem que não podemos imaginar.
Que não podemos sonhar.
Dizem-nos tantas vezes que, às tantas, alguns indivíduos dão por si a acreditar nisso. É uma tragédia.

Na peça Cymbeline (1611) de William Shakespeare, a deleitosa Imogen é o epítome da beleza e da generosidade -- ela é tão celeste que é quase exosférica. Mesmo assim, o marido, Posthumus, não parece satisfeito e aceita a aposta que Iachimo propõe, de que é capaz de seduzir-lhe a mulher. É claro que Imogen, puríssima, é imune a essas manivérsias, mas Iachimo é engenhoso o suficiente para lhe entrar no quarto enquanto ela dorme, semi-nua, e descobrir o sinal que têm num seio. Quando descreve o sinal a Posthumus, este acredita que a mulher deixou-se corromper por Iachimo e ordena a um criado que a mate.

Nós não podemos ser os Posthumus das nossas Imogens. Das nossas imaginações.

É natural que, às vezes, nos sintamos inseguros, como Posthumus, diante da imensa grandeza, da imensurável nobreza da imaginação, e achemos que não merecemos tão refinado ouro. Nos nossos momentos mais negros até sentimos vergonha daquilo que temos de melhor -- e deixamos que os Iachimos da vida, os humanóides que lucram com a miséria e com o desespero, nos enxovalhem as mentes. Nesses casos, os cornos nas nossas testas não são os do adultério, que, como se viu, nunca aconteceu: são os das bestas muares; daquelas que se deixam encaminhar pelos demagogos, venham eles de onde vierem.
São sempre homens inferiores.
A razão pela qual se dedicam a apagar as chamas da imaginação é porque sabem que só elas podem mudar o mundo. A austeridade não mudará o mundo. Comprar produtos por um euro para vendê-los por dois não mudará o mundo. Só a Arte pode mudar o mundo, porque só ela nos mostra que é possível. E é possível: todos os mais progressivos e luminosos períodos da história foram tempos de profundas mudanças culturais, científicas e artísticas. Só a cultura pode mudar o mundo.

Por conseguinte, os meus votos para 2012 são os seguintes: sejam imaginativos, sejam criativos, sejam mais inteligentes, nobres e generosos do que foram este ano. Leiam mais livros, visitem mais museus, ouçam mais música, vejam mais beleza. Não acreditem quando vos disserem que imaginar não é possível, porque não é verdade.
É uma mentira descarada: na peça, ninguém foi capaz de matar Imogen. Ela sobreviveu.

Ela vive. Ela vive.

(Imagem: Imogen, Wilhelm Ferdinand Souchon. 1872.)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Aforismo de tempo de crise


Aforismo de tempo de crise: um português desanimado olha cabisbaixo para os seus pés; um português confiante olha cabisbaixo para os pés de outra pessoa.

(Imagem: Pés, Vincent Van Gogh. 1887.)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Exorcismo em Sintra

Estreia do novo vídeo de Ava Inferi, para a música "The Living End" do álbum Onyx (2011), realizado por Costin Chioreanu. Filmado em Sintra, no mítico Lawrence's Hotel, é uma visão atmosférica e fantasmagórica com um exorcismo espírita realizado no célebre quarto onde se hospedou no século XIX o escritor inglês George Gordon Byron.
Foi um prazer enorme participar nesta gravação, interpretando o exorcista que, nesse quarto, expurga os espíritos do hotel.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Sobre flexões nominais


O escritor norte-americano David Foster Wallace escreveu o seguinte no ensaio "E Unibus Pluram", contido no livro A Supposedly Fun Thing I’ll Never Do Again (1997):

«I'm not saying that television is vulgar and dumb because the people who compose the Audience are vulgar and dumb. Television is the way it is simply because people tend to be extremely similar in their vulgar and prurient and dumb interests and wildly different in their refined and aesthetic and noble interests.»

Na maioria das vezes, os programas televisivos difundem uma versão desidiosa da língua; como flocos liofilizados, ela é servida em porções desenergizadas às quais a falta de tempo e a falta de informação impede que se junte água - uma infra-linguagem indicada para empregar nos rodapés rolantes dos noticiários ou nos palimpsestos contemporâneos da internet, mas demasiado inexacta e inculta para veicular conhecimentos. O lugar-comum da televisão como ama-seca dos espectadores volta a soar acertado quando se pensa sobre a linguagem televisiva como sendo análoga aos arrulhos usados para acalmar crianças - e talvez mais do que em qualquer outra altura, ela arrulhe mais alto no período natalício.

Alguns dos erros mais frequentes que se ouvem na televisão são erros no uso das regras de flexão, que se divide em nominal e verbal. À primeira cabe, entre outras coisas, o tratamento do género e do número dos nomes e dos adjectivos. O género pode ser masculino ou feminino e o número pode ser singular ou plural. Existem línguas, como as da família ugro-finlandesa (finlandês, estónio, húngaro) que se caracterizam pela ausência de género, ou seja o mesmo pronome é usado para designar tanto o género masculino como o feminino (politicamente correcto, não?), mas no caso do português existem regras específicas para o uso do género e do número. No último caso, os erros mais vulgares ocorrem na escrita de palavras compostas ou compostos (nem sempre ligados por hífen).

Por exemplo, nesta altura do ano ouve-se dezenas de vezes "pais natal", mas o plural de Pai Natal é pais natais, porque é um composto formado por um nome e um adjectivo. O mesmo acontece com o plural bolos-reis do composto bolo-rei, formado por dois nomes. Quando o composto é formado por dois adjectivos, ambos se usam no plural.
Nos compostos formados por um verbo e um nome, só o nome muda para plural. Todavia, nos casos em que existe uma preposição entre dois ou mais elementos (são os chamados compostos preposicionais) só o primeiro adquire a forma de plural: é por isso que se diz pães-de-ló e não pão-de-lós ou pães-de-lós (muito menos "pãos-de-ló").

A dada altura, Foster Wallace também escreve:

«Television, from the surface on down, is about desire.
Fictionally speaking, desire is the sugar in human food.»

Qualquer biólogo sério vos poderá esclarecer que estamos programados para procurar alimentos açucarados e que é ingrato lutar contra essa tendência congénita. É por isso que o Natal é particularmente periculosu: por culpa dos tradicionais doces e pontapés no português.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Portas brancas


As Portas Brancas
(1905) do pintor dinamarquês Vilhelm Hammershoi (1864-1916), um dos meus artistas preferidos. Os quadros de Hammershoi são esmagadores. Neles, inversamente ao que possa parecer, não há lugar para a minimidade, nem para elipses: a solidão vocifera e predomina em tudo. Aqui, sim, mais do que em Munch, se grita de modo ensurdecedor.


Aceita-se o truísmo de que vivemos na era da imagem, mas, na verdade, como lhe damos pouca importância. Valorizamos as imagens em movimento de algum cinema e da televisão, mas o poder que operam sobre nós é somente um poder orgásmico, reduzido no tempo e na topografia. A apreensão epifânica de um verdadeiro significado (de natureza variável, conforme cada indivíduo) pertencerá, ainda, ao domínio da imagem parada, como a da pintura e da fotografia. Observar um quadro, como este de Hammershoi -- que é quase toreumatográfico --, é viajar para dentro dele, numa constelação fecundativa. Precisamos, talvez, nesta era das imagens, de redescobrir o valor delas.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Novos monstros


Hoje sabemos quais são as formas que os monstros afigurados pela Razão podem assumir, mas ainda não sabemos em que feitios se manifestarão os monstros concebidos pela Emoção.

(Quadro: As Quatro Divisões, Vilhelm Hammershoi. 1914.)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Novo vídeo de Ava Inferi estreia a 13 de Dezembro

O novo vídeo da banda portuguesa de gothic metal Ava Inferi, para a música "The Living End" (do álbum Onyx, de 2011) estreia mundialmente no próximo dia 13 de Dezembro. Realizado por Costin Chioreanu, consiste numa curta-metragem atmosférica e artística. Com espíritos inquietos e um exorcista interpretado por mim.

Anonymous

Começando com um prólogo teatral, passado nos nossos dias, com o actor inglês Derek Jacobi sozinho no palco, à guisa de Grilo Falante, enunciando ao público as razões pelas quais o dramaturgo inglês William Shakespeare não pôde ter sido o verdadeiro autor dos seus trabalhos, o filme Anonymous de Roland Emmerich é desonesto desde o início. Na verdade, o filme, com mais de duas horas de duração, mais parece um trailer a posteriori, apenas realizado para justificar a projecção do prólogo e do epílogo de Jacobi. De outra forma, qual é a justificação desses segmentos numa obra cinematográfica de ficção? A única justificação possível é a de que servem unicamente para provocar a opinião do público e granjear publicidade para o filme: adivinha-se que quanto mais polémico for o discurso, mais espectadores o filme terá e, nesse sentido de estratégia de mercearia de bairro, é um truque tão natural quanto outro qualquer. Porém, não deixa de ser desonesto em virtude disso: é uma estratégia que não deixa o filme respirar, nem oferece espaço ao espectador para retirar da história as suas próprias conclusões. Anonymous não é, pois, diferente de qualquer panfleto de propaganda eleitoral: o filme escolheu o seu candidato para autor das obras de Shakespeare, na figura de Edward de Vere, 17º conde de Oxford, e tudo faz para que os espectadores votem nele. Ora, eu não voto.

Enquanto filme, no mínimo enquanto espectáculo, Anonymous tem alguns méritos -- a cenografia, guarda-roupa e fotografia são de qualidade, assim como o trabalho superlativo da maioria dos actores (em principal Rhys Ifans como o mirífico Edward de Vere e Edward Hogg como o gebo Robert Cecil) --, mas não são suficientes para ofuscar a amargura de um argumento desastrado. O problema de Anonymous é que tem tudo para ser um filme interessante, mas recusa-se a ser um filme, de todo, apresentando-se como um panfleto de propaganda eleitoral, como já referi. No final do tempo de antena, depois de mostrada a arenga da praxe, pejada de intrigas palacianas, à la "Código da Vinci" quinhentista, e alguns complexos de Édipo, lá aparece Jacobi novamente, no seu melhor como porta-voz de campanha, a resumir com paternalismo as razões pelas quais se deve votar no candidato apresentado, não vá o espectador enganar-se e ir para casa sem a cartilha bem aprendida. Dá sempre jeito ter um senhor de cabelos brancos e com aspecto de cavalheiro respeitável para papaguear umas barbaridades, quando o objectivo é que elas pareçam credíveis.

Sobre o filme, pouco ou nada mais há que comentar, porque, com efeito, o filme verdadeiro, aquele que, de facto, o realizador está ansioso por nos mostrar, é composto pelo prólogo e pelo epílogo. E esse transmite algumas mensagens perigosas, mas que, enfim, devem estar sintonizadas com o tempo em que vivemos, no qual ter talento não interessa nada. A tónica colocada nas origens iletradas de Shakespeare, insistindo que ele não poderia ter escrito os seus trabalhos porque o pai não sabia ler, e porque as suas filhas também não, parece retirado a papel-químico dos discursos de Marcelo Caetano, delfim de António de Oliveira Salazar, que defendia a ideia de que a inteligência e o talento eram faculdades que apenas se refinavam «no seio de uma família» (à laia de lamarckismo revisto pelo Estado Novo). Ou seja: na visão de Emmerich, Shakespeare não tinha nada de ser escritor e deveria ter sido fabricante de luvas como o pai; tal como, na lógica de Caetano, ao filho de um sapateiro só era permitido ser sapateiro. Anonymous tem, como se vê, a finura do feitor de castas: a cada um, de acordo com o seu berço.
Mas há mais: numa observação totalmente contemporânea sobre a vida de indivíduos que já morreram há mais de três séculos, Jacobi ainda refere que Shakespeare não poderia ter escrito os seus trabalhos porque só tinha o ensino primário (no original, grammar school). É um argumento tão anacrónico que nem sequer merece uma refutação séria. Prefiro deixar o esclarecimento de que a maioria dos indivíduos da sociedade quinhentista isabelina não teriam muitos anos de estudo, nem sequer os nobres, dos quais se resgatou a personagem Edward de Vere: a função da nobreza não era saber ler nem escrever, mas saber guerrear. Para ler e filosofar havia o clero e para governar havia o rei (ou a rainha). Como é que, por um lado, Anonymous faz questão de ostentar o desprezo cabal dos nobres pela literatura (não esquecer que é esse desprezo que está na base da teoria da conspiração que serve de esqueleto ao filme) e, por outro, defender que um campónio, que tinha um pai analfabeto, ainda por cima, também seria incapaz de escrever? Então, quem é que escrevia naquele país? É verdadeiramente espantoso como uma sociedade tão tacanha como a retratada no filme foi capaz de servir de parteira a um dramaturgo tão genial, viesse ele de que classe social viesse. É um mundo muito feio, o de Emmerich e John Orloff (argumentista).

Anacrónico, preconceituoso e panfletário podiam ser boas designações para Anonymous, mas não são. Não são, porque Anonymous não existe enquanto filme: só existe enquanto tempo de antena de campanha eleitoral, na projecção do prólogo e do epílogo. As duas horas e dez minutos que estão no meio são apenas a música de baile que os mestres-de-picadeiro escolheram para dourar a pílula.
Vale a pena ver este teaser em que Emmerich expõe as suas dez razões para que Shakespeare não possa ter escrito os seus trabalhos -- em síntese, é o discurso de Jacobi em Anonymous, mas com a desvantagem de ser Emmerich a soliloquar, em vez de ser um actor profissional: http://www.imdb.com/video/imdb/vi1157013017

Mesmo assim, no que diz respeito a candidatos alternativos para a autoria das obras de Shakespeare, Edward de Vere, deixa um pouco a desejar, como se pode ler em Brief Lives, do cronista seiscentista John Aubrey. De Vere cometeu uma falha imperdoável junto da rainha Elizabeth I, quando a ela foi apresentado: o conde estava tão nervoso por conhecê-la que, ao realizar os salamaleques da praxe, descuidou-se em alto e bom som. O episódio foi um escândalo e Edward de Vere andou exilado cerca de sete anos, sem sequer olhar na direcção de Inglaterra. Ao retornar, foi ter com Elizabeth I, como era mandatório, e ela disse-lhe: «Caro Senhor, já me esqueci do seu peido [sic]». A ser verídica a tese oxfordiana, quem sabe se sem esse tirocínio forçado pela Europa, De Vere não teria sido capaz de inspirar-se na alta cultura florentina para escrever. Nesse caso, devemos agradecer não à providência, mas à flatulência, uma das maiores obras literárias mundiais.

No fim do epílogo de Anonymous, depois de Jacobi ter cumprido o papel de advogado do Diabo e desaparecer atrás da cortina, vemos os espectadores esclarecidos a levantarem-se dos seus lugares. A caminho das urnas, portanto, prontos a assinarem de cruz como o pai de Shakespeare.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Crítica na revista Os Meus Livros a "O Pequeno Deus Cego"

O novo trabalho escrito por David Soares, com desenhos de Pedro Serpa, O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books), assenta numa metafórica e fliosófica abordagem, para criar uma história de crime e castigo.
Aquela a quem chamam Papa-Moscas, uma menina sem olhos que afinal não nasceu menina («a culpa é de Wang, o castrador», anuncia-lhe o Velho, quando com ela se cruza pela primeira vez), serve de sacrifício às intenções da mãe. Estamos numa China muito antiga...
Até que acaba por conhecer Wang, monstro alocado numa caverna. Não o teme porque não vê. Não o respeita porque não o teme. Acaba por ser incómodo para tão terrível criatura, pouco habituada a ser menosprezada: «conhecer-te foi confuso e assustador e eu não gosto do modo como me estou a sentir».
A ira de um monstro encurralado nas suas próprias dúvidas («E se tu fores Deus, caganita? Um deus cego que criou o universo e encolheu os ombros? Isso não faz de ti o maior dos irresponsáveis? O maior dos criminosos?») é tão terrível como a de um que sabe porque é mau. Ou mais ainda.
O retorno a quem semeou maldade acaba por selar esta história (com habituais componentes de David Soares, incluíndo a presença do sexo), traçada de forma clara, onde a violência (nas imagens com a Mãe) e o simbolismo (nos diálogos com o Velho, ou mesmo com o monstro) se conjugam de forma eficaz.
(João Morales, Os Meus Livros. Dezembro, 2011)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Entrevista sobre o 'weblog' Mort Safe


Entrevista no site Ave Rara com Gisela Monteiro sobre o seu weblog Mort Safe e sobre tafofilia.

Visitem o Mort Safe (taphophilia.blogspot.com): um weblog rigoroso e pertinente, cheio de riquíssimas informações históricas e culturais sobre o universo cemiterial, assim como ilustrado por belas fotografias.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Morte de Fernando Pessoa


Recordando Fernando Pessoa, no dia da sua morte, com um excerto do meu romance A Conspiração dos Antepassados (Saída de Emergência, 2007). Neste trecho, Pessoa morre.
Às vezes, é a única forma de continuar a Viver.

«1935

Tudo o que é humano é divino, pensou Pessoa, sentindo a morte a entrar-lhe no quarto do Hospital de São Luís dos Franceses naquele final de tarde; fresca, salgada, de pele torrada pelo Sol como Talassa, a Mãe d’Água primordial, ela olhou-o com ternura e deixou-se ficar serena – sereia – aos pés da cama: ainda não era a Hora. A morte, reflectiu, só mete medo se a olharmos com olhos de medo. Estou calmo e ela é linda. Era a primeira visita do dia, desde a do cunhado na manhã anterior; a irmã, também acamada, com uma perna fracturada, não tinha podido vir.
Porque motivo se sentia tão sossegado na presença da morte? Ia morrer sem ter publicado o grande livro que intentara dar à estampa, até ao final do Verão: faleceria órfão de letras, avarento com uma arca cheia de manuscritos erráticos, amontoados como roupas usadas; alguns dentro de envelopes, amarrados às dezenas com cordéis. Tossiu e escarrou, para dentro da boca, uma bola de expectoração que lhe soube a bílis; engoliu-a.
Guardava na alma a imagem ideal dessa Grande Obra que nunca publicara e achava-se como um desses mal-casados que andam infelizes pelo mundo; que guardam as imagens subtis das mulheres e homens desejados – imagens sublimes que não se realizaram. Até era um pouco maçadora aquela tragédia toda de ir morrer.
Calculou que seria indicado lembrar pessoas e coisas que conhecera, para cunhar a morte com um carácter mais ortodoxo. Havia a mãezinha e o pai, este já demasiado vago para ter rosto. Os irmãos, o tio Roza que também havia sido poeta, a Teca, o Chico e os meninos. A avó Dionísia, mais louca que o Ângelo de Lima… Coitado do Lima!... Que grupo de bons malandros tinha sido aquele do Orpheu: como estava tão diferente do Pessoa desses anos. Agora sabia como era fácil um Messias roubar a liberdade do seu povo: ia fazer no dia seguinte um mês desde que decidira não publicar mais nada em Portugal como protesto pela censura coagida pelo Estado Novo – todas as obras censuradas são ridículas!
Certamente que o Ferro o tinha ajudado a ganhar o prémio da Segunda Categoria daquele maldito concurso literário com a Mensagem, porque depois da carta que publicara no jornal a favor da Maçonaria tornara público o rompimento com o salazarismo. Sim, agora pensava de um modo muito diferente do Pessoa que escrevera o Interregno…
A Mensagem!...
O conjunto de poemas que baptizara de Portugal: mudara de título por causa dele!
Ele! O mago diabólico.
Ainda era vivo, mas os jornais já não falavam nele.
Pessoa costumava ir ao Café da Arcada para se encontrar com Ferreira Gomes e beber aguardente; às vezes, puxava esse assunto apenas para ver o rosto ingénuo do amigo derreter numa careta desconsolada. O Cirilof, a quem finalmente prefaciara a tão adiada edição de Alma Errante com um pequeno ensaio sobre a ordem rosicrúcia, cortara o cabelo e a barba: quando Pessoa o viu assim pela primeira vez pensou que se tinha enganado na porta. O livreiro passava os dias a falar de política e continuava a achar que o António Ribeiro iria transformá-lo numa estrela de cinema. A relação já não era a mesma e Pessoa, voltando sozinho para Campo de Ourique, com as mãos nos bolsos onde trazia – sempre – o anel de prata deformado, só queria chegar depressa a casa para se sentar a escrever.
Os novos escritores e artistas que ia conhecendo nos cafés e no Abel olhavam-no como um antepassado de estimação: o velhinho que se ria alto, cuja mão tremia ao agarrar a caneta e o copo; uma vez, enquanto conversava com o Almada, até se escondera debaixo da mesa durante uma trovoada. Não era culpa deles se não o levavam a sério, mas que podia fazer? Não gostava daquele mundo, daquela cidade, daquela gente de sorriso pateta que via nas ruas: se achassem que era um Puro Tolo, tanto melhor. O que é que lhes preenchia as cabeças? Mais ninguém se interessava por magia. Ninguém parecia ter imaginação naqueles dias em que nada podia estar acima da Nação. Nem sequer o Homem.
Era por essa razão que a simples menção de Crowley numa conversa murchava as atenções dos ouvintes. Ninguém queria falar de Crowley, ninguém queria falar sobre a Besta: ninguém queria falar sobre aquele que não substituíra os sonhos por comodidades e subira mais alto que todos; daquele que metera medo a toda a gente com o riso satânico – o riso que, bem vistas as coisas, só metia medo àqueles que tinham pavor de viver. Sim, ninguém queria falar sobre ele, porque, ao fazê-lo, reconheciam que não tinham sido bons o suficiente, corajosos o suficiente, loucos o suficiente. Mas Pessoa lembrava-se! E não o esquecera.

Considerei, realmente, a chegada da sua poesia como uma verdadeira MENSAGEM, que gostaria de explicar pessoalmente.

Uma verdadeira Mensagem!
Crowley mostrara-lhe, sem dar conta, como ele gostaria que a sua poesia fosse lembrada no futuro. Lembrou-se do mago, lembrou-se do amigo.

Senhor Pessoa. Que raio de ideia foi a sua
de me mandar o nevoeiro lá para cima?

Sorriu, e a morte sorriu também. Compreendeu porque é que ia morrer sossegado: tinha vivido uma vida mágica e quem vive uma vida mágica sabe que não há morte, apenas um alçapão por onde o corpo desaparece para ir para outro lugar; como no palco de um ilusionista.
Sentiu curiosidade em saber como a sua obra literária seria lida após a morte; se, com efeito, conseguiria deixar um legado nas letras, na cultura do Portugal que tanto amava. Olhou para a mesa-de-cabeceira e viu o bloco de apontamentos ao lado de uma das velas de Abramelin que Crowley lhe oferecera antes de ir para a Alemanha: uma das velas usadas no ritual realizado na Boca do Inferno.
Agarrou o bloco e sentou-se na cama, encostado à almofada. Sentiu-se maldisposto e com vontade de vomitar; os braços tremiam-lhe e apenas com muito esforço conseguiu manter-se equilibrado a olhar para o papel. Aproximou o bico do lápis da folha e pensou na frase que iria escrever para a transformar em sigilo como Crowley lhe havia ensinado. A cama rangeu, ameaçando partir-se; um pássaro que chilreou no pátio demonstrou-lhe que o mundo continuava a girar sem lhe dar importância.
Que frase iria escrever?
Lembrou-se de perguntar: O que é que o Amanhã me irá trazer? Encostou o lápis à folha e, agarrando-o com força, preparou-se para redigir a frase. A mão tremeu-lhe; a visão desfocou-se. Não tinha força e interrompeu a acção, fitando os pés da cama e convergindo o olhar em algo invisível. Compreendeu que, no fundo, ele recusava-se a querer saber o futuro.
E se viesse a saber que a sua obra cairia no esquecimento, que tudo aquilo que escrevera fora em vão? Seria demasiado cruel descobrir que todos os sacrifícios que fizera para se dedicar à escrita haviam sido nulos e que nada perduraria. Não precisava de saber nem o bom nem o mau: ia morrer, era uma parvoíce; um último resquício de presunção, de egomania artística. A obra teria de vencer sozinha.
Sacudiu os ombros e gemeu: era uma pergunta pateta, de qualquer das formas. Limitou-se a escrever, em inglês:

Eu não sei o que é que o Amanhã me irá trazer.

Pousou o bloco na mesa-de-cabeceira e voltou a deitar-se. A morte, entretanto, saíra do quarto. Ouviu um eléctrico passar ao longe, talvez no topo da Rua D. Pedro V; já haviam poucos, substituídos por autocarros. O seu mundo morreria com ele. Fechou os olhos, ensonado, mas não adormeceu; não valia a pena porque a enfermeira não tardaria a dar-lhe o jantar.
No dia seguinte, mais ou menos à mesma hora, a morte regressou. Pessoa sentiu-a como um véu a cair-lhe sobre os olhos e, para ter a certeza que era a mesma dama do dia anterior, pediu à enfermeira:
‘Dá-me os óculos.’
Colocou-os e olhou para o lado. Lá estava ela, radiante. Abriu os lábios gretados e tentou sorrir; uma dormência repentina afectou-o. Virou-se para o outro lado e viu a enfermeira sair depressa do quarto. O véu que tinha sobre os olhos tornou-se opaco. Depois negro. Os sons afunilaram-se num zumbido.
Um táxi passou, barulhento, e o ruído do motor foi abafado pelo vidro da janela. Pessoa não o ouviu.
A cama chiou, baixinho, com o estertor que agitou o corpo do poeta.
Quando o médico Jaime Neves, seu primo, e o colega Alberto Carvalho, entraram no quarto encontraram Pessoa sem vida.
O corpo parecia artificial: mais pequeno.
Na mesa-de-cabeceira, o relógio de Pessoa continuava a trabalhar. Morreu tão cedo!..., disse Jaime Neves, mordendo o lábio.
Mas Pessoa não morrera – Não há Morte! –, participara num truque de Magia!
Passara por um alçapão.»

domingo, 27 de novembro de 2011

Adiamento da apresentação de "O Pequeno Deus Cego"


Caros leitores: a apresentação marcada para o próximo dia 30, no fórum da loja FNAC do Chiado, do álbum de banda desenhada O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books) encontra-se adiada, por motivo de saúde do desenhador Pedro Serpa. Quando ele recuperar, logo se marcará uma nova data, que será, nessa altura, comunicada.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Etimologias grevistas

Porque a palavra greve será, provavelmente, a mais ouvida neste dia, aqui fica um esclarecimento sobre a sua etimologia, recuperado de um verbete escrito a propósito do Dia do Trabalhador.

Consiste num contributo para a discussão sobre intervenção pública, neste dia de greve.
Somos animais de palavra: não no sentido moral, já anacrónico hoje em dia, infelizmente (esse sentido é só para quem ainda tem uma coisa chamada coluna vertebral), mas no modo instrumental da mesma, empregue em comunicação. Hoje, conhecer as palavras e o seu significado é, talvez mais do que em outras alturas, uma faculdade essencial para ser-se livre, inteligente e interventivo num mundo cada vez mais sintético, nanográfico e monossémico.

Costuma dizer-se que o étimo da palavra trabalho é o nome latino tripaliu: um popular instrumento de punição e tortura, que consistia num aparelho muito simples, formado pelo cruzamento de três estacas (duas montadas em feitio de cruz de Santo André e uma terceira atravessando na vertical a intersecção das outras). Os desgraçados amarrados ao tripaliu morriam incinerados. Por conseguinte, várias fontes são unânimes em explicar que o verbo trabalhar deriva de tripaliare, que significava pôr no tripaliu ou torturar no tripaliu. Eu tenho dúvidas que esta etimologia seja a correcta, mas talvez exista um modo de me reconciliar com ela: é que também se chamava tripaliu a um vulgaríssimo instrumento de trabalho rural, muito parecido com uma forquilha, que servia para atirar a colheita ao vento, de modo a separar as impurezas dos cereais. Ora, sendo que o trabalho rural é antiquíssimo e que o tripaliu do camponês foi um dos seus primeiros instrumentos, não me choca nada que ele tenha dado o nome a um posterior instrumento de tortura, também feito com três paus. Ou seja: talvez trabalho tenha mesmo origem no étimo tripaliu, mas por via do instrumento rural e não pela do de tortura.

À luz disto, é ainda curioso lembrar que as possíveis origens do Dia Internacional do Trabalhador talvez se encontrem no chamado Hayfair Massacre (Massacre do Mercado do Feno), ocorrido a 4 de Maio de 1886, em Chicago: uma greve acabou da pior forma possível, quando uma bomba lançada por um indivíduo anónimo teve como efeito um contra-ataque violento por parte da polícia.

Quanto à nossa palavra greve, ela tem origem na francesa grève, que significa areia ou gravilha. Até ao século XVIII, a famosa Place de l'Hôtel de Ville, à beira do Sena, em Paris, chamava-se Place de Grève. Era neste local que os trabalhadores à jorna se reuniam para serem contratados pelos mestres-de-obras que precisavam de braços. No entanto, quando os trabalhadores ficavam descontentes ou não gostavam do trabalho para o qual tinham sido contratados, retornavam à praça e aí ficavam até que os empreiteiros lhes oferecessem melhores condições ou que aparecessem outros biscates. Com o passar dos anos, o acto de "ficar em Grève" (ou seja, na Praça de Grève) transformou-se em "fazer greve" e "estar de greve".

domingo, 20 de novembro de 2011

Apresentação na FNAC Chiado de "O Pequeno Deus Cego"

«Há que confiar na Providência. Ela olhará por nós.»

Em O Pequeno Deus Cego, escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa. Uma edição da Kingpin Books: a apresentação no fórum da loja FNAC do Chiado é já no próximo dia 30, às 18H30. Apareçam.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Fórum Fantástico 2011


Começa hoje, na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Lisboa, o Fórum Fantástico 2011 (até domingo 20, inclusive). Com organização de Safaa Dib e Rogério Ribeiro, é a mais importante convenção portuguesa relacionada com a divulgação e promoção do Fantástico nas artes e a programação deste ano tem muitos motivos de interesse, como debates, apresentações e uma retrospectiva da obra do cineasta e escritor António de Macedo (que este ano editou o livro O Sangue e o Fogo pela editora Saída de Emergência). Curiosos, fãs e especialistas, o Fórum Fantástico faz-se com todos e aguarda por vós para mais uma edição de peso. O fabuloso cartaz é da autoria de Pedro Marques.

domingo, 13 de novembro de 2011

Apresentação na FNAC Chiado de "O Pequeno Deus Cego"

Um encontro imediato de 3º grau, no qual a carne desprende-se dos ossos.
Em O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books), escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa.
Apresentação do álbum no fórum da loja FNAC do Chiado (Lisboa), no próximo dia 30, às 18H30, com as presenças dos autores e do editor Mário Freitas.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Passatempo "O Pequeno Deus Cego"


Até ao próximo dia 20 de Novembro enviem para o email cadernosdedaath(at)gmail.com duas perguntas sobre o álbum de banda desenhada O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books), uma dirigida a mim e outra a Pedro Serpa. Iremos escolher as perguntas mais interessantes e imaginativas e publicaremos as respostas nos nossos respectivos weblogs no dia 1 de Dezembro.
Contudo, seleccionaremos as duas melhores questões para respondermos ao vivo na apresentação de O Pequeno Deus Cego que ocorrrerá no dia 30 de Novembro, às 18H30, no fórum da loja FNAC do Chiado, com as nossas presenças e a do editor Mário Freitas. Se os autores das perguntas respondidas ao vivo estiverem na assistência, levarão para casa um exemplar assinado de O Pequeno Deus Cego.
Sejam criativos.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Cabeça-de-abóbora

Uma abóbora que eu transformei numa lanterna linda para iluminar o meu Halloween...



Eh, eh, eh!...

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Vídeos do lançamento de "O Pequeno Deus Cego"

O registo vídeo do lançamento no Amadora BD do álbum de banda desenhada O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books), escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa, com o editor Mário Freitas (que também fez o design e a legendagem do álbum), o desenhador e eu.
(Vìdeos de
Raquel Garrido.)



domingo, 23 de outubro de 2011

Fotos da exposição e do lançamento do álbum de banda desenhada "O Pequeno Deus Cego"

No Amadora BD, na exposição alusiva ao álbum de banda desenhada O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books, 2011), escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa. À direita, está uma representação de Sem-Olhos, a personagem principal dessa história.


No Amadora BD, na exposição alusiva ao álbum de banda desenhada O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books, 2011), escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa. Atrás de mim, podem ver-se representações dos Três Rufiões, sanguissedentas criaturas, feitas de sémen e fogo, que pertencem a essa história.


No Amadora BD, no lançamento do álbum de banda desenhada O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books, 2011), escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa. Da esquerda para a direita: Mário Freitas, editor da Kingpin Books, que também fez a legendagem e o design do álbum; o desenhador Pedro Serpa; e eu.


Mário Freitas, Pedro Serpa e eu.


Pedro Serpa e eu.


No Amadora BD, na sessão de autógrafos.


No Amadora BD, na sessão de autógrafos.


No Amadora BD, na sessão de autógrafos.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Excelente crítica a "É de Noite Que Faço as Perguntas"...


Amanhã: lançamento de "O Pequeno Deus Cego"

É já amanhã, às 15H30 no festival internacional de banda desenhada Amadora BD (Fórum Luís de Camões - Brandoa), o lançamento de O Pequeno Deus Cego, escrito por mim, desenhado por Pedro Serpa e legendado por Mário Freitas (Kingpin Books). Com as presenças do editor e autores.
Informo que O Pequeno Deus Cego contém um prefácio exclusivo de Nelson Dona, director do festival Amadora BD.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

'Disclaimer' sobre as minhas sessões de autógrafos no Amadora BD 2011


Aviso: independentemente dos horários divulgados hoje na Internet, as minhas sessões de autógrafos no festival Amadora BD (Fórum Luís de Camões - Brandoa), serão, como anunciei há dias neste weblog e nas minhas redes sociais, somente nos Sábados 22, 29 e 5, sempre das 17H00 às 18H00.
Acrescento a minha presença no auditório do festival para os lançamentos dos álbuns de banda desenhada O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books) e É de Noite Que Faço as Perguntas (Saída de Emergência), nos Sábados 22 (15H30) e 5 (16H00), respectivamente.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Lançamento de "O Pequeno Deus Cego"


O lançamento do álbum de banda desenhada O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books), escrito por mim, desenhado por Pedro Serpa e legendado por Mário Freitas, será no Sábado 22, às 15H30, no auditório do festival internacional de banda desenhada Amadora BD. Com as presenças do editor Mário Freitas (Kingpin Books) e dos autores David Soares e Pedro Serpa.

«É a voz vermelha da morte que vai uivar esta noite.

A vida da pequena Sem-Olhos torna-se uma tragédia quando a mãe determina que ela seja iniciada num sangrento rito tradicional, mas ainda mais doloroso é o grande segredo da família, oculto no passado, que duas personagens misteriosas irão desmascarar. Poderá Sem-Olhos ser um pequeno deus sobre a terra? O Pequeno Deus Cego é uma história alegórica, de contornos herméticos, passada numa fabulada China ancestral. Filosófica e visceral, em simultâneo, é uma banda desenhada que irá resgatar o leitor das trevas para a luz.»


Autógrafos no Amadora BD 2011


Horários das minhas sessões de autógrafos no próximo festival Amadora BD: Sábados 22, 29 e 5, sempre das 17H00 às 18H00. Este ano tenho duas novidades em banda desenhada: É de Noite Que Faço as Perguntas (Saída de Emergência) e O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books).

Efeméride negra: Aleister Crowley e "A Conspiração dos Antepassados"


Ontem fez cento e trinta seis anos que nasceu o mago inglês Aleister Crowley; alcunhado pela imprensa britânica de «homem mais diabólico do mundo», embora andasse longe de sê-lo. Recordo hoje o seu nascimento com um excerto do meu romance hermético A Conspiração dos Antepassados (Saída de Emergência, 2007), no qual partilha planos com o poeta português Fernando Pessoa. Neste trecho, Crowley renasce na Terra, depois de passar um periodo na sefira Daath, em busca do mítico Filho da Lua - a vera mandragora.
Tal como em quase tudo, um excerto é nada para os tolos: para os sábios... é o suficiente.

«A saliva de Coronzon era um enzima que decompunha a matéria e o tempo; quando Crowley começou a ser mastigado, a carne foi remodelada em grânulos de energia negra: partículas virtuais com carga eléctrica negativa, engolidas como ondas pela garganta da criatura que se alimentou com o produto catalizado. Descodificado pelo enzima, Crowley ficou reduzido a uma série de haikus abióticos; poesia mendeleeviana, aspirada pela densidade que circuitava no cólon de Coronzon. O aparelho digestivo terminava num ânus que funcionava como um buraco branco: a energia negra entreteceu-se em volta desse anel revoltoso e a carga electromagnética foi virada do avesso. As chaves químicas encontraram as respectivas fechaduras e a energia negra, revertida para o código preambular, foi expelida numa cólica quântica.
Em Malkuth, o vento deixou de soprar e todas as moléculas foram beliscadas pelo esfíncter de Coronzon enquanto ele evacuou através do tecido espácio-temporal: sobre três velas acesas, dispostas em triângulo na vizinhança de uma perigosa falésia do litoral português, as fezes caíram ao chão. Escaldantes, as bolas de matéria liquefizeram-se em contacto com o ar, sangrando soro; caíram umas sobre as outras e, em brasa, fundiram-se. Sangrando, mudando de forma aos abanões, a matéria informe regeu-se de acordo com a própria receita morfogenética: agregou-se, deslizando em fios finos, como flores desabrochando e murchando em loop, e o fenótipo evidenciou-se da confusão. A superfície eclodiu e esticou-se numa fita para criar um ânus – uma cópia do Abismo por mérito próprio – e um intestino grosso; foi o evento mais importante da nova vida que Crowley inaugurou – a prova ritual que separava os homens, não dos rapazes, mas dos insectos.

Ó Louco!, gerador do meu Ser e do Nada,
desfaz, fecundo, esta laçada!

A elasticidade da carne suplicou por novidade, mas aquele espectáculo, mudo como um filme velho, era uma reprise da dança bailada há cinquenta e cinco anos atrás no ventre de Emily Crowley. Esta gastrulação, estes passos tímidos para o centro do salão, antecedeu uma coreografia exacta que todas as criaturas, grandes e pequenas, precisam de executar com elegância para convencer o júri que merecem nascer.
A carne arrefecida pelo vento inclinou-se; o mar pautou o ritmo da dança atingindo com violência a parede rochosa da Boca do Inferno. Filamentos cintilantes ergueram-se na direcção das estrelas e solidificaram-se num grande cordão nervoso; a carne percebeu a deixa e dobrou-se. Ela dividiu-se. Ela condensou-se. Ela começou a respirar! Os últimos canudos deslizaram até se juntarem ao bolbo central; mergulharam no âmago daquela confusão organogênesica e emergiram, transformados em músculo, para impingirem um estilo mais arrojado na composição: o coração despertou e o sangue perseguiu o compasso do oceano até o ultrapassar em ferocidade.
Nascido do Abismo – do Nada –, Crowley vingou como uma faísca que, tornada em centelha, abrasa em labareda. O útero que o aconchegou foi a própria noite estelar, com o Atlântico à guisa de âmnio; protegido, ele solidificou como um planeta durante a formação da galáxia. A pele nova, vermelha como os músculos debaixo da superfície, arrefeceu e desapareceram os rastos dos cordões de carne que a enlaçaram. Crowley parecia um feto gigante: horrível e belo, em simultâneo; sem pêlo, com uma pelúcia branca a cobrir-lhe os olhos e a boca.
Crowley, o bebé – o Eremita – abriu os olhos; sentiu frio e, esticando um braço com lentidão, apalpou o terreno: os dedos desenharam uma linha curva no chão, o principio da história.»


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

"O Homem Corvo" está a chegar


Hoje é dia de divulgações, por isso informo que O Homem Corvo (Saída de Emergência), o meu primeiro livro para crianças, escrito por mim e ilustrado por Ana Bossa, também está mesmo aí a chegar. Quem será o misterioso Homem Corvo?...

Capa de "O Pequeno Deus Cego"


A bela capa do meu novo álbum de banda desenhada, O Pequeno Deus Cego: escrito por mim, desenhado por Pedro Serpa e legendado por Mário Freitas. Será publicado no decurso do próximo festival Amadora BD, pela Kingpin Books.
Mais novidades para breve.