sábado, 31 de julho de 2010

Fórum Fantástico 2010


De 12 a 14 de Novembro, na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, o Fórum Fantástico cumpre mais uma edição, marcando-se como o mais importante evento do género em Portugal - e o único capaz de transcender com credibilidade o nicho em que o Fantástico, por vezes por culpa própria, se enquista, apresentando sempre uma programação interdisciplinar capaz de cativar tanto os especialistas como os curiosos de ocasião, sem cair, lá está, no facilitismo. O mérito da qualidade do Fórum Fantástico pertence à organização profissional de Rogério Ribeiro e Safaa Dib.

Alguns convidados, portugueses e estrangeiros, já foram anunciados no site do evento (no qual podem acompanhar as novidades alusivas ao Fórum Fantástico). Eu estarei presente para lançar um novo livro de contos de horror, editado pela Saída de Emergência.
Aproveito para revelar que me encontro a escrever um novo romance, com publicação prevista para o primeiro semestre de 2011.

Post Scriptum - O belo cartaz do Fórum Fantástico 2010 é da autoria de Pedro Marques.

sábado, 24 de julho de 2010

David Soares na 14ª Feira do Livro de Peniche


Na próxima sexta-feira, dia 30, pelas 21H30, irei estar na 14ª Feira do Livro de Peniche para conversar com os leitores e autografar exemplares dos meus romances, entre os quais O Evangelho do Enforcado (Saída de Emergência).

terça-feira, 29 de junho de 2010

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Fogo à vontade!

A Edição Especial do romance A Voz do Fogo de Alan Moore (Saída de Emergência) vai para as livrarias a 9 de Julho. Consiste num bom romance de estreia de um dos melhores (senão o melhor) argumentistas de banda desenhada. A nova capa é da autoria do designer Pedro Marques. A tradução e as notas são minhas.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O Castelo de Gormenghast...

...abre, finalmente, os portões aos leitores portugueses, numa cortesia das edições Saída de Emergência: Gormenghast, o segundo volume da chamada "trilogia Titus", escrita por Mervyn Peake, já está disponível num volume intitulado O Castelo de Gormenghast, traduzido para português pelo Prof. José Manuel Lopes.

É um livro maravilhoso, e muitíssimo bem escrito, que qualquer Leitor (o L grande é propositado...) deveria ter na estante. Não hiperbolizo em nada ao dizer que raras vezes o domínio da língua inglesa chegou ao nível de excelência que se apresenta em Gormenghast; e o facto de ser um livro de literatura fantástica só serve para tornar tudo ainda mais delicioso.
Meus amigos: isto é literatura fantástica do mais alto nível. Comprem sem hesitar, porque é bom que se farta (é, sem dúvida, o melhor título da trilogia, mas dizer isso vale o que vale porque todos os três volumes são excelentes).

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Two wrongs can make a right?

Será verdade que os grandes escritores são visionários?
Neste momento, leio um romance esplendoroso, intitulado Mulligan Stew, em que o autor Gilbert Sorrentino vaticinou o nome Google, como título de uma revista fictícia (página 34 do paperback de 1979 da Picador). O que torna inaudita esta invenção é o facto de que o nome Google é um erro de ortografia: Sean Anderson, assistente de Larry Page e Sergey Brin (criadores do motor de busca omnisciente), digitou de forma errada a palavra Googol, enquanto investigava a sua disponibilidade numa base de registos de domínios de Internet. Como é óbvio, o domínio "google.com" estava disponível, mas dezoito anos antes do registo ser feito já Sorrentino cometera, de modo deliberado, o mesmo erro. Será a primeira vez que two wrongs can make a right? Se sim, é a primeira num milhão.
Ou melhor, num milhar de milhões.
Direi mesmo mais: num googolplex.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morreu José Saramago

«A morte conhece tudo a nosso respeito, e talvez por isso seja triste.»
José Saramago (1922-2010), As Intermitências da Morte.

sábado, 12 de junho de 2010

Prancha de "Reprogramar a Alma"

Uma prancha da minha banda desenhada Reprogramar a Alma, que irá sair em polaco na revista cultural Ziniol (ler o post anterior).

terça-feira, 8 de junho de 2010

Sem Pernas na Polónia

O número oito da revista cultural polaca Ziniol traz uma banda desenhada minha, intitulada Reprogramar a Alma (ou, como se diz em polaco, Przeprogramowac Dusze).
Esta bd foi escrita e desenhada de propósito para o Tertúlia BDzine, atendendo a um convite de Geraldes Lino, e conta uma história de horror sobre uma mulher sem pernas que quer engravidar. (É uma das minhas bandas desenhadas preferidas, por acaso.) A tradução para polaco foi feita por Jakub Yankowsky.

A revista Ziniol (cem páginas) irá para as bancas em breve, com o preço de capa de vinte euros. Pode ser encomendada pelo seguinte endereço de email: ziniol(at)timof.pl.

sábado, 29 de maio de 2010

sexta-feira, 28 de maio de 2010

É de Noite que Faço as Perguntas

No campo de acção das comemorações do centenário da primeira república portuguesa, a Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República (CNCCR) associou-se ao Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem (CNBDI) para realizar uma série de iniciativas em volta da Banda Desenhada e da forma singular como essa linguagem se entrecruzou com a história e o espírito desse período. Foi no âmbito dessa programação, apresentada à imprensa e ao público no passado dia 18 de Maio no Auditório dos Recreios da Amadora, que germinou o projecto da criação de um álbum de banda desenhada que versasse sobre a história da nossa Primeira República, existindo, desde a concepção da ideia, a intenção de que o livro fosse um projecto arrojado, tanto pela sua narrativa como pela arte.

O álbum, escrito por mim e desenhado por Jorge Coelho, João Maio Pinto, André Coelho, Daniel Silvestre Silva e Richard Câmara, intitula-se É de Noite que Faço as Perguntas e consiste numa narrativa ficcional que seguirá com rigor a história e cronologia republicanas, tendo início em 1891, na sequência do Ultimato Inglês, e terminando com o desfecho do Golpe Militar de 28 de Maio de 1926. Contudo, mais do que tratar-se de uma peça de reconstituição histórica, é uma verdadeira reflexão (alegórica) sobre os valores da liberdade, da cultura e de uma cidadania interventiva. É de Noite que Faço as Perguntas será editado pela Gradiva e pela CNCCR.

A vinheta que ilustra este artigo é desenhada por Jorge Coelho e pertence ao primeiro capítulo do álbum. Fiquem atentos, porque em breve apresentarei imagens dos outros capítulos.

(Aproveito para lembrar que tanto eu como o Jorge estaremos este fim de semana no VI Festival Internacional de BD de Beja, que tem início já este sábado e prolongar-se-á até ao dia 13 de Junho.)

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Contagiem-se!

O Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas (Saída de Emergência) já se encontra nas livrarias. Consiste num compêndio de doenças fictícias, cada qual a mais espectacular e fascinante, imaginadas por alguns dos melhores escritores modernos de literatura fantástica como Neil Gaiman, China Miéville, Rhys Hugues, Michael Moorcock e Alan Moore. A organização da edição original norte-americana foi realizada por Jeff Vandermeer e Mark Roberts, mas a organização desta edição portuguesa foi feita por João Seixas, que reuniu uma série de colaboradores nacionais (todos doutorados, claro) sob a égide benfazeja do Dr. Anófeles Calamar Trindade: análogo luso do Dr. Lambshead e seu "rival" nas lides da Academia.

Um livro de luxo que é o centésimo título da Colecção BANG! (dedicada à melhor literatura fantástica internacional), à qual tenho o maior orgulho de pertencer; e agora, também, com uma participação neste fabuloso almanaque.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A falácia do ateísmo genocida


Descobri que no passado dia 20 de Maio, no Salão de Alunos da Faculdade de Medicina do Porto, realizou-se um debate subordinado ao tema Religião e Ateísmo. Como se percebe, mediante a leitura do cartaz anunciador do evento moderado pelo jornalista Carlos Magno, os participantes foram o Dr. Ludwig Krippahl, vice-presidente da Associação Ateísta Portuguesa, e o padre católico José Nuno. Este, ao que parece, disse durante o debate que «os maiores genocídios do século XX foram perpetrados por ideólogos ateístas: nazis e comunistas». Trata-se, como é evidente, de uma afirmação errada.

Em primeiro lugar, dá a entender que os ateus são perversos e não partilham do mesmo sistema de valores dos crentes numa determinada religião (neste caso a católica). Aliás, de acordo com a declaração do padre José Nuno, tão péssimas qualidades morais têm os ateus que, vejam bem!, até foram responsáveis pelos «maiores genocídios do século XX». Ao contrário dos crentes, que (presume-se) são seres pacíficos, os ateus só pensam em eliminar os seus semelhantes - e isso é uma consequência de viverem sem Deus, está visto. Por aqui reverberam as palavras que o cardeal patriarca de Lisboa D. José Policarpo proferiu na homilia de Natal de 2007: «Todas as formas de ateísmo, todas as formas existenciais de negação ou esquecimento de Deus, continuam a ser o maior drama da humanidade». O que inflama esta visão dos assuntos humanos é a noção de que existem duas espécies diferentes de homens (os ateus e os crentes) e que apenas a segunda, por "conhecer Deus", possui verdadeiros valores morais, que são apanágio da religião.
Inversamente àquilo que a maioria dos indivíduos pensa, grande parte dos verdadeiros valores morais ocidentais não provém de nenhuma religião, mas são conceitos que poderíamos chamar de "leis naturais"; como a famosa regra de ouro que expressa "Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti". Os valores propostos pelas religiões são, pela sua própria natureza, sectários e intolerantes: consistem em proibições e prescrições punitivas que se encontram relacionadas com as suas culturas de origem e pouco, ou mesmo nada, têm a ver com o contexto actual em que são aplicadas. Só sobrevivem por força do simples proselitismo inquestionado, que os transmite de geração em geração, pois não enriquecem as vidas de ninguém, por oposição aos valores humanistas que, como todos sabem, são uma conquista da sociedade científica e ateia. Compreende-se que o propósito da declaração do padre José Nuno é angariar simpatia pela religião, denegrindo a imagem dos ateus ao chamar-lhes genocidas: não só é uma retórica de mau gosto, como é falhada porque nem sequer se suporta em nenhum facto, como iremos ver em seguida.

A palavra genocídio foi inventada pelo jurista polaco Raphaël Lemkin, que procurava uma definição para os crimes de guerra que os nazis empreenderam contra os judeus, antes e durante a Segunda Grande Guerra; ele também conhecia os crimes que o Império Otomano cometera contra os Arménios, durante e depois da Primeira Grande Guerra, e achava que ambos tinham características semelhantes. Para o efeito, criou o neologismo genocídio unindo a palavra genos (povo) ao sufixo latino cide que significa assassinato. Usou-o, pela primeira vez, no ensaio Axis Rule in Occupied Europe: Laws of Occupation, Analysis of Government, Proposals for Redress, publicado em 1944. No capítulo IX desse trabalho, Lemkin explica as suas escolhas da seguinte forma: «New conceptions require new terms. By "genocide" we mean the destruction of a nation or a ethnic group» (Lawbook Exchange, 2005. Pág. 79). As Nações Unidas adoptaram a nova palavra com a Convenção Para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio, em 9 de Dezembro de 1948, estipulando que o crime de genocídio define-se como a «intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso» (em A Century of Genocide: Utopias of Race and Nation de Eric D. Weitz. Princeton University Press, 2003. Pág. 9).

O regime comunista soviético que vigorou sob a liderança dos aparelhos de estado de Lenine e Estaline foi genocida? Se aplicarmos a definição da Convenção Para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio então a resposta é "sim": os soviéticos empreenderam algumas acções de carácter genocida contra diversos grupos e etnias, como os tchetchenos, os tártaros, os coreanos e os ingush, não só perseguindo-os directamente, como criando condições de carestia de vida de modo a liquidar as suas populações. Todavia, a ausência de uma real ideologia racista dentro do Partido Comunista soviético (não havia nenhum ideal de "pureza" racial, já que os indivíduos definiam-se pela sua inclusão numa determinada classe económica), associada à crença na maleabilidade dos homens para se tornarem "bons comunistas" através do trabalho comunitário forçado, evitou o desenvolvimento de um aparato genocida à larga escala, como o do regime nazi. Os soviéticos não tiveram campos de extermínio, como o de Auschwitz, por exemplo, mas milhões de indivíduos morreram em consequência das purgas realizadas pela NKVD e das deportações para os campos de trabalho. Os principais alvos da revolução foram os kulaks (camponeses "ricos" que, de acordo com a propaganda leninista e estalinista, eram vampiros, sanguessugas, aranhas e insectos daninhos) e os lishentsy (uma categoria análoga à dos "anti-sociais" perseguidos pelos nazis e na qual se incluíam intelectuais, clérigos, oficiais czaristas, burgueses e antigos nobres). Qualquer oposição ao regime era suficiente para classificar um indivíduo nestas categorizações. Mas, se é verdade que esse regime soviético foi genocida, será legítimo dizer-se que foi ateísta?

Karl Marx escreveu que «Communism begins where atheism begins, but atheism is at the outset still far from being communism; indeed it is still for the most part an abstraction» ("A Contribution to the Critique of Hegel's Philosophy of Right" em Early Writings. Penguin Classics, 1992. Pág. 349). Outra observação fortalece a ideia de que comunismo e ateísmo são, para Marx, dois conceitos distintos: «Atheism is humanism mediated with itself through the annulment of religion, while communism is humanism mediated with itself through the annulment of private property» (Penguin Classics. Pág. 395). Em suma: na visão de Karl Marx, tanto o comunismo e o ateísmo são variações do humanismo, mas não consistem na mesma coisa.
De facto, o comunismo é anti-clerical, mas apenas porque não tolera que exista um poder maior acima do partido. Uma leitura possível, e em última análise credível, é a de que o comunismo, nos moldes em que foi edificado, enquanto "leninismo" e "estalinismo", se aproxima muitíssimo daquilo a que Jean-Jacques Rousseau definiu no seu Du Contrat Social: Ou Principes do Droit Politique (1762) como sendo uma «religião civil». No Capítulo 8 do Livro IV pode ler-se (sublinhado meu): «Now it is very important to the state that each citizen should have a religion which makes him love his duty, but the dogmas of that religion are of no interest neither to the state nor its members, except in so far as those dogmas concern morals and the duties which everyone who professes that religion is bound to perform towards others. (...) There is thus a profession of faith which is purely civil and of which it is the sovereign's function to determine the articles, not strictly as religious dogmas, but as expressions of social conscience, without which it is impossible to be either a good citizen or a loyal subject. (...) the sovereign can banish from the state anyone who does not believe them; banish him not for impiety but as a antisocial being, as one unable sincerely to love law and justice, or to sacrifice, if need be, his life to his duty» (Penguin Books, 1968. Págs. 185-186). O escritor de divulgação científica Sam Harris, apoiando-se nas leituras de Jonathan Glover (Humanity: A Moral History of the Twentieth Century, Yale University Press, 2001) e Alexander N. Yakovlev (A Century of Violence in Soviet Russia, Yale University Press, 2002) diz algo que vai ao encontro desta ideia: «Consider the millions of people who were killed by Stalin and Mao: although these tyrants paid lip service to rationality, communism was little more than a political religion» (em The End of Faith. W. W. Norton & Company, Inc., 2004. Pág. 79). O próprio Estaline, que estudou num seminário e acreditava que Cristo existira, surpreendeu o exército russo quando, nas vésperas da invasão alemã da União Soviética, apelou ao culto dos mortos para insuflar coragem nas fileiras, arrogando aos soldados para não envergonharem os gloriosos antepassados que os observavam - dificilmente o discurso que se espera de um líder ateu...

«We don't want to educate anyone in atheism.»
A declaração é de Adolf Hitler e foi proferida na noite de 11 de Julho de 1941 (em Hitler's Table Talk, 1941-1944. His Private Conversations. Editado por Hugh R. Trevor-Roper. Phoenix Press, 2002. Pág. 6). No mesmo ano, em 21 de Outubro, por altura do meio-dia, Hitler disse: «Nevertheless, the Galilean, who later was called the Christ, intended something quite different. He must be regarded as a popular leader who took up His position against jewry. (...) For the Galilean's object was to liberate His country from jewish oppression. He set Himself against Jewish capitalism, and that's why the Jews liquidated Him» (ibidem, pág. 76). Anos mais tarde, na noite de 29 de Novembro de 1944, Hitler continuará a pensar da mesma maneira: «Jesus was most certainly not a Jew» (ibidem, pág, 721). Quanto à religião pagã, Hitler disse o seguinte, ao meio-dia de 14 de Outubro de 1941: «It seems to me that nothing would be more foolish than to re-establish the worship of Wotan. Our old mythology had ceased to be viable when Christianity implanted itself» (ibidem, pág. 61).
Por outro lado, apesar de crente em Deus e anti-ateísta, o líder nazi não nutria nenhuma simpatia pela religião organizada. Desconfiava da Igreja Católica Apostólica Romana, enquanto instituição, e declarou diversas vezes que aguardava o momento da sua dissolução. Na tarde de 11 de Novembro de 1941, disse: «The Church's friendship costs too dear. In case of sucess, I can hear myself being told that it's thanks to her. I'd rather she had nothing to do with it, and that I shouldn't be presented with the bill!» (ibidem, pág. 122). Mesmo assim, na mesma conversa, ele declarou que «Russian prayers had less weight than ours» (ibidem, pág. 123).
Não é fácil categorizar o pensamento religioso de Adolf Hitler, porque ele foi um mitómano que mudava de atitude consoante quem estivesse junto dele. Sabe-se que no dia 12 de Abril de 1945, Goebbels resgatou entusiasmado as cartas astrológicas do Führer e da República de Weimar, pois acreditou que continham a "profecia" da morte de Roosevelt, que falecera nesse dia, e a conseguinte vitória da Alemanha em Agosto desse ano (em Hitler: A Study in Tiranny de Alan Bullock. Penguin Books, 1962. Pág. 781), o que não deixa de ser bizarro, porque a 12 de Junho de 1941 mandara prender todos «os astrólogos, magnetopatas, antroposofistas e afins», sublinhando no seu diário, de maneira jocosa, que nenhum dos videntes foi capaz de prever a captura. Sem dúvida que Hess e Himmler foram os líderes nazis responsáveis pela imagem pública, explorada em diversos filmes e livros de entretenimento, de que os nazis foram obcecados pelo ocultismo, mas o próprio Hitler tinha ideias pouco claras sobre esses assuntos. Ao almoço, em 19 de Julho de 1942, ele disse que «Superstition, I think, is a factor one must take into consideration when assessing human conduct, even though one may rise superior to it oneself and laugh at it. It was for this reason, to give you a concrete example, that I once advised the Duce not to initiate a certain action on the thirteenth of the month. (...) The horoscope, in which the Anglo-Saxon in particular have great faith, is another swindle whose significance must not be under-estimated» (Phoenix Press, 2002. Págs. 582-583).
O sentimento religioso de Hitler também se encontra expresso nesta passagem de Mein Kampf, citada por Bullock: «The war of 1914 was certainly not forced on the masses; it was even desired by the whole people. For me these hours came as a deliverance from the distress that had weighed upon me during the days of my youth. I am not ashamed to acknowledge today that I was carried away by the enthusiasm of the moment and that I sank down upon my knees and thanked Heaven out of the fulness of my heart for the favour of having been permited to live in such a time» (Penguin Books, 1962. Pág. 50). A concordata entre a Alemanha nazi e o Vaticano foi assinada a 20 de Julho de 1933. Sete séculos antes, a 19 de Abril de 1215, o Quarto Concílio de Latrão decidiu que os judeus deveriam envergar uma marca amarela distintiva: uma estrela judaica, de seis pontas. Como disse o historiador Raul Hilberg no documentário Shoah de Claude Lanzman (1985), «Many such measures had been worked out over the course of more than a thousand years by authorities of the Church and by secular goverments that followed in that footsteps. From the earliest days... Because from the 4th century, 5th century, 6th century... the missionaries of christianity had said, in effect, to the Jews, "You may not live among us as Jews". The secular rulers who followed them, from the late Middle Ages, had then decided "You may not live among us". The nazis finally decreed "You may not live"».

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O Estrumpfe Amarelo

Foto da professora Bruna Real (identificada na peça integrante na edição de Maio da revista portuguesa Playboy como Xana Ferreira), com 27 anos de idade.

Foi em 1922 que o jornalista norte-americano Walter Lippmann usou uma palavra que, até então, era coutada exclusiva dos historiadores de arte para designar aquilo que ele considerava ser um modo de pensar muito especial, relacionado com o preconceito: estereótipo.

Em artes gráficas, um estereótipo é a chapa matriz que serve para imprimir diversas cópias de um documento. No livro Public Opinion, Lippmann escreveu que «(...)modern life is hurried and multifarious (...) There is neither time nor opportunity for intimate acquaintance. We notice a trait that marks a well known type, and fill in the rest of the picture by means of the stereotypes we carry about in our heads» (Dover, 2004. Pág. 49).
Mais extraordinário que já se pensar que a vida era apressada e complicada em 1922 é constatar a intuição de que existem várias personalidades típicas e que toda a gente pode ser catalogada a priori dessa forma. Entre os exemplos que Lippmann oferece no seu livro encontramos o estereótipo do Agitador, do Plutocrata, do Intelectual e do Sul Americano. Consistem em generalizações simples para serem aplicadas aos indivíduos pertencentes a qualquer grupo ou associação. «The stereotype not only saves time in a busy life and is a defense of our position in society, but tends to preserve us from all the bewildering effects of trying to see the world steadily and see it whole» (Dover, 2004. Pág. 63). A analogia entre a chapa matriz usada para imprimir milhares de cópias de um jornal e as multiplicidades de indivíduos que podem ser catalogados de acordo com os mais variados estereótipos inventados pelos sociólogos, psicólogos ou homens comuns é evidente, mas será que, tal como Lippmann acreditava, o estereótipo é uma ferramenta útil para compreendermos comportamentos?

Outro livro, mais recente, que discorre com discernimento sobre o fenómeno dos estereótipos é Us and Them: Understanding Your Tribal Mind de David Berreby (Hutchinson, 2006). Entre vários argumentos expostos neste título sobre comportamentos de grupo, Berreby avança com a ideia de que os estereótipos não se relacionam de modo directo nem com os estereotipados nem com os estereotipadores, mas com as diferentes relações que existem entre eles. Essa será uma das razões pelas quais as pessoas, muitas vezes, continuam a achar que determinado estereótipo é verdadeiro: porque mesmo que percebam que um estereotipado, em especial, não se encaixa no perfil imaginado, a relação que mantém com ele não mudou. «Once you see that stereotypes depend on perceived relationships among different human kinds, the question of how objectively accurate they are disappears. We think the human-kind code is based on facts about people. Instead, it's based on facts about how we relate to those people at the moment we categorize them - what we want, or expect, or fear from them. Mental codes interpret human kinds as if they were things that have dimensions and persist through time. But the information that makes the codes work is not about things. It's about actions - what we're doing and planning to do as they relate to waht other people are doing. (...) To this day, most public thinking about human kinds and human-kind emotions focuses on the stereotyper and the stereotypee, ignoring the third, defining variable: the relation that makes them see one another in the first place» (Hutchinson, 2006. Pág. 166).

Com base na informação disponível sobre o caso, toda a gente pode comprovar, no minimo suspeitar, que a professora Bruna Real, que leccionava a disciplina de Actividades Extra Curriculares no liceu de Mirandela até ser afastada do cargo por descobrir-se que posara nua para a edição de Maio da revista Playboy, teve azar em encaixar-se num estereótipo conhecido: aquele que diz que as mulheres sexualmente atraentes não são mulheres de grande probidade. Aparentemente, uma professora sexualmente atraente, e que ainda por cima aparece nua nas páginas de uma revista para homens (logo, um corpo de desejo que pode - ou não - servir de combustível fantasista para a masturbação) não corresponde à chapa matriz das mulheres inteligentes, honradas e capazes de dar aulas com diligência.

Cena do filme Extase de Gustav Machatý (1933), que tornou a actriz Hedy Lamarr famosa por ser uma das primeiras a apresentar-se totalmente nua num filme mainstream e a primeira a simular um orgasmo numa pioneira cena de sexo. Ela tinha 28 anos de idade.

Isto lembrou-me, de imediato, a actriz austríaca Hedy Lamarr (1914-2000): a primeira a aparecer totalmente nua num filme mainstream (não-pornográfico). O filme, realizado por Gustav Machatý, chama-se Extase e foi estreado em 1933. Da noite para o dia, Lamarr passou a ser sinónimo de sexualidade luxuriante; a imagem ideal de uma mulher despudorada. Um estereótipo que nunca iríamos associar a alguém de grande inteligência, mas é aqui que as chapas matrizes descombinam: com um talento inato para a matemática e para a engenharia, Lamarr foi uma das mulheres mais inteligentes do mundo. Na verdade, já é mítico o episódio em que ela, durante um cocktail, usou um guardanapo para traçar o diagrama para aquilo que viria a ser o sistema FHSS (ou frequency-hopping spread spectrum) usado pelo exército norte-americano e que ainda hoje é empregue nas transmissões de rotina de uma grande diversidade de aparelhos electrónicos.

Talvez, num futuro próximo, venhamos a saber que a professora Bruna é tão ou mais inteligente que a Hedy Lamarr e que a escola e a câmara de Mirandela erraram em afastar uma pessoa desse calibre.
Retórica à parte, duvido que isso aconteça, mas o QI de Bruna (ou de Lamarr) não interessa: o que interessa é compreender que as pessoas são fins em si mesmas e, por conseguinte, não se encaixam nos estereótipos que imaginamos. Principalmente, quando a capacidade de imaginar não é muita.
Bem vistas as coisas, a Bruna não foi afastada por mostrar a sua nudez na Playboy. Qualquer aluno de Mirandela com acesso à Internet ou com TV Cabo já viu cenas de maior conteúdo pornográfico que a sessão fotográfica que originou esta patética polémica. Pese o estereótipo de que as mulheres sexualmente atraentes não são mulheres de grande probidade, ela também não foi afastada por causa desse preconceito. Eu acho que ela foi afastada porque cometeu um grande pecado: mostrar que é possível quebrar as regras.

Uma professora que se despe numa revista erótica é uma criatura exótica: tanto quanto um estrumpfe amarelo. Não se encaixa num modelo uniforme de sociedade, sob o qual as pessoas, desde a mais pequena idade, aprendem quais são as regras e a respeitá-las. A última coisa que os reguladores de uma sociedade deste género querem é que apareça alguém para quem as regras não se aplicam. Ou pior: que mostre aos restantes que, se calhar, as regras também não se aplicam a eles!... Que as tais regras são, em última análise, uma convenção e que é sempre possível mudá-las para melhor. O afastamento de Bruna Real das funções de docente é mais um caso de luta de classes entre a casta dominante e o elemento inferior desconforme que um imbróglio moralista sobre sexo.