terça-feira, 16 de dezembro de 2014

«Da Pedra aos Ossos: Observação do Limiar da Infinitude» em Sustos às Sextas


Como anunciado no programa do ciclo de palestras sobre horror Sustos às Sextas, no próximo dia 16 de Janeiro, às 22H30, no Palácio dos Aciprestes, em Linda-a-Velha (Fundação Marquês de Pombal), inaugurar-se-á a nova exposição fotográfica de Gisela Monteiro, intitulada Da Pedra aos Ossos: Observação do Limiar da Infinitude.

Em vinte imagens, a preto-e-branco, explora-se os limites entre a pedra esculpida e o osso humano, através de caveiras -- o Speculum Mortis por excelência --, recordando ao Homem a sua efemeridade. Agradeço a vossa presença e a divulgação.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Programação do ciclo de palestras sobre horror «Sustos às Sextas»




Partilho convosco a programação do ciclo de palestras sobre horror Sustos às Sextas: a primeira sessão é já no próximo dia 16 de Janeiro e, como podem ler na imagem em anexo, será composta por, entre outras actividades, uma palestra de Ana Paula Guimarães, intitulada O Terror Sobrenatural e a Literatura Popular em Portugal e pela inauguração da nova exposição fotográfica de Gisela Monteiro, intitulada Da Pedra aos Ossos: Observação do Limiar da Infinitude.

Excelentes razões para se dirigirem ao Palácio dos Aciprestes (Fundação Marquês de Pombal), na Quinta dos Aciprestes, em Linda-a-Velha, para uma noite que se augura admirável. Agradeço a vossa presença e a divulgação.



quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Outra vez racismo e misoginia?!...

Mais uma sova dada ao escritor norte-americano Howard Phillips Lovecraft, desta vez pelo crítico literário Charles Baxter, nas páginas do The New York Times Review of Books.

O artigo de Baxter é, infelizmente, mais um exemplo do evemerismo ao contrário que tem caracterizado as epístolas antilovecraftianas que, mormente, são dadas à estampa; e redigidas tanto por críticos camareiros do mainstream, como por corifeus saídos do próprio universo da chamada "ficção de género", mas todos preocupados com as suas próprias directrizes de promoção pessoal, feita à custa de um homem que não pode defender-se -- aliás, pela profusidade de textos desta natureza, que vão surgindo, dir-se-ia que Lovecraft está vivo, mas informo os mais distraídos que, com efeito, ele morreu em 1937: ano tão longínquo e feito de contrastes, como o bombardeamento da cidade espanhola de Guernica, pela Legião Condor da Luftwaffe nacional-socialista, ou a estreia de Snow White and the Seven Dwarfs, primeira longa-metragem de animação dos estúdios Disney. Entre o absurdo violento das guerras europeias e a candura melíflua do sonho norte-americano, vale a pena especular que o século XX terá sido, afinal de contas, mais lovecraftiano do que parece. Talvez seja esse o combustível secreto que anima fãs e detractores, em simultâneo.

No parágrafo anterior, falei em «evemerismo ao contrário», porque, de facto, é isso que se verifica na exegese desses textos maticinos: o evemerismo ortodoxo consiste na leitura errada que se faz de eventos e personagens lendários, atribuindo-lhes cronologias e papéis históricos pseudofactuais, como, por exemplo, achar que os deuses antigos de uma determinada mitografia foram, na realidade, poderosos reis e sábios sacerdotes do passado -- ou até seres de proveniências extraterrestres: tropo que também se relaciona totalmente com Lovecraft, como irei (re)demonstrar daqui a umas linhas.
Ora, baxteres e quejandos operam de modo inverso, respigando farrapos da vida de Loveccraft para, com eles, construir, não uma aproximação à realidade, mas uma ficção desbragada na qual o erudito escritor de Providence, pequena cidade costeira do estado norte-americano de Massachusetts, não passa de um virulento racista misógino, incapaz de escrever uma linha sem veicular todas as espécies de rancores étnicos e sexistas.

No que concerne a libelos dessas naturezas, já os desmistifiquei nesta ligação e também nesta, razão pela qual não valerá a pena repetir-me. Penso que esses dois textos demonstram que Lovecraft foi um indivíduo mais complexo e multidimensional (trocadilho propositado) do que se poderia, à partida, pensar; sobretudo, quando existe a vontade de partir para o terreno pantanoso da difamação sem conhecer, com rigor, a obra e a vida dos indivíduos que se almeja atirar para a lama. Até para inventar calúnias convém ser culto ou, no mínimo, estar bem informado.

Prometi que deslindaria o novelo que une Lovecraft ao evemerismo que fere como ferro quente a cultura popular contemporânea, já que este escritor foi o seu pai, e, assim, recupero o texto em que escrevi sobre esse tópico.

Termino com uma provocação dirigida aos detractores de Lovecraft: por que é que não voltam os cegos escalpelos para figuras da nossa história recente que foram, verdadeiramente, racistas e misóginas?
Figuras como Gandhi, por exemplo, que sob o manto diáfano da doutrina da não-violência escondeu um racismo insuspeito contra os negros -- que toda a vida considerou de "qualidade inferior" aos dalits (intocáveis) da hierarquia indiana de castas --, uma homofobia ainda desconhecida do grande público, além de uma misoginia de contornos caseiros (batia na mulher para "discipliná-la"). Os delirantes que vêem em Lovecraft um fervoroso admirador do fascismo e de Hitler farão melhor em observar Gandhi com atenção, pois ele estimava Hitler e Mussolini. Este, conheceu-o em Itália e ficou deslumbrado com o "amor" que Il Duce tinha pelo povo italiano, com o modo como ele rechaçava a "praga" da urbanização, em prol de valores campesinos, e, ainda, o "engenho" com que lidava com todas as questões relacionadas com o capital e o trabalho (leia-se, o sistema capitalista e corporativista de estado, apanágio do(s) regime(s) fascistas).
 
 Quanto a Hitler, achava que ele não era tão mau quanto o pintavam, sobretudo quando comparado com aquilo que os boers e os ingleses tinham feito aos Zulus da África do Sul. Seguindo esse raciocínio, a 23 de Julho de 1939, escreveu a Hitler, a quem tratava por «querido amigo», pedindo-lhe que, em vez da guerra, experimentasse o caminho da não-violência, método que, segundo a sua experiência, dava alguns frutos (em pouco menos de dois meses, o «querido amigo» invadiu a Polónia, iniciando a Segunda Grande Guerra). Aliás, em Novembro do ano anterior, Gandhi já advogara que os judeus perseguidos e chacinados pelos nacionais-socialistas não poderiam fazer melhor do que deixarem-se eliminar colectivamente numa atitude de resistência não-violenta, porque o terror não existia quando se morria crente: «the calculated violence of Hitler may even result in a general massacre of the Jews by way of his first answer to the declaration of such hostilities. But if the Jewish mind could be prepared for voluntary suffering, even the massacre I have imagined could be turned into a day of thanksgiving and joy that Jehovah had wrought deliverance of the race even at the hands of the tyrant. For to the godfearing, death has no terror. It is a joyful sleep to be followed by a waking that would be all the more refreshing for the long sleep».
 
Infelizmente, ao contrário do que Gandhi escreveu nas linhas transcritas acima, o terror existe mesmo -- para crentes e para descrentes -- e para derrotá-lo é preciso, além de coragem, compreendê-lo.
Lovecraft tentou fazê-lo através da sua ficção inovadora, olhando a humanidade com desafectação, mas, inesperadamente, com uma espécie de optimismo sem garantias, sentimento nascido do seu ateísmo e da paixão pelo desenvolvimento científico. Fica a sugestão de fazer-se uma reflexão sobre a maneira como, independentemente da verdade histórica, uns são eleitos para ser vilões e outros para ser heróis. Compreendo que o clima de correcta-politiquice que afecta a nossa sociedade vá criando os monstros que lhe são mais convenientes em determinados momentos -- aparentemente, Lovecraft está nos primeiros lugares da lista negra de uma desintelligentsia somente interessada em ficar bem na fotografia (Houellebecq e epígonos vêm à memória), por diversos motivos que confluem todos na superficialidade.
Não é à toa, afinal de contas, que escolheram Lovecraft para vilipendiar: em tudo o que fazia, era profundo. A superficialidade não era coisa que lhe agradasse.

         

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Ciclo de palestras sobre horror «Sustos às Sextas»

 
É com prazer que anuncio o ciclo de palestras Sustos às Sextas: assim denominado em virtude da tónica das matérias apresentadas ser colocada em estudos rigorosos sobre o horror e o sobrenatural. De 16 de Janeiro a 15 de Maio, sempre às 21H30, um orador convidado apresentará um tema de sua escolha, que será objecto de uma palestra e subsequente discussão. O ciclo Sustos às Sextas ocorrerá no sumptuoso Palácio dos Aciprestes, na Quinta dos Aciprestes, em Linda-a-Velha (freguesia do concelho de Oeiras).

O programa será anunciado em breve, mas não irei desfazer nenhuma surpresa em informar que serei o orador convidado do dia 17 de Abril -- que, acrescento, é o meu aniversário. Será, pois, um dia de anos assombrado, mesmo ao meu gosto. Caros leitores e fãs, reservem, pois, esta data (e as outras, evidentemente).

Façam-se fãs da página de Facebook de Sustos às Sextas e divulguem esta iniciativa: a ilustração do cartaz do evento, anexado a esta publicação, é da autoria do artista Luiz Morgadinho.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Excelente crítica a «Sepulturas dos Pais» no blogue Ler BD


«Há algo clínico no comportamento das suas personagens, que torna mais gélido o choque com a dimensão de horror que elas comportam em si. Como se lhes fosse impossível não caírem em gestos duros e de consequências dolorosas. Essa espécie de frieza está assente numa materialização das próprias emoções, e no afastamento de uma redenção por uma qualquer hipotética transcendência. (…) Outros críticos (como Sara Figueiredo Costa) apontam o carácter bruto e mesmo misógino de algumas das personagens, ou a bruteza quase insuportável de algumas cenas. Isso é patente. Todavia, o sexo nos escritos de Soares nunca estiveram presentes com o intuito de titilar os seus leitores, e surge na sua dimensão mais carnal e despojada possível. Não se trata de pornografia, nem de sadismo (num seu sentido mais popular, já que se abusa desta palavra no seu sentido mais preciso, quer psicológico quer cultural), mas de uma exploração quase de materialismo da carne e do sexo, à la Bataille.»
Sepulturas dos Pais é escrito por mim e desenhado por André Coelho.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Artigo sobre «Crumbs» no jornal Ponto Final (de Macau)

A crítica de banda desenhada Sara Figueiredo Costa escreve sobre a antologia Crumbs (Kingpin Books), na qual participo com a história O Homem-Javali Vai Casar; ou, Leng Tch'e, escrita por mim e desenhada por Pedro Serpa. A ler aqui: https://pontofinalmacau.wordpress.com/2014/12/02/crumbs-um-livrinho-a-conquista-do-mundo/


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Uma simetria bela

 
Na passada terça-feira, dia 2 de Dezembro, celebrou-se os duzentos anos do aniversário da morte de Donatien Alphonse François, Conde e Marquês de Sade, indivíduo cuja vida e obra cunharam, posteriormente, a palavra sadismo. Assim, em jeito de contributo celebratório, recupero um ensaio que escrevi há uns tempos sobre o filme Salò, o le 120 Giornate di Sodoma, realizado em 1975 por Pier Paolo Pasolini. Confesso, em abono da honestidade, que o imaginário burlesco e libertino (no seu significado contemporâneo) do Marquês de Sade, com efeito, não me fascina particularmente, mas este filme de Pasolini é, sem dúvida, um dos meus preferidos -- e um que revejo diversas vezes. Hoje, Salò mantém o poder de chocar; o que é extraordinário, face aos excessos actuais. Salò é, para mim, o snuff movie quintessencial: ou, traduzindo para linguagem mais acessível, um snuff movie para intelectuais. Revejam-no -- ou vejam-no pela primeira vez -- nesta efeméride da morte de Sade, lembrando que para o ano que vem, no dia 2 de Novembro, será o quadragésimo aniversário da morte de Pasolini, assassinado em circunstâncias que ainda aguardam clarificação. Os dias 2 de Novembro e Dezembro estão, neste feitio, reservados a dois criadores, malditos nos seus tempos e (um pouco menos) malditos neste momento. Nisto há simetria e onde há simetria há beleza.


A Burocratização do Mal

«O horror inventado pode ser avassalador», escreveu Susan Sontag em Regarding the Pain of Others. Salò, o le 120 Giornate di Sodoma, filme realizado por Pier Paolo Pasolini, é uma obra dessa estirpe.

A natureza da arte é criar beleza; e o cinema, como a fotografia, fá-lo de um modo descomplexado, inclusive quando a matéria apresentada prima por um insustentável grau de violência (Witkin, Peckimpah, Verhoeven). Quer se trate de instantâneos capturados no campo de batalha ou cenas gravadas numa cela escura de uma instituição punitiva existe sempre uma composição vestigial mecanizada pelo fotógrafo ou pelo cineasta, uma certa direcção artística. Mas em Salò não existe nenhuma beleza; no mínimo, beleza envernizada. As imagens do filme são baças e estáticas. Sobretudo não indicam um juízo de valor e isso é confuso o suficiente, pois essa nudez quasidocumental faz do espectador um cúmplice.
Num pequeno documentário que integra os extras da edição em DVD da Costa do Castelo Filmes, a realizadora de Romance, Catherine Breilat, diz que Salò é uma obra cinematográfica que oferece uma experiência impossível de ser alcançada ou ultrapassada pela leitura. Sinto-me inclinado a concordar, pois considero que a imaginação individual é, por vezes, demasiado pobre em experiências alarmantes para fabricar imagens que consigam evocar sentimentos semelhantes àqueles que assolam o espírito e o corpo diante de obras como Salò. Não obstante, discordo, em igual medida, de Breilat, porque o filme de Pasolini é, na sua máxima espessura, uma obra literária.

O realizador da Trilogia da Vida é, acima de tudo, um escritor e os filmes que nos deixou, mais que imagens sobre enredos, são contos ilustrados por imagens animadas. Esta desventura que nos conta a história de quatro italianos, pertencentes à elite fascista, que decidem acabar os seus dias numa propriedade isolada de modo a dedicarem-se a ininterruptos exercícios de crueldade é toda contada em pequenos episódios, seja pelas prostitutas incumbidas de abrir as sessões orgiásticas com relatos titilantes ou por farrapos que parecem ter caído de um caderno de apontamentos, como são exemplo os diálogos delirantes entre os velhos pederastas. É uma espécie de A Grande Farra às avessas.
Acredito que as alacridades perpetradas pelos carcereiros são comentários aos contos das prostitutas: a personagem interpretada por Umberto Paolo Quintavalle, ele próprio um escritor sem experiência de representação, convidado por Pasolini em virtude da sua compleição doentia, interrompe o relato da primeira prostituta e exige que ela seja pródiga em pormenores. Só dessa forma, explica, pode ele, e os colegas, retirar o combustível necessário às diabruras.
«É aceite entre os verdadeiros libertinos que as sensações comunicadas pelo ouvido são as mais vivas.»(1) 
O conto de prostíbulo é a primeira obra e a sevícia imaginada em seguimento é, dessa forma, o comentário o segundo texto. O homem que corrompe o corpo do adolescente que escolheu para vítima é, apenas, um crítico, um teórico que intenta complementar o opúsculo original e explorar as possibilidades gramaticais que este deixou em aberto.
Acentuei gramaticais e não semânticas, pois as brincadeiras ofensivas não visam a pessoalidade da vítima, nem a intimidade que poderia ter-se desenvolvido entre ela e o carrasco. A violência dirige-se ao corpo; e ao corpo enquanto aparelho composto por peças (mãos, boca, órgãos genitais) que podem ser substituídas por outras se manifestarem defeito. Um bom exemplo dessa lógica industrialista é uma cena iniciática na qual um dos fascistas recusa uma rapariga durante uma mostra, porque lhe descobre um dente cariado. Não existe qualquer desejo em Salò e nenhum ódio. Existe burocracia.

  
Uma vontade de parar o tempo histórico exterior aos muros da propriedade tornada campo de concentração e que anuncia a capitulação do fascismo que protege a República de Salò criada por Mussolini. O que os quatro fascistas tentam fazer é cristalizar o fluxo; ou melhor, fazê-lo circular como o tempo vivido pelas sociedades primitivas. Justifica-se, assim, a escolha do calendário dantesco (os Círculos das Manias, da Merda e do Sangue) que orienta os dias deles de volta ao primeiro instante – à inauguração: a esse momento recheado de novas possibilidades e novos corpos prontos a ser abraçados. Os fascistas de Salò não temem o tédio, pois sabem que tudo irá recomeçar: o tempo é o seu palimpsesto. 
«Belo e certo céu, vê-me a ser diferente! Após tanto orgulho, tanto e estranho ócio, carregado embora de estranhos poderes, faço a minha entrega ao espaço brilhante, sobre o lar dos mortos corre a minha sombra (…)»(2)
O Mal que respira em Salò e argumentar que conceitos de Bem e de Mal não se aplicam a este filme é falacioso é um terror despersonalizado; no sentido da não-encarnação. É um ectoplasma indistinto que voga sobre os indivíduos, moldando-lhes o comportamento, como o clima. É o mesmo tipo de mal que encontro nos aparelhos punitivos das histórias de Kafka e nas figuras intersticiais dos Ringwraiths de The Lord of the Rings de Tolkien: uma presença que mais que testemunhada é sentida.
A burocratização do mal, epígona da metade do século XX, não é fruto da hierarquia que se instaura no interior da propriedade, e que rege tanto o escritório como o excretório, mas, possivelmente, contingência de um fenómeno mais antigo: o advento do Iluminismo e a cessação das metanarrativas (mitos) de ordem religiosa. Com efeito, a imagem analógica do campo de concentração endémico do período da Segunda Grande Guerra é o Inferno. 
«Tem-se falado muito da solidão e da desorientação do homem desde a época em que o Paraíso deixou de ser objecto de uma crença activa. Conhecemos o vazio neutro dos céus e o seu terror. Mas talvez a perda do Inferno tenha sido mais devastadora ainda. Talvez a transformação do Inferno em pura metáfora tenha deixado uma lacuna formidável nas coordenadas do reconhecimento espacial e psicológico do espírito do Ocidente. A ausência dos condenados familiares escavou um vórtice que o Estado totalitário contemporâneo terá vindo preencher. Não temos Paraíso nem Inferno é ficarmos intoleravelmente despojados e sós num mundo sem espessura. Dos dois reinos perdidos, verificou-se que era o Inferno o mais fácil de recriar. (As suas descrições tinham desde sempre sido mais precisas.)»(3) 
A casa de Salò é um Inferno miniaturizado e as quatro personagens que a governam são embaixadores dos poderes institucionais: temos um juiz, um bispo, um duque e um político. Todos eles casados com as filhas uns dos outros, como que para sublinhar o pacto – a consanguinidade – entre os departamentos. A fenomenologia da hierarquia é a dominância, claro, mas mais que o simples jugo dos indivíduos, sob graus de exigências, é a domesticação do desconhecido. Numa hierarquia cada um tem o seu lugar cativo e as relações entre constituintes cumprem-se pela correspondência. Ora, o Homem hierarquizou o Inferno em círculos, em diversos níveis de torturas para os pecados mais exóticos, regidos por castas demoníacas de diferentes importâncias para o conhecer: para negociar com o Inominável.
O Diabo que atende o sacrifício do nobre é superior ao Familiar que auxilia a bruxa e, assim, cada qual controla o seu medo do desconhecido com um sistema de correspondências que não assusta ninguém, pois reproduz o modelo feudal terreno. A perda de todo esse sistema deixou, com toda a certeza, cicatrizes profundas no nosso tecido cultural. A transcrição de George Steiner aponta um efeito dessa queda, mas haverá outros.

Baseado no livro homónimo escrito pelo Marquês de Sade, Salò suplanta esse trabalho literário e apresenta-se como um objecto mais lúcido: o humor do filme é sempre acidental, inversamente ao humor de Sade que é propositado e procura ser constante. Pasolini cita Pierre Klossowsky, irmão de Balthus Klossowsky, e o seu Sade, Mon Prochain (título que evoca S. Bento Labre que comia as lombrigas expulsas nas próprias fezes), Roland Barthes e Sade, Fourier, Loyola, entre outros autores. Curiosamente, olvidou, intencionalmente ou não, o ensaio de Bataille em La Littérature et le Mal. O enredo de Salò pode ser entendido como uma sátira (grotesca) à erotização da relação que se estabelece entre professor e aluno. Como se os assassinos procurassem discípulos dignos entre as vítimas e as torturas fossem uma correspondência desproporcional com os ritos de passagem arquetípicos que os neófitos precisam cumprir para ganhar a confiança dos Mestres e garantir o treino intelectual ou físico. A ir por esse caminho, também ele legítimo, encontro nesta transcrição de Yukio Mishima o exemplo perfeito dessa premissa: 
«Ele é o homem mais livre do mundo... Ele acumula o Mal e ergue-se sobre ele. Se quisesse, poderia tocar a Eternidade com as pontas dos dedos levantados. Ele que fez santidade da imundice.»(4) 
Os celerados de Salò afundam-se na bebida e em acesas discussões filosóficas sobre a natureza do Mal. É preciso não esquecer que são eles a elite do seu país: aqueles que lêem e têm acesso à cultura estrangeira, alvo da censura imposta pelo regime. Assistimos à aniquilação da civilidade do Homem de Cultura, pois ele não previne a barbárie e acaba, enfim, por se perder em prejuízo de rituais sem sentido que têm como objectivo iluminar o seu espírito sobre um conhecimento mais elevado, mais transcendental. Sob a égide de que nada deve ser proibido se for excessivo, os fascistas de Salò almejam a ascese, mas o próprio movimento circular em que estão imersos regurgita-os sempre à ignorância. O Homem Clássico foi, em certa medida, um felizardo, pois nunca travou conhecimento com a face mais desumana do seu descendente.
Salò pertence a uma escola de cinema que se extinguiu. O casting de Pasolini é correctíssimo: as composições dos quatro fascistas são verdadeiramente repulsivas. Neste filme tudo é feio – até atonal.
No cinema, o texto literário é, cada vez mais, somente uma legenda para a imagem projectada. Em Salò as imagens ferem, é certo, mas quem deixa marcas é a palavra. Mandatório. Nem que seja visto só uma vez.


1) Marquês de Sade, Les 120 journées de Sodome, ou l'École du libertinage.
2) Paul Valéry, Le cimetière marin.
3) George Steiner, In Bluebeard's Castle: Some Notes Towards the Redefinition of Culture.
4) Yukio Mishima, Sado Kōshaku Fujin.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A minha opinião sobre a série televisiva «Gotham»


Gotham, série televisiva desenvolvida por Bruno Heller e exibida pelo canal Fox, é um produto bastardo, imaginado para capitalizar o sucesso e o apetite criados pela trilogia cinematográfica realizada por Christopher Nolan.

Em essência, os episódios não passam de um híbrido desequilibrado do popular jogo Quem é Quem? e do registo tradicional de séries televisivas policiais, como Homicide: Life on the Streets. O resultado é dolorosamente anticlimático, porque Gotham é uma série do Batman sem Batman.

Pelo menos, a série de banda desenhada Gotham Central, escrita por Ed Brubaker, Greg Rucka e desenhada por Michael Lark, que possui um espírito análogo à Gotham que nos traz aqui à colação, transmite um sentimento interessantíssimo, que é o seguinte: ao concentrar-se na luta de um punhado de polícias comuns de Gotham City contra a coterie de espantosos inimigos de Batman (como o Joker, o Pinguin, o Enigma, o Mr. Freeze, etc.), lembra-nos o porquê do Batman ser, com efeito, necessário – é que para lutar contra indivíduos tão incomuns, tão extraordinários, é preciso ser-se, também, assim tão incomum ou ainda mais extraordinário. Nas páginas de Gotham Central, ao ver-se os rotineiros inimigos de Batman em oposição a polícias vulgares, homens comuns sem nenhumas competências especiais, é-se lembrado que esses vilões são, afinal de contas, extremamente perigosos e muitíssimo difíceis de capturar – mais ou menos à semelhança dos mercenários de elite ou dos terroristas de topo que, por vezes, marcam os espaços noticiosos da nossa comunicação social.

Em Gotham Central, Batman aparece somente pontualmente, quase sempre em segundo plano, o que oferece um “realismo”, diga-se deste modo, a essa série singular, assim como um contraponto de avaliação que nos permite perceber o quão longe os polícias comuns arriscam a vida (ficcionalmente falando). Seguindo em sinal oposto, Gotham, de Heller, é um desastre, não indo para além de um cansativo desporto de identificações e de uma refractária introdução de criminosos imaginados a martelo para, evidentemente, encher chouriços, episódio a episódio, enquanto um, ainda infante, Bruce Wayne, numa composição entre o fantasmático barão de uma velha linhagem quasi-extinta e o arquetípico miúdo mimado, não cresce o suficiente para, enfim, tornar-se Batman, de uma vez por todas. No que concerne a esta personagem, é questionável a tutelagem do, ainda infante, James Gordon, numa composição entre o Kevin Costner de Os Intocáveis e o Bruce Willis quando este ainda tinha cabelo, que, vá lá saber-se porquê, vai tomar sob a sua asa o traumatizado Bruce Wayne, saído de fresco do homicídio dos pais. Que raio está o mordomo Alfred ali a fazer? Dir-se-ia que Gordon é mais Alfred que o próprio Alfred – que, aparentemente, justifica a sua presença apenas pelo catering. Gotham transforma Bruce Wayne numa espécie de Rex, o Cão Polícia, no sentido em que é uma personagem que dá o título à série (ou, neste caso, justifica-o), mas que, de facto, aparece pouquíssimo -- e fá-lo sempre com um olho no actor que com ela contracena e outro no tratador posicionado com a guloseima atrás da câmara. Não há pachorra.

O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita: Gotham está para o universo de Batman, tal como a mercearia de bairro está para o hipermercado – e falo em mercearia e em hipermercado, porque, aqui, meus caros, não existe, sequer, a pretensão da arte (como nos filmes de Burton, de Nolan ou até da série campy dos anos sessenta, com Adam West). Gotham é comercialista até ao osso. Enquanto série televisiva, agradará, penso, a duas categorias: 1) fãs irredutíveis de Batman, que consomem TUDO aquilo em que ele aparece – e até aquilo em que NÃO aparece, como é o caso – e 2) espectadores comuns, nada familiarizados com o universo de Batman, que gostam de séries policiais a puxar um bocadinho (mas só um bocadinho) para o esquisito (para aqueles que gostam de séries policiais a puxar muitíssimo para o esquisito existe a série televisiva Hannibal, desenvolvida por Bryan Fuller para o canal NBC, mas isso seriam outros quinhentos). Todos os outros que, como eu, ficam no meio – aqueles que gostam de Batman, mas que não gostam assim tanto que sejam capazes de engolir com gosto este pastel de bacalhau, feito com todos os peixes, excepto o bacalhau – dificilmente encontrarão motivos de interesse em Gotham. Desliguem a televisão e vão ler as boas bandas desenhadas de Batman, que ainda são uma boa meia-dúzia. É que também existem centenas de más bandas desenhadas do Batman, mas, enfim, como em tudo, uma personagem ou um determinado universo ficcional devem ser avaliados pelo que de melhor têm para mostrar e não pelo contrário.


sábado, 29 de novembro de 2014

Metempsicoses pictóricas

Os leitores dos meus Cadernos de Daath saberão identificar quais as imagens seguintes que foram, respectivamente, desenhadas e pintadas pelo autor norte-americano de banda desenhada Ted McKeever e pelo artista português Cristiano Cruz?

Ambos se encontram nas margens, diga-se: ignorados pela maioria do público, mas admirados -- e até venerados (admito a enorme influência que a descoberta da arte de McKeever influiu sobre o meu registo gráfico) -- pelos insiders e especialistas dos seus espaços de criação.

Desafio-vos, por conseguinte, a adivinhar a progenitura das obras que se seguem -- e a pensar que, afinal de contas, a banda desenhada também pode ser arte e que entre esta e a pintura existem laços insuspeitos de transferências, proximidades e preocupações, tanto estéticas quanto semânticas, no que alude às significações entre signos e referentes. (Aliás, no que concerne ao cruzamento da banda desenhada com a pintura, vale a pena lembrar Pedro Zamith: o pintor português que mescla com maior mestria -- e prestígio -- essas duas formas de representação.)


Ted McKeever ou Cristiano Cruz?






quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Excelente crítica a «Sepulturas dos Pais» em The OF Blog


«By the time I read the final panel, I felt a brief sort of aching commiseration, as the things lost served to remind me of the things gained over the course of this beautifully tragic story. "Sepulturas dos Pais" is another strong tale by a very talented writer.»


sábado, 22 de novembro de 2014

«The Seven Who Fled»: recomendação literária


Alguns leitores perguntaram-me o título e o autor do romance sobre o qual falei na minha participação na mesa-redonda sobre banda desenhada no Fórum Fantástico deste ano, porque não tinham percebido bem as minhas palavras. É este: The Seven Who Fled, de Frederic Prokosch. Leiam, que é divinal -- mas informo os mais incautos que este livro não é fácil e, além disso, é totalmente adverso ao tipo de literatura aforismática que alguns parecem tanto gostar, porque não dá trabalho a pensar. Aqui, meus caros, está-se a falar de literatura a sério, com L grande. Aqui fica um excerto:

«People and animals who know that death is coming, instinctively walk to certain remote and quiet haunts which subconsciously, without thinking or understanding why, they have remembered and selected for retreat on some previous excursion. It may be a quiet corner of the forest or a quiet spot on a hill, a peaceful cavern or a protected niche among rocks: they recognize it when they see it, for they have saved it for this ocasion without knowing it, quite unawares. When the time comes, they go and hide there, knowing that it is quiet and familiar and that they will be left alone. With human beings it is frequently a secret retreat, not in the landscape, but in the mind; an attitude; a vision of some kind, perhaps; but it does the same thing for them.»

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Excelente crítica a «Sepulturas dos Pais» na revista Blimunda

 

«(…) Sepulturas dos Pais é um livro que merece o epíteto de cruel, não porque a violência surja em várias vinhetas (e surge), mas sobretudo porque o que fica da sua leitura é o reverso das boas intenções sobre histórias bonitas ou finais felizes: chegado o futuro, não há esperança que sobreviva. Possa a memória servir para manter alguma luz por entre as trevas e já teremos alcançado toda a quota de esperança contida nestas Sepulturas dos Pais.»


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Visita guiada à exposição «Oraculum Mortuum: Um Tarot Tumular»


No próximo sábado, dia 22, entre as 16H00 e as 18H00, Gisela Monteiro estará na galeria da El Pep books (centro comercial Imaviz Underground) para fazer uma visita guiada à sua exposição fotográfica Oraculum Mortuum: Um Tarot Tumular. Uma oportunidade única para descobrirem os segredos sepulcrais deste tarot tumular.

Divulguem e apareçam: obrigado.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

«Sepulturas dos Pais» no Fórum Fantástico 2014



Ontem, no Fórum Fantástico 2014: Sepulturas dos Pais (Kingpin Books), comigo e André Coelho. Apontamento de uma mesa-redonda sobre banda desenhada, com moderação do crítico João Miguel Lameiras. Entre outros assuntos, falo sobre o meu método de escrita para banda desenhada e a razão pela qual a magia não está, de forma alguma, interessada em nós.
Sepulturas dos Pais é escrito por mim e desenhado por André Coelho.