segunda-feira, 30 de março de 2015

Revista LOUD! de Abril


O número de Abril da revista LOUD! está quase a chegar (disponível a partir da próxima quinta-feira, dia 2), numa edição especial de coleccionador, dedicada aos Led Zeppelin.

Além disso, destaco, ainda, a minha crónica bimestral, Consultor Funerário, na qual desvendo a origem histórica das tatuagens em Lisboa. Por isso, já sabem: fãs de Led Zeppelin, fãs de tatuagens e fãs de história de Lisboa, esta revista é, definitivamente, para vocês.


domingo, 29 de março de 2015

4ª Sessão de Sustos às Sextas (17 de Abril) com Medicina Canibal


No próximo dia 17 de Abril, às 21H30, ocorrerá a quarta sessão do ciclo de palestras sobre horror Sustos às Sextas (no Palácio dos Aciprestes, sede da Fundação Marquês de Pombal).
Charles Sangnoir, de La Chanson Noire, irá interpretar duas canções negras do seu sedutor repertório e convido-vos a assistir à minha palestra À Mercê da Medicina: Farmacologia Canibal Europeia e Portuguesa na Prática e na Cultura.
Marquem presença na página de Facebook do evento e divulguem. Obrigado: https://www.facebook.com/events/369185049933802/


sexta-feira, 20 de março de 2015

LÂMINA


Conheçam os LÂMINA, banda portuguesa de 'stoner doom rock', na qual o meu caro Filipe Homem Fonseca é o baixista. Um som endemoninhado que fere, exactamente, como uma lâmina bem afiada: quando se dá por isso, a ferida já é impossível de estancar. Excelente! Recomendo com entusiasmo negro.
Fiquem com a música Cold Blood. Deixem-se golpear e divulguem.


quinta-feira, 19 de março de 2015

«Nosferatu» musicado por Charles Sangnoir: amanhã no Seixal


Amanhã, dia 20, às 21H00, na Praça Luís de Camões, no Seixal, Charles Sangnoir, de La Chanson Noire, irá oferecer um espectáculo singular, musicando ao vivo o filme mudo Nosferatu, eine Symphonie des Grauens (1922) de Friedrich Wilhelm Murnau, cineasta pioneiro do movimento estético cinematográfico que ficou conhecido pela designação de "expressionismo alemão". A entrada é livre. Divulguem e apareçam.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Sustos às Sextas: terceira sessão


Na próxima sexta-feira, dia 13, às 21H30, ocorrerá a terceira sessão do ciclo de palestras sobre horror Sustos às Sextas, igualmente no Palácio dos Aciprestes, sede da Fundação Marquês de Pombal (em Linda-a-Velha). O programa será composto por uma palestra do escritor português de ficção científica João Barreiros, pela inauguração de uma exposição de ilustração de diversos autores portugueses comissariada por Bruno Caetano (Easy Lab/Take it Easy) e, ainda, pela dramatização do conto de terror The Monkey's Paw do escritor inglês William Wymark Jacobs. Passem a palavra e apareçam: atrever-se-ão a desapontar os espíritos?


terça-feira, 3 de março de 2015

O novo pão e o novo circo


É provável que a ubiquação de diversos programas televisivos sobre gastronomia, aliada à inegável popularização e hegemonia da figura contemporânea do chef de restaurante, criatura híbrida entre o cozinheiro fino e o empreendedor finório, seja sinal de que existe um processo de retrocesso a um tempo em que a comida se consistia como um poderoso indicador classista. Com efeito, aquilo que se come e como se come ainda distingue, vestigialmente num feitio tradicional, certas heterodoxias humanas, como preferências de grupos demográficos, étnicos ou emblemas de filiações ideológicas de múltiplas ordens; no entanto, assiste-se ao ressuscitar de uma nova-velha era em que a comida volta a ser símbolo sistemático, basilar, até, do valor e do lugar dos indivíduos na mesologia social em que estão inseridos.

Assim, mantimentos de primeira necessidade são vendidos nas superfícies comerciais com selos de dita marca branca, de proveniência obscura e manufacturados com matérias-primas de difícil identificação, muitas vezes ao lado de artigos alimentares apresentados com auras luxuosas nas quais os rótulos tranquilizam os consumidores com mais poder de compra com avisos de que esses produtos não se encontram à venda sob outras marcas ou denominações. Tal como a roupa barata se estraga mais depressa que aquela que é vendida a um preço mais elevado, também a comida barata serve para alimentar de farrapos as massas que ginasticam os seus ordenados de sobrevivência. Fora da esfera doméstica, o restaurante -- palavra cuja significação etimológica se relaciona com o restabelecimento da saúde -- apresenta-se cada vez mais como apogeu das mais ambiciosas aspirações do dia-a-dia: interrupção feérica do tempo rotineiro durante a qual é possível, em princípio, degustar não uma refeição, mas uma experiência sensorial transcendente, idealizada pelo 'chef' consagrado à especialidade dessa eucrasia. Há muito que o chef substituiu a figura do médico, já outrora substituído pelo nutricionista, na psique popular. Neste cintilante e espectacular universo gastronómico, a doença não é mais a fome, mas a pobreza, da qual aquela procede, pois a nova roda dos alimentos está fatiada de acordo com a quantidade de moedas que cada bolso contém, como é curial de um tempo neo-romano em que tudo tem de ser etiquetado com um preço e posto à venda.
Se Juvenal fosse transplantado para estes dias, diria que o pão e o circo não desapareceram, mas que ambos pioraram muitíssimo de qualidade.

(Imagem: O País da Cocanha, de Pieter Bruegel, o Velho. 1567.)

segunda-feira, 2 de março de 2015

1ª Bolsa de Guiões Fantasporto


No âmbito da programação da trigésima quinta edição do Fantasporto, Festival Internacional de Cinema do Porto, irá ocorrer na próxima quarta-feira, dia 4, das 15H00 às 18H00, no Teatro Rivoli, a primeira Bolsa de Guiões Fantasporto.

Esta inspirada iniciativa, organizada pelo escritor e jornalista Octávio dos Santos e por Beatriz Pacheco Pereira, co-directora do Fantasporto, consiste numa sessão de análise e debate de diversos textos de cariz fantástico, escritos por autores portugueses, com o objectivo de encontrar-se sinergias, entre escritores e cineastas, que confluam em posteriores adaptações cinematográficas dos materiais literários em observação.

O meu conto No Muro (que escrevi propositadamente há três anos para a iniciativa Contos Digitais do Diário de Notícias, em parceria com a Escritório Editora) é um dos títulos reunidos nessa amostra.

Estão todos convidados a aparecer e, como habitual, agradeço a divulgação.
 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O Vício da Gravidade


Em 2009, assim que saiu, li o romance Inherent Vice, de Thomas Pynchon, um dos autores que mais admiro, mas, admito, tenho pouquíssimas memórias desse livro atípico na obra do escritor norte-americano. Tenho uma noção diluída do enredo e de algumas personagens e situações que considerei mais interessantes, mas teria de relê-lo para refrescar a memória, quanto ao panorama. O problema é que o livro -- para o padrão fixado por Pynchon -- é demasiado ligeiro e até superficial: é, somente, uma história rocambolesca, semipolicial, semi-humorística, sobre alguns arquétipos da subcultura norte-americana de inícios da segunda metade do século XX e, sobretudo, demasiado esquecível, se é que me faço entender. Depois da publicação do genial e muito bem arquitectado Against the Day, um extraordinário romance, gigantesco em páginas e em ambição, este Inherent Vice foi uma desilusão e pêras.

Penso que Pynchon, conhecido por estar muitos anos sem publicar nenhum romance novo, quis, dessa vez, reduzir o tempo de espera dos seus leitores publicando um novo título -- apressado -- apenas com três anos de intervalo em relação à obra anterior (entre Against the Day e Mason & Dixon estão, retrospectivamente, nove anos de distância -- e dezassete anos entre Vineland e Gravity's Rainbow). Daí que não me surpreende que Inherent Vice, um "Pynchon light", seja a primeira escolha de Hollywood para uma adaptação cinematográfica do universo autoral deste escritor singular.

Todavia, para o espectador comum, Inherent Vice, realizado pelo interessante Paul Thomas Anderson, não será tão ligeiro quanto isso, porque o filme está a ser criticado por ser demasiado complexo e não-linear. Ora, bem: palavras como "complexo" e "não-linear" são música para os meus ouvidos, por isso lá terei de ir ao cinema comprovar se os críticos e o público têm razão.


Gostava, não obstante, que Hollywood tentasse filmar uma adaptação de Gravity's Rainbow, publicado em 1973 e rejeitado para o Prémio Pulitzer por culpa de uma sequência sadomasoquista de sexo coprofágico entre as personagens Katje Borgesius (uma agente dupla holandesa que é, em simultâneo, uma escrava sexual de um oficial da SS) e o submisso Brigadeiro Ernest Pudding; acrescente-se os laivos de zoofilia que envolvem pelo pescoço e pela cintura a bombástica Katje Borgesius e o estrambótico polvo Grigori, condicionado pavloviamente para atacá-la numa praia da Côte d'Azur (evento do qual é salva pelo protagonista Tyrone Slothrop, que distrai Grigori com um apetitoso caranguejo) -- uma passagem que evoca, de imediato, a arte shunga (estilo erótico japonês, cognato da nossa palavra chunga, que significa reles ou ordinário) do artista japonês Hokusai; em principal, a peça oitocentista Tako te Ama (O Sonho da Mulher do Pescador), mas, de igual modo, certas capas de revistas pulp norte-americanas, como a Spicy Adventure Stories, acervo de bizarras aventuras lascivas, editada nos anos trinta pela Culture Publications.

Considerando que Gravity's Rainbow data de 1973 e as mangas revolucionárias de Toshio Maeda, pai do género Hentai de banda desenhada japonesa, só apareceram em meados dos anos oitenta e inícios dos anos noventa, Pynchon será, na verdade, o primeiro autor a introduzir o sexo tentacular na cultura ocidental -- e, de chofre, no campo da literatura erudita. Aliás, tenho quase a certeza que os bonzos bem-pensantes que gostam muito de apregoar à boca cheia a sua admiração por Pynchon, enquanto crachá cultural, nunca leram, de facto, as tropelias tentaculíferas e escatofágicas de Gravity's Rainbow (entre outros desatinos de alto apuro que lá se encontram), com mais pontos em comum com os universos marginais de alguma literatura fantástica do que com a comoditização de costumes e conceitos domesticados que, hoje, infelizmente, passa por "boa" literatura.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Coisas


Adoro a mitologia criada em órbita da entidade extraterrestre chamada, laconicamente, "Coisa": espécie de predador cósmico, sem forma e linguagem definidas, cujo método de reprodução consiste na assimilação trófica de outras formas de vida, invadindo-lhes os corpos e criando novíssimas versões artificiais. Nos filmes de John Carpenter (1982) e Matthijs van Heijningen, Jr. (2011), a Coisa demonstra não possuir conceitos ou preconceitos de taxonomia; simplesmente, agarra no material orgânico disponível e molda corpos híbridos, desconjuntados, em que funções de membros e órgãos são trocadas ou reinventadas -- é, no fundo, a interpretação imediata, ultrapragmática, que o proteico instinto exomórfico faz dos seres vivos que vai entranhando, sem ter conhecimentos mais precisos sobre a verdadeira natureza daquilo que está a predar e, no fundo, sem preocupações a esse respeito. A Coisa é, nesse sentido, a antítese da reflexão, da planificação: é totalmente instintiva, animal, primitiva; nos poucos momentos em que exibe alguma estratégia vestigial de médio-prazo, ela está, em exclusivo, ao serviço da sua brutal sobrevivência. Não obstante, é aqui que se acha uma imperfeição que sempre me provocou alguma perplexidade; embora, uma que nunca me tenha retirado a genuína admiração que tenho pela visão de Carpenter e a fruição do filme de Matthijs van Heijningen, Jr.

O comportamento rudimentar da Coisa (o mais completo avatar cinematográfico do horror literário de estirpe lovecraftiana, híbrido de hemorroíssa com Yog-Sothoth; ou seja, a mescla do medo do contágio pelo elemento estranho à comunidade com a imprevisibilidade irascível do destino) não se compagina com o retrato que, em simultâneo, lhe é feito pelos cineastas, enquanto ser cultural e tecnológico com aptidão de, aparentemente, pilotar um intrincado veículo intergaláctico até à Terra; logo, ser criatura civilizacional, com percurso e projecto históricos (vulgo, que vive no tempo, em vez de viver no momento). Para mim, é uma estranheza análoga à de descobrir-se a existência de uma espécie de ténia capaz de edificar estruturas inorgânicas (ou orgânicas...). Contudo, ao procurar informações adicionais sobre esta prequela do filme de Carpenter, percebi, com agradável surpresa, que uma inquietação mais ou menos parecida passou pela cabeça dos criadores do filme.

É que o final original de The Thing, de 2011, previa que a protagonista Kate Lloyd (paleontóloga interpretada por Mary Elizabeth Winstead) descobrisse no interior da velhíssima nave espacial da Coisa (despenhada há milhares de anos no Antárctico e aí conservada no gelo) que essa espécie, afinal de contas, era apenas uma entre muitos organismos recolhidos através do universo para fins de pesquisa científica por outra espécie, inteligente e civilizada: a prová-lo estariam os corpos mortos dos pilotos, eliminados pela Coisa quando este animal se soltou do invólucro que o mantinha prisioneiro, provocando dessa forma a queda precipitada da nave. Teria sido um final estupendo para um filme que, em geral, consiste numa boa prequela/homenagem ao filme de Carpenter, faltando-lhe, evidentemente, a atmosfera angustiante e o sufocante niilismo lovecraftiano que nesse título estão presentes com uma força imensa. A razão pela qual este final foi rejeitado pelos produtores e encenado outro desfecho menos conseguido ocultar-se-á junto das razões que estiveram na decisão de substituir sem justificação provável a totalidade dos efeitos especiais animatrónicos por efeitos visuais gerados digitalmente, o que rouba muita da autenticidade (e desconforto) que fizeram do filme de Carpenter uma obra visionária.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Sustos às Sextas: segunda sessão na próxima sexta-feira 13


Na próxima sexta-feira, dia 13, a Fundação Marquês de Pombal (Palácio dos Aciprestes, em Linda-a-Velha) acolherá às 21H30 a segunda sessão do ciclo de palestras sobre horror Sustos às Sextas, na qual a tónica será colocada sobre o cinema de terror, cortesia dos convidados Rodrigo Guedes de Carvalho, Tiago Guedes e Frederico Serra. Destaco que esta sessão consistirá, ainda, na última oportunidade de verem a exposição de fotografia Da Pedra aos Ossos: Observação do Limiar da Infinitude, de Gisela Monteiro. Passem a palavra e não faltem: os fantasmas esperam, amaldiçoados, por vós.





quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

«Sepulturas dos Pais» em lista internacional de melhores livros de BD de 2014

 
Sepulturas dos Pais (Kingpin Books, 2014) escrito por mim e desenhado por André Coelho, está na lista internacional dos melhores livros de banda desenhada, publicados em 2014, no site de Paul Gravett, crítico e historiador inglês de BD.

E a antologia Crumbs (Kingpin Books, 2014), na qual participo com a história O Homem-Javali Vai Casar: ou, Leng Tch'e, escrita por mim e desenhada por Pedro Serpa, também lá se encontra.

Obrigado a Pedro Moura, crítico português de banda desenhada, pelas escolhas. A ler, aqui: http://www.paulgravett.com/articles/article/books_to_read_best_graphic_novels_of_2014#portugal


domingo, 1 de fevereiro de 2015

Exposição de pintura «Figuras Icónicas» de Luís Camilo Alves


Até ao dia 4 de Março, poderão ver na Galeria Arte Periférica (no Centro Cultural de Belém, em Lisboa), uma excelente exposição de pintura do artista Luís Camilo Alves, intitulada Figuras Icónicas. Recomendo-a com entusiasmo: não faltem.
Informo que o Voltaire versicolor que podem ver na imagem em anexo é o meu caro Filipe Homem Fonseca, numa caracterização muito especial.

Agradeço a divulgação.


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Neonazismo na cultura popular no aniversário dos setenta anos da libertação de Auschwitz


O boçal Giorgio Tsoukalos, suíço de ascendência grega conhecido pela maioria do público por ser um dos difusores mais fanáticos da Teoria dos Antigos Astronautas e da Teoria da Génese Extraterrestre (conjuntos sincréticos de ideias eveméricas que, desde meados dos anos cinquenta do século passado, têm alastrado das fímbrias recônditas de uma certa cultura marginal para o centro da cultura de entretenimento popular, em injecções de doses desiguais, mas num ritmo constante), apresenta um novo programa televisivo, transmitido nestes dias pelo Canal História, intitulado In Search of Aliens, no qual, em dez episódios, reitera, a título individual, hipóteses e conceitos mostrados colectivamente na anterior série televisiva Ancient Aliens, em que também participou, juntamente com outros defensores desses disparates. Um dos episódios de In Search of Aliens transmitidos ontem, por volta das vinte e duas horas, teve como título Nazi Time Travelers (Viajantes Temporais Nazis).

É com desconforto que evidencio a infelicidade em que consiste o facto deste tipo de lixo televisivo ter sido transmitido na véspera do aniversário dos setenta anos da libertação do campo nazi de extermínio de Auschwitz pelas tropas do exército russo, a 27 de Janeiro de 1945 (hoje, o Dia Internacional de Lembrança do Holocausto). O problema principal de programas do jaez de Nazi Time Travelers é a ignorância cabal que os seus produtores têm (ou aparentam ter) sobre a origem das ideias recauchutadas que apresentam: neste caso, ideias de repreensível propaganda neonazi, desenvolvidas a partir do final da Segunda Grande Guerra por ficcionistas e ocultistas nacionais-socialistas ou de pendor nacional-socialista, como Savitri Devi (pseudónimo da escritora francesa, de ascendência grega, Maximiani Portas) e o chileno Miguel Serrano, autores de, respectivamente, The Lightning and the Sun (1958) e da trilogia El Cordón Dorado: Hitlerismo Esotérico (1978), Adolf Hitler, el Último Avatara (1984), Manú: "Por el Hombre que Vendra" (1991). Porém, Devi e Serrano são, somente, dois dos mais conhecidos e influentes propagandistas de ficção ocultista neonazi, um género abjecto que mistura esoterismo, ficção científica e pseudo-história e cuja origem pode ser traçada, por exemplo, a partir da publicação dos romances do pseudo-arqueólogo alemão Edmund Kiss, como Das gläserne Meer (O Mar de Vidro), de 1930, ou Die letzte Königin von Atlantis (A Última Rainha da Atlântida), de 1931, e dos contos que o engenheiro suíço Erich Halik publicou na primeira metade dos anos cinquenta do século passado na revista ocultista austríaca Mensch und Schicksal (Homem e Destino), nos quais surge pela primeira vez o mito do "sol negro" aliado à SS, assim como os discos voadores da SS.
A concepção de discos voadores nazis e suas bases secretas nos pólos Norte e Sul influenciaram toda a produção dos autores neonazis ou simpatizantes do nacional-socialismo que, no decurso da segunda metade do século XX, desenvolveram esses mitos em cosmogonias de pacotilha, mistas de messianismo hitleriano, teorias das conspirações e pseudo-história. Uma vez publicadas, as ideias, por mais marginais que sejam, encontram maneiras de alcançar audiências que estão além do público pretendido pelos autores e, perdida a dimensão original que robusteceu as suas criações, tornam-se algoritmos para novas semânticas. É o caso dos condenáveis delírios sobre discos voadores e máquinas do tempo nazis que, hoje, são destiladas pelos defensores da Teoria dos Antigos Astronautas em programas de grande audiência, como Ancient Aliens e In Search of Aliens: anunciadas sem contextualização e sem quaisquer alusões quanto às proveniências neonazis, elas adquirirão, certamente, cunhos de credibilidade para muitos espectadores que não estão, como é óbvio, familiarizados com o mundo subterrâneo desta espécie de contracultura e que se deixam fascinar pelo sensacionalismo que lhes serve de Cavalo de Tróia.

O conteúdo de Nazi Time Travelers é, especialmente, lamentável na promoção da noção - errónea - de que a tecnologia nacional-socialista de guerra era mais avançada que a dos Aliados e que somente por um azar indefinido é que o III Reich não ganhou a Segunda Grande Guerra. O facto é que a tecnologia nacional-socialista de guerra e a ciência nacional-socialista eram inferiores às dos Aliados, precisamente porque eram nacionais-socialistas: ou seja, as diversas áreas de conhecimento científico estavam obrigatoriamente subordinadas à ideologia nazi e seus tropos desequilibrados. Depois de extirparem das universidades os conhecimentos ditos "judaicos" ou "contaminados por judaísmo", os arquitectos do nacional-socialismo tiveram de preencher esse vazio com todas as ordens de teorias alternativas e pseudoconhecimentos que, independentemente de serem correctos, válidos ou úteis, tinham de, em principal, reflectir o radicalismo do pensamento político do nacional-socialismo. Por radicalismo, entenda-se a ruptura completa com o conhecimento já estabelecido (que, curiosamente, é também uma característica dos defensores das Teorias dos Antigos Astronautas e da Teoria da Génese Extraterrestre). Assim, a ciência nacional-socialista ficou preenchida pelas ideias absurdas do engenheiro austríaco Hans Hörbiger, que, note-se, já medravam em algumas universidades alemãs e na doutrina oficial dos Camisas Castanhas, sendo observadas como uma alternativa "ariana" às teorias "judaicas" de Einstein, entre outros.
Embora falecido em 1931, Hörbiger foi, com efeito, uma das figuras mais infuentes e importantes do III Reich, por via da sua Teoria do Mundo de Gelo, publicada pela primeira vez em 1913: segundo esse bizarro ponto de vista, toda a matéria do universo seria constituída pelos resultados de choques violentos entre fogo e gelo. Na cosmogonia hörbigeriana, os "arianos", antepassados dos autênticos alemães, teriam criado novas colónias nas Américas Central e do Sul, após o Dilúvio que submergiu a sua pátria na Atlântida. Foi esta ideia que influenciou o já citado pseudo-arqueólogo Edmund Kiss a viajar até à Bolívia e ao Peru, em 1928, para tentar encontrar vestígios de civilização "ariana" nas ruínas de Puma Punku e Tiahuanaco. As conclusões inventadas por Kiss são, presentemente, vendidas com gusto pelos defensores da Teoria dos Antigos Astronautas nos seus programas televisivos a um público generalista que, sejamos honestos, desconhece completamente estas ligações nazis e neonazis. Arrisco a hipótese de que também a maioria dos defensores da Teoria dos Antigos Astronautas, entre os quais Tsoukalos, também desconhecerá a proveniência nazi e neonazi do material em que apoia as suas convicções estapafúrdias, mas aquilo que é factual é que alguns deles, como Erich von Däniken, já declararam opiniões racistas e de pendor neonazi em alguns dos seus livros.

Prosseguindo, Die Glocke (o sino), a hipotética tecnologia que permitia aos nazis viajar no tempo, apresentada em Nazi Time Travelers, é uma ficção inventada pelo jornalista polaco de extrema-direita Igor Witkowski no livro Prawda o Wunderwaffe (A Verdade Sobre as Wunderwaffe), de 2000: levada ao colo pelos teoristas das conspirações, consiste numa ideia absurda que alcançou há poucos anos o campo televisivo ocupado pelos defensores da Teoria dos Antigos Astronautas, que nela desejam ver aplicações efectivas de tecnologia extraterrestre, chegando a afirmar que alguns oficiais nazis escaparam temporalmente através dela.
Sinceramente, é doentio que estes programas reforcem na psique popular uma sensacionalista mitologia neonazi que não se corresponde em nada com a realidade histórica. Programas como Nazi Time Travelers, e filmes como o execrável Iron Sky de Timo Vuorensola (2012), cujo trailer da sequela neste momento em produção (Iron Sky: The Coming Race - um título que remete para o livro The Coming Race, de 1871, do escritor oitocentista inglês Edward Bulwer-Lytton, no qual aparece pela primeira vez o conceito energético-místico da força chamada de Vril, elemento que, posteriormente, influenciou o esoterismo teosófico blavatskiano, o antroposofismo steineriano e o esoterismo neonazi) mostra a elite nacional-socialista refugiada numa cidade agartiana no interior de uma Terra Oca antárctica, respigam elementos do esoterismo e pseudo-história neonazi e transformam o regime nacional-socialista numa camarilha de vilões disneyescos, obcecados pelo oculto.
Será, certamente, pela via do imaginário misterioso do ocultismo e do contorno contracultural com que estas ideias são apresentadas que o público mais jovem, ainda sem referências históricas sólidas, adere emocionalmente a elas, naquilo em que, muitas vezes, significa o primeiro passo para o activismo político dentro dessas balaustradas.

Para combater a ignorância e o pseudoconhecimento, nada como a verdade histórica. Nesse sentido, em memória de todos aqueles que foram assassinados barbaramente por uma ideologia que fetichizou a morte e que, creio, não possui nenhuma análoga com outra sua contemporânea (aqueles que tentam desvalorizar o genocídio projectado pelo nazismo, insistindo nas supostas idêntica ou superior violência do comunismo, em especial o comunismo dito estalinista, simplesmente não sabem do que estão a falar), recomendo a leitura daquele que, na minha opinião, poderá ser o melhor livro sobre o fenómeno de Auschwitz: Auschwitz, de Debórah Dwork e Robert Jan Van Pelt.
Estes autores aproximam-se da interpretação "funcionalista" sobre o Holocausto, embora eu me incline mais para uma interpretação "intencionalista" (simplificando, segundo os "funcionalistas", a Solução Final Para a Questão Judaica foi uma contingência, enquanto que de acordo com os "intencionalistas" o genocídio dos judeus estaria delineado, com menor ou maior detalhe, desde as vésperas da Segunda Grande Guerra).

Para não esquecer o passado e para não esquecer que o futuro não está garantido.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

«O Barbeiro que Contava Histórias» de André Oliveira



Leiam a excelente BD curta O Barbeiro que Contava Histórias, escrita por André Oliveira e desenhada por Nuno Lourenço Rodrigues, publicada no mais recente número da revista Cais. Oliveira é, na minha opinião, um dos melhores argumentistas portugueses de banda desenhada da nova geração e vale muitíssimo a pena seguir sempre o seu trabalho, que é sensível, inteligente e tem aquela chama que marca a diferença. Confiram aqui: http://www.acalopsia.com/o-barbeiro-que-contava-historias-com-nuno-lourenco-rodrigues/

domingo, 18 de janeiro de 2015

Vídeo de «Da Pedra aos Ossos» de Gisela Monteiro



Gisela Monteiro (criadora do blogue Mort Safe) fala neste vídeo sobre a sua nova exposição fotográfica, Da Pedra aos Ossos: Observação Sobre o Limiar da Infinitude, inaugurada ontem na Fundação Marquês de Pombal no âmbito da primeira edição do ciclo de palestras sobre horror Sustos às Sextas. A ver e ouvir com atenção.

A exposição estará patente na Fundação Marquês de Pombal durante as próximas semanas: a visitar, sem falta.



quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Ciclo Sustos às Sextas + Inauguração da exposição «Da Pedra aos Ossos»



Na próxima sexta-feira, dia 16, às 21H30, inaugurar-se-á a primeira edição do ciclo de cinco palestras sobre horror, intituladas Sustos às Sextas -- sempre às sextas-feiras à noite no Palácio dos Aciprestes (sede da Fundação Marquês de Pombal, em Linda-a-Velha).

Esta primeira edição contará, entre outras interpretações, com uma palestra de Ana Paula Guimarães, intitulada O Terror Sobrenatural e a Literatura Popular em Portugal, e com a inauguração da exposição fotográfica Da Pedra aos Ossos: Observação do Limiar da Infinitude de Gisela Monteiro.
Entre túmulos de mármore, flores sepulcrais e capelas de ossos escondem-se caveiras que nos observam, silenciosas, com órbitas vazias. Em dezanove imagens, a preto-e-branco, Gisela Monteiro convida a olhar com novidade essas caveiras - de pedra e de osso - que nos esperam na Morte e a interrogarmo-nos sobre a efemeridade da Vida Humana.
Agradeço a vossa presença e a vossa divulgação.
 
 
 

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Sobre teorias das conspirações


Seria inevitável não circularem pela Internet as mais diversas teorias das conspirações sobre o assassinato dos colaboradores do semanário satírico francês Charlie Hebdo e episódios subsequentes, ocorridos no mesmo dia (7 de Janeiro). Uma dessas teorias descabeladas relaciona-se com o polícia alvejado a sangue-frio na cabeça pelos terroristas e insiste que este agente não foi ferido e que o acontecimento foi encenado, guindando-se a conclusão no facto de não se ter visto a cabeça do homem a rebentar com o disparo. É preciso não se perceber nada sobre projécteis e tipos de munições. Eu não sei se o polícia foi atingido na cabeça ou em outra parte do corpo (pelas costas ou no pescoço), mas, independentemente disso, balas de tipo full metal jacket (usadas em armas de assalto, como as AK47 empunhadas pelos terroristas) caracterizam-se, precisamente, por não se fragmentarem dentro dos alvos atingidos -- pelo contrário, atravessam-nos sem provocarem grandes danos e com feridas de entrada e saída muito pequenas. Foi um tipo de projéctil criado na segunda metade do século XIX (pelos franceses, curiosamente) e popularizado internacionalmente depois da primeira Convenção de Haia (1899) ter proibido o emprego de balas de tipo dum dum, que se fragmentam facilmente dentro dos alvos, abrindo-lhes feridas de saída muito grandes pelas quais espirra com aparato toda a matéria orgânica entretanto liquefeita pelos estilhaços. Por conseguinte, aquilo que se vê no vídeo corresponde completamente ao efeito de um tiro dado (na cabeça ou em outra parte do corpo) com uma bala de tipo full metal jacket, característica das armas AK47: um tiro "limpo", sem espirro de sangue e matéria orgânica.

O problema das teorias das conspirações é que são construídas com base em pouquíssima informação -- e informação errada (deliberada ou acidentalmente). Com efeito, as teorias das conspirações esgotam-se no enunciado: nunca comportam muito texto, digamos assim, porque isso seria o desvirtuamento da sua teleologia. São ideias atractivas por culpa da simplicidade e fortíssima carga emocional (a tónica é sempre colocada na emoção e não na razão), mas não são corroboradas por provas que atestem a sua veracidade. Assim, são apenas ruído. Não existirá, creio, um perfil-chave para os crentes em teorias das conspirações, mas colocarei a hipótese -- verosímil, à luz dos dados -- de serem indivíduos que se colocam contra o sistema primeiro e fazem as perguntas depois. Há casos de crentes em teorias das conspirações cujas vidas são, irremediavelmente, transtornadas pela espiral de desconfiança em que estas ideias auto-referenciais os vão entrecendo, mas a maioria apenas procurará as emoções fortes do chamado entretenimento barato. As teorias das conspirações fazem parte do campo dos pseudoconhecimentos, juntamente com a teoria da génese extraterrestre, por exemplo. São atalhos de pensamento que confortam aqueles que não têm tempo para reflectir e aqueles que não têm capacidade para pensar muito -- o que vai dar ao mesmo, bem vistas as coisas.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Terrorismo e populismo


Não é apenas neste momento que o terrorismo de inspiração islâmica e o autoritarismo europeu de extrema-direita andam, indirectamente ou directamente, consorciados. Sabendo isso, lembrei-me de resgatar do fundo da estante este livro, com uma capa (e título) que considero pertinente e cuja leitura recomendo.

Na sequência do recente assassinato de colaboradores do semanário satírico francês Charlie Hebdo por militantes do islamismo extremo tem-se escrito e falado bastante sobre o tema da liberdade de expressão, mas penso que essa observação é um desvio da realidade: nós achamos que o crime foi um atentado à liberdade de expressão, mas tal conceito nunca passou, certamente, pelas mentes das criaturas que, de armas empunhadas, invadiram a redacção do citado jornal francês -- o objectivo delas foi, somente, punir actos considerados blasfemos; vulgo, as representações gráficas do profeta Maomé. Com efeito, o islamismo extremo não está preocupado com a liberdade de expressão (figura constitucional que nem sequer valoriza): na sua visão, os desenhadores mereceram morrer, somente porque desrespeitaram o tradicional aniconismo. Estamos, pois, diante de uma mentalidade radical, de cunho primitivo, para a qual a pena de morte ainda é o castigo reservado aos considerados blasfemos.

Na verdade, o islamismo, como fenómeno, concentra várias idiossincrasias que concorrem para radicalizações efectuadas por grupos e organizações muito distintas, que dele procedem ou que, no mínimo, nele encontram um espaço para medrar. Entre essas circunstâncias especiais, estarão, à partida, dois factores históricos importantes que influenciarão e consolidarão o extremismo: 1) ao contrário de outros profetas, pertencentes a outras religiões, como Cristo, por exemplo, Maomé foi, em simultâneo, líder religioso, líder político e líder militar e 2) o mundo islâmico não conheceu períodos intensos de fervilhação e debate culturais, análogos aos renascimentos (ducentista e quinhentista) e iluminismo (seiscentista e setecentista) europeus, em grande parte parte por culpa da proibição da introdução da tipografia de caracteres móveis, porque, segundo a antiga tradição, o Corão não podia ser impresso, apenas manuscrito. O facto de Maomé ter sido, também, um líder militar tem sido, certamente, uma influência fundamental para a radicalização de determinadas obediências islâmicas, como o wahabismo (nascido no século XVIII) e o qutbismo (criado no século XX), ambas de inspiração sunita -- ou ortodoxa. Por outro lado, a ausência de uma pretérita revolução literária, apoiada pela imprensa de caracteres móveis, terá impedido, no fundo, a popularização de vias islâmicas mais progressistas e até uma revolução filosófico-científica, como foi ocorrendo um pouco por toda a Europa durante os séculos XVII, XVIII e XIX.

Jean-Marie Le Pen, o líder histórico da Frente Nacional francesa, já disse há poucas horas que o jornal Charlie Hebdo era um inimigo do seu partido e que, por isso, não podia empatizar com o seu espírito «anarco-trotskista» e corrosivo da moralidade política. Bem observadas as coisas, aquilo que Le Pen está a dizer é que "o inimigo do meu inimigo, meu amigo é". Como demonstra a capa do livro que publico em anexo, já vimos coisas parecidas a acontecer. A nauseabunda queda para a catástrofe é abrupta e não se anuncia com antecedência.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

«Sepulturas dos Pais» é Melhor Álbum de BD de 2014


O site ACalopsia compilou uma lista das vinte bandas desenhadas essenciais de 2014 e o primeiro lugar na categoria de Melhor Álbum Nacional é Sepulturas dos Pais (Kingpin Books), escrito por mim e desenhado por André Coelho. Segundo o texto, foi o único livro que, por unanimidade, figurou em todas as listas de todos os colaboradores votantes: http://www.acalopsia.com/20-melhores-bd-2014/5/




segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Sobre a hexalogia de Peter Jackson


Vistos todos os filmes da hexalogia tolkiana de Peter Jackson confirma-se que ele é um visionário e um cineasta mais subtil do que aquilo que a canga de efeitos visuais desses filmes deixa observar.

O trabalho de adaptação efectuado por Jackson e seus co-argumentistas nesta série é extraordinário e, sinceramente, custa-me levar a sério algumas das críticas que têm sido feitas na imprensa especializada -- muitas delas fazem-me especular sobre se, com efeito, os críticos leram os livros de Tolkien que estão nas bases destas adaptações cinematográficas. Como já tive oportunidade de escrever em outro artigo, não sou, propriamente, um amante, diga-se deste modo, do universo tolkiano e nem sequer cresci com este imaginário; condições que, não obstante, estão longe de não me deixarem apreciar estes livros e filmes de modo absolutamente franco.

Uma leitura comparada do livro The Hobbit e dos três filmes com que Jackson o adaptou demonstram, sem margem para dúvida, que estes seguem-no de muito perto, tanto no conteúdo como na cronologia: o livro é pequeno e os filmes são grandes, mas, como já declarei anteriormente, contar algo em imagens é mais demorado que contar algo por palavras -- e é espantoso regressar ao livro e constatar que os filmes são totalmente fiéis à linha narrativa; excepções feitas a alguns desvios, inventados por razões de transposição do material da sua linguagem literária original para a cinematográfica e suas particulares exigências de forma e de expectativas. Simplesmente, criticar a trilogia cinematográfica de The Hobbit dizendo que é um exercício cínico de insuflar um livro pequeno para três filmes elefantinos é, no mínimo, simplista e, no máximo, um disparate: desafio os detentores desta opinião a reler (ou a ler...) o livro e a esboçar um modo de colocar todo o texto num único filme sem que o resultado não se apresente num feitio apressado ou, pior, elíptico. Esse juízo do "livro pequeno e dos filmes grandes" é, erroneamente, fortalecido pelo facto da trilogia de filmes que adaptou The Lord of the Rings coincidir em número com os livros, mas, lá está!, outra leitura atenta revela um caso oposto ao de The Hobbit: Jackson deixou muito texto de fora quando filmou os três filmes de The Lord of the Rings. Em The Hobbit, pelo contrário, como o livro é mais pequeno, foi capaz de seguir de perto praticamente tudo aquilo que está escrito.

No fundo, quem odeia Tolkien, pelas mais diferentes razões (ou porque acha que ele escrevia mal ou porque acha que ele era reaccionário ou porque acha que ele era misógino ou por-dar-cá-aquela-palha), irá sempre reclamar seja do que for que esteja relacionado com ele: filmes ou livros. Por outro lado, os fanáticos de Tolkien, que até lhe atribuem um papel que ele nunca teve ou, no mínimo, nunca procurou, também irão sempre reclamar, porque nada estará suficientemente bem adaptado para agradar-lhes. Porém, aqueles que, como eu, se encontram a meio-caminho, não sendo sicofantas nem elogiastas, encontrarão diversas razões para gostar bastante destes filmes e destes livros, descobrindo neles leituras interessantíssimas em sintonia total com as coordenadas histórico-sociais que lhes serviram de berço.

Os três filmes de The Hobbit e os três filmes de The Lord of the Rings são dos títulos mais importantes, entusiasmantes e essenciais das últimas décadas. E o facto de serem, desavergonhadamente, sobre anões, hobbits, orcs, dragões, elfos e feiticeiros enche-me de esperança, porque se um punhado de filmes de fantasia é capaz de transmitir algumas das mais belas imagens que já tivemos oportunidade de ver em cinema e alguns dos retratos mais pungentes da natureza humana alguma vez postos em película, então é possível que, afinal de contas, a nossa capacidade de imaginar não esteja de todo perdida. Pessoalmente, prefiro ver vezes sem conta um dragão eloquente como Smaug a discorrer sobre a avareza ou Gandalf a espadeirar contra o Balrog enquanto ambos se precipitam no abismo, do que um único episódio da sobrevalorizada série televisiva Game of Thrones, que, um pouco por todo o lado, é mais ou menos laureada como sendo "fantasia feita para a malta que pensa". Se rabos e mamas a dar com um pau é aquilo que a malta que pensa quer ver, então considero-me, sem nenhum complexo, estúpido para lá de qualquer hipótese de recuperação.

Obrigado, Jackson. Obrigado, Tolkien.