domingo, 8 de maio de 2011

Pré-Apresentação de "Batalha" na 81ª Feira do Livro de Lisboa


A pré-apresentação de Batalha (Saída de Emergência) ontem na 81ª Feira do Livro foi um verdadeiro sucesso! Eu e o artista Daniel Silvestre da Silva agradecemos às dezenas de leitores que apareceram e desejamos que gostem do romance e das ilustrações.



Fotos de Gisela Monteiro.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

"Batalha" e "O Pequeno Deus Cego"


Amanhã é o dia em que apresento o romance Batalha (Saída de Emergência) e faço a antevisão do álbum de banda desenhada O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books).



Batalha será apresentado às 17H00, na 81ª Feira do Livro de Lisboa, no stand da Saída de Emergência. Comigo, estará o artista Daniel Silvestre da Silva, que desenhou as ilustrações do romance. Batalha é um romance assumidamente hermético que reflecte sobre o fenómeno religioso a partir do ponto de vista dos animais. É o meu livro preferido e é uma felicidade enorme apresentá-lo.

O Pequeno Deus Cego, desenhado e colorido por Pedro Serpa, é uma história alegórica, passada no período feudal da China, sobre uma misteriosa personagem que pode muito bem ser um pequeno deus sobre a terra. Simbólica, é uma banda desenhada que será publicada ainda este ano pela Kingpin Books e cuja antevisão de amanhã, às 14H00, ocorrerá no âmbito do festival Anicomics, criado e organizado por Mário Freitas, também editor da Kingpin Books.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

"Batalha": ilustração


«Tranquilos, como inflorescências imperturbáveis do corpo nocturno, pares de borboletas bailavam naquele palco semimorto, vestidas com mais nada a não ser luar e pó estelar.
Pintados de púrpura, amarelo e azul, os insectos iridisciam o lado contrário do espectro, como um arco-íris virado do avesso.»

Uma belíssima ilustração que o artista Daniel Silvestre da Silva desenhou para o meu novo romance Batalha (Saída de Emergência). Consiste num romance sobre o fenómeno religioso, observado pelo ponto de vista dos animais. É, também, um romance hermético e alegórico.

A pré-apresentação de Batalha será no próximo dia 7 de Maio, às 17H00, na 81ª Feira do Livro de Lisboa, no stand da Saída de Emergência. Com a minha presença e a do ilustrador.

terça-feira, 3 de maio de 2011

"Batalha": excerto

«O velho mestre acreditava em valores como o trabalho, como o sacrifício, mas eles não. O velho mestre achava que todas as obras precisavam de ser perfeitas e que se devia almejar a excelência em tudo o que se fazia, por mais humilde que a obra fosse, mas eles não. Eles odiavam o velho arquitecto, porque não eram, nem nunca seriam capazes de ser como ele. Invejavam a sua mais radiante obra-mestra, porque nunca seriam capazes de criar algo tão admirável. Eram homens inferiores — gente cuja imaginação ao serviço do efémero e do superficial não valia um escarro. E como não eram capazes de imaginar, de criar, de construir, viravam-se para o escárnio, para o aviltamento, para a destruição — talvez até acreditando, por força do hábito ou por pura inclinação para o mal, que eram coisas boas. Alimentavam-se uns aos outros, protegiam-se uns aos outros, sempre promovendo uma igualdade infame entre eles: infame e félea, porque não era motivada pela justiça, mas pelo medo absoluto de se descobrir que não se era bom o suficiente.
Se dependesse desses homens, não existiriam flores no mundo, pensou Batalha. Apenas ervas-daninhas
A pré-apresentação de Batalha, o meu novo romance, será no próximo dia 7 de Maio, às 17H00, na 81ª Feira do Livro de Lisboa, no stand da Saída de Emergência. Com a minha presença e a do ilustrador Daniel Silvestre da Silva.

Imagem: São Onofre, Giovanni Battista Caracciolo (1625).

segunda-feira, 2 de maio de 2011

"Batalha": uma ilustração


«Foi num dia nem muito curto nem muito comprido que Brancaflor e Calcaterra descobriram uma coisa estranha num sítio familiar.»

Esta é uma das belíssimas ilustrações que Daniel Silvestre da Silva desenhou para o meu novo romance Batalha (Saída de Emergência). Descubram-nas no próximo dia 7, às 17H00, na 81ª Feira do Livro de Lisboa: pré-apresentação de Batalha, comigo e com o ilustrador, no stand da Saída de Emergência.

terça-feira, 26 de abril de 2011

"Ensaio Sobre o Mal"

O vídeo da minha intensa interpretação da peça Ensaio Sobre o Mal. Consiste num trabalho de spoken word, que reflecte sobre o Mal, as suas manifestações culturais e o mistério da sua origem.
Foi gravado ao vivo na primeira vaga do evento Cabaret Seixal 2011 (organizado e musicado por Charles Sangnoir, vocalista e compositor de La Chanson Noire), no dia 25 de Fevereiro, no Cinema São Vicente (Seixal).


sexta-feira, 22 de abril de 2011

"Batalha": Sinopse e novo excerto


«Só os animais sabem como os homens devem falar.

Uma ratazana ateia.
Uma porca piedosa.
Um arquitecto agnóstico.
Uma fábula fascinante.

Em Batalha, David Soares (O Evangelho do Enforcado, Lisboa Triunfante, A Conspiração dos Antepassados) apresenta uma história em que os animais são protagonistas. Passado no início do século XV, Batalha é um romance sombrio, filosófico e comovente, que observa o fenómeno religioso do ponto de vista dos animais e especula sobre o que significa ser-se humano.
Batalha, a ratazana, procura por sentido, numa viagem arrojada que a levará até ao local de construção do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, o derradeiro projecto do mestre arquitecto Afonso Domingues. Entre o romance fantástico e a alegoria hermética, Batalha cruza, com sensibilidade e sofisticação, o encantamento das fábulas com o estilo negro do autor. Imperdível.»

«Ocultando-se dos olhares dos indivíduos, foi admirando a disposição das casas e dos objectos e achou que aquele sítio não era diferente da quinta. A multiplicidade de cheiros era estonteante, mas uma azeda fragrância cerealífera, que permeava tudo, era o dominante, secundada por um desagradável odor metálico.
(...) Quasi-reptante, e resguardado pelas sombras das paredes de pedra das casas, Batalha também sentiu cheiros felinos, mas não viu gatos nenhuns; então, no centro da aldeia, viu dois homens pendurados pelos pescoços, por gramalheiras, num pelourinho de pedra plutónica.
As faces escoriadas pela erosão cadaverina deixavam-lhes os ossos à mostra; e os seus dentes arreganhados e alcalinos, que lhes emprestavam ares de animais granívoros, pareciam feitos do mesmo granito do pilar pendulifloro. Havia um terceiro homem, ao pé deles, mas suspenso pelo tórax e ainda vivo. Era este que meia-dúzia de gente insultava e atirava vegetais apodrecidos, num efusivo avesso de aclamação; os outros balouçavam com boçalidade, só com as moscas como companhia.
(...) A somar àquilo que Batalha já aprendera sobre a morte, vinha o conhecimento de que ela era vaidosa e exigia jóias novas a todas as horas: ouropéis ossiculares, pingentes de polpa, medalhões morbíficos, cadáveres cristalóides — peças preciosas para estimular emulação nos espectadores das execuções: o seu público preferido — os seus idólatras impecáveis e incansáveis. E, no entanto, no meio da morte, a vida também vicejava: bebés riam nos colos das mães, os pássaros cantavam nos telhados das casas e os insectos zumbiam, num zunzum bem-humorado, enquanto sugavam os sucos naturais das flores, frutos e falecidos.»

Batalha, o meu novo romance, é editado pela Saída de Emergência e estará disponível na 81ª Feira do Livro de Lisboa, numa pré-venda exclusiva, no dia 7 de Maio, às 17H00. Com a minha presença e a do ilustrador Daniel Silvestre da Silva.

terça-feira, 19 de abril de 2011

A Caixa


Não, não é a peça de Hélder Prista Monteiro, mas um conto de Richard Matheson que intitula esta antologia de contos de horror, publicada este mês pela Saída de Emergência. A Caixa é, pois, um compêndio de alguma da melhor ficção curta do autor norte-americano Richard Matheson, escolhida e traduzida por mim.

Mais conhecido do público português pelos argumentos que escreveu para séries de televisão (como The Twilight Zone, por exemplo), Matheson também é o autor do romance I Am Legend, já editado pela Saída de Emergência.
A prosa de Matheson é propositadamente minimalista. A minha ideia é que ela consiste numa estratégia de diferenciação dos estilos mais carregados de escrever horror, popularizados por autores como Lovecraft, e, com este conhecimento em mente, é fácil perceber o modo como Matheson nos quer pôr a pensar. Ele não é um grande estilista, é preciso ser sincero, mas é um eficaz inseminador de ideias, de conceitos.

Quem não sentiu ansiedade ao vislumbrar pelo espelho retrovisor o enigmático camião de Duel, de Steven Spielberg, a assomar ao fundo da estrada? A culpa é de Matheson, argumentista do filme e autor do conto original que serviu de base ao seu argumento.
Quem não sente ainda calafrios ao lembrar-se da famosa história sobre o passageiro de avião, interpretado por William Shatner, que, num seminal episódio da série The Twilight Zone, se apercebe em absoluto desespero que é o único capaz de ver um monstro que tenta arrancar a fuselagem da asa do avião, em pleno voo? Esta história também se encontra em A Caixa.

Com efeito, o horror de Matheson é sempre cosmopolita - um horror suburbano, doméstico, familiar, muito cá de casa - e os elementos "exóticos" (como a viagem de avião ou a presença de um boneco tribal) não deixam de ser absorvidos por esse sentimento de domesticidade, tornando-se até "hiper-domésticos", no sentido braudrillardiano de "mais domésticos que o doméstico real". Um exemplo perfeito, e desconcertante, dessa premissa é o conto Fúria Íntima, que quase faz lembrar uma peça de teatro do absurdo, ao melhor estilo de Ionesco.

Esse é o maior valor das histórias de Matheson: sendo tão "despojadas" é espantoso que não tenham espaço para o supérfluo, para o artificial.
Esta A Caixa pode não ser a homónima e vanguardista peça de teatro do absurdo escrita por Monteiro, mas é uma antologia de contos em que o burlesco, o absurdo e o horror do quotidiano se mesclam num estilo seco que nos cai no colo sem decorações - sem, lá está, ersatzes.

domingo, 17 de abril de 2011

"O Pequeno Deus Cego"


No dia 7 de Maio, às 14H00, estarei presente no festival de banda desenhada Anicomics (organizado por Mário Freitas e que decorrerá nos dias 7 e 8 de Maio na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Lisboa) para apresentar o meu novo álbum de banda desenhada, intitulado O Pequeno Deus Cego (a editar este ano pela Kingpin Books).

Escrito por mim e desenhado e colorido por Pedro Serpa, consiste numa história fantástica, simbólica e negra, passada na China feudal. Podem crer que o horror, o fantástico e o hermético também figurarão em peso neste título.

No mesmo dia, às 17H00, estarei na 81ª Feira do Livro de Lisboa para apresentar o meu novo romance Batalha (editado pela Saída de Emergência): o meu romance preferido e um dos livros que mais me orgulho de ter escrito.

Sob os augúrios de uma ratazana ateia e de um pequeno deus cego, este ano, no que diz respeito aos meus livros, também é, tal como foi 2010, de abundância.


quarta-feira, 13 de abril de 2011

"Batalha": pré-apresentação na 81ª Feira do Livro de Lisboa


No próximo dia 7 de Maio, às 17H00, estarei na 81ª Feira do Livro de Lisboa para apresentar e assinar exemplares do meu novo romance Batalha (Saída de Emergência).
Ao meu lado estará o artista Daniel Silvestre da Silva, cujos desenhos ilustram a narrativa.

Batalha é um romance de literatura fantástica, que observa o fenómeno religioso do ponto de vista dos animais. É, também, um romance hermético e alegórico.

Bode expiatório


Lido o excelente Hadrian The Seventh, de Barão Corvo (crítica para breve), começa-se Giles Goat-Boy, de John Barth. A minha edição é esta, com uma ilustração do famoso Stephen Alcorn.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

"BATALHA" - pré-venda na 81ª Feira do Livro de Lisboa


«A primeira vez que Batalha viu uma caveira, pensou que fosse um desvairamento, estimulado pela febre que sentia; pois que frenesi da Natureza, ou até dos próprios Pais do Mundo, teria gerado algo tão invulgar?
(...) durante esse caminho tortuoso, ao longo de túneis apertados, (...) viu as relíquias da corrupção humana que, entre a terra, observavam como sentinelas os roedores peregrinos. Sem nenhum conhecimento das hierarquias que regiam a sociedade dos homens, Batalha não sabia que os ossos que encontrava, alguns interpostos em esqueletos mais ou menos intactos, outros desbaratados pelos ínfimos movimentos da terra, mas todos tapados por trapos, tinham servido de sustentáculo às carnes mais afortunadas, em oposição aos ossos dos pobres, inumados numa vala vizinha.
A caveira que o impressionou, desdentada e pintalgada de pretidão, retinha uma imperturbável atitude altiva — era um génio subterrâneo, que guardava a passagem com um sinal de sobranceria, de displicência. Teias de linho, miscigenadas com filigranas fungongóricas, amarravam-na à terra humedecida e, no seu interior, observável através das órbitas ocas, encontravam-se excedentes cefalóides: um forro feito de antigualhas, agora fossilformes.
Acometido de febre (...) Batalha perdeu a consciência enquanto passava à frente dessa caveira, esse ex-homem; e, num derradeiro instante de lucidez, antes de descair para as profundezas piréticas (...) pensou que, com efeito, todos os homens — e todos os bichos — eram feitos de pedra, por dentro.
Vive-se para sonhar, para ver as maravilhas do mundo, para amar, e é para isso que a carne serve, mas, no final, quando a carne se estraga, volta-se a ser a pedra que se foi no início — a pedra honesta que, apesar da carne e dos anos, subsiste. Nada era mais rudimentar que essa pedra. Nada era mais tosco.
Mas também nada era mais verdadeiro.
Mais ético.»
Um excerto do meu novo romance Batalha (Saída de Emergência).
Daqui a um mês, no dia 7 de Maio, estarei presente no stand das edições Saída de Emergência, na 81ª Feira do Livro de Lisboa, para assinar exemplares deste título numa pré-venda exclusiva, antes do livro ser distribuído pelas livrarias. Uma oportunidade única para quem quiser estar entre os primeiros a lerem o meu novo romance.

Mais pormenores, em breve.
(Nesta ligação podem consultar o horário de funcionamento e localização dos stands da Saída de Emergência.)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

terça-feira, 5 de abril de 2011

Comer e morrer sozinho em Veneza


Depois do excelente Moby Duck, de Donovan Hohn (ler crítica abaixo), vou, finalmente, ler Hadrian the Seventh, de Barão Corvo (Frederick Rolfe).
Nesta altura, em que qualquer cão ou gato que escreva meia-dúzia de parágrafos à solta num weblog já é considerado um autor de primeira água, só pode fazer bem à cabeça ler um livro de um verdadeiro Génio; que, qual é o espanto?, morreu sozinho na miséria, em Veneza...
Seja em Veneza ou em outro lado qualquer, os génios, de maneira geral, comem e morrem sozinhos - só os parasitas comem e morrem acompanhados. Não é de espantar que essa palavra venha da grega parásitos, que significa aquele que come junto de.

A Amarelidade do Amarelo


O título do meu comentário sobre o livro Moby-Duck, de Donovan Hohn (Viking Press, 2011) refere-se ao capítulo quarenta e dois do romance Moby Dick, de Herman Melville, intitulado The Whiteness of the Whale - uma das minhas peças literárias preferidas, na qual Melville ensaia com mestria sobre as qualidades mais sinistras da cor branca, num rol de referências mitotémicas muito bem feito. Se a brancalidade da cor branca do cachalote perseguido por Ahab encerra, na mente do desesperado, mas temerário Ismael, uma série de ideias funestas que se apresentam como notas hariólicas sobre o destino da viagem amaldiçoada do baleeiro Pequod, então a amarelidade da cor amarela dos patos de plástico perseguidos por Hohn, também emite uma qualidade quasi-mítica, mas que comunica com um conjunto de valores positivos. É o próprio Hohn que, a dada altura, na página 224 do quinto capítulo de Moby-Duck discorre com propriedade sobre o porquê dessa amarelidade - e, também, sobre a origem do pato de borracha (ou plástico) enquanto brinquedo e enquanto símbolo cultural. A exposição destas ideias fecha com elegância uma parte importante da investigação (mas não a provação final) do jornalista: a visita à fábrica chinesa onde os patos foram produzidos. Patos que, em 1992, na companhia de castores vermelhos, rãs verdes e tartarugas azuis, compondo um total de 28 800 bicharocos de plástico, caíram de um cargueiro no Oceano Pacífico quando a embarcação navegava em direcção aos Estados Unidos. Durante mais de uma década, os Friendly Floaties, como a imprensa lhes chamou, circularam pelas águas agitadas do Pacífico, dando à costa nos locais mais inesperados, como as praias do Havaí, a costa do Alasca e a do estado norte-americano do Maine, o que significa que as quatro variedades de amiguinhos flutuantes foram capazes de contornar as passagens tempestuosas do Ártico até chegarem ao Oceano Atlântico. A viagem dos brinquedos pelos oceanos capturou as imaginações do público e dos oceanógrafos da altura e, passados pouco mais de dez anos, a de Hohn, que se despediu do emprego como professor para se tornar o cronista destes peregrinos acidentais: Ahab e Ismael, em simultâneo.

Moby-Duck é um triunfo.
É um genuíno e belíssimo trabalho de jornalismo de investigação, sem pretensões a ser lido como um romance ou coisa análoga, escrito com muita inteligência e coração. Com efeito, não há nada, mas mesmo nada, em Moby-Duck que seja mau, pedante, tíbio, afectado, preguiçoso, mal-intencionado ou cínico. Consiste num livro rigoroso, no que diz respeito ao discurso científico - sem alegorias ou facilitismos baratos que tornem simplório o fascinante conteúdo técnico - sobre a manufactura das criaturinhas plásticas, sobre a odisseia oceanográfica através dos tempos e sobre a análise da poluição dos mares; e, ao mesmo tempo, no modo autêntico, liberto de tiques de vedetismo, como Hohn expõe a sua trajectória pessoal e a dos seus comparsas honorários na busca pela verdadeira história dos Friendly Floaties, invocando autores como Melville e Conrad, entre outros, é capaz de oferecer um cunho poético à investigação, ancorada em incursões históricas por clássicos mitos teriomórficos, pelo contemporâneo glamour da publicidade comercial e, sobretudo, por uma prosa cuidada, assinalada em apontamentos de grande delicadeza.

Merecendo todos os elogios que eu lhe posso dar, Moby-Duck é, já nesta altura do ano, uma das minhas melhores leituras de 2011 - e o facto de vir a ser, sem dúvida, uma das melhores prosas de 2011, ainda por cima escrita não pelas mãos de um romancista, mas pelas de um jornalista, só reforça o carácter exótico que o livro inegavelmente possui.
De quando em quando há livros assim: que aparecem do nada, que nem um pato de plástico trazido pelas ondas. Ou, como escreve Hohn sobre uma gaivota boiando no breu, «Out beyond the edge of light, a glaucous gull floated contentedly on a swell, a white dot of sentience in the icy dark».
Moby-Duck é uma luz que boia brilhante no meio da mediania parda que é publicada todos os dias: mas uma luz amarela. E essa amarelidade, acreditem, é linda.

sábado, 2 de abril de 2011

As heterodoxias do cristianismo


O cineasta e escritor António de Macedo acaba de publicar pela Ésquilo a sua magnífica tese de doutoramento em Sociologia da Cultura, intitulada Cristianismo Iniciático: um magistral volume, com mais de 650 páginas, que versa sobre o carácter iniciático e esotérico das diversas tradições crísticas heterodoxas que, repudiadas pela visão institucional sobre esse fenómeno, acabaram por, de uma forma ou de outra, se conservarem na marginalidade e no obscurantismo dos seus cultores. É, pois, uma obra nada ortodoxa, que interroga, esclarece e ilumina. De um ponto de vista sociológico e histórico é absolutamente fascinante.

Tive o privilégio de assistir à defesa da tese (distinguida com a nota máxima), na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa, em 2010, e é com uma satisfação enorme que vejo a sua publicação em livro: satisfação por saber que um trabalho deste altíssimo nível e rigor intelectual está, finalmente, disponível ao público; dupla satisfação por saber que esta edição consiste em mais uma luminosa obra com a qual António de Macedo enriquece uma longa carreira feita de títulos importantes, relevantes e desafiantes, sempre contrariando os obstáculos da ortodoxia. Parabéns!

quinta-feira, 31 de março de 2011

Poema


O Macaco (Valsa Lisboeta)


Nunca se sabe até que ponto um macaco
pode chegar na ânsia de nos imitar

Dizem alguns autores ser o macaco
difícil de apanhar - mas não

Em qualquer mundana reunião
num ombro numa frase num olhar
no jeito «humanista» de falar
aí temos o macaco a trabalhar
procurando aproveitar a confusão

Pessoalmente sou de opinião
que o macaco é fácil de caçar
até à mão.

Alexandre O'Neill (in Poemas Com Endereço, 1962)

terça-feira, 29 de março de 2011

Os Falidos do Intelecto


A quantidade de visitantes portugueses e brasileiros que vêm parar ao Cadernos de Daath com pesquisas como «livro-tal sinopse» ou «trabalho sobre livro-assim e assim» ou «tese sobre o-tal-livro» faz-me pensar que anda por aí muito aldrabão nos ensinos secundário e superior.
Já que não querem ter o trabalho de ler os livros, ao menos tenham o de imprimir os vossos mafianços sem os endereços de Internet na margem das páginas. Já muitos falidos do intelecto foram apanhados dessa maneira, santa burrice!...

domingo, 27 de março de 2011

Grendel 2011


As edições Saída de Emergência, através da chancela Camões & Companhia, acabam de publicar uma nova edição do romance Grendel, de John Gardner.
Este título é um dos melhores romances contemporâneos de literatura fantástica e quem acompanha as minhas observações aqui nos Cadernos de Daath, ou em outros veículos de expressão, sabe que não me canso de elogiá-lo.

A capa deste novo Grendel apresenta uma das ilustrações que desenhei para a primeira edição (2007), que também prefaciei.
Como é evidente, a nova edição contém todas as referidas ilustrações e introdução.

Caros leitores, não deixem passar esta oportunidade de enriquecer a vossa biblioteca e de ler um dos melhores romances fantásticos das últimas décadas: corram já para a livraria e levem-no para casa.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Velha Rua Nova de Lisboa


Dois quadros apresentados ao público, em Novembro do ano passado, na exposição Marfins Cingaleses do Século XVI, no Museu Rietberg de Zurique, na Suíça, e disponibilizados pela curadora Ruth E. Bubb, da Sociedade de Antiquários de Londres, mostram visões da nossa Rua Nova pré-pombalina.
A similitude com o registo que António D'Ollanda (pai de Francisco D'Ollanda) nos deixou no quinhentista Livro de Horas de D. Manuel I, na iluminura de uma procissão fúnebre que ilustra um Ofício de Defuntos, é muito grande; em especial os característicos edifícios altos com as suas distintivas arcadas. Não é fácil contextualizar a tela que reproduzo acima, mas, atentando à profusão de sacerdotes inacianos, avanço com a hipótese de que é uma representação da Rua Nova em meados do século XVII ou nas primeiras décadas do século XVIII. O nosso século XVII foi tenebroso, social e culturalmente: um vazio de ideias e progressos, em contraste brutal com o que se passava ao mesmo tempo no resto da Europa e, também, em total oposição com os melhores anos do reinado manuelino.

Os quadros, que se encontravam numa casa senhorial inglesa, apresentam - para minha satisfação - imagens de Lisboa que vão ao encontro das descrições que se podem ler nos meus romances Lisboa Triunfante (2008) e O Evangelho do Enforcado (2010).

«Miranda sentia-se tão forasteiro como as negras que vendiam favas, camarões e chicharros cozidos e fritos pelas ruas, como os negros que andavam pela cidade com brochas e baldes de cal às costas ou como os mouros das galés. É que a "cidade das sete colinas" não se parecia nada com o resto do país; nem sequer com Coimbra que também era uma cidade grande. Portugal ajeitava-se num espaço peninsular exíguo em pequenos aglomerados de gente, mas Lisboa era gigantesca; um enxurro de todo o tipo de pessoas.
As casas de pedra preta do irregular centro gótico contrastavam com as moradias de três andares da Rua Nova dos Mercadores e da Rua Nova dos Ferros todas pintadas de azul, vermelho e amarelo; os vários arcos e portas da cidade possuíam santos, estátuas e brasões pintados de cores vivas. (...) Apesar da abundância de gente que enchera a arena do Terreiro do Paço para ver o combate dos colossos, a Rua Nova dos Mercadores estava pejada de pessoas àquela hora. O mercado da hortaliça e da fruta, mais o do pão, enchiam-se de citadinos que queriam comprar o maior número possível de alimentos antes que os preços voltassem a subir; os novos-ricos saíam e entravam nas joalharias e das ourivesarias, ora para comprar, ora para penhorar. A vozearia dos comerciantes e clientes ecoava pelas arcadas harmoniosas que serviam de lojas e sustinham os edifícios de três andares; nas paredes coloridas podia ver-se palavrões e caricaturas garatujadas a carvão e giz. A estrada de terra batida estava atulhada de detritos e emporcalhada pela água suja que as escravas despejavam para o chão, mas em nenhum lado o pivete era pior que na praça e no açougue - era impossível não passar pelas bancadas do peixe e da carne sem ficar sujo de sangue e escamas. vendilhões ambulantes furavam caminho entre os indivíduos, incluindo os magríssimos mestiços do Norte de África que deambulavam com um pequeno forno de ferro à cabeça e assavam línguas de borrego por três reais e meio; traziam-nas dentro de um saco que levavam às costas, mas também cozinhavam a carne e o peixe que os clientes compravam no mercado.»
(in A Lição de Arquitectura. Lisboa Triunfante.)

«A alma é um mecanismo, sujeita aos fins para os quais foi criada, pensou Nuno, ao caminhar sozinho pelas ruas de Lisboa, pela primeira vez em cinco anos. Essa é uma verdade que deve ser levada muito a sério. O Sol forte magoava-lhe a vista, mas que dor tão doce era essa. Como mel - e tão dourada quanto ele. Acho que... que vou passar na Rua Nova.
Encontrou uma nova Rua Nova, pintada de tons quentes e cheia de casas soberbas, suportadas por arcadas que ainda luziam dos polimentos; o pavimento era o mesmo, contudo - sujo como o fundo de um barril. Observou os rostos dos indivíduos como se fossem criaturas de outro mundo: até eram, pois o mundo dele ruíra com a velha rua e o regedor.
Aquela Lisboa e aquele tempo não lhe pertenciam.
Pôs-se de frente para o sítio onde ficava o seu armazém e descobriu que fora ocupado por uma nova casa. Passou por baixo do arco e olhou para cima: viu um pombo a dormitar em cima de um capitel; a sombra era fresca e o ar, recheado de ruídos cristalinos, cheirava a fruta fresca.»
(in Espadas: Surgite ad Judicium. O Evangelho do Enforcado.)


terça-feira, 22 de março de 2011

Leituras

Leituras: neste momento, vou a meio de Kraken, de China Miéville.
A lista das leituras seguintes contém títulos como Hadrian the Seventh de Barão Corvo, Giles Goat-Boy de John Barth, The Hidden Reality de Brian Greene, The Stuff of Thought de Steven Pinker, Moby Duck de Donovan Hohn e The Book of Universes de John D. Barrow.

Epifania

Talvez tenha tido uma epifania (a palavra vulgarizou-se tanto, por isso quem sabe?), mas quase que tenho a certeza de que se se olhar com atenção para o quadro As Rosas de Heliogábalo, de Alma-Tadema (1888), a pintura nos desvendará todos os segredos do universo.

sábado, 19 de março de 2011

"Lisboa: Estado Sólido"

Quarta e última observação do meu spoken word Lisboa (2002), com textos e voz meus e misturas e produção de Fernando Matias, intitulada Estado Sólido. No seguimento do terceiro capítulo Hep, Hep, Hep!, consiste numa ficção sobre o terramoto de 1 de Novembro de 1755, no qual ele surge como um vórtice onde vertem, em coexistência e no mesmo plano, diferentes Lisboas e diferentes datas, numa intrincada tapeçaria de correspondências. Um texto simbólico que não versa tanto sobre o terramoto real, como versa sobre a própria arquitectura da história.


sexta-feira, 18 de março de 2011

"Lisboa: Hep, Hep, Hep!"

Terceira observação do meu spoken word Lisboa (2002), com textos e voz meus e misturas e produção de Fernando Matias, intitulada Hep, Hep, Hep!. No seguimento do segundo capítulo O Corvo e a Rosa, consiste numa necroscopia do anti-semitismo lisboeta, e europeu, numa sobreposição, no mesmo plano, de várias épocas e lugares.

quinta-feira, 17 de março de 2011

"Lisboa: O Corvo e a Rosa"

Segunda observação do meu spoken word Lisboa (2002), com textos e voz meus e misturas e produção de Fernando Matias, intitulada O Corvo e a Rosa. No seguimento do primeiro capítulo A Arquitectura da História, consiste numa invocação alquimitológica sobre os corvos de Lisboa, mais uma vez feita de história, mitos e universo autoral.

"Lisboa: A Arquitectura da História"

Em 2002, gravei o spoken word Lisboa: um ensaio mitológico sobre a cidade, que mistura história, mitologia e o meu universo de autor. Quatro observações o compõem, num entretecer e baralhar de épocas, datas e lugares, às vezes coexistentes no mesmo plano. Este é o primeiro capítulo: A Arquitectura da História. Texto e voz meus e misturas e produção de Fernando Matias.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Regresso às origens


Descobri hoje que a Central de Cervejas lançou uma nova cerveja Sagres: uma novidade com sabor a chocolate.
Diz a notícia que consiste numa «inovação exclusiva e pela primeira vez em Portugal».
Quanto a ser a primeira vez em Portugal, não sei, mas tenho a certeza de que não é uma inovação exclusiva...
É que o chocolate bebido pelos Maias (desde 100 d.C.) e pelos Aztecas (por altura do século XIV) era, com efeito, uma bebida alcoólica, feita de feijão ou milho fermentados, à qual água e grãos torrados e moídos de cacau eram adicionados, assim como malaguetas. Em suma: era uma cerveja picante de chocolate.
Em língua nahuatl (a língua dos povos meso-americanos pré-colombianos), a bebida era chamada de xocoatl: uma beberagem que nenhum paladar contemporâneo (à excepção, talvez, do de Anthony Bourdain) seria capaz de apreciar. Os invasores espanhóis provaram-na pela primeira vez na corte de Montezuma, no século XVI e, embora tenham ficado enojados, acharam que o cacau tinha possibilidades e lembraram-se de substituir as malaguetas por açúcar e canela.
O mais curioso é que os sacerdotes aztecas consumiam uma variante especial desta cerveja de chocolate, temperada com o veneno alucinogénio do sapo-cururu (bufo marinus): as glândulas e a pele do sapo eram misturadas à solução durante a fermentação da cerveja e, posteriormente, ela era tomada através de clisteres.
A absorção dos compostos alucinogénios da poção pelos vasos sanguíneos do intestino era rápida e os efeitos muito intensos. (Ainda hoje, os clisteres de bebidas alcoólicas são prática frequente em outro tipo de celebrações.)

Debaixo do Domo

As 877 páginas de Under the Dome, de Stephen King, acabam por ser poucas para contar uma história que tem muito para oferecer.
A premissa é elegante: a cidade de Chester's Mill vê-se, de um momento para o outro, coberta por uma redoma invisível e indestrutível.
Quem a ergueu?
Qual é o objectivo?
As personagens não sabem. Porém, algumas são capazes de adivinhar. E o leitor, se pensar um bocadinho, também será.
O início e o desenvolvimento do livro são interessantes, pontuados por pormenores muitíssimo realistas de caracterização de personagens e de ambientes, embora a prosa - simples, mas não simplória - pejada de referências à cultura popular norte-americana, não se apresente muito "sofisticada" aos olhos de um leitor europeu. Contudo, do meio para o fim, Under the Dome ganha uma força tremenda e cresce imenso, dando-nos a ler, de certeza, uma das catástrofes mais violentas que já foram imaginadas na literatura.
O romance beneficiaria de uma revisão mais atenta, mesmo assim, que evitasse algumas incongruências (o cão Horace é chamado de Hector durante umas páginas, por exemplo) e linhas de raciocínio que, acho eu, devem ter permanecido de certas partes entretanto suprimidas pelo autor, aquando da preparação da versão final. Ademais, não deixa de ser inesperado que um romance tão grande tenha um ritmo tão acelerado e eu acho que isso também acaba por prejudicar Under the Dome, porque certos pormenores, como os efeitos a médio prazo que a cúpula invisível opera na cidade e região florestal limítrofe, mereciam mais atenção. De maneira geral, King está mais interessado em analisar o comportamento dos indivíduos, levado ao extremo por esta circunstância extraordinária, que em especular sobre a origem e a razão do surgimento da cúpula - embora elas sejam apresentadas e explicadas.
Under the Dome poderia muito bem ser um argumento para um episódio da série televisiva Twilight Zone, imaginado por uma consciência traumatizada pelos contemporâneos atentados terroristas, mas, embora possa ser lido como uma alegoria aos Estados Unidos quando governados pela administração do anterior presidente, é muito mais uma reflexão sobre o mal que os homens são capazes de fazer quando, de repente, se vêem sem restrições. Se a ideia principal por trás dos crimes de Mr. Griffin, em The Invisible Man de H. G. Wells, é a de que somos capazes de fazer tudo quando já não temos que nos encarar ao espelho, a ideia principal de Under the Dome é a de que somos capazes de fazer tudo quando já não temos que sair de nós próprios - quando o simples acto de comunicar com o outro se tornou obsoleto. É, também, uma obra muito mais lúcida e honesta que outras que tocaram em alguns dos mesmos botões, como a série televisiva Lost, por exemplo, para invocar um título mediático. Só que em Under the Dome cada homem é que é uma ilha; o que daria, sem dúvida, que pensar a John Donne.

Uma adenda: Apesar do título, o misterioso campo de forças que isola Chester's Mill não é uma cúpula, mas um invólucro completo, já que o subsolo da cidade também se encontra under the dome.

terça-feira, 15 de março de 2011

Mudança

A única maneira de mudar a sociedade é a mesma maneira de mudar-se seja o que for: através do exemplo do indivíduo. Alguém sonha e faz - e ao fazer não só mostra a forma como se faz, como, mais importante ainda, mostra que é possível fazer.
A sociedade não muda com manifestações derivativas, nem com manifestos. Muda quando alguém, no isolamento do seu génio, pensa e aplica o pensamento em algo que perdure no tempo. Se perdurar, mais cedo ou mais tarde vai servir de exemplo e o exemplo é que é mimetizado, não são as palavras.
Talvez nunca como neste período, em que todos os indivíduos se acham inteligentes e bem-informados só porque a profusão de informação à sua volta lhes oferece essa ilusão, a sociedade exigiu tanto dos seus elementos constituintes: dos seus "heróis" individuais. Querem mudar o estado das coisas? Então leiam mais, opinem mais, trabalhem mais, criem mais e, dentro da área em que estiverem inseridos, seja ela qual for, tentem ser os melhores naquilo que fazem.
Comecem por mudar, para melhor, aquilo que podem, com efeito, mudar.
O resto vem a seguir.

Cabaret Seixal 2011

Um pequeno excerto da primeira vaga do festival de spoken word Cabaret Seixal 2011, realizado no dia 25 de Fevereiro, no Cinema São Vicente (Seixal). Com música de Charles Sangnoir e textos de David Soares e Fernando Ribeiro.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Os Livros das Minhas Vidas

Para ser sincero, um convite para falar sobre os livros da minha vida soa como o som trítonocárpico das falanges da mão da morte a bater-me à porta, pois se a invitação se refere aos livros da minha vida, então tenho de aceitar que ela está perto do fim e não vou ter tempo de ler mais nenhum título: mortis en solatium. Talvez. De qualquer das formas, os livros da minha vida – no mínimo da que vivi até este momento; e no limite até ao final da escrita deste texto – não são apenas os livros que eu li, mas aqueles que escrevi. De uma forma ou de outra, os livros são uma parte muito importante da minha vida, porque a leitura e a escrita são duas ocupações às quais devoto a maioria das horas. No início deste parágrafo empreguei o verbo falar, porque é isso mesmo que estou a fazer convosco: a contar-vos um bocadinho de que é feita a minha experiência com os livros. Apenas um bocadinho – é, somente, uma precaução da minha parte, de modo a evitar a insolvência de memórias e garantir que me sobra algo sumarento para pagar ao barqueiro, porque o maior pecado que se pode cometer, mesmo depois de morto, é o da negligência.

Aprendi a ler com a banda desenhada Donald e as Formigas, de Carl Barks, publicada em Portugal pela Editora Abril/Morumbi no número 1500 da série quinzenal Pato Donald. Decorria o ano de 1981, e eu, sentado no sofá da sala de estar da casa dos meus pais, observava com atenção as vinhetas e tentava decifrar as palavras contidas nos balões. Então, num momento inesquecível, que eu só posso comparar com o acender de uma luz dentro da minha cabeça, as personagens deixaram de falar para os balões e começaram a falar para mim: compreendi que não estava a inventar os diálogos, como costumava fazer, mas a ventriloquar as verdadeiras vozes das personagens – estava a ler. O mérito foi, também, da minha mãe, porque ela mantinha a rotina de sentar-se comigo para me ler histórias; do Pato Donald, mas também do Mickey, do Musti e do Petzi. Ela ensinava-me a sonoridade das letras e como elas se harmonizavam e esses ensinamentos fizeram com que eu aprendesse a ler sozinho. Essa conquista primeva de infância foi um dos momentos mais importantes da minha vida, porque aprendi a lidar com palavras antes de ser capaz de me desembaraçar sozinho na casa de banho. Se a vida e a morte são um único movimento circular, prefiro, em simetria, no meu último leito, seja ele qual for, perder a elasticidade entérica em vez da elasticidade da imaginação. Por tudo isso, de modo inexcedível, esse número 1500 do Pato Donald, com uma capa que, à distância, me evoca até a heteronímia pessoana na multifaria de Donalds diferentes que a decoram, é um dos livros da minha vida.

Outra memória mucípara, resgatada desses tempos das criancices, prende-se com O Grande Livro do Maravilhoso e do Fantástico, publicado pelas Selecções do Reader’s Digest, em 1977. Descobri-o em casa de uns tios, em meados da década de oitenta, e fiquei apaixonado pelos relatos assustadores que continha: vampiros, fantasmas, assassinos em série, exploradores do passado e do futuro, demónios e bruxas, monstros humanos, invenções fabulosas, extraterrestres, animais quiméricos… No final dessas visitas, os meus pais vinham resgatar-me do meu refúgio chegado à varanda, onde me sentava com o livro no colo, e eu, mais desconsolado que Jeremias, tinha que me separar dele. Passados poucos anos, em outra visita, convenci os meus tios a emprestarem-mo. (É claro que ainda o tenho.) Muito, muito, muito texto desse livro saboreei ao longo de tardes que pareciam imensas, enquanto comia bolachas Catraias da Triunfo, com os signos do Zodíaco, barradas com manteiga. Acho que aquilo que esse livro me mostrou foi que era possível as maravilhas e as monstruosidades existirem no mesmo mundo: uma histonomia excêntrica, composta de sofisticação cosmopolita e folclore medonho. Também é um livro que, de certo modo, me influenciou a ser céptico, porque apresenta inúmeras secções que desmistificam historietas e lugares-comuns da História: verbetes que eu acho fascinantes. A mistura de proto-esoterismo, História, ciência e fantasia abarcada pelo O Grande Livro do Maravilhoso e do Fantástico faz dele, sem dúvida, outro dos livros da minha vida.

A memória é a única língua com a qual podemos falar com os mortos e os sonhos são os únicos lugares em que os podemos encontrar; às vezes, perder alguém é perder uma âncora que nos agarrava a um determinado local e encontrar o pé, novamente, dá trabalho, mas encontrá-lo é preciso. O terceiro livro da minha vida que me lembrei de vos falar é um pequeno volume, que estava na casa do meu avô, e que se chama Doenças dos Bichos de Nogueira de Araújo, publicado pelo Ministério da Educação Nacional, em 1973. O subtítulo é Memórias de um Veterinário Rural e consiste num comedido compêndio no qual as informações zooterapêuticas são veiculadas através de histórias ilustradas. Não faço ideia porque é que os meus avós tinham esse livro, mas sempre o achei hipnotizante; em especial, a ilustração de um cavalo infectado com tétano, acompanhada pelo retrato detalhado do bacilo anaeróbio responsável. Lembro-me de passar uma tarde de Sábado em casa dos meus avós a ler o Doenças dos Bichos e a desenhar o Homem Elefante, do filme homónimo de David Lynch, que passara à noite nessa semana. Lembro-me desse desenho: era uma criatura careca e deformada, com mãos minúsculas e olhos tão esbugalhados quanto os do Cão Grande do conto fantástico de Andersen – muito diferente do protagonista da película, mas era assim que eu achava que um verdadeiro Homem Elefante deveria ser. Com curiosidade, procurava no Doenças dos Bichos a sua estranha patologia, que um vizinho que estava de visita erroneamente me disse ser elefantíase.

Os livros da minha vida são, também, como indica o título desta rubrica, os das minhas vidas, porque as pessoas que fui quando os li e quando os escrevi são um pouco diferentes da que sou neste instante. Porém, tanto uns como os outros são melhores que os sonhos em que podemos visitar os nossos mortos, porque basta tirá-los das estantes para conversarmos com versões mais jovens, mais optimistas e mais ousadas de nós próprios. Versões que já morreram, evidentemente, mas é mantendo essas presenças do passado na biblioteca que construímos carácter e perduramos no tempo. Escrever é trancar a porta pela qual a morte quer entrar, mas ler é abrir janelas.

(Texto publicado originalmente no número nove da Revista BANG!, editada pela Saída de Emergência.)

sexta-feira, 11 de março de 2011

Tudo o que existe


Andar a pé por uma cidade antiquíssima, como Lisboa, é meio-caminho andado para se sentir uma tristeza profunda pela efemeridade do nosso próprio mundo: onde estão os nossos sítios, os nossos mortos, esses pontos de contacto entre o nosso coração e o território? Como continuar a caminhar, quando grande parte do que amámos já se foi embora? Quem estuda a história não se pode dar ao luxo de ser nostálgico, mas eu não sou historiador, sou escritor e por isso posso ser nostálgico à vontade. E nem toda a tristeza é má. Continuam perto de nós, essas âncoras de osso e pedra, de palavra e memória - camufladas no território, como um vasto sistema nervoso sob os músculos. Continua-se a caminhar, porque o território é tudo o que existe: é tudo o que sempre existiu e continuará a existir; mesmo depois das mortes daqueles de quem gostamos e da ruína dos locais onde vivemos. Somos sílabas e iluminuras num texto redigido pelo tempo sobre a terra que nos viu nascer, como tinta sobre um pedaço de papel. Nós secamos, como a tinta - embaciamos. O território fica - mas nós ficamos nele. Ressequidos. Translúcidos. Como folhas mortas. Não há nada mais para além disso.

domingo, 6 de março de 2011

Moby Duck


Yeah!
O epítome de fixe? Nem mais!
Quando o ler, comento...

sexta-feira, 4 de março de 2011

David Soares no "Café Com Letras" de Carlos Vaz Marques


Novo romance: "Batalha"

O Café Com Letras correu muito bem: obrigado a Carlos Vaz Marques pelo convite e moderação, à Biblioteca Municipal de Algés pelo acolhimento e a todos os leitores e amigos que apareceram e contribuíram com entusiasmo.
Como prometido, ficou a revelação de que o meu novo romance, a editar neste semestre, se intitula Batalha (Saída de Emergência) e consiste numa história sobre religião e linguagem... observadas pelo ponto de vista dos animais. Mas não esperem uma fábula comum: o livro é bem negro!
Mais detalhes para breve.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Hoje no "Café Com Letras"


Hoje, às 21H30, estarei na Biblioteca Municipal de Algés para participar na tertúlia literária Café Com Letras, numa conversa moderada por Carlos Vaz Marques. Será uma conversa informal sobre o meu trabalho e prometo revelar o título do meu novo romance, a ser publicado neste primeiro semestre pelas edições Saída de Emergência.

terça-feira, 1 de março de 2011

Hoje é Dia de São David


Hoje é dia de São David!
Patrono dos poetas, dos recitadores e dos fogos-fátuos!
É, normalmente, representado em cima de uma colina elevada, com um livro aberto na mão e com o Espírito Santo d'Orelha, ao ombro, a aconselhá-lo.
No dia de São David, realiza-se o tradicional festival Eisteddfod: um evento que mistura literatura, música e declamação.
Fitting, é tudo o que posso dizer...

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A prova do nove


O nº9 da Revista BANG! (Saída de Emergência) irá ser lançado na próxima sexta-feira, às 21H30, no fórum da loja FNAC do Centro Comercial Colombo (Lisboa). Com as presenças do director Luís Corte Real e da editora Safaa Dib, mais os convidados João Morales (director da revista literária Os Meus Livros) e do autor Jorge Palinhos. Apareçam.

Fica a informação de que a rubrica Os Livros das Minhas Vidas deste número consiste numa crónica minha sobre três livros que foram muito importantes para mim, cada um à sua maneira especial. Querem saber quais são? Procurem-nos, pois, nesta edição da Revista BANG!
Segue um excerto:
«Para ser sincero, um convite para falar sobre os livros da minha vida soa como o som trítonocárpico das falanges da mão da morte a bater-me à porta, pois se a invitação se refere aos livros da minha vida, então tenho de aceitar que ela está perto do fim e não vou ter tempo de ler mais nenhum título: mortis en solatium. Talvez. De qualquer das formas, os livros da minha vida – no mínimo da que vivi até este momento; e no limite até ao final da escrita deste texto – não são apenas os livros que eu li, mas aqueles que escrevi. De uma forma ou de outra, os livros são uma parte muito importante da minha vida, porque a leitura e a escrita são duas ocupações às quais devoto a maioria das horas. No início deste parágrafo empreguei o verbo “falar”, porque é isso mesmo que estou a fazer convosco: a contar-vos um bocadinho de que é feita a minha experiência com os livros. Apenas um bocadinho – é, somente, uma precaução da minha parte, de modo a evitar a insolvência de memórias e garantir que me sobra algo sumarento para pagar ao barqueiro, porque o maior pecado que se pode cometer, mesmo depois de morto, é o da negligência. (...) Os livros da minha vida são, também, como indica o título desta rubrica, os das minhas vidas, porque as pessoas que fui quando os li e quando os escrevi são um pouco diferentes da que sou neste instante. Porém, tanto uns como os outros são melhores que os sonhos em que podemos visitar os nossos mortos, porque basta tirá-los das estantes para conversarmos com versões mais jovens, mais optimistas e mais ousadas de nós próprios. Versões que já morreram, evidentemente, mas é mantendo essas presenças do passado na biblioteca que construímos carácter e perduramos no tempo. Escrever é trancar a porta pela qual a morte quer entrar, mas ler é abrir janelas.»