quarta-feira, 4 de maio de 2016

Ainda sobre a estátua destruída de D. Sebastião


O Jornal da Noite, da SIC (foi o telejornal que vi), não falou - nem sequer em rodapé - do crime de lesa-património em que consistiu a destruição da estátua de D. Sebastião (colocada na fachada da estação ferroviária do Rossio, em Lisboa) por um debilóide que a atirou ao chão ao guindar-se à consola que a sustentava para tirar uma selfie com a câmara fotográfica do telemóvel. Também já circulam pela Internet e sua nativas redes sociais diversas paródias feitas em Photoshop alusivas ao crime, nas quais se veiculam mensagens aviltantes à figura de D. Sebastião, transmitindo a ideia de que quebrar-se uma sua estátua é coisa engraçada ou sem importância; noção que se correlacionará, suspeita-se facilmente, com a noção errónea de que D. Sebastião foi um rei que submergiu o país nas trevas filipinas e que é, de alguma forma atávica, o culpado pela(s) subsequente(s) crise(s) portuguesa(s).

O problema português não reside na figura de D. Sebastião - da qual, aliás, devíamos ter comiseração, porque teve uma vida miserável -, mas na incapacidade dos portugueses aprenderem a história do seu país, o que os leva, demasiadas vezes, a trocarem o factual pelo anedótico e o racional pelo emocional. D. Sebastião não foi um rei perfeito (até fisicamente seria muito desproporcionado - consequência de vários casamentos consanguíneos na família), mas a verdade é que não existiram reis portugueses perfeitos, logo eleger D. Sebastião como arquétipo do Mau Rei Português é precipitado e até errado, porque houve soberanos piores que, hoje, passam no exame dos portugueses com notas mais elevadas (basta falar em D. Afonso VI, para citar um caso extremo de incapacidade). De facto, o desastre de Alcácer-Quibir, em 1578, teve como principal motor ideológico o facto de a nobreza da altura nunca ter sido capaz de engolir o sapo das praças portuguesas baldadas no Norte de África por D. João III - praças que não eram precisas para nada. Ansiosa por glórias anacrónicas e saques imaginários, essa nobreza de câmara fez constantemente em água a cabeça de D. Sebastião até que, enfim, lá apareceu uma oportunidade para se ir em grande número até Marrocos para a desforra. Em seguimento, o advento filipino poderia ter sido evitado por quem de direito, se tivesse existido espírito para tal (mas isso são outros quinhentos); de qualquer forma, D. Filipe II de Espanha e I de Portugal, que era tio de D. Sebastião - logo, candidato legítimo à sucessão - não só não foi nenhum usurpador espanhol, como nem sequer era espanhol, de todo: era meio-alemão e português. De espanhol não tinha nada. É fácil de ver que a maior ameaça à soberania portuguesa teria sido D. FIlipe V de Anjou: para este, que era francês (o nome dá a entender, caso não se tenha percebido), todos os peninsulares eram espanhóis (inclusive os portugueses, presume-se), daí que quando se sentou no trono em Castela principiou logo em tratar da saúde à brincadeira de existirem diversos reinos peninsulares, que isto de haver um só reino era bem mais simples. É a partir daqui (século XVIII) que começa a despontar a ideia de uma Espanha verdadeiramente una: a Espanha só é Espanha, propriamente dita, desde 1856, porque somente em Junho desse ano é que o país se passou a chamar oficialmente «España». Até aí era o "Reino das Espanhas", que é a designação que surge nas constituições espanholas de 1812, 1814, 1834, 1837 e 1845: só na de 1856, como disse, é que aparece a designação «dominios de España» em vez da tradicional «las Españas».

Ou seja: até ao século XIX nunca existiu Espanha nenhuma - existiram, sim, vários reinos peninsulares que foram sendo anexados por Castela que, para efeito de centralização e ilusão de homogeneidade territorial, foi buscar a designação de Hispânia - o antigo nome que os romanos deram à península - para se auto-denominar. Desde o século XVI que existe documentação portuguesa (e não só) em que se levantam vozes contra esta suasória estratégia de 'marketing' político.

Felizmente, quando D. FIlipe V ascendeu ao trono castelhano nós já tínhamos feito a Restauração, defenestrando no Terreiro do Paço o castelhanófilo Miguel de Vasconcelos (em 1640), e vencido a Batalha dos Montes Claros, perto de Borba (em 1665), que solidificou em definitivo - até quando, logo se verá - a independência portuguesa. Por isso é precipitado e até errado dizer que D. Sebastião nos introduziu nas trevas espanholas.

Usar essa incorrecção para desculpabilizar - ou justificar - a destruição da sua estátua por um paspalho é apanágio de atraso mental misturado com má-fé. Na verdade, nem que fosse uma estátua de Miguel de Vasconcelos: a história faz-se com aqueles que a constroem, não com aqueles que a destroem.

Quebrada a estátua de D. Sebastião da estação ferroviária do Rossio

 
Ontem à noite, um energúmeno de vinte e quatro anos de idade destruiu totalmente a estátua de D. Sebastião, esculpida em 1887 por Simões de Almeida, que se encontrava na fachada da entrada fronteira da estação ferroviária do Rossio, em Lisboa. Dizem as agências de comunicação que a deitou ao chão quando tentou empoleirar-se na consola que sustentava a escultura para tirar uma selfie. Sinto-me chocado com este crime de lesa-património contra um dos ícones mais queridos e distintivos da cidade de Lisboa.

Pelas inefáveis caixas de comentários dos sites de Internet de diversos jornais que, entretanto, noticiaram o crime, já pode ler-se opiniões desculpantes que colocam sobre o acontecimento uma tónica digna de dó, argolada na suposta falta de segurança pública em que consistia uma estátua que caiu tão facilmente, ignorando que em quase cento e trinta anos de existência foi preciso esperar que um debilóide se guindasse na peanha em que a escultura assentava para que esta, de facto, caísse ao chão e se quebrasse em pedaços. Não duvido que se o paspalho se tivesse lembrado de trepar, por exemplo, pela estátua do Eusébio e a tivesse danificado de algum modo, por mais incipiente que fosse, as opiniões expressas nas caixas de comentários seriam bem diferentes; pois não me liberto da ideia de que neste abjecto período que atravessamos, em que a história é observada como sendo inútil e se faz diariamente a apoteose de outro tipo de expressões e (des)valores, como a promoção contínua da vapidez, da cupidez e da estupidez pelos vários veículos da comunicação social e pela indústria do entretenimento, se perdeu totalmente a vergonha e, pior!, a noção mais rudimentar do que é importante, salutar, vivífico. Para mim, que vivo constantemente de imaginário pajão na mão a tentar - às vezes, sem êxito, o que é angustiante - afastar da minha pessoa as tais vapidez, cupidez e estupidez, é cada vez mais difícil viver - conviver, então, é absolutamente penoso - num mundo que, por culpa de crimes deste tipo e por culpa da indulgência com que são observados e punidos, se torna inexoravelmente mais pequeno, mais homogéneo, mais irrelevante. Gostava que o pedaço de asno que destruiu a estátua tivesse uma punição exemplar - repito, uma punição exemplar -, mas, enfim, não criar expectativas em relação a nada tem-me servido bem, daí que farei o mesmo neste caso.

Quanto à escolha difícil das imagens aqui publicadas, a razão foi a seguinte: mostrar a escultura de D. Sebastião, tal como ela, até esta data, deveria ser para a maioria dos indivíduos - ou seja: uma coisa antiga, nebulosa, sem valor que por ali estava, sem sequer se dar por ela - e confrontar esse imago com os cacaréus em que foi transformada por um marginal mental. Em anexo, fica, para quem ainda reserva um pingo de indignação, a imagem que resta, também da autoria de Simões de Almeida, de um D. Sebastião, ainda infante, lendo Os Lusíadas, esculpida dez anos antes da estátua colocada na fachada da estação ferroviária do Rossio e que pode ser vista no Museu do Chiado.


quarta-feira, 27 de abril de 2016

Os veros "anormais" de Lisboa


O dia em que Carolina e Josefina visitaram o Mosteiro dos Jerónimos. Lembram-se delas? Encontraram-nas em Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense:
«Vamos visitar os volutabros imaginais de Lisboa.
Vamos ver que anormais ela excluiu para a cercania – para os arrabaldes dos anais. Não será tanto etnologia, como reologia, pois falamos de gente deformada que foi repassada e escoada pela memória da história, mas como observar essa memória e essa história? De acordo com os fundamentos da “história total”, propostos por Braudel e, antes dele, por Michelet?
É melhor confiar na diacronia.
É melhor assumir que, tal como astrónomos, estamos a olhar para luzes pré-históricas, emitidas por estrelas extintas.
(…)
Estrelas defuntas como as infelizes irmãs órfãs Carolina e Josefina, as Manas Perliquitetes, que, em meados do século XIX, depois de serem exploradas até à exaustão por um canalha desprezível que lhes deu a ridícula alcunha, tornaram-se injustamente no arquétipo da dondoca, antes de morrerem de fome na maior das misérias.
(…)
Vergonha, amargura, tristeza. Plangências profundas que envolvem os espíritos.
Que cidade é esta?
Esta não é a Lisboa que nos foi prometida à esplêndida portada, feita de jaspe.
Estas não são as personagens castiças do folclore que ela engendra para gazofilar turistas.
Há angústia autêntica aqui. Mensagens de sofrimento real, escrevinhadas no pó. Dor e raiva verdadeiros – espremendo corações nos peitos.»
(SOARES, David, “Terra Incógnita”, in SOARES, David (textos, voz); SANGNOIR, Charles (música), Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense, Seixal/Lisboa, Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet, 2012).

terça-feira, 26 de abril de 2016

Redescobrindo a Rua Nova dos Mercadores


No ano passado foi editado um excelente livro sobre a quinhentista Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa, intitulado The Global City. On the Streets of Renaissance Lisbon, editado por Annemarie J. Gschwend e Kate J. P. Lowe (Paul Holberton Publishing). Nesse actualizado e apurado volume pode ver-se, no capítulo "Reconstructing the Rua Nova: The Life of a Global Street in Renaissance Lisbon", de Annemarie J. Gschwend (pp. 101-119), diversas primorosas reconstruções digitais da Rua Nova, feitas por Laura Fernández-González e Harry Kirkham, das quais mostro aqui dois exemplos. Escolhi essas imagens, porque me deixaram emocionado: em primeiro lugar, por consistirem em perclaras janelas para o passado de Lisboa, cidade a cujo estudo tenho devotado tanto labor e amor; em segundo, porque são instantâneos perfeitos da cidade que imaginei quando escrevi os meus romances Lisboa Triunfante e O Evangelho do Enforcado. Baseei as minhas descrições da Rua Nova em iconografia e relatos de época, mas observar como estas recentes reconstruções digitais da Rua Nova se aproximam muitíssimo do que escrevi é comovedor. Assim, para recordação ou descoberta de leitores e amigos, deixo aqui umas transcrições dos meus romances, ilustradas pelas reconstruções digitais da Rua Nova.

«Apesar da abundância de gente que enchera a arena do Terreiro do Paço para ver o combate dos colossos, a Rua Nova dos Mercadores estava pejada de pessoas aquela hora. O mercado da hortaliça e da fruta, mais o do pão, enchiam-se de citadinos que queriam comprar o maior número possível de alimentos antes que os preços voltassem a subir; os novos-ricos saíam e entravam nas joalharias e das ourivesarias, ora para comprar, ora para penhorar. A vozearia de comerciantes e clientes ecoava pelas arcadas harmoniosas que serviam de lojas e sustinham os edifícios de três andares; nas paredes coloridas podia ver-se palavrões e caricaturas garatujadas a carvão e giz. A estrada de terra batida estava atulhada de detritos e emporcalhada pela água suja que as escravas despejavam para o chão, mas em nenhum lado o pivete era pior que na praça e no açougue – era impossível não passar pelas bancadas do peixe e da carne sem ficar sujo de sangue e escamas. Vendilhões ambulantes furavam caminho entre os indivíduos, incluindo os magríssimos mestiços do Norte de África que deambulavam com um pequeno forno de ferro à cabeça e assavam línguas de borrego por três reais e meio; traziam-nas dentro de um saco que levavam as costas, mas também cozinhavam a carne e o peixe que os clientes compravam no mercado. Quando o elefante invadiu a rua ninguém deu por ele até se ouvirem os gritos das primeiras pessoas a serem empurradas.»
(In SOARES, David, Lisboa Triunfante, Parede, Saída de Emergência, 2008, pp. 268-269.)

«Casas de pedra e madeira erguiam-se voltadas para o rio Tejo, tão tortas quanto as próprias elevações sobre as quais se equilibravam; em direcção à linha da água, a pouquíssima distância das muralhas coroadas de líquenes, as ruas estreitas tornavam-se exíguas e a imundície sedimentava-se em estratos graúdos que encapotavam o chão de terra batida. Algumas artérias de maiores dimensões, como a eritematosa Rua Nova, possuíam pavimentos; mesmo assim, se apresentassem uma cota mais elevada, os caminhos calcetados costumavam ser cobertos com areia para que as ferraduras das bestiúnculas não deslizassem nas lajes de pedra. O barulho era ininterrupto: sinos e chocalhos vascolejantes, guinchos das rodas de carroças e carretas, cerca de quarenta mil pessoas a conversar, a berrar e a rir. Baratas saltavam de frinchas. Cães bebiam os próprios reflexos em poças de água choca. Homens agarravam em copos de vinho.
(…)
'A alma é um mecanismo, sujeita aos fins para os quais foi criada', pensou Nuno, ao caminhar sozinho pelas ruas de Lisboa, pela primeira vez em cinco anos. 'Essa é uma verdade que deve ser levada muito a sério.' O Sol forte magoava-lhe a vista, mas que dor tão doce era essa. Como mel – e tão dourada quanto ele. 'Acho que… que vou passar na Rua Nova.'
Encontrou uma nova Rua Nova, pintada de tons quentes e cheia de casas soberbas, suportadas por arcadas que ainda luziam dos polimentos; o pavimento era o mesmo, contudo – sujo como o fundo de um barril. Observou os rostos dos indivíduos como se fossem criaturas de outro mundo: até eram, pois o mundo dele ruíra com a velha rua e com o regedor.
Aquela Lisboa e aquele tempo não lhe pertenciam.
Pôs-se de frente para o sitio onde ficava o seu armazém e descobriu que fora ocupado por uma nova casa. Passou por baixo do arco e olhou para cima: viu um pombo a dormitar em cima de um capitel; a sombra era fresca e o ar, recheado de ruídos cristalinos, cheirava a fruta fresca.
'Como é que posso voltar a ser um pintor?', pensou Nuno, pousando a mão num pilar e sentindo a pedra fria. 'Estive separado da minha mão durante cinco anos…' Olhou para o fundo da rua apinhada de gente. 'Como é que vou recuperar os jeitos dessa vida?'»
(In SOARES, David, O Evangelho do Enforcado, Parede, Saída de Emergência, 2010, pp. 74-75, 337.)




Em meditação



Born April 26, 121 AD, roman emperor Marcus Aurelius was a lover of philosophy of the stoic stirpe and penned (in koine greek) one of my favorite books, The Meditations (circa 175 AD). It's a title I regularly return to, specialy when my abhorrement for the present-time established set of attiudes hits red. (Regrettably, in Aurelius case, the apple did fall far from the tree: his son, Commodus, was a racketeer and a villain.)


segunda-feira, 25 de abril de 2016

Sobre a origem das tatuagens em Lisboa


Fracção integrante da imagética da cultura musical a que pertencem os diversificados universos sonoros que a revista LOUD! referencia são as tatuagens, plasmadas nas peles de artistas, fãs e jornalistas, produtores, editores e promotores, desde logótipos de bandas e reproduções de capas de discos, até desenhos de variadas estirpes que, uns desde os primórdios, outros de adopção mais recente, se tornaram universalmente identificáveis como incumbentes das estéticas e atitudes relacionadas, de maneira geral, com o Metal. Pese a frequência desanimadora de um punhado de lugares-comuns e ideias pré-fabricadas sobre as tatuagens que, ainda, teimam em criar ruído junto da opinião colectiva, é salutar observar-se que nas passadas décadas evoluiu muitíssimo o discurso antropofilosófico que sobre elas discorre, caminhando em consonância com a vulgarização das próprias tatuagens pelo grande público, consequência da sua popularidade entre as mais espectaculares estrelas de cinema e as do mundo do desporto. De mérito desigual, as lojas e as oficinas de tatuadores amadores e profissionais fixaram-se como parte indelével da contemporânea paisagem cosmopolita, assim como da versão açucarada da realidade que é encenada por dezenas de reality-shows, transmitidos pelos canais televisivos. Porém, a esta distância, impõe-se – ou, pelo menos, imponho eu, por gosto e inclinação pessoais – uma inquietação, que é a de especular sobre quais serão as origens das tatuagens nas nossas vistas urbanas portuguesas: a esse respeito, sou capaz de puxar o lustro aos umbrosos limiares históricos das tatuagens em Lisboa, um tema que, certamente, será tão aliciante quanto obscuro.

Os primeiros tatuadores de Lisboa, artistas anónimos que nasceram e morreram nos tempos anteriores ao grande terramoto de 1 de Novembro de 1755, foram viajantes castelhanos que se dedicaram ao ofício algo ingrato da “picadura” e que se fixaram na vizinhança da Ribeira Velha, ao Terreiro do Paço; para utilizar um pionés mais cirúrgico, é válido desvendar que montaram os seus ateliês ao ar livre no adro da quinhentista – e inexistente – Igreja da Nossa Senhora da Misericórdia: sumptuoso templo de contextura e recorte manuelinos, nessa altura somente secundarizado pelo Mosteiro dos Jerónimos e situado não muito longe do local onde, hoje, na Rua da Alfândega, se pode admirar o soberbo portal da fachada da Igreja da Conceição Velha. (Na verdade, esse trabalho compósito foi montado com porções, arquivoltas e tímpano do portal lateral da Igreja da Nossa Senhora da Misericórdia, destruída quase totalmente pelo magno terramoto.)

Aí, sentados no muro raso que circundava o adro da igreja, os “picadores”, munidos de agulhas com cabos de madeira e pigmentos feitos à base de pólvora moída, tatuaram os lisboetas de seiscentos e início de setecentos. Penduradas em cravos de galeota pregados nas frinchas da silharia da Igreja da Nossa Senhora da Misericórdia, encontrava-se em exposição o catálogo de tabuinhas decoradas, pelas quais os clientes escolhiam os desenhos que desejavam ver tatuados: cruzes ornamentais de diversificados feitios ocidentais e orientais, signos-saimões, rostos crísticos, alegorias religiosas, corações incendiados e motivos relacionados com a cultura do mar. Os aristocráticos adoptaram a prática – chique nesse tempo – de serem “picados” nas costas das mãos, entre as bases do dedo indicador e do polegar. Ontem, como hoje, não faltou quem se arrependesse posteriormente de desenhos escolhidos aleatoriamente ou de maneira apressada e esfregava-se furiosamente com sumo de limão a pele “picada” para tentar apagá-los – popular recurso mezinheiro de ineficácia quase completa.

Versáteis, os adros das igrejas fizeram de fórum, mercado, miradouro da vida diária e cemitério: o da Igreja da Nossa Senhora da Misericórdia parece ter sido especialmente predestinado às profissões ligadas à cromofilia, pois fora, desde o século XVI, o principal mercado lisboeta de venda de flores e, depois dos tatuadores o deixarem, em definitivo, acolheu os ambíguos passarinheiros alemães – que aproveitaram os cravos abandonados pelos tatuadores para pendurar as gaiolas, algumas com aves pintadas com pigmentos garridos para passarem por exóticas. Outro tipo de tatuagem, portanto, mas, até este momento, a vocação histórica dessa geografia mantém-se interrompida: o terramoto de 1755 foi o liquidante epitáfio das energias histológicas.

(Crónica publicada originalmente na revista LOUD!​ de Abril de 2015.)


sábado, 23 de abril de 2016

Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor


Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor ou dia do nascimento do dramaturgo inglês William Shakespeare - que, pese as teorias das conspirações pugnadas por indivíduos que, na maioria, não têm a mais ténue noção sobre o que é escrever, realmente existiu e foi o autor das famosas peças teatrais que lhe são justamente atribuídas.
Mas sobre a formulação da efeméride supracitada inicialmente, há um interessante erro de percepção; pois se a primeira parte do enunciado consiste em «Dia Mundial do Livro», porque não se redigiu deste modo a segunda?: «e dos Direitos do Escritor». É que autores há de vários tipos, mas só uma determinada estirpe desse conjunto escreve livros: os escritores. Infelizmente, não falta e não faltará quem seja tão escritor quanto uma cadeira se possa denominar ainda de árvore, mas isso são outros quinhentos.
Gostava de esclarecer que na minha relação com os livros não me considero um bibliófilo, porque, no meu livro de estilo, um bibliófilo é, sobretudo, um coleccionador que procura e adquire livros segundo exigências muito específicas: primeiras edições; encadernações de um ou outro feitio ou oficina exclusivos; somente edições diferentes do mesmo título ou apenas edições dos trabalhos de um único autor ou temática. Seja em que caso for, o labor do coleccionismo comporta-se como um percolador, que distingue particularismos restritos. A minha relação com os livros faz-se pela via do conteúdo: eu procuro o conhecimento; o que me interessa num livro não é o livro como objecto, mas a erudição. Assim, gostava de evocar aqui a ideia de que o Dia Mundial do Livro deverá ser de todos os livros, sem quaisquer tipos de cegueira ditados por decíduas modas, cartilhas de fátuos fazedores-de-opiniões ou constrangimentos mercantilistas - desde o livro de bolso ao incunábulo. E escolham com sabedoria, porque não há tempo para ler-se tudo.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Sobre gatos


Em movimentações semiaéreas, impressas em claudicantes carimbadas, os gatos suplantam o cingel gravítico, dardejando que nem intenções interrompidas; suspensos em translúcidos tótemes, sobreexpostos no mesmo pensamento – como meditações de prata numa placa de cobre, negativas e positivas em velocíssima alternância.
Quem modelou de que substância os vorazes sicários das selvas, oxidados em ferrugentas variegações de castanho e laranja e negro, que povoaram os pesadelos dos nossos pré-históricos precedentes? Quem afeiçoou de que espécie desses celerados aqueles pequenos e peludos duendes que, ronronando, nos escondem os sapatos e nos roubam os corações? Cães são lobos bebés, mas gatos não são leões infantis – são um segredo. Do mesmo modo que na mitologia Deus se tornou Cristo para descobrir o que significava ser-se um homem, os gatos são a forma que a cólera da Natureza encontrou para conciliar-se: de não sentir vergonha de ser dócil; para, em preciosos instantes, íntimos e nocturnais, ser capaz de dormir entre as presas.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Quarta sessão do segundo ciclo de Sustos às Sextas




Na próxima sexta-feira, dia 15, às 21H30, na sede da Fundação Marquês de Pombal, ocorrerá a quarta sessão deste segundo ciclo de Sustos às Sextas, evento devotado ao horror sobrenatural, nas suas diversas expressões. Do programa destaco a palestra Como Escrever Uma História de Terror em Dez Lições de António Monteiro e a inauguração da exposição de pranchas originais de banda desenhada sobre terror, comissariada por Geraldes Lino e Bruno Caetano. Divulguem e apareçam!

terça-feira, 29 de março de 2016

Triple review treat


Duas excelentes críticas a O Poema Morre (2015) e uma excelente crítica a Sepulturas dos Pais (2014), escritos por mim e desenhados por Sónia Oliveira e André Coelho, respectivamente (ambas edições da Kingpin Books). Podem lê-las nas seguintes ligações:
2) O Poema Morre (crítica de Artur Coelho): http://www.acalopsia.com/poema-morre-david-soares-sonia-oliveira/
3) Sepulturas dos Pais (crítica de Bruno Campos): http://www.acalopsia.com/sepulturas-dos-pais-david-soares-e-andre-coelho/


segunda-feira, 21 de março de 2016

Poesia tafófila de Edward Young e James Hervey


Este estuosíssimo Dia Mundial da Poesia parece ter sido criado ad hoc (ou seja, com o significado de em específico - e não com o de arbitrariamente, como, infelizmente, se costuma dizer) para que eu divulgue as minhas traduções das poesias tafófilas, pertencentes à chamada Graveyard School, que li na minha palestra, dada na passada sexta-feira, na Fundação Marquês de Pombal, no âmbito da programação da terceira sessão da segunda edição do ciclo de palestras sobre terror Sustos às Sextas. Assim, publico agora algumas das peças lidas e apresentadas nessa altura, assim como um dos excertos que não tive oportunidade de ler; em breve, seguir-se-ão os restantes.
Neste primeiro grupo seguem dois excertos da obra Night Thoughts (1742) do clérigo e poeta inglês Edward Young e dois excertos da obra Meditations Among the Tombs (1746) do clérigo e escritor inglês James Hervey.

«Morte!, grã proprietária de todos! É tua regalia
espezinhar os impérios e extinguir as estrelas.
O próprio sol, por tua permissão brilha;
hás de extirpá-lo de sua esfera, um dia.
Porquê, oberada com tal saque soberano,
disparar tantas flechas a um alvo humano?
Porquê os peculiares rancores contra mim?»

«O que é o próprio mundo?, o teu mundo? – Um túmulo.
Onde está, pois, um pó que nunca viveu?
A pá e o arado perturbam os nossos antepassados;
do mofo humano colhemos o pão de cada dia.»

«Céus! A cena infunde respeito!, como é severa a penumbra! Aqui é a perpétua escuridão; e é de noite, mesmo ao meio-dia. Tão pesarosa é esta solidão! Nem um vestígio de gaia comunhão, onde a tristeza e o terror parecem ter feito a sua temida morada. Ouçam!, como a cúpula oca ressoa a cada passo. Os ecos, tanto tempo adormecidos, são, agora, despertados; e, em suspiros, lamentam-se ao longo das paredes.
Um feixe ou dois de luz abrem caminho através das grades, reflectindo o brilho mais fraco dos pregos dos caixões. Muitos destes tristes espectáculos, meio escondidos pelas sombras, e só vagamente vistos entre o crepúsculo funesto, adicionam um horror profundo a este tipo de mansões lutuosas. Perscruto por entre as inscrições, que mal vislumbro, e descubro que são os restos mortais de gente rica e famosa. Nenhuns mortos vulgares estão aqui depositados. Os mais ilustres e de honrada ascendência reclamaram este espaço para seu último refúgio. E, de facto, eles conservam uma umbrosa pré-eminência: organizados em desanimada disposição, sob os arcos deste amplo sepulcro, repousam numa espécie de pompa silenciosa; enquanto os cadáveres mais humildes, sem cerimónias, descem até as pedras da cova.»

«A mortalha e o caixão são a derradeira fronteira de todos os desígnios terrenos. Neles, os filhos do prazer dirão o último adeus aos seus queridos deleites; nunca mais serão ungidos de perfumes, os sensualistas, nem coroados de botões de rosas. Jamais cantarão mais melodias ao violino, nem pandegarão novamente em festins de vinho. Em vez de terem mesas sumptuosas, com doçuras deleitosas, esses pobres voluptuários serão, eles mesmos, banquetes para engordar insectos: os répteis regozijarão com suas carnes e os vermes farão deles as suas delícias. Na mortalha e no caixão também fracassará a beleza – a beleza brilhante perderá o lustro. Oh!, como as suas rosas murcharão e os seus lírios definharão nesse solo sombrio! Veja-se como o grande nivelador derrama desprezo sobre aqueles que nos encantaram os corações; como transforma em deformidade aquilo que, antes, cativara o mundo.
Pudesse, então, o amante ter uma visão da sua adorada, outrora formosa – que inesperada surpresa o assaltaria! "Será que este é o ente que eu, não há muito tempo, admirava apaixonadamente? Eu costumava dizer que ela era divinamente bela e pensei que ela seria um pouco mais do que mortal. (...) Como é que isto, que apenas há algumas semanas era adorável aos sentidos, pode agora ser tão insuportavelmente repugnante? Onde estão as bochechas coradas? Os lábios coralinos – onde? Para onde foi o ebúrneo pescoço no qual a melena encaracolava em cachos reluzentes? (...) Assombrosa adulteração! Felicidade enganadora! Carinhosamente, andei eu maravilhado com este meteoro cintilante: ele brilhava e eu, pensando que para o bem, confundia-o com uma estrela. Que desgraçado sobejo, caído de uma esfera que não era à sua! Tudo o que posso entrever dele é esta massa pútrida."»

domingo, 20 de março de 2016

Vídeo da palestra «Morte e Ruína: As Raízes Tafófilas da Literatura Gótica»



Para ver ou rever, o registo em vídeo da minha palestra Morte e Ruína: As Raízes Tafófilas da Literatura Gótica, sobre a importância, nesse campo, da obra poética da chamada Graveyard School; e, também, uma reflexão final sobre uma nova etimologia da palavra "gótico". Palestra dada na passada sexta-feira, dia 18, na Fundação Marquês de Pombal, no âmbito da programação da terceira sessão do segundo ciclo de palestras sobre terror Sustos às Sextas.


domingo, 13 de março de 2016

Palestra minha na próxima sexta-feira no ciclo Sustos às Sextas


Plutão examina os livros dos quais lerei excertos na minha palestra Morte e Ruína: As Raízes Tafófilas da Literatura Gótica: próxima sexta-feira, dia 18, às 21H30, na Fundação Marquês de Pombal, no âmbito da terceira sessão do segundo ciclo de Sustos às Sextas. Divulguem e apareçam.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Palestra minha sobre literatura na próxima sessão de Sustos às Sextas


Fãs e amigos: informo que na próxima sexta-feira, dia 18, às 21H30, serei o convidado da terceira sessão do segundo ciclo de palestras sobre horror Sustos às Sextas (que decorrerá no Palácio dos Aciprestes, na Fundação Marquês de Pombal), na qual irei dar uma palestra heterodoxa, intitulada Morte e Ruína: As Raízes Tafófilas da Literatura Gótica.
Estão todos convidados: divulguem e apareçam. Os fantasmas agradecem e eu também.


domingo, 28 de fevereiro de 2016

A sabedoria das árvores


Por horas excepcionais tenho sentido no ar deste Fevereiro pálido, ainda hesitante entre uma Primavera matura e um Inverno senescente, a rescendência do cio das árvores, derriçadas pela temperatura: um eflúvio flexuoso, que bóia a custo no espaço castigador entre os copados e o chão. Sem cérebro, são as árvores mais sábias que nós – os pensantes –, pois, por mais palinologia que nos pule aos ombros, não compreendemos (quanto mais antevemos) os metamorfismos que nos vão demudando. Nada nos prepara para o fatal cair das folhas, nem para os nossos pouquíssimos reverdecimentos. Pode ser-se alérgico a esse estro dendrítico, abafadiço da garganta, e, no entanto, não se é alérgico à morte.


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Sobre a sobrevivência da Calçada Portuguesa em Lisboa



Extrair a chamada Calçada Portuguesa dos pavimentos públicos pedonais de Lisboa com base no argumento de que é legítimo fazê-lo porque ela não é tão antiga quanto se pensa, como se apregoa nos meios de comunicação, é, com efeito, errado, já que uma maior distância temporal que separe um determinado objecto histórico deste momento presente não confere nenhuma especial autoridade a esse objecto em relação a outros que sejam de lavra mais recente: sobretudo no que concerne à transformação do espaço urbano, ao longo das eras, pelos indivíduos que o foram habitando – tudo é histórico.

Por conseguinte, numa perspectiva histórica, a oitocentista calçada portuguesa, composta por mosaicos decorativos feitos de pedras calcárias pretas e brancas, é tão importante quanto o quinhentista Mosteiro dos Jerónimos: monumento cujo recorte inconfundível para todos os observadores locais e todos os visitantes estrangeiros deve, hoje, muito mais a profundos restauros oitocentistas do que ao seu desenho original – assim como a acarinhadíssima Torre de Belém, ainda mais totalmente reincorporada de elementos decorativos e estruturais oitocentistas que, para a maioria dos lisboetas e demais portugueses, são ainda vistos como sendo iniciais. Nestes casos, em que pouquíssimo resta de original – leia-se quinhentista – nas suas composições, também será legítimo removê-los – o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém – por consistirem em recriações recentes (e absolutamente contemporâneas dos primeiros assentamentos lisboetas de Calçada Portuguesa)?

Justificações de remoção de um objecto histórico baseadas na suposta autoridade ou não-autoridade concedidas pela calandragem do tempo são espúrias. Suspeito que o facto de, cada vez mais, existirem pouquíssimos calceteiros qualificados para fazer a conservação de um objecto tão ornamental e difícil de burilar como a Calçada Portuguesa torne muito caro o seu emprego; assim, imagino que cada vez que se rompa um rego na Calçada Portuguesa para remendar um cano, ou cada vez que tenha de desfazer-se o puzzle da Calçada Portuguesa para obras de natureza diversa, seja mais utilitário (vulgo, barato) substitui-la por prosaicos pavimentos lisos, de cimento branco.

Soluções rápidas e simples deste jaez quase nunca se relacionam com motivos mais nobres que o elementar economicismo: é este – e não outro – que subjaz à sanha sarcótica de querer remover a Calçada Portuguesa das ruas de Lisboa. Nesta óptica, o tal argumento de que não faz mal que a Calçada Portuguesa desapareça, porque ela não é assim tão antiga quanto isso ainda poderá servir para derrubar o Mosteiro dos Jerónimos ou a Torre de Belém quando os corifeus do economicismo aprenderem um pouco de história e ganharem a noção de que esses monumentos também são reconstruções oitocentistas, coevas das primeiras pavimentações de Calçada Portuguesa em Lisboa.

Onde se traça, afinal de contas, a linha temporal aceitável para que um objecto histórico tenha licença para continuar a existir? Aparentemente, nem objectos mais antigos escapam à cupidez e à estupidez: basta lembrar que a escadaria seiscentista do ducentista Mosteiro de Alcobaça foi quase totalmente coberta de cimento quando, há uns anos, se produziu a nova praça que lhe é dianteira.

A beleza da Calçada Portuguesa revela-se com deslumbrância quando é contemplada de cima, mas aí reside outro grande obstáculo à sua sobrevivência no período que, infelizmente, atravessamos: é que gente menor é incapaz de olhar seja o que for de um ponto de vista elevado.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

«O Poema Morre» na lista dos Melhores de 2015

O Poema Morre (Kingpin Books, 2015), escrito por mim e desenhado por Sónia Oliveira, foi escolhido pelo crítico Pedro Vieira de Moura como um dos melhores livros portugueses de banda desenhada editados em 2015 para a lista internacional de Melhores do Ano, publicada anualmente pelo crítico inglês Paul Gravett. Nesta ligação podem aceder directamente às escolhas de Moura.


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Inspector Literário


My literary inspector scrutinizing two new chapbooks I bought today - World Cat Day (in Europe, at least). Hard readers pet better.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Mesa-redonda e exposição de BD na Leituria

No próximo sábado, dia 6, às 17H30, decorrerá na livraria Leituria uma mesa-redonda subordinada ao tema Expansão e Desafios da BD Portuguesa, que contará com as presenças dos autores André Oliveira, Carlos Pedro, David Soares, Joana Afonso, Mário Freitas, Nuno Duarte, Osvaldo Medina e Sónia Oliveira (os autores, todos publicados pela Kingpin Books, estarão disponíveis para autografar os seus livros e pranchas originais). Este debate inaugurará uma exposição de pranchas originais de banda desenhada, dos diversos autores presentes, que estará patente na Leituria até ao dia 3 de Março. Divulguem e apareçam: obrigado.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Sustos às Sextas estão de regresso

A partir de 15 de Janeiro, o ciclo mensal de palestras sobre horror Sustos às Sextas está de volta à sede da Fundação Marquês de Pombal. Até Maio, o Palácio dos Aciprestes andará assombrado por tertúlias, contos e palestras, músicas, dramatizações e muitos espíritos inquietos. Confiram no programa abaixo e vejam o teaser horripilante realizado pela Thinkers, organizadora do evento, juntamente com o professor António Monteiro.




quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Sherlock castrado, não


Sabemos que o nível de atenção do público está atingindo o nádir quando a maioria das críticas publicadas pela Internet a «The Abominable Bride», novo episódio da intermitente série Sherlock (do canal inglês BBC One), possui como aglutinador a acusação de que o enredo foi demasiado confuso. A minha opinião é que não foi demasiado confuso, nem demasiado simplista: manteve um nível razoável de complexidade; mas o problema desta séria - que existe um problema com ela - não passa por graus de intrincacia, mas por uma abrupta e intensa vontade dos produtores em dar ao público aquilo que ele mais aprecia: telenovela.

A temporada mais recente (a terceira) é uma lúcida demonstração de como o investimento telenovelesco em relações informais (à falta de palavra melhor) entre personagens, quase sempre pautadas pelo humor, ainda por cima, deslocando para segundo plano (ou para terceiro plano) aquilo que foi o cerne da primeira e da segunda temporadas - o mistério policial - e que fez, com toda a justiça, a fama e a fortuna da série e dos seus actores principais, está a transformar Sherlock num produto que corre o risco de alienar todos os espectadores que, enfim, gostam verdadeiramente do conceito de Sherlock Holmes: ou seja, aqueles que querem, de facto, ver Sherlock e Watson a resolver mistérios complexos, de laivos exóticos, que é o apanágio do cânone, e se estão nas tintas para os ditos problemas de inteligência emocional ou da vida amorosa das personagens. Aliás, aquilo que torna fundamental a série produzida nos anos oitenta e noventa pelo canal inglês ITV Granada, interpretada por Jeremy Brett (ainda o Sherlock perfeito) e David Burke e Edward Hardwicke (ambos o Dr. Watson, com Hardwicke a compor, sem esforço, a caracterização definitiva), é a formalidade cúmplice entre os protagonistas - formalidade, essa, que serve de absoluta "fourth wall" para o público: quebrada essa fina barreira em Sherlock, a série está a banalizar-se vertiginosamente, com o titular Sherlock apenas a passear-se com um ar de "I-do-my-little-turn-on-the-catwalk" e a desgastar muito depressa uma imagem conquistada com grande credibilidade. Já se esperava isto, quando Watson, às tantas, lhe diz no segundo episódio da terceira temporada: "-You are not a puzzle solver; you never have been. You're a drama queen." É o Sherlock que o público quer ver, está tudo dito. Quem prefere outro estilo, que reveja os episódios com Jeremy Brett (eu revi-os todos para tirar o gosto a telenovela que a terceira temporada de Sherlock me deixou na boca, na altura em que foi transmitida, e recomendo).

E no que diz respeito à suposta inovação cénica de Sherlock, em cruzar no mesmo palco personagens de diferentes linhas narrativas ou de tempos afastados uns dos outros, vale a pena recordar (que esta coisa da memória anda, também, pela sarjeta) a saudosa série The Storyteller de Jim Henson que foi a primeira - e a única até agora, que eu tenha ideia - a fazer a mesma coisa e de um modo ainda mais hibridizado. Sherlock precisa urgentemente de recuperar a fortitude testicular que assinalou as duas primeiras temporadas.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Palestra na Escola Superior Artística do Porto-Guimarães


No próximo sábado, dia 9, das 10H00 às 13H00, estarei na Escola Superior Artística do Porto-Guimarães para dar uma palestra sobre a minha obra literária e de banda desenhada aos alunos de mestrado de BD e Ilustração, no âmbito da disciplina de História dos Sistemas Icónico-Verbais, do Professor Doutor João Miguel Lameiras (a quem devo o amável convite).

(Imagem: vinheta de O Poema Morre, livro de banda desenhada escrito por mim e desenhado por Sónia Oliveira. Kingpin Books, 2015.)


sábado, 2 de janeiro de 2016

'Best of' de 2015 de artigos no Cadernos de Daath


Segue um best of composto por alguns dos artigos mais populares que publiquei durante o ano passado no blogue Cadernos de Daath. Agrupei-os em sete temas, por ordem cronológica: Obra (sobre os meus livros), Cultura, Actualidade, Literatura, Cinema, História e Teorias das Conspirações. Convido-vos, pois, à releitura ou à descoberta de algumas das minhas inquietações, realizações e predilecções de 2015.






- Cultura: 



 - Actualidade: 



 

- Literatura:

O Vício da Gravidade.


- Cinema:







Best of "instagramático"


Last year's fan favorites.
Já me seguem no Instagram? Estou nesta ligação: http://instagram.com/david.luis.soares

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Duas recomendações históricas para Janeiro


No final deste mês serão editados dois livros de história que aguardo com entusiasmo: Final Solution: The Fate of the Jews 1933-1949 de David Cesarani (falecido no passado mês de Outubro) e The Holy Roman Empire: A Thousand Years of Europe's History de Peter H. Wilson.

O primeiro consiste numa observação sobre a Solução Final Para a Questão Judaica, segundo a perspectiva "funcionalista", por oposição à "intencionalista" (eu considero a perspectiva "intencionalista" muitíssimo mais realista; no limite, consideraria igualmente credível uma perspectiva "mista", mas de pendor "intencionalista"), e aparenta ser um dos títulos mais robustos escritos sob esse ponto de vista. Vale a pena lembrar que foi Cesarani que compôs outro retrato de Adolf Eichmann, descrevendo-o num novo estudo como sendo um doutrinado agente anti-semita, totalmente comprometido com a ideologia nacional-socialista, do que cifrar-se apenas como o calculista e ambicioso burocrata sem ideologia descrito por Hanna Arendt.

O segundo é um vasto volume que escalpeliza o longo e convoluto período do Sacro Império Romano-Germânico, desde Carlos Magno até Napoleão, ao mesmo tempo que examina os efeitos dessa entidade política no desenho do mundo contemporâneo.


quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Entrada de peso no Ano Novo

Para começar 2016 em peso, a revista LOUD! apresenta-se com o (já) mítico Abbath na capa e em entrevista. Além disso, há, evidentemente, o Balanço de 2015, com os melhores discos nacionais e internacionais escolhidos pelos colaboradores da revista (incluindo este vosso amigo); sempre uma excelente oportunidade para recordar ou descobrir discos que poderão ter escapado à atenção. Acrescento que este número traz a minha crónica bimestral, Consultor Funerário, desta vez sobre o fenómeno das chuvas de sangue -- em Portugal. Vão rápido que a esta hora ainda apanham um quiosque aberto, vão.



terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Novidades para 2016


Novidades para 2016 - no próximo ano, a Kingpin Books reeditará dois livros meus: O Pequeno Deus Cego (2011), escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa, e o meu clássico A Última Grande Sala de Cinema (imagem em anexo), escrito e desenhado por mim e publicado originalmente em Janeiro de 2003. Este título, em especial, será uma surpresa para os fãs, pois consiste no último livro que desenhei e muitos leitores que me começaram a ler depois da data da sua edição não fazem ideia de que desenhei a maioria dos meus primeiros livros de banda desenhada. Assim, a Última Grande Sala de CInema irá abrir para mais uma sessão.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O Humano no Fantástico


Várias vezes defendi a adaptação cinematográfica do livro The Hobbit, de J. R. R. Tolkien, realizada em três filmes pelo cineasta neozelandês Peter Jackson, e ao ver a versão "estendida" de The Battle of the Five Armies (escrevi "estendida" entre aspas, porque as versões alargadas, editadas em DVD, são, na verdade, as originais, que serviram de matriz às mais curtas, exibidas nos cinemas) compreendo que estes filmes não poderiam, de facto, ter sido feitos de outra forma, pois compõem uma sequência perfeita que completa, em estilo, tonalidade e lógica narrativa, a trilogia anterior (The Lord of the Rings). Deste ponto de vista, penso que os problemas de percepção que The Hobbit cultivou, desde a estreia da sua primeira parte, relacionam-se com uma certa deslocação de expectativas: sob o espectáculo deslumbrante dos superlativos efeitos especiais (à la Ray Harryhausen do século XXI), existem apontamentos e ideias de uma fina subtileza que são continuamente interpretados de maneira oblíqua por um público cuja definição de "fantástico" presente na sua constelação cultural é paupérrima. Essa palavra ("fantástico") é dinâmica, evidentemente: tem-se transfigurado no desenrolar das décadas, assim como outros conceitos mais estruturantes (o princípio setecentista de "mal" difere em quase tudo da sua acepção contemporânea, assim como o modo como se vivia a morte no início do século XX é dissemelhante daquele que caldeia o início deste).

No fundo, prefiro designar o imaginário tolkiano por "mitologia fundacional", posto que aquilo que a maioria do público entende por "fantástico" somente se relaciona com ele por via de algum mimetismo estético: essa pseudoliteratura feita por colagens sincréticas e apressadas dos arquétipos tolkianos, pontuada por uma intrínseca imaturidade, que em nada tem contribuído para a credibilização dos universos da imaginação junto de um público e de uma crítica mais sofisticados. Com efeito, o dito "fantástico" é incomensuravelmente maior que o nicho criado por Tolkien e seus imitadores, mas é, precisamente, esse nicho que chega mais vezes e mais depressa ao grande público - ora, talvez seja atempado e útil remir Tolkien desse nicho, com o qual ele apenas se aparenta superficialmente. Talvez seja atempado e útil deixar de ler Tolkien à luz de alguns anacronismos e preconceitos que têm obstaculizado a sua interpretação e cotejá-lo com os textos das cosmogonias das sociedades pré-clássicas, por exemplo, com os quais, em bom rigor, patenteia muita paridade. Existe um lirismo em Tolkien que nada tem a ver com o receituário patético que a sua obra, infelizmente, criou, mas que se une, profundamente, aos grandes mitos fundacionais.

Para além disso, sob as vestes diáfanas da fantasia, Tolkien cria retratos autênticos da natureza humana. A esse título, observe-se o cenário plasmado em The Hobbit: um tirano ocupa ilegalmente um território rico em recursos, expulsando os seus habitantes que, anos mais tarde, intentam recuperar essa terra prometida; uma vez eliminado esse tirano, assiste-se a uma vera pulverização de poderes, com diversos grupos locais, cada qual à sua maneira e com diferentes motivos, tentando agarrar o controlo desse território. Em paralelo, nas fímbrias do palco, um novo candidato a tirano arrebanha radicais tropas de elite que, sob bandeiras negras, só tem como objectivo a hegemonia global sobre todos os restantes grupos que, note-se, parecem mais interessados em digladiar-se por miríficas riquezas do que em unir-se para combater a ameaça comum.

Sim, Tolkien não tem, de maneira nenhuma, nada a ver com a realidade e a experiência humanas.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Grandes livros de 2015


Este ano, reformulei a lógica de recomendações literárias de final de ano: em vez de escolher os "melhores" livros de 2015, escolhi os livros que, independentemente de serem os melhores do ano ou não -- sempre um critério subjectivo e não-livre de influências conjunturais --, me despertaram mais a atenção, pela sua originalidade e pertinência editorial; além disso -- e, neste aspecto, foi, de facto, uma orientação rigorosa --, somente escolhi livros escritos ou traduzidos em português (todos, claro, de não-ficção). No final de 2016, o(s) critério(s) será (serão) outro(s), certamente, mas este ano o resultado é o seguinte (sem qualquer ordem de preferência):

1) Animais e Companhia na História de Portugal (coord. Isabel Drumond Braga e Paulo Drumond Braga). Círculo de Leitores -- um livro espectacular que, de modo completíssimo, examina o papel e a presença dos animais, em múltiplos campos, ao longo da história de Portugal. Um volume essencial para o historiador e para quem gosta de animais.

2) Casas das Elites de Lisboa: Objectos, interiores e vivências - 1750-1830, de Carlos Franco. Scribe, Produções Culturais, Lda. -- análise profunda de uma vinheta temporal e social, partindo do estudo das vivências das elites lisboetas para chegar a uma tessitura mais densa, inserida no contexto nacional.

3) Casas com Escritos: Uma História da Habitação em Lisboa, de Margarida Acciaiuoli. Editorial Bizâncio -- em conjunto com a leitura do livro citado anteriormente, o panorama apresentado por esta obra ganha ainda mais fôlego. De facto, os estudos da vida quotidiana lisboeta, de meados do século XVIII até à actualidade, em principal nesta perspectiva direccionada para o espaço habitacional, ficam supinamente enriquecidos com estas edições de 2015.

4) História Política da Cultura Escrita, de Diogo Ramada Curto. Verbo -- excelente conjunto de ensaios e reflexões sobre o modo como a produção intelectual foi sendo instrumentalizada -- e influenciada -- pelo(s) poder(es) político(s) ou pelos poderes que, às tantas, também fizeram (e fazem) política.

5) Uma História da Curiosidade, de Alberto Manguel. Tinta-da-China -- ensaio sobre a curiosidade é uma definição redutora para este livro delicioso que, como podem ver pela fotografia que ilustra este texto, é o preferido do meu gato -- por sinal, bastante curioso.

6) História do Corpo (dir. Jean-Jacques Courtine, Alain Corbin, Georges Vigarello). Círculo de Leitores -- obra em seis volumes, na qual o corpo humano e suas representações e objectificações ao longo das eras são estudados com apuro numa abordagem interdisciplinar.

7) Racismos: Das Cruzadas ao Século XX, de Francisco Bethencourt. Temas e Debates -- já falei sobre a edição original deste livro (em inglês) na minha lista de fim de ano de 2014 e é essa a edição que podem ver na imagem; todavia, este ano foi dada à estampa a versão portuguesa deste ensaio sobre o racismo e não posso deixar de mencioná-la, pois é um trabalho destemido e inestimável.

Boas Festas -- leiam bons livros e, sobretudo, pensem sobre o que leram e entreteçam relações entre matérias, à partida, díspares, pois a variedade deleita o pensamento.
David Soares, Dezembro 2015.


domingo, 20 de dezembro de 2015

David Soares - tertúlia literária na Faculdade de Letras de Lisboa



Vídeo da tertúlia literária sobre a minha obra, com moderação de José Duarte (investigador do Núcleo de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa), no âmbito da primeira edição do Festival de Ficção Científica e Fantasia - The Padawan Wars (4 de Dezembro de 2015).

sábado, 19 de dezembro de 2015

Nova temporada do ciclo de palestras Sustos às Sextas


Daqui a menos de um mês, no Palácio dos Aciprestes, sede da Fundação Marquês de Pombal, terá início a nova temporada do ciclo de palestras Sustos às Sextas, organizado por António Monteiro, João Castanheira e Sandra Araújo. O programa desta segunda temporada, como poderão comprovar, é tão eclético quanto o da primeira. Eu lá estarei, no dia 18 de Março, para participar com uma palestra bastante heterodoxa e iconoclasta. Comecem já a estruturar as vossas agendas em órbita deste evento e, claro, divulguem: obrigado.

Entretanto, vale a pena recordar a palestra que dei no evento do ano passado: À Mercê da Medicina: Farmacologia Canibal Europeia e Portuguesa na Prática e na Cultura. O vídeo que se segue é, somente, um excerto dessa palestra, que teve cerca de duas horas de duração.




terça-feira, 8 de dezembro de 2015

«O Fantástico e o Real» nas Conversas Imaginárias 2015


Informo os fãs e amigos que irei estar na Fyodor Books no próximo sábado, dia 12, às 16H45, para uma tertúlia literária subordinada ao tema «O Fantástico e o Real»: conversa, essa, que contará ainda com o insigne cineasta e escritor António de Macedo como meu companheiro de mesa. A tertúlia insere-se no programa do evento Conversas Imaginárias 2015, organizado por Rogério Ribeiro e João Campos: um elenco de temas e palestras em órbita da literatura dita fantástica e análogos universos diegéticos. Apareçam, porque quando eu e o António nos juntamos o resultado é sempre espectacular -- quem já assistiu a eventos anteriores sabe que é verdade. Daí que agradeço a vossa presença e a divulgação: toca a partilhar.

domingo, 6 de dezembro de 2015

«Sepulturas dos Pais» premiado na Comic Con Portugal 2015



Para os fãs e amigos que não puderam comparecer ontem na segunda edição da Comic Con Portugal, fica a ligação para o vídeo da cerimónia de entrega do prémio de "Excelência na Escrita de BD" pelo livro Sepulturas dos Pais (Kingpin Books, 2014), escrito por mim e desenhado por André Coelho.


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

«Sepulturas dos Pais» premiado com Galardão BD Comic Con 2015


Informo os meus fãs e amigos que ganhei o Galardão Comic Con 2015 na categoria de Excelência na Escrita de BD, com o livro «Sepulturas dos Pais (Kingpin Books 2014), escrito por mim e desenhado por André Coelho.
A cerimónia de entrega de prémios terá lugar durante a Comic Con Portugal 2015, no próximo sábado, dia 5, às 16H00. Parabéns aos vencedores das outras categorias (podem consultar a lista nesta ligação: http://www.comic-con-portugal.com/…/conhecidos-os-vencedore…).